Patricia MCGowan
http://www.letralivre.com/

Página 213 - Como respondeu o bando Os dirigentes da FPLN, naturalmente, sentiram-se bastante lesados pelo meu artigo. Ao princípio, sem qualquer capacidade de resposta aos factos ali citados, refugiaram-se no silêncio abso­luto. Mas nos começos de 1966 surgiu-lhes a oportu­nidade de usar a sua arma preferida - a calúnia. Mareei Niedergang publicara no jornal Le Monde, uma série de artigos sobre Portugal, altamente críticos do regime salazarista. Em resposta, o então chefe da Casa de Portugal em Paris, Manuel Rino, escreveu uma longa carta ao Le Monde, citando extractos do meu artigo, e nela tratou a autora de «comunista inteli­gente».

O bando de Argel imediatamente agarrou a ocasião oferecida pelos salazaristas e encarregou o Manuel Alegre de ler um comunicado a meu respeito numa emissão da «Rádio Voz da Liberdade». «Informou» o poeta Alegre que Patrícia McGowan Pinheiro era uma cidadã estrangeira que nunca tinha pertencido a qual­quer formação da oposição portuguesa mas que, sim, tinha sido expulsa dum partido estrangeiro, suspeita de espionagem; que era correspondente em Argel do New York Times, e como tal seria agente da CIA (sic!); que era uma comunista feita pelo SNI. Na Argélia de 1966, onde depois de se verem livres de Delgado, estavam Piteira e companhia, outra vez «no poder», e como o Governo Argelino se tinha recentemente aproximado da URSS, não havia qual­quer possibilidade duma resposta minha às difamações e veladas ameaças. Fiz as malas e pouco depois, voltei para Inglaterra.

Página 220 - No fim do ano de 1964 quando Delegado já tinha percebido que não podia esperar mais nada da Argélia, projectava mudar-se para o Senegal, e nesse país fran­camente anti-comunista continuar as suas preparações revolucionárias. Acontece que o Senegal era um dos países que mais apoio dava à FNLA. Já vimos que Delgado, ao escolher aliados, não empregava critérios ideológicos. A disposição comba­tiva duma pessoa ou duma organização era para ele o único critério que contava. O General já se tinha mos­trado, no Brasil, aberto a conversas com a UPA. Não podemos duvidar de que, se Delgado tivesse chegado ao Senegal, não iriam tardar os contactos directos entre os anti-comunistas angolanos e o, agora, anti-comunista General. A sua morte violenta impediu esse desfecho. Quando Henrique Cerqueira, em Marrocos, anunciou o seu desaparecimento, o único movimento das colónias portuguesas a reproduzir a notícia e lançar um grito de alarme foi a FNLA, através da sua delegação em Argel. Os outros mantiveram-se calados.

Hoje, a aliança entre os nacionalistas pró-soviéticos e o bando de Argel não é segredo para ninguém. Quando Manuel Alegre, na sua qualidade de porta-voz dum governo PS, ameaçou com a censura todos os que em Portugal ousassem criticar Agostinho Neto, não estava senão a pagar uma velha dívida - o único compromisso ao qual o bando permanece fiel - o compromisso com os nacionalistas pró-soviéticos, quanto ao futuro das colónias portuguesas.

Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010


Nova Arrancada - Sociedade Editora, SA
novaarrancada@mail.telepac.pt

ENTEVISTA COM ABÍLIO PIRES 

Página 71 

Bruno Oliveira Santos.: Quer dizer que o rosa Casaco era incompetente? 

Abílio Pires:.............................................................................................................. .....................................................................................................................................................

Disse-lhe que a história da morte de Delgado continua mal contada e falei-lhe dos erros técnicos da operação executada. Mas tenho outro género de argumentos, talvez mais elucidativos. A partir do momento em que chegou a Argel, sem saúde e sem dinheiro, Humberto Delgado passou a viver num local de expiação. Contava encontrar ali forças de oposição ao regime vigente em Portugal e queria organizar uma frente que pudesse derrubar esse regime. Pura ilusão! O que encontrou foram grupos desavindos e inconciliáveis, curiosamente todos eles marxistas-leninistas. De um lado, a FPLN de Piteira Santos e Manuel Alegre, bem implantada no terreno, gozando de protecção do governo argelino e dispondo da Rádio Voz da Liberdade. Do outro, o PCP, fiel à política de Moscovo e gozando da protecção do KGB. Existia ainda a denominada FAP, de Francisco Martins Rodrigues e João Pulido Valente, que defendia uma acção imediata contra o governo português. Todavia, os principais dirigentes da FAP foram presos quando tentaram entrar clandestinamente em Portugal por a PIDE ter sido alertada por um boletim do PCP, que denunciava com pormenores a entrada daqueles indivíduos em Portugal.

Após terem sido presos os principais dirigentes da FAP, restavam a FPLN e o PCP, que continuaram a guerrear-se sem tréguas até ao ponto de o PCP ocupar a Rádio Voz da Liberdade, respondendo a FPLN com um contragolpe que lhe permitiu levantar todos os depósitos bancários do PCP. Pouca gente sabe isto, mas o conhecimento destes factos é indispensável para se compre­ender o caso Delgado. É que o general percebeu estas lutas e, numa tentativa de unir os grupos desavindos, conseguiu a intervenção de Che Guevara, que se instalou em Argel durante uns tempos. Delgado, porém, nada conseguiu. Desconhecia certamente que Guevara era um agente do KGB e, como tal, defenderia sempre os interesses de Moscovo e não os de Humberto Delgado. Como já lhe disse, Guevara fora treinado em guerrilha por Alvarez del Bayo, um coronel que se batera na guerra civil espanhola contra Franco. Terminada a guerra, del Bayo radicou-se no México, adquiriu a nacionalidade mexicana e dedicou-se a treinar guerrilheiros de vários países da América Latina. Logo que Fidel Castro ocupou o poder, transferiu-se para Cuba, foi conselheiro de Fidel e criou o DRIL, uma organização comunista que se propunha derrubar os governos de Portugal e Espanha. Continuou a treinar guerrilheiros, sobre­tudo da América Latina, mas também espanhóis e portugueses, estes últimos enviados pelo PCP e pela FPLN. Posso citar-lhe alguns nomes: um deles era o Eduardo Cruzeiro, que foi jornalista do "República" e do "Diário de Lisboa"; outro era o Rui Cabeçadas. Estes dois senhores, entre outros portugueses, treinaram guerrilha em Cuba, a 17 quilómetros de Havana, com o Alvarez del Bayo.

A FPLN era um coio de traidores, uma alfurja de desertores, um bando de ditadores de esquerda. A Rádio Voz da Liberdade tinha como principais locutores Esteia Piteira Santos e Manuel Alegre que, não se limitando a apelar à deserção, forneciam aos inimigos de Portugal toda a informação que recebiam. Além disso, recebiam os chefes terroristas (creio que o primeiro foi Amflcar Cabral) e convidavam para irem a Argel desertores e ex-prisioneiros de guerra que, logo que chegavam, eram encarcerados em condições desumanas até dizerem tudo o que sabiam e recitarem perante os microfones da rádio todos os dislates que lhes punham à frente. É evidente que se tratava de um crime de cárcere privado, mas nunca vi depois do 25 de Abril que alguém se preocupasse com isso.

B.O.S.: Manuel Alegre foi para a Argélia fugido da PIDE?

A.P.: O próprio Manuel Alegre afirma que foi para a Argélia fugido da PIDE. Estou em condições de afirmar que é mentira! Fui investigador de um processo que envolvia o sector intelectual e a organização local do PCP em Coimbra e lá apareceu referido o nome de Manuel Alegre. Pensou-se detê-lo. Desistiu-se imediatamente dessa ideia quando se soube que estava a prestar serviço militar no RI 12 e até mobilizado para Angola. Esta é que é a verdade.......

 

Manuel Alegre, Desertor...E ainda por cima Chibo?

"Hummm...Quem vou chibar, agora? A mim, ninguém me cala!"

Edificante! E andamos nós a incensar tal personagem!

Com palavras simples, puras, vividas...nesta vida...

"Conheço este problema pessoalmente. Estava em Luanda, quando Alegre se pirou. Mais tarde, quando entrei prá "guerra" o meu Batalhão foi colocado em Nóqui, lá em cima, encostado ao Zaire, junto à fronteira com Matadi. Nessa região ouvia-se através dos famosos rádios portáteis Hitachi, com uma boa onda média, a voz de Matadi e a voz da Argélia, emissores criados por desertores que, através de infiltrados nas forças armadas, denunciavam as nossas operações.

Muitas das emboscadas que sofremos resultaram da traição desses "grandes filhos da puta ". Uma das vozes que se ouvia era a desse pulha, Pateta Alegre. Lembro-me que 48 horas após se ter instalado um posto de observação, um grupo de combate, um canhão, um radar no cimo do morro de Noqui, donde nós observávamos toda a movimentação de aproximadamente, 2.000 "turras" concentrados numa sanzala no outro lado da fronteira, ouviu-se a voz do Alegre a denunciar a nossa posição. Andámos a levar porrada na estrada entre S. Salvador e Nóqui durante mais de 4 meses.
Numa das viagens sofremos 9 ataques.

Um dia, em Nóqui, junto ao Rio, onde se situava o nosso aquartelamento, o então Tenente-Coronel Isaltino, mandou tocar a formar. Formou-se o Batalhão e o corneteiro tocou a sentido, fez-se silêncio chegou o Tenente-Coronel e disse: o furriel Marta (mulato) dê um passo em frente. O sacana era o informador.

Fazia-o através dum preto que era vendedor das célebres colchas congolesas, em Nóqui. Nesta guerra a Pide teve um papel muito importante. Informávamo-nos dos movimentos desses traidores. Bem…. não sei se estás a ver…o cabrão não foi linchado porque foi imediatamente evacuado para Luanda. Cerca de 2 anos depois, estava eu ainda na guerra ouvi a voz deste traidor nas rádio Maatadí. Tinha fugido das cadeias de Luanda. Sofri no corpo os efeitos da atitude desses traidores."

Paulo Chamorra

PS: E quer este desertor (MANUEL ALEGRE), ser CHEFE SUPREMO DAS FORÇAS ARMADAS? Que belo exemplo para as tropas!

Fonte: Circo Portugal
http://circo-portugal.blogspot.com/2010/01/hummm.html

Angola: Alegre em «peregrinação muito pessoal» a Nambuangongo


Manuel Alegre em romagem a Nambuangongo
(Ricardo Bordalo, LUSA

O poeta Manuel Alegre regressou hoje, numa «peregrinação muito pessoal», ao local onde cumpriu o serviço militar e onde viu «morrer muitos amigos», Nambuangongo, na província angolana do Bengo.

Foi em 1962 que o autor de «Nambuangongo, Meu Amor» assentou praça em Luanda e um ano depois tornou-se o primeiro oficial português a ser detido pela PIDE, depois de passar compulsivamente ao estado de civil. Manuel Alegre considerou este regresso como uma experiência intensa e isso ficou ainda mais vincado quando descobriu perto das antigas camaratas da sua unidade militar a sepultura de um soldado tombado em combate em 1962.

Na vila de Nambuangongo, Manuel Alegre percorreu os caminhos das suas memórias, lembrando, em permanente dialogo com os jornalistas que o acompanharam, os momentos difíceis naquele que foi considerado o pior local para estar durante a guerra colonial em Angola.  «O mais importante era o correio. Era quando chegavam as cartas de namoradas, família ou amigos que se abria espaço para algum sossego no meio de permanente flagelação do, na altura, inimigo», disse o também candidato presidencial.

Durante a estada em Angola, em visita privada, Manuel Alegre esteve com pessoas com quem fez amizade naquela época e também depois em Argel, para onde se exilou em 1964 devido à perseguição que resultou da sua condição de opositor ao regime.

Depois do regresso a Nambuangongo, onde ainda considerou todos aqueles que tombaram em combate como seus amigos, Manuel Alegre tem na terça-feira um encontro com o também amigo e escritor angolano, Pepetela, na associação Cha de Caxinde, regressando a Lisboa na quarta-feira.

Diário Digital / Lusa  

Terça-feira, 9 de Março de 2010 | 08:08

DN.jpg (3296 bytes) 22 de Março de 2010

«Eu não desertei»

Está-se a falar da Guerra Colonial e Manuel Alegre interrompe para dizer: «Eu não sou desertor nem nunca o fui.» A sua expressão facial é dura e vê-se que é um assunto que o irrita: «Eu estive na guerra; estive em Mafra; estive nos Açores e estive em Angola. Sou até, dos candidatos às presidenciais, o único que entrou em combate. Depois, estive envolvido numa conspiração em Angola pela qual fui preso e passado à disponibilidade. Fui-me embora do país para não ser preso pela PIDE por razões políticas.»

A dureza mantém-se no rosto enquanto vai mais longe: «Eu não tenho juízo moral nenhum sobre aqueles que desertaram até porque naquela altura muita gente da minha geração achava legítimo fazê-lo. Mas eu não desertei e não quis desertar, quis viver a experiência da guerra e vivi em situação de combate no pior momento da guerra em Angola, que foi 1962/63, com as minas a rebentar em Nambuangongo e Quipedro, que era a capital da guerra. E não me arrependo dessa experiência, que é intensíssima, apesar de considerar que aquela guerra não tinha sentido político. Já tinha uma consciência anticolonial, mas estava lá. Há a fraternidade que se cria entre a gente do mesmo pelotão, da mesma companhia e que vive os mesmos riscos. E depois há essas situações que são situações-limite, em que ? como eu disse num poema ? o tempo cabe todo num minuto. A fronteira entre a vida e a morte é muito frágil.»

 11 de Abril de 2010

Presidenciais

PS ignora nova pressão de Alegre

por RUI PEDRO ANTUNES

Poeta volta a não esperar pelo seu partido e anuncia que vai formalizar a candidatura com ou sem PS. Numa altura em que o silêncio do PS sobre as presidenciais começa a ser prejudicial para Manuel Alegre, o poeta voltou ontem a pressionar o partido, anunciando que irá formalizar "sozinho" a sua candidatura até ao final do mês. O PS ignorou o aviso.

Após uma reunião com apoiantes, a candidatura do histórico socialista distribuiu um comunicado dizendo que a sua candidatura é "suprapartidária" e que "não está dependente de ninguém". No Largo do Rato, o silêncio continua a imperar: José Sócrates apenas disse ontem que este "não é o momento" para se pronunciar sobre o assunto. Já no Secretariado Nacional, os opositores à sua candidatura reagiram com indiferença.

José Lello, membro do órgão de cúpula do partido, disse ao DN que o PS "tem neste momento outras prioridades". "O problema de Manuel Alegre é que está desde o início a tentar condicionar o PS na questão presidencial. Avançou num tempo inadequado e só teve o apoio do Bloco de Esquerda e do Francisco Louçã, criando um incómodo em termos políticos para o PS", adverte José Lello.

O socialista diz que Alegre "não pode estar angustiado por ainda não ter tido o apoio, porque quis avançar sem concertar a agenda com o PS". Sobre o facto de o PS ainda não ter declarado o seu apoio a Manuel Alegre, José Lello ironiza: "Como dizia o filósofo: É a vida..."

Vitalino Canas, ex-porta voz do partido - que também não é apologista de um apoio socialista a Alegre -, reagiu com alguma indiferença ao comunicado do poeta. "Se esta é uma forma de pressão, não é nova, já por duas ou três vezes o Manuel Alegre disse que não era candidato de nenhum partido e que avançará independentemente do apoio do PS", afirma o também membro do Secretariado Nacional. Vitalino Canas deixa um aviso: "O PS não aceita alterar os seus timings em função de timings exteriores.

