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Embarquei em Junho de 1951 no navio Moçambique rumo ao Lobito. A terceira suplementar era no porão abaixo da linha de água junto das viaturas dos passageiros, separados apenas por um separador de rede de arame forte. Dormiamos em camaratas e beliches. Logo à saída da barra o mar estava com muita ondulação e o pessoal enjoou vomitando. Na camarata havia um cheiro a vómito desagradável. Um angolano preto que estava por baixo da minha cama até chegou a vomitar sangue.

Chegados à Madeira, saí para apanhar um pouco de ar fresco e tomar algo que me confortasse. Quando coloquei os pés em terra pareceu-me que ela se movia debaixo de mim. Foi uma sensação desagradável mas passageira. Tomei um chá numa esplanada e voltei para bordo um pouco mais confortado. Daí para a frente o mar esteve sempre calmo. Passou o enjoo e, por isso, tive oportunidade de contemplar e apreciar a sua beleza que nunca tinha visto tão de perto. Fiquei fascinado mas mal sabia eu que alguns anos mais tarde iria conhecer tão de perto o que ele tinha de deslumbrante no seu seio, praticando caça e fotografia submarina!

O barco fez escala em S. Tomé ficando ao largo. Fomos a terra num barcaça. Foi a primeira vez que tomei contacto com gente africana. Francamente gostei. Quando regressámos a bordo trazia um cacho de bananas que tinha comprado mas ainda estavam muito verdes e não fazia sequer ideia de que não amadureceriam quando chegasse ao Lobito. Não amadureceram mesmo e ficaram para os amigos que seguiam para Moçambique.

A bordo conheci pessoas que também desembarcariam no Lobito que conheciam a cidade. Quando desembarcámos, um deles disse-me:

- É melhor você ir para Benguela porque no Lobito é difícil conseguir hotel nestes dias. Concordei mas como não conhecia nada de Angola perguntei-lhe se em Benguela poderia ir de comboio para Vila Luso (Luena). Claro que pode, respondeu, eu também vou no mesmo comboio que você. Ficámos num hotel em Benguela e logo pela manhã tomámos o comboio dos CFB rumo ao interior.


Imbondeiro (foto Net)

Era uma viagem muito longa. Do comboio pude apreciar pela primeira vez a paisagem africana nas suas diversas nuances conforme passávamos por cada região diferente e as suas gentes mesmo só de passagem. Quando vi pela primeira vez de longe um imbondeiro, os frutos (múcuas) dependuradas pelo longo caule pareciam-me pequenos macacos. Tudo era novo e estranho para mim habituado que estava ao meu nordeste transmontano.

Depois de um dia fatigante de viagem, parando em tudo quanto era estação ou apeadeiro, cheguei ao Luso (Luena) já noite adentro. Quando saí do comboio perguntei ao empregado se sabia onde ficava a casa do meu padrasto que era uma pessoa muito conhecida no meio:- é pá, isso fica fora do perímetro da vila, e você não vai carregar com essa mala até lá porque ainda é um pedaço de caminho. Chamou um servente e perguntou-lhe se queria ir comigo até casa e levar-me a mala. O rapaz respondeu afirmativamente e lá fomos a caminho da casa. Havia iluminação eléctrica na vila mas o caminhoe era através de um eucaliptal sem luz de espécie alguma. O que me valeu foi que o rapaz conhecia bem o caminho.

Chegados a casa bati à porta. Como não contavam comigo aquela hora da noite, fui recebido com grande surpresa e alegria. Dei ao rapaz um mata bicho (gorjeta) de um saueufo (2,5 angolares).

Não causou muita surpresa o nosso encontro depois de cerca de 10 anos de separação porque tínhamos trocado por correspondência fotos recentes. O meu padrasto não estava em casa, tinha saído de viagem para o Dundo.

No dia seguinte foi com grande curiosidade que vi o local onde iria morar por algum tempo bem como o pessoal, o cozinheiro e o ajudante. Os serventes contratados estavam instalados perto da casa vivendo nas cubatas que tinham construído quando chegaram. De todos, lembra-me apenas do nome do pastor e de um servente. O pastor Chico que tomava conta das vacas e as mugia, já na casa dos 60 ou mais e era de etnia ganguela. Distinguia-se dos cachocos (kiokos) porque tinha os dois dentes da frente cortados desde o cimo até meio ficando com uma abertura triangular por onde cuspia facilmente.

Aos kiokos, na infância, afiavam-lhe os dentes com uma faca. Por curiosidade perguntei a um deles o Melai, porque razão lhe afiavam dos dentes. Respondeu-me que era para comer melhor o ifo (carne). Frequentemente e por curiosidade ia até às cubatas dos contratados para ver como viviam e conhecer os seus hábitos. Alguns falavam mal o Português mas o suficiente para os entender.

A minha mãe e o meu padrasto não gostavam muito que eu contactasse com os serventes contratados junto às cubatas por causa das mabatas uma espécie de carraça que provoca grandes febres quando se é mordido por ela, a chamada febre da mabata. Não me importava muito com isso, a minha curiosidade era conhecer melhor os seus hábitos de vida e, por isso, ganhei a sua confiança. O Chico fez-me um arco com flechas e ensinou-me a usá-lo. Treinei muito e cheguei mesmo a matar algumas rolas com ele o que causava espanto nos indígenas que presenciavam.

Os contratados depois das refeições que normalmente eram pirão feito com farinha de mandioca acompanhado com peixe seco (tukeia) com óleo de palma e por vezes folhas de mandioca (a tukeia era um peixe que se criava nas anharas, grande extensão de terras planas e alagadas na época das chuvas. Na época seca os ovos desses peixes de pequeno porte ficavam enterrados na terra lodosa e quando chovia nasciam e criavam-se de micro algas e outros alimentos depositados no fundo. Na época da seca, esses peixes ficavam sem água e por isso eram facilmente apanhados aos milhares e depois secos ao Sol. Uma das maiores anharas da região era a da Cameia) pegavam na mutopa espécie de cachimbo feito com uma cabaça na qual colocavam no interior um pouco de água e, por cima na pança, um pequeno queimador feito de argila cozida. Enchiam o queimador com folhas de makanha (tabaco) e de makonha (liamba) colhidos na ocasião, que tinham semeado junto das cubatas. Secavam-nas rapidamente numa pedra que estava muito quente junto ao fogo e colocavam a mistura no queimador. Punham uma brasa por cima da mistura no queimador e davam umas chupadelas pelo bico da cabaça que causava um borbulhar da água no interior. Passavam a mutopa de mão em mão e depois ficavam a relaxar durante o tempo que tinham para descanso. Faziam isso diariamente e nunca vi nenhum deles em estado anormal que não lhe permitisse cumprir as suas obrigações no trabalho.

Entretanto o meu padrasto regressou da viagem que tinha feito à Lunda transportando mantimentos para a Diamang. Era um homem de poucas falas, austero para com os empregados e, entre nós, nunca houve grande empatia porque éramos de gerações diferentes e eu tinha um entendimento completamente diferente do relacionamento entre seres humanos. Ele era ainda o colono tradicional que, quando as coisas não corriam de feição com os contratados, lhes chamava kaua (cão). Mas também tinha o seu lado bom e humano.


O meu padrasto, minha mãe (ambos falecidos) e dois irmãos.

Contou-me que um dia quando num acampamento de pessoal um dos trabalhadores apanhou uma pneumonia. O pobre tossia e mal podia respirar ardendo em febre. Médico não havia por perto só a algumas centenas de quilómetros de distância e as estradas eram picadas. Não aguentaria a viagem e, por isso, tinha o fim à vista. Então ele resolveu embeber uns panos em gasóleo e colocá-los no peito e nas costas do pobre coitado tapando-o com mantas. Já tinha feito isso antes mas por vezes não tinha resultado. O homem gemeu toda a noite com dores por causa do mal agravado ainda pelo ardor causado pelo gasóleo e transpirando tanto que molhou a roupa toda. No dia seguinte a febre foi baixando lentamente e passados alguns dias estava melhor. Morreria certamente se o meu padrasto não lhe acudisse.

Passavam-se os dias e nada sobre o prometido emprego na Diamang. Vim mais tarde a saber que a Diamang só contratava pessoal efectivo em Lisboa e lá apenas assalariados mas, para isso, era preciso ter umas boas cunhas para entrar, o que não era o meu caso pois ele não tinha nenhuma influência na companhia porque era apenas um simples fornecedor. Tinha sido enganado, porquê, nunca soube nem saberei.

Vila Luso (Luena) ficava num planalto e, por isso, as ruas eram planas e como em todas as cidades de Angola nas mesmas condições o transporte usado era a bicicleta. Em 1951 as ruas não eram asfaltadas mas sim cobertas com uma camada de terra retirada dos morros de salalé (formiga branca) que no Verão depois de seca era semelhante ao asfalto.

Como a nossa casa e a chitaca (pequena quinta) ficava a cerca de 200m da vila e fazia todos os dias o trajecto de bicicleta ou a pé. Muitas vezes cruzava-me com cafecos (raparigas jovens) cuja vestimenta era apenas um pequeno pano atado com um nó tapando o sexo e parte das pernas mas expondo completamente os belos seios. Essas jovens teriam entre os 14 e 16 anos de idade. Para quem estava habituado no Continente a ver as mulheres com vestido comprido cobrindo praticamente tudo, fiquei muito surpreendido de ver aquelas jovens quase nuas expondo os seios rijos com toda a naturalidade. Acabei por me habituar e gostar de ver como é óbvio. Quando lhes dirigia algum piropo.....em kioko diziam: aka minino ou aka chinder (branco). Eu era um jovem de 20 anos bem apessoado !


Jovens (cafecos) do Cunene (foto Júlio Pedro)

Paralelo ao caminho e a cerca de uma centenas de metros, ficava uma sanzala e, por vezes, passava lá por curiosidade para ver como era a vida entre eles. No início, principalmente os homens, não gostavam muito da minha presença por causa dos cafecos mas depois acabaram por se habituar à minha curiosidade. Naquela região e ao tempo, o homem tinha tantas mulheres quantas pudesse sustentar e a sua actividade era praticamente limitada à caça a não ser que conseguissem um emprego na Vila. As mulheres trabalhavam nas lavras (hortas) plantando mandioca, batata doce, feijão, etc. muita vezes carregando os filhos às costas.


Duas jovens Muhumbi com os seus penteados exóticos (fotos José Alberto Pires) e uma da Lunda (foto Júlio Pedro)


Pilando fuba (foto Net)

Por isso, vi como as mulheres preparavam a fuba bombó (farinha) da raiz de mandioca semelhante à que se compra aqui em Lisboa nas lojas da especialidade a bom preço (€ 6,00 o quilo). As raízes da mandioca eram colocadas a fermentar num charco de água parada. Quando estavam devidamente fermentadas a casca exterior saía facilmente. Depois era partida em pequenos pedaços e colocados a secar ao Sol em kindas (açafates grandes) no cimo da cubata. Depois era moída num pilão e peneirada. Esta fuba é completamente diferente daquela que é feita no Brasil (fubá) que não é fermentada. Vi mães amamentando os seus filhos e depois de eles mamarem darem-lhe a comer uma pequena porção de papa de fuba depois de ser mastigada por ela. Os seus filhos estavam bem nutridos.


Mulhereres Muhumbis vendo-se uma dela a amamentar o seu filho (foto José Alberto Pires).


Mulher idosa kioka (foto Júlio Pedro) e jovens Muhumbis tocando tambores (foto José Alberto Pires).

"A fuba bombó é uma substância alimentar proveniente da mandioca pisada, depois de ter sido submetida a um período de vários dias de fermentação. Contém, além de outros ingredientes, vitaminas, proteínas, sais minerais e oligoelementos, em percentagens naturalmente doseadas, que garantem o número de calorias para equilibrar os suprimentos que motivam a energia da vivência humana. Em circunstâncias similares, há também a fuba de milho, preparada em moldes rudimentares ou pelos processos maquinais."

Aspectos da Gastronomia e Indumentária, José Alberto Pires, 1975.

Havia um pormenor que me chamou a atenção: nos miúdos o umbigo estava saliente demais talvez por o cordão umbilical não ter sido devidamente cortado. Naquele tempo os partos eram feitos na sanzala pelas mulheres mais velhas e experientes.

A fuba bem como o feijão provenientes das lavras eram vendidos em parte a um comerciante local perto da sanzala ou trocados por peixe seco, carne seca, óleo de palma e panos. Conheci bem um desses comerciantes de musseque como nós lhe chamávamos em Luanda que era conhecido lá no sítio por sachingongo (bexigoso).


Máscaras Muquixe da Lunda (fotos Júlio Pedro)


Mulher da Lunda (foto Júlio Pedro)

Perto da nossa casa havia uma mata de eucaliptos e, junto à mata, um acampamento de serventes contratados que nos fins de semana faziam uma barulheira danada cantando cadenciado acompanhados do som de um tambor até quase de madrugada.

Ia frequentemente tomar banho no rio Luena que ficava próximo da vila. No rio Luena, normalmente era onde iam as lavadeiras a lavar roupa e eu tomava banho logo um pouco acima. Depois deitava-me na toalha a secar ao Sol. No sítio onde tinha tomado banho juntavam-se vários cafecos tomando banho também mas completamente nuas. A agua dava-lhe pela cintura mas de vez em quando saltavam mostrando o sexo e riam em sinal de provocação falando entre si em kioko que eu não entendia ainda muito bem.

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Lavadeiras no rio (foto autor)

Uma lavadeira mais velha que estava perto de mim, olhou para os meus pés e disse:

- Ué chinder (branco) tem tacanha (matacanha ou bitacaia) nos pé". Não percebi mas quando cheguei a casa perguntei ao cozinheiro o que ela queria dizer. 

- "Minino mostra lá os teu pé".

Mostrei-lhe os pés e ele verificou que eu tinha um ninho de matacanha (espécie de pulga) quase do tamanho de uma ervilha num dos calcanhares. Foi buscar um canivete bem afiado e com muito jeito sacou o ninho de ovos de matacanha sem o romper. Seguidamente deitou-lhe por cima cinza do cachimbo. A ferida sarou em pouco tempo mas ainda hoje tenho a marca no calcanhar.

A matacanha ou bitacaia é muito vulgar por toda a África e é um autêntica praga. No início, quando a pulga entra na pele dá comichão e, então, é a altura adequada para a tirar com uma agulha caso contrário forma-se um ninho por baixo da pele com centenas de ovos.

Anos mais tarde, quando estava em Luanda como Chefe de Serviços Técnicos, tive um instruendo que tinha sido prospector na Diamang. Por casualidade disse-lhe que tinha estado no Luso e que tinha tomado banho muitas vezes no rio Luena.  Oh chefe, andou a nadar por cima dos diamantes! Contou-me então que havia no rio perto daquele local rochas que tinham cavidades feitas pela água e era aí que se depositavam os diamantes que eram arrastados pela corrente.

A Diamang tinha bufos por todo o lado e quem fosse denunciado e apanhado com diamantes tinha grandes problemas e podia ir parar à cadeia. Mas, mesmo assim, havia quem corresse o risco e trouxesse diamantes para o Puto (Portugal) para os ir a vender à Holanda ou Bélgica. Fizeram-se muitas fortunas com o tráfico ilícito (?) de diamantes.


Mulheres da Lunda (foto Júlio Pedro)

Entretanto instalei o receptor que tinha construído e levado de Bragança e quando o liguei apenas ouvia de vez em quando sinais de telegrafia e esporadicamente fonia. Quando regressava da vila a caminho de casa, reparei que perto do caminho havia uma estação dos correios com mastros de antenas de onda curta a avaliar pelo comprimento das antenas. Não resisti à tentação e fui até lá. Encontrei dois funcionários a quem me apresentei. Um deles, o radiotelegrafista Antunes, mestiço, gente boa e o outro, Reis o mecânico, que era natural da Moçâmedes não era menos. Quem diria! Anos depois, um dos seus filhos foi meu instruendo em Luanda.

