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Como referi anteriormente, a estação VHF rádio ficava no cimo do morro e a dos grupos geradores na base, estando as duas interligadas por meio de cabos, um para o transporte de energia e o outro das linhas telefónicas. Na estação em baixo, além do compartimento onde estavam instalados os geradores havia outro onde tinha instalado o escritório com os aparelhos electónicos para a manutenção. Frequentemente tinha de ir à estação de rádio para ver se todo o equipamento estava em ordem.

Em baixo tínhamos um telefone de serviço ligado ao equipamento para comunicação directa com os meus colegas, técnicos de Dalatando e do Huambo. Além disso, havia um sistema de alarme que nos indicava se havia alguma anomalia no sistema.

O caminho para subir até à estação de rádio era uma picada como a da Quibala mas não tão íngreme e perigosa. Naquela altura 1961-1962 havia no morro bandos de macacos cinzentos, algumas gazelas, coelhos e perdizes e até cobras cuspideiras e surucus. Enfim, havia muita vida selvagem que, com o tempo e a nossa presença diária foi desaparecendo. Nas cavidades das rochas havia muitos animais e uma espécie de esquilo do tamanho de um coelho chamado rato da pedra, muito desconfiados à nossa aproximação mas que os nativos apreciavam muito.

Tinha adquirido recentemente além de uma pistola Walter 7,65 para defesa pessoal, uma espingarda calibre 22 Hornet com mira telescópica para maior precisão de tiro à distância. Treinava frequentemente para afinar a pontaria. Um dia o Gunza (N’Gunza) chamou-me dizendo-me que estava pousada numa árvore no morro perto da estação uma ave de rapina grande. Pediu-me para matá-la porque eles apreciavam a carne destas aves. A ave estaria a mais de 60 metros, apontei e foi tiro certeiro. Ficaram todos contentes pois já tinham carne para uma refeição.

Na zona de Santa Comba na estação das chuvas, havia praticamente todos os dias trovoadas e quando a trovoada avançava direito ao morro onde estava a nossa estação era certo e sabido que cairia um raio no para-raios radioactivo instalado no topo dos mastros das antenas que tinham mais de 30 metros de altura.

Se caísse uma raio no para-raios teria de me deslocar à estação para substituição dos fusíveis não só das fontes de alimentação do equipamento como os do cabo telefónico. Uma ocasião estava eu mais o meu ajudante a fazer a rotina (leituras dos aparelhos) na estação rádio no morro e não nos apercebemos de que se estava a aproximar uma grande trovoada. Por acaso vendo que estava a escurecer embora as lâmpadas da estação estivesse acesas, apercebi-me imediatamente que a trovoada ja estava mesmo por cima da estação. Tinha lá um caixote de madeira e imediatamente subimos ambos para cima dele. Nesse mesmo instante, caiu um raio no para-raios. Dentro da estação viam-se faíscas por todo o lado e um forte cheiro a ozono. A nossa sorte foi estarmos em cima do caixote caso contrário poderia ter havido problemas. É claro que tive de substituir os fusíveis do costume para repor o funcionamento normal do equipamento.

Outra vez também vimos as coisas mal paradas. Estávamos no morro e chovia torrencialmente. Ao passar por uma parte mais baixa da picada estava toda alagada chegando a água até às portas da viatura. O que nos valeu é que o jeep era a diesel e o motor não parou mas ficámos atolados. Por sorte não caiu nenhum raio nas proximidades pois se tal acontecesse a viatura não estava isolada da terra e correríamos o risco de focar electrocutados. Parou de chover mas não conseguidos desatolar o jeep por isso, não havia outra solução senão descer o morro a pé e ir pedir ajuda. Começámos a descer quando o Gunza me disse para eu ir à frente.

- Oh pá, és amigo da onça? Se eu for à frente e passar perto de uma surucuru (cobra venenosa) serei logo mordido. Não chefe, quem passa primeiro e não piza a cobra não morde e fica à espera do outro que passe. Só aí entendi o gesto nobre do meu fiel ajudante.