No comunicado, a candidatura alegrista deixou indirectas ao facto de o apoio do PS ainda não ter chegado. "[É] tempo de decisão que não pode deixar de ser, também, o tempo de assunção de responsabilidades por todos os que não se enganam de combate nem de adversário", refere o comunicado saído da reunião de apoiantes de Manuel Alegre.

No encontro de alegristas, que se realizou no Hotel Berna, em Lisboa, não estiveram presentes dirigentes socialistas. Quem não faltou foi a vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, Helena Roseta, bem como alguns dos compagnons de route de Alegre na candidatura de 2006.

À saída, o histórico socialista não quis falar aos jornalistas, remetendo esclarecimentos para o comunicado.

Na reunião de apoiantes, Manuel Alegre terá lembrado que a sua "casa política é o Partido Socialista" e agradeceu os apoios que lhe foram dados. Ainda esta semana, na apresentação do seu livro autobiográfico O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua, Alegre voltou a ouvir palavras de apoio de destacados militantes e dirigentes do partido. Ou seja, os alegristas não baixaram os braços e a candidatura tem vindo a coleccionar apoios.

O "senador" José Vera Jardim, não se coibiu, esta semana, de pressionar o partido a tomar uma posição, chegando mesmo a dizer que "já é tempo" de o PS anunciar (ou não) o seu apoio ao histórico do partido. Na apresentação do livro esteve ainda o ministro da Justiça, Alberto Martins, e um dos vice-presidentes da bancada do PS, Strecht Ribeiro, que também desafiou o partido a tomar uma posição sobre as presidenciais.

DN.jpg (3296 bytes) 1 de Junho de 2010.

Apoio a Manuel Alegre

Soares: "Sócrates cometeu erro grave, que poderá ser-lhe fatal e ao PS"

O antigo presidente da República, em artigo de opinião no DN, ataca a opção do PS de apoiar Manuel Alegre nas presidenciais de 2011. Mário Soares diz: "Como socialista, e pensando como sempre e só pela minha cabeça, entendo ter a obrigação de dizer o que penso." Mas Soares não está sozinho na crítica à solução.

Uma opção tardia e infeliz

5. Manuel Alegre declarou-se candidato à Presidência por decisão própria e sem consultar o PS. O Bloco de Esquerda, logo a seguir, resolveu, pela boca do seu líder, apoiá-lo. Ao contrário do PCP, que, desde logo, deu a entender ter um candidato próprio. O PS ficou silencioso mas, a pouco e pouco, tornou-se claro que uma parte dos seus militantes e dos seus eleitores habituais não apoiavam Alegre. Eu fui um deles. Por razões exclusivamente políticas. O secretário-geral do partido e primeiro-ministro entendeu que era cedo para decidir. Perante as dificuldades com que está confrontado e tantos opositores que o querem destruir, em lume brando, compreende-se. As eleições presidenciais serão daqui a seis meses e o actual Presidente não decidiu ainda, oficialmente, recandidatar-se. No domingo passado, o secretário-geral do PS decidiu apoiar a candidatura Alegre, ao que disse porque é progressista, deixando ao candidato a liberdade de fazer a campanha. No actual contexto político-partidário, julgo que Sócrates cometeu um erro grave, que porventura mesmo lhe poderá ser fatal e ao PS. Como socialista, e pensando como sempre e só pela minha cabeça, entendo ter a obrigação de dar a conhecer de novo aos meus camaradas e ao secretário-geral aquilo que penso.

Norte de Angola 1961


Norte de Angola 1961 por kuribeka


Entrevista com Manuel Alegre

Sábado, Novembro 12, 2005

Sobre o desertor Manuel Alegre

Aqui fica um contributo do chefe Abílio Augusto Pires, escrito já há uns anos, para a biografia do conhecido desertor.

"Alguns elementos sobre o Bando de Argel"

Natural de Águeda ou arredores, Manuel Alegre fez a sua vida académica em Coimbra. Descendente de uma classe "média-alta" fez a vida normal de estudante de Coimbra, um tanto boémia e, nesse sentido, um tanto tradicionalista. Cedo se virou para a política o que, no ambiente de Coimbra, também era tradicional. Militou na "organização local" do PCP e estou à vontade para afirmá-lo porque fui eu próprio quem desmantelou essa organização. Dos seus elementos com alguma responsabilidade ficaram dois: Silva Marques, hoje deputado do PSD que, embora fosse estagiário de advocacia em Aveiro, vivia já numa situação de semi-clandestinidade, e o Manuel Alegre. Mas ficaram por razões diferentes.

O primeiro, Silva Marques, porque mergulhou na clandestinidade e viria depois a fixar-se na Itália, onde entrou em litígio com o "partido" do qual veio a ser expulso, após ter feito várias autocríticas que, de resto, conheci. Manuel Alegre também escapou mas porque estava a prestar serviço militar no R.I. 12 (Regimento de Infantaria nº12) situado precisamente em Coimbra e já mobilizado para Angola, como alferes miliciano. A PIDE foi sempre um pouco avessa à detenção de militares mas, neste caso, pesou mais o facto de estar mobilizado. É, pois, totalmente falsa a ideia de que desertou por ser perseguido pela PIDE que não o prendeu porque não quis fazê-lo. As razões íntimas que o levaram à deserção só ele poderia explicá-las se bem que se tornou evidente para quem alguma vez ouviu a "voz da liberdade" ao longo dos seus 12 anos de funcionamento.

E não venha dizer que não traiu. Fê-lo ao longo de 12 anos, não só pelas declarações que prestou como também pelas que obrigou a prestar. Trata-se de matéria conhecida mas que abordarei um pouco à frente. Desertou e foi para Paris em 1962, estava a ser criada a FPLN (Frente patriótica de libertação nacional) que já se decidira iria funcionar em Argel, com o beneplácito do governo argelino e toda a sua protecção. Seria dirigida por Fernando Piteira Santos que fora funcionário do partido comunista português e expulso da organização uns dez (10) anos antes. Aliás, o governo argelino já autorizara também a instalação e funcionamento da rádio "voz da liberdade" da qual Manuel Alegre viria a ser o locutor até 25 de Abril de 1974.

Assim, em meados de 1962, partiriam de Paris rumo a Argel Fernando Piteira Santos, sua companheira, Maria Stella Bicker Correia Ribeiro e Manuel Alegre. A FPLN cresceu rapidamente e tem que dizer-se que o seu principal indutor foi a rádio "voz da liberdade". Tornou-se, assim, a breve trecho, num autêntico coio de traidores, grande parte deles desertores do Exército Português e também, ex-prisioneiros que, libertados pelo inimigo, eram para ali encaminhados e lá permaneciam em cativeiro pelo menos até se disporem a revelar perante os microfones tudo o que sabiam e não só: tinham igualmente que recitar "ipsis verbis" o discurso que lhes punham à frente.

Só depois disso é que teriam hipótese de sair da Argélia. Esta atitude, que em qualquer país civilizado consubstanciaria a figura jurídica de "cárcere privado" era praticada pela FPLN com a cumplicidade do senhor Manuel Alegre: só que no Portugal democrático ninguém fala disso. Não seria trair? E receber os chefes dos movimentos africanos que nos combatiam, ouvir e transmitir aí os seus dislates não seria trair? E fornecer-lhes as informações que desertores e ex-prisioneiros de guerra eram forçados a prestar não seria trair? Bom, se isto não era trair vamos a outro aspecto: - Enviar homens – elementos da FPLN – para Cuba a fim de serem instruídos na guerrilha urbana, também não era trair? E a FPLN (não só mas também) enviou para lá alguns que foram treinados numa base cujo nome não me recordo de momento mas sei que dista 17 quilómetros de Havana e foram treinados entre outros por Alvarez del Bayo, antigo coronel do Exército espanhol que se bateu contra Franco e foi um dos homens do DRIL ( Directório Revolucionário Ibérico de Libertação) que organizou o assalto ao Santa Maria. E também me lembro que esses homens (da FPLN) foram treinados no fabrico e uso de explosivos e, ainda, a fazer guerrilha urbana com armas que eles próprios tinham que fabricar.