Simpatizaram comigo e logo nos tornámos amigos. Passava o meu tempo livre na estação aprendendo código morse com o Antunes. Como tinha conhecimentos de electrónica ajudava o mecânico Reis a reparar os emissores/receptores P19 avariados que eram enviados pelos postos administrativos do concelho. Na época era o meio de comunicação entre os postos administrativos e os correios. Esses aparelhos eram de fabrico americano e serviram na 2ª. Grande Guerra Mundial. Foram comprados às centenas senão mesmo milhares pelo Governo (CTT) que os distribuíam depois pelos postos administrativos e estações dos correios secundárias. Não havia posto que não tivesse um aparelho desses. A estação telegráfica do Luso tinha geradores próprios.


Eu com o Antunes e o Reis na Estação Telegráfica

Nas cidades ou vilas mais importantes os correios tinham instalados emissores para telegrafia e telefonia com 1kW de potência trabalhando em onda curta. O chefe da estação dos correios do Luso era o Ponce de Carvalho. Deslocava-se duas vezes por dia numa bicicleta Riley à estação telegráfica (a Robert Hudson que estava presente em todas as vilas e cidades importantes de Angola era o representante exclusivo dessas bicicletas) para registar a leitura dos aparelhos de metereologia que depois eram transmitidos pelo Antunes para Luanda.

Vendo a minha presença quase diária na estação telegráfica perguntou ao Antunes que era o chefe daquela secção quem eu era e o que estava ali a fazer. O Antunes explicou-lhe quem eu era, que tinha vindo há pouco tempo do Puto (Portugal) estava desempregado e que passava muito tempo na estação a praticar telegrafia com ele mas como tinha conhecimentos de electrónica ajudava o mecânico Reis a reparar os P19.

Ponce de Carvalho era um homem simpátido de meia idade. Tinha um porte respeitável quando andava de bicicleta com numa postura erecta com o seu capacete colonial muito branco. Simpatizou logo comigo não só pela minha disponibilidade e ajuda desinteressada que dava ao mecânico mas também pela minha postura e maneira franca de ser e contactar.

Parece que tive sempre uma estrela que me orientava na minha vida nas horas mais difíceis. Um dia conversámos sobre o que eu desejaria fazer. Contei-lhe a razão porque fora para Angola e o que anteriormente fazia bem como as minhas habilitações. 

- Você não está interessado em concorrer para os correios visto que, com as suas habilitações, é possível fazê-lo para a categoria de operador e brevemente vai haver um concurso? Como você já sabe o código morse terá mais facilidade. E depois acrescentou: tenho um grande amigo na Direcção Geral dos Correios em Luanda que é director e, mesmo antes do concurso, poderá conseguir-lhe uma nomeação interina. Eu nem queria acreditar! Agradeci profundamente o seu interesse em ajudar-me e perguntei-lhe o que teria de fazer. É simples, vou dar-lhe a minuta de um requerimento para você fazer e amanhã vai entregar-mo na estação pessoalmente que eu envio-o para Luanda com urgência para o meu amigo.

Contei em casa o sucedido mas não vi grande entusiasmo da parte da minha mãe porque já previa que se eu fosse para Luanda provavelmente nunca mais voltaria ao Luso dada a incompatibilidade que havia entre mim e o meu padrasto.

Entretanto tinha sido recenseado para o serviço militar no concelho do Moxico freguesia de Vila Luso com o nr.11/51 e depois apurado para todo o serviço – Infantaria, no dia 29/08/1951.

No dia seguinte, lá estava na estação dos correios com o requerimento na mão com a assinatura devidamente reconhecida que o chefe enviou no primeiro avião para Luanda.

Desde esse dia estava traçado o meu destino. Passados alguns dias o Antunes recebeu um telegrama de Luanda e chamou-me:

- Pissarro prepara as bicuatas (neste caso a mala) porque tens de te apresentar em Luanda para tomares posse como operador interino. Nem acreditava no que estava acontecer. Operador dos CTT era um lugar de início de carreira ao tempo suficientemente remunerado para viver razoavelmente em Luanda. Além disso, tinha possibilidades de evoluir na carreira.

O meu padrasto estava viajando, por isso, pedi à minha mãe que me emprestasse a importância necessária para as passagens do Luso até Luanda. Fui à estação dos CFB (Caminho de Ferro de Benguela) e perguntei o horário do comboio no dia seguinte para Silva Porto (Kuito). Daí seguiria de autocarro até ao Dondo e depois por via férrea até Luanda.