Prefácio - Edição de Livros e Revistas
prefacio@mail.telepac.pt


O autor


                                              Angola, 15 de Março de 1961                         

                                                José Victor de Brito Nogueira e Carvalho

Neste excelente livro o autor relata minuciosamente o que se passou com a descolonização de Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Obrigado.

Pag.80 - 83. A vida continuava com normalidade até que em princípios de Março me chegam notícias através de subordinados que mantinham relacionamento apertado com as populações e sanzalas onde alguns até tinham familiares, de que novos acontecimentos iriam ter lugar em Angola.

Depois do 4 de Fevereiro, por mais de uma vez já tínhamos detectado rumores que apontavam nesse sentido, sem contudo haver especificações em como, onde e quando.

Os boatos eram muitos e apesar de inconsistentes e vagas estas notícias, dada a sua insistência convergente, achei meu dever informar Nova Lisboa e o Quartel-General em Luanda. Fi-lo por volta do dia 10 de Março, em mensagem cifrada utilizando o velho morse, sendo a cifra ainda elaborada por um conjunto de letras e números, que através de chaves que mudavam periodicamente, permitiam a descodificação.

Sabia-se que a Administração Americana do Presidente Kennedy continuava a insistir na modificação da política Portuguesa em relação às suas colónias africanas, tendo em vista a sua independência.

Em Angola apoiava a UPA (União dos Povos de Angola), mais tarde FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola), presidida por Holden Roberto. Como Salazar não mostrava intenções de cedência, vê com bons olhos o desencadeamento de acções que chamem as atenções internacionais, pelo que apoia a preparação das mesmas.

Preocupa-se contudo com um descontrolo terrorista, a exemplo do verificado recentemente na independência do Congo, pelo que nos primeiros dias de Março a CIA chega mesmo a dar conhecimento ao Governo Português através da sua Embaixada em Lisboa, que em meados desse mês ir-se-iam desencadear convulsões e acções no Norte de Angola, informação transmitida a Botelho Moniz, Ministro da Defesa.

Esta informação talvez por algum descrédito no seu conteúdo é canalizada para Luanda de forma mais ou menos amenizada. A 2a Repartição (Informações da Região Militar de Angola), certamente para não provocar preocupações desnecessárias e precipitações, não a participa de imediato ao Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas General Beleza Ferraz, que acompanhado do Chefe do Estado-Maior do Exército General Câmara Pina, se encontrava em visita de inspecção à Província de Angola. Dela não tiveram pois conhecimento imediato as escassas forças militares que faziam a cobertura de Angola, e das quais eu fazia parte.

Em Luanda, apesar de ter havido incidentes recentes preocupantes, como os acontecimentos dos 4 e 10 de Fevereiro e a rebelião em Janeiro nas plantações de algodão da Cotonang na Baixa do Cassange, acreditava-se que os assuntos tinham sido sanados e repelidos com suficiente energia, não se acreditando muito no ressurgir de acções violentas.

A PIDE em Angola intensifica a pesquisa no sentido de detectar novos actos de terrorismo, e em 13 de Março de 1961 é interceptada uma carta proveniente de Carmona, que pedia ao feiticeiro de Luanda feitiços para no Norte se desencadearem acções iguais às que tinham tido lugar no Sul.

Detido pela PIDE no Quitexe e na tarde do dia imediato, o autor da carta, este foi logo levado para Carmona para a cadeia da PSP afim de ser interrogado. Devido à hora tardia da detenção e tempo gasto no itinerário, este já não chegou a ser interrogado em tempo, pois que acções violentíssimas tiveram lugar na madrugada seguinte, acções essas desencadeadas pelos terroristas da UPA em várias localidades e com consequências trágicas.

Brancos e negros são chacinados com requintes de malvadez e selvajaria, fazendo parte dos próprios executores, pessoas de confiança de há longos anos, que tinham nascido nas casas onde trabalhavam e criado os filhos dos patrões desde pequeninos e de quem gostavam muito.

Este procedimento seria o bastante para evidenciar influência exterior exercida através de coerção, ritos, feitiçarias, drogas, lavagens da mente e personalidade, pois de outro modo aquelas pessoas jamais deixariam de ser gente, para transformar-se em bichos sedentos de sangue e que era necessário travar a todo o custo. Vir-se-ia a apurar que toda aquela carnificina havia sido planeada no Congo ex-Belga, donde partiram vários militantes da UPA para as povoações abaixo mencionadas, com a incumbência de aí desencadearem acções violentas, de modo a desencorajar a reacção dos brancos.

Indícios apurados viriam a apontar para o envolvimento de alguns missionários de nacionalidade Inglesa, Espanhola e Suíça. Os militantes da UPA chegados às povoações e sanzalas, doutrinam os nativos residentes sobre o que deles se pretendia e com a colaboração dos sobas, proibiram a saída das povoações, mesmo para a compra de géneros, até ao dia 15 de Março, afim de preservar o segredo.

Foram ainda atribuídas missões de morte àqueles que tinham acesso às casas dos brancos, para não haver atropelos na acção nem possibilidades de fugas. Deveriam ainda antes da acção, apoderar-se das armas dos brancos afim de evitar reacções.

Estas acções tiveram lugar da forma mais brutal que se possa imaginar, abrangendo regiões de incidência da UPA situadas nos Distritos de Zaire, Uíge e Cuanza Norte, das quais destaco, Quibaxe, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe, Quicabo, Nambuangongo Zala, Zalala, Quibala, Nova Caipemba, Bessa Monteiro, Madimba, Canda, M Bridge, Luvaca, Buela e outras.

Em apenas dois dias, foram mortas cerca de 7200 pessoas (muitas mas muito mais que as vítimas de World Trade Center, crime que agitou e mudou o mundo), entre as quais 1200 brancos e cerca de 6000 negros, englobando fazendeiros, comerciantes, trabalhadores de plantações de café, homens, mulheres, velhos e crianças. Foram chacinados com requintes de malvadez que tudo incluiu desde a decapitação, desmembramento, violação e incineração, independentemente de serem crianças de tenra idade, algumas tiradas do ventre das mães.

No mundo, sobre o sucedido, apenas algumas notícias através dos órgãos de comunicação social, mas nenhuma reacção de auxílio a Portugal e às vítimas destes hediondos crimes, por parte dos Países que se diziam nossos aliados. Que cinismo e como foi abismal, a diferença de tratamento para o crime recente que em 2001 teve lugar em Nova York e que mobilizou o mundo inteiro com auxílio bélico e humano, prontificando-se a destruir tudo o que necessário seja, mesmo que inclua Países inteiros, para eliminação dos terroristas.

Em 1961, não fora a determinação de Salazar em activar todos os recursos de que se podia deitar mão para defender os sobreviventes locais que eram centenas de milhar, e todos seriam igualmente chacinados perante a indiferença dos outros Países.

Esta atitude assumida por Salazar viria a ser condenada por aqueles, que ainda hoje dão razão aos terroristas, apelidando-se contudo de portugueses fiéis e leais à Pátria, neles se incluindo alguns oficiais das Forças Armadas e dirigentes Políticos com responsabilidade.

A dar razão a Salazar, a hecatombe posterior que se tem vindo a verificar ao longo dos anos naquele novo País, com a morte e estropiamento de centenas de milhar de africanos, sem a interferência ou ocupação dos Portugueses, na altura apontados como os causadores das suas guerras. Não queiramos ao longo de tantos anos passados a vingança, que nada resolveria, nem que devamos olhar os africanos como inimigos, pois que eles também foram as grandes vítimas, tendo os actos criminosos sido praticados apenas por alguns, que não representam já o povo africano que deve ser tratado como amigo, e de igual para igual. Mas que no mínimo saibamos respeitar a memória das vítimas cujo pecado foi o de serem Portugueses, e leais à Nação a que pertenciam.