E que aprenderam, por exemplo, a fabricar morteiros partindo de um simples cano retirado de um algeroz. Isto era bem mais do que trair. E para que dúvidas não restem, cito dois nomes: Eduardo Cruzeiro que foi jornalista do "República", está vivo e tem um "bom tacho" na RTP, e Rui Cabeçadas que é ou foi advogado. E digo "é ou foi " porque calculo que teria a minha idade, talvez um pouco mais, e não sei se é vivo ou já morreu. Chega? Não, não chega que eu tenho mais.

Sei que a vida na FPLN não era um "mar de rosas" para todos. Bem pelo contrário: as guerras entre essa organização e o PCP. era violentíssima. Chegou-se ao ponto de o PCP ocupar a rádio pela força e a FPLN responder com um contra-golpe que consistiu em levantar os depósitos bancários do PCP, factos que obrigaram o governo argelino a intervir para pôr as coisas no lugar. E como nem o Dr. Pedro dos santos Soares, membro da cúpula do PCP e adrede enviado para Argel conseguiu pacificar as hostes, este partido decidiu jogar a última cartada: nem mais nem menos do que Humberto Delgado.

Estava no Brasil, sofria de doença grave e foi a Praga para se tratar. Foi aí que o PCP o abordou e convenceu a ir para Argel. Foi-lhe dito que tudo o que se pretendia era unir a oposição e derrubar o "regime fascista" português. Ninguém se não ele poderia liderar essa união, preparar e comandar o golpe. Convencido do seu prestígio, acreditou e foi para a Argélia. Enganou-se, até porque nunca lhe passara pela cabeça que encontraria o que na realidade encontrou. Desconhecia que o PCP jamais perdoaria a "traição" de Piteira Santos, que, embora marxista e reconhecido como tal, havia falado na PIDE. Mas havia outros problemas não menos graves: Humberto Delgado era um impulsivo e queria uma revolução imediata. O PCP, mais preparado politicamente, respondia que aprendera as lições da guerra civil de Espanha e da própria Guatemala.

Era para eles evidente que "nenhuma revolução poderia triunfar sem que antes conseguisse o apoio das Forças Armadas". Não embarcava em aventureirismos. Virou-se para a FPLN e a ela aderiu. Só que, logo que pôs o problema da revolução imediata, foi-lhe respondido que Lenine ensinava que "nenhuma revolução de massas poderia ser ganha sem que tivesse o apoio de uma parte do exército que houvesse servido o regime anterior". Não percebera que uns e outros eram marxistas e sabiam que o comunismo não tinha a mínima hipótese de governar Portugal. O que interessava a todos era entregar a África Portuguesa à União Soviética.

E isto significava para Delgado que "entre dois mundos ficara sem mundo". Tentou, por sua vez, a última cartada: era amigo e um grande admirador de CHE GUEVARA que se transformara em mito de todos os revolucionários de todo o mundo. Pediu a sua ajuda e GUEVARA aceitou. Foi para Argel e por lá ficou uns tempos mas nada fez. Nem podia fazer: GUEVARA era agente do KGB soviético. E os interesses de Moscovo estavam muitíssimo à frente de Humberto Delgado, que ficou só. Sem dinheiro, sem saúde e sem apoios ameaçou entregar-se às Autoridades Portuguesas. Foi o seu fim. Não sei como nem em que circunstâncias. Tudo o que sei – e já o disse várias vezes – é que essa história continua mal contada. Quem sabe se o senhor Manuel Alegre não poderia levantar uma pontinha do véu?..."

Publicado por camisanegra : 10:18 AM

FONTE: ÁREA NACIONAL
http://fascismoemrede.blogspot.com/2005/11/sobre-o-desertor-manuel-alegre.html