27 de Maio de 1977

Não conheço o livro de Orlando Ferraz "Angola: Depois da Tempestade a Bonança" nem tinha lido o texto. Trata-se de um excelente trabalho, notando-se a preocupação do autor de enquadrar os factos na realidade política da época, a sua motivação e origens.


Cemitério e Vala comum (fotos Revista Expresso 25/01/1992)


Nito Alves e Sita Valles com o filho (fotos Revista Expresso 25/01/1992)

Penso é que o número de vítimas e outras tantas informações quantitativas são apenas estimativas sem qualquer base que o fundamente.

Tal foi a impunidade dos actos a desorganização e anarquia que julgo ninguém poder saber, de facto, quantas pessoas foram presas, torturadas ou mortas. 

O poder para tomar essas decisões foi sendo alargado de tal forma e sem controlo, que nem os mandantes saberão. Não podemos esquecer (infelizmente acontece com frequência) que a chacina não aconteceu só em Luanda, nem as vítimas foram somente pessoas conhecidas, pelo cargo que ocupavam no MPLA Ministérios ou nas FAPLA.

Esses foram apenas os casos mais mediáticos. Em todas as capitais de Província foi praticada nas formas mais vis e variadas a mesma bestialidade com maior ou menor incidência, abrangendo pessoas importantes, mas também gente anónima, soldados e cidadãos comuns, sem nenhum  relevo nas hierarquias que comandavam o País. Locais houve, onde nem sequer existiu processo, nem sentença ou pelotão de fuzilamento, apenas um tiro na nuca disparado por um qualquer oficial subalterno da DISA.

Podemos sempre afirmar que Nito Alves vencedor, teria inevitavelmente comandado uma perseguição violenta e justiceira aos seus antigos camaradas, transformados em inimigos de estimação. Seria  provável que a purificação ideológica que pretendia, resultasse num ajuste de contas com consequências semelhantes às que existiram. É certo que a cúpula Nitista aproveitou a ingenuidade e voluntarismo de centenas de jovens, que sem perceber bem como, se viram envolvidos numa tentativa de golpe de estado usando a força das armas.

A maioria não tinha  qualquer tipo de informação sobre esta possibilidade. Se tudo isso é, ou podia ser verdade, o resultado da repressão ultrapassou largamente o limite do racional, mesmo considerando a realidade africana e a forma insensata e perigosa como Nito e os seus mais directos colaboradores se comportaram. Cometeram sem dúvida, erros graves de avaliação que foram decisivos no desenlace final.


"Nitistas" Amadeu Neves e Luis dos Passos (fotos Revista Expresso 25/01/1992)

   - Nito Alves não escondia, pelo contrário ostentava com agressividade, discordâncias da orientação do MPLA se coibindo de atacar com violência verbal inusitada, companheiros de muitos anos, considerados pedras fundamentais no aparelho do movimento, detentores de cargos de relevo no Governo e nas organizações de defesa e segurança. Esse procedimento provocou nos visados como que uma aliança estratégica contra ele e o seu grupo. Nestas condições e tendo em conta a personalidade de Agostinho Neto, não mais seria possível a resolução da querela de forma indolor.

   - No dia 27 de Maio, Nito Alves já tinha sido afastado do MPLA e do cargo de ministro, não possuindo portanto poder efectivo, a não ser o que a sua influência e conhecimentos permitiam.

   - Não conseguiu  juntar à sua causa nenhum dos homens que podiam jogar um papel fundamental no desfecho da contenda, o ministro da defesa, o chefe de Estado Maior das FAPLA director da DISA ou o comandante do Regimento Presidencial.

   - Não previu a intervenção cubana, partindo do princípio que como tinha apoio político da URSS cubanos seguiriam o seu exemplo, ou no mínimo aguardariam na expectativa e não tomariam partido. Talvez nunca tenha chegado a saber que os tanques operados pelos soldados de Fidel, que tanta importância psicológica tiveram na derrota dos revoltosos, estavam completamente desarmados, nenhum tinha munições.


Dois dos presumíveis "executores" Onambwe e Mendes Carvalho (fotos Revista Expresso 25/01/1992)

Tivessem sido outras as circunstâncias, outros seriam certamente os resultados, mas o final estava destinado a uma inevitável  tragédia, independentemente de quem fosse o vencedor.

A questão que hoje se coloca, é a mesma de há vinte anos atrás, apurar tanto quanto possível a verdade dos factos, e responsabilizar quem cometeu crimes graves, mesmo que isso afecte alguns que se consideram vítimas. É preciso que os sobreviventes falem e acusem quem como e quando porque são eles as únicas pessoas que podem dar início consistente e juridicamente válido a um movimento que terá então muitos apoios.

Todos sabemos o quão penoso é transportar tal carga nesse caminho tortuoso longo e difícil, mas a alternativa é o silêncio e a consequente encenação continuada do esquecimento. Se for essa a vontade dos que ainda hoje viajam na insónia atormentada do terror sofrido e dos que sem perceber porquê viram desaparecer os seus familiares, então que assim seja, os carrascos agradecerão e as consciências pesadas terão o descanso que desejam há muito.


Mais dois "repressores" Manuel Pacavira (ministro da agricultura)
e Ludy Kissassunda (director da DISA) fotos Net.

Não é previsível que o MPLA se confesse e queira apurar a verdade possível, passados mais de vinte e oito anos, pois considera o assunto encerrado. As "próximas" eleições terão como vencedor José Eduardo dos Santos ou um seu indigitado, a não ser que até lá se modifique radicalmente o xadrez político angolano, o que parece pouco provável. Nesta conjuntura que ninguém espere revelações importantes ou esclarecimentos profícuos. A história do 27 de Maio de 1977 continuará como até aqui guardada no baú das recordações incómodas à espera que o tempo faça o seu trabalho, enquanto muitos vão mastigando os pensamentos.

Há quem defenda ser preferível não desenterrar o passado tenebroso, mas essa é uma decisão que só às vítimas cabe tomar, nunca aos seus algozes.

28/12/2005

Nando