11 de Abril de 2006

Angola tem feitiço e Portugal perdeu o enguiço…

 

À Esquina da Memória

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João Coito

«Portugal regressou a Angola, que é da nossa família há 500 anos. Parecem cicatrizadas as feridas que alguns nos fizeram sofrer. Os portugueses novos, nascidos nas últimas décadas do século XX, ficaram deslumbrados perante as maravilhas que o Criador ali plantou. Os mais antigos recordam poemas e quadros de Neves e Sousa e Tomaz Vieira da Cruz, e dão largas aos sonhos e à saudade. E prometem voltar...»


José Sócrates e Fernando Dias dos Santos (foto Público)

Eu vi-a na televisão. Lá está, com seu colar de palmeiras, a baía de Luanda. Sem par à face da Terra. Sem veleiros a brincar na placidez. A mesma água parada, a espelhar a beleza em redor. Eu vi-a, ao longe, por de trás de um enxame de pernas brancas que corriam devagar na calçada em redor. Eram portugueses novos, que nunca antes a tinham mirado, nem sentido aquele bafo húmido onde se casam os odores do café com o do óleo de palma e as cores das acácias com a das buganvílias. Por ali passaram gerações e gerações de compatriotas nossos que foram terra adentro e por lá viveram e morreram. Há milhares de milhares de campas onde repousam seus ossos, guardados por capim alto, à espera do Juízo final.

Lá ficou, bem perto de um embondeiro, de braços abertos e nus, em jeito de oração permanente e de sentinela constante, uma irmã do meu Amor. Foi a imagem daquela baía única que os meus olhos para sempre fixaram ao entardecer, mesmo à hora em que o Sol, um Sol grande e rubro, mergulha no oceano para ir incendiar os morros de outra terra grande, no outro lado do mar, que também já foi nossa. A noite cai de repente. Não há crepúsculo para nos fazer sofrer. Acendiam-se luzes, muitas luzes ao longo de toda a Avenida Paulo Dias de Novais, que se prolonga até ao largo donde irrompe, quase a arranhar as estrelas do céu nocturno, o Hotel Presidente, morada dos viajantes ilustres que, em corrupio, ao cheiro do petróleo ou de olhos deslumbrados pelas faíscas dos diamantes, e pelas promessas de negócios mil, todos os dias, ao que dizem, desembarcam na Luanda nova. Quando quero reviver essas imagens antigas, ponho-me a folhear, pausadamente, as páginas de «Memórias de Luanda» que um dia o Dr. João Loureiro me ofereceu, ou então releio o rosário de saudades que o poeta-pintor Neves e Sousa me deixou, antes de partir de S. Salvador para o céu. Venho mil vezes lembrar os sonhos perdidos nestes dois breviários silenciosos.

Delicio-me — a saudade produz dores que apetecem — com os versos do poeta-pintor que um dia, «por circunstâncias alheias à sua vontade» se viu separado da sua Angola, indo procurar no exílio «um clima parecido para cultivar a sua saudade». «Então, Angola passou a ser uma coisa íntima e secreta como uma doença. E, como já não vivo nela, afinal vive ela em mim!» Neves e Sousa foi morar para a outra margem do mar, na Baía de Todos os Santos, bem perto daquela mangueira cujas raízes envolvem os restos mortais do grande lavrador da língua nossa, o génio de Jorge Amado. E foi lá que se pôs a pintar, a poeta e a sofrer, sempre saudoso da sua Angola: —

«Os socialistas, conto é natural, andam muito eufóricos. Ouviram, em Luanda, saudações e promessas de desvanecer»

«É ela que ensina às mulatas / esse andar de perdição / esse olhar de brasa viva / e esse jeito de encantar / que nos leva o coração... / Para quebrar esse feitiço / só indo ver a Sant'Ana / — (e eu fui) que está morando em Caxito / Só Ela com seu poder pode atalhar esse enguiço!» E muitas vezes, os olhos de Neves e Sousa voavam sobre o mar e iam até ao pátio daquela casa onde «havia um pintor que pintava / quadros com tintas morenas / das pequenas que sentavam / à sombra das buganvílias / por entre os muros caindo / daquela casa maluca / aonde morava o poeta / Tomaz Vieira da Cruz».

A última vez que vi a baía de Luanda foi no Carnaval, poucos dias antes do dia que destroçou a nossa História. Revejo ainda a alegria dos corpos morenos dançando a rebita, «moda que com singular harmonia combina a graça mundana da valsa e o ritmo selvagem dos batuques», como escreveu Agualusa na sua «Nação Crioula» ... Ainda me custa a acreditar no que aconteceu. Dizem-me que agora, por essa avenida então tão feliz, passam nuvens de crianças e idosos, mendigando sem cessar... Houve uns homens, uns vestindo de capitães, outro com a farda branca e gloriosa dos almirantes de antanho, que romperam um sonho que durava há séculos e obrigaram os portugueses, muitos deles nascidos em Angola, a exilar-se para o velho solar da Pátria que nos ficou. Centenas de milhares morreram, talvez amaldiçoando a língua com que sabiam rezar. Quiseram impor outros caminhos, que, ao longo dos anos, ficaram juncados de cadáveres. Foram tempos tristes, para não esquecer mais. Sofria-se à beira do Tejo, morria-se nas margens do Cuanza. Mesmo os meninos, à volta das fogueiras...

Até que o Sol, um outro Sol, parece brilhar. O Primeiro-Ministro, de lenço branco a enrodilhar-lhe o pescoço, agradeceu, do coração, aos poucos portugueses que tiveram a coragem de ficar e de não dar ouvidos às ameaças veladas de um tal «almirante vermelho». Foi a primeira vez que tal voz ousada se ouviu. E disse mais o Primeiro-Ministro. Disse que eram dignos da gratidão do País que restou esses heróis que ficaram e que amaram e são amados nesse grande cadinho angolano de cores, odores, saudades e preces. Portugal deve esta hora de verdade a um Primeiro-Ministro que se diz socialista desde sempre, embora já tenhamos ouvido a seu Pai (creio que é a primeira vez desta era, em que temos, com pais vivos, um Presidente em Belém e outro em São Bento. Talvez se imponha a criação de uma Ordem nova para galardoar, ainda em vida, tão ilustres progenitores!), que, nos seus primeiros tempos, fora um social-democrata verdadeiramente «bemesteiniano»!...

Pelo que ficou escrito e pelo incontido impulso que me obrigou a tal escrever, alegro-me por ter ainda visto o dia em que a razão e o coração se enlaçaram num abraço que nenhuma arma ou traição conseguem desfazer. Desta feita parece que aconteceu: — Portugal e Angola, livres, dialogando na mesma língua, confiantes no mesmo destino e no mesmo Deus...