Igreja de Santa Comba (foto Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador)

Junto da estação diesel plantámos bananeiras de todas as qualidades que eu conseguia no colonato e que davam bananas para todos. O Gunza e o Paulino pediram-me autorização para plantar milho na área da estação na base do morro. Por curiosidade, vi como as mulheres deles (cada um só tinha uma) raspavam a terra do chão inculto até fazer um pequeno montinho com cerca de 50cm de altura. Depois com a ponta do pé abriam uma pequena cavidade no topo, deitavam algumas sementes de milho e voltavam a tapar. Achei estranho mas não disse nada, elas lá sabiam o que estavam a fazer. Quando chovia torrencialmente, a água arrastava do morro o húmus e alagava o campo que semearam mas nunca chegava ao nível do topo dos montinhos. Só então compreendi que o método deles para semear o milho naquela zona tinha a sua razão de ser.

Depois da chuva vinha um Sol brilhante e quente e dentro de dias o milho estava nascendo. Em pouco tempo, as plantas atingiam mais de 2 metros de altura carregadas de espigas.

As espigas estavam amadurecendo. Era boa altura para assá-las na brasa dentro da sua casca verde. Com manteiga eram saborosas. Aí os macacos não resistiam à tentação e vinham do morro em bandos para roubar o milho. Cada macaco não se contentava com uma só espiga. Levava uma numa mão e outra debaixo do braço. Incrível só vendo!

O Gunza e o Paulino não se conformavam e vieram ter comigo pedindo-me para dar cabo dos macacos que lhes roubavam o milho esforço de tanto trabalho das suas mulheres. No dia seguinte quando o bando apareceu peguei na espingarda e apontei-a a um dos macacos. Instantaneamente sumiram todos sem sequer me darem tempo para atirar. Achei estranho o comportamento dos macacos, pois eles não conheciam uma espingarda para fugirem daquela maneira.

No dia seguinte, logo pela manhã, repetiu-se a mesma coisa e, então, em vez de pegar na espingarda peguei numa vassoura e apontei com o cabo de madeira. Ninguém se mexeu. Como era possível os macacos distinguirem o pau de um cabo de vassoura de uma espingarda? Só havia uma explicação, para mim, na altura um entusiasta pelo estudo da Parapsicologia. Eu transmitia mentalmente aos macacos a minha intenção de agressividade quando empunhava a espingarda. Mas, como o milho deu muita canseira para semear, não podia estar à mercê da macacada por isso, cada vez que eles se aproximavam disparava um tiro para o ar para os dispersar. Não voltaram a aparecer.

Dias depois, numa visita de rotina à estação de rádio no morro o Gunza sempre atento ao que se passava, chamou-me a atenção:

- Chefe, "olha os filhos da puta dos macaco ladrão estão ali e o chefe deles está no cimo da árvore a ver".

Olhei para onde ele me indicou e realmente lá estava o bando da macacada e, o maior de todos, talvez o chefe, estava no topo da árvore a observar.

- Como é que tu sabes que eles são os mesmos que roubaram o vosso milho?

- "Oh chefe se não és ele mesmo és irmão dele". Percebi o que ele queria insinuar, que matasse o chefe do grupo. Parei o jeep deixando o motor a trabalhar em ponto morto para não chamar a tenção do bicho, abri a porta e, pelo intervalo, apontei a arma com mira telescópica à cabeça do macaco chefe e disparei. O bicho caiu imediatamente do cimo da árvore.


Jardim de Santa Comba (foto do autor 1964)

O Gunza desatou a correr não fosse o macaco escapar-se. Acompanhei-o. Lá estava o macaco caído no chão mas ainda emita uns sons roucos. Tive pena e dei-lhe um pontapé na cabeça para lhe acabar de vez com o sofrimento. Resultado, como usava botas leves de cabedal fabricadas na África do Sul, fiquