Domingo 26 de Abril de 2009 


Luanda Marginal (foto Net)

Luanda preserva e reabilita o seu centro histórico

Património. Aposta das autoridades angolanas é clara: recuperação de estruturas e construção de outras. A par da renovação das zonas verdes

DAVID BORGES

Ainda há uma Luanda em que se pode imaginar Baltazar Van Dum a descer, pelas páginas de um livro de Pepetela (A Gloriosa Família).o morro do que é hoje a cidade alta. Imaginá-lo a passar pela Calçada dos Enforcados, em direcção aos Coqueiros, para beber um copo na bodega do Pinheiro e talvez olhar a ilha, hoje a ilha de Luanda, ou a ilha do Cabo, ou, ainda, a ilha da Kianda (sereia), aonde se ia (e vai) comprar umas garoupas e onde, antigamente, se via os axíluanda, os habitantes, a tomar banho no mar e a apanhar o zimbo, a pequena concha que era a principal moeda do reino do Congo.

Tempo antigo esse, em que o Kinaxixi era ainda mato e onde era frequente aparecerem leões e onças,"para beberem água na lagoa e caçarem os antílopes que iam lá", por lá se passando em desassossego "e não só por causa dos leões, mas porque havia também espíritos seculares em cima das árvores e porque nas águas corriam imprevisíveis kíandas"...

Menos antiga e com vestígios mais presentes, ainda temos a Luanda de Ernesto Lara, frequentador frequente da Biker adorador da terra, escrevendo sobre "o sorriso e o requebro das mulatos de olhos cor de denden e também sobre o pescador e as quitetas da lha, o habitante da Samba e o chefe da repartição, o Largo do Pelourinho, a Travessa da Sé, a bancada dos coqueiros, essa Luanda que ele dizia ser a única cidade do mundo que lhe tinha conseguido dar "oito dias seguidos de moambada, entre amigos e cervejas..."

O tempo foi derrubando partes dessa Luanda antiga e desarrumando zonas dessa velha ilha transformada em península, e as fortíssimas e modernas pressões humana e de construção foram colocando (e colocam) em risco o que sobreviveu.

Parece agora, erguer-se a preocupação pela salvaguarda do que resta, e não é pouco, do património histórico e cultural dessas e de outras Luandas.


Ilha de Luanda (foto Net)

Quanto à ilha de Luanda, começa desde já a construir-se o seu futuro, de acordo com um projecto de reabilitação que, para já, começou a transferir para outras zonas dá cidade mil famílias amontoadas em Benfica um bairro degradado e com graves problemas sociais.

Depois, e por um prazo de dois anos ,haverá uma intervenção profunda naqueles sete quilómetros que nos conduzem da Fortaleza até ao Ponto Final, com alargamento das vias rodoviárias, com divisão central, criação de zonas de estacionamento, recuperação de praias e passeios, instalação de diverso equipamento urbano, recuperação de estruturas e construção de outras, renovação das zonas verdes.»

434 anos

Luanda foi fundada em 1575 pelo português Paulo Dias de Novais

Novo BI mantém referência à cor da pele

Angola. Deixa de haver referência a cidadãos 'vip' e a expressão "não sabe assinar", visando os analfabetos, com o objectivo de reflectir a condição igual de todos os cidadãos do país.

Ainda este ano passarão a ser emitidos os novos bilhetes de identidade angolanos. O novo cartão, com dimensão próxima do clássico cartão de crédito e avançado sistema de leitura óptica, vai coexistir até se completar a renovação dos antigos, com os dois modelos em uso, e pode vir a constituir um documento único de identificação, já que a banda óptica, que regista detalhes do indivíduo, tem, também, capacidade para vir a integrar elementos relativos à habilitação do cidadão para conduzir e, ainda, a sua identificação nos domínios da segurança social e de eleitor. A ministra da Justiça, Guilhermina Prata, explicou este novo avanço com a necessidade de responder a problemas que decorrem da longa guerra angolana durante a qual foram destruídos arquivos, deixando muitos angolanos sem qualquer elemento de identificação.

Da face do novo cartão desaparecem todos os elementos de diferenciação, passando para a banda óptica as informações relacionadas com altura; naturalidade, profissão e cor. Deixam, também, de existir a referência a cidadãos 'vip', pretendendo-se que o novo cartão reflicta a condição igual de todos os angolanos, e a expressão "não sabe assinar" para os cidadãos analfabetos.

A parte mais controversa do sistema de identificação - relacionada com a referência explicita à cor do cidadão e que tem produzido alguma discussão - fica mais resguardada, sem referência visível no cartão e referida, apenas, na banda de leitura óptica.» D.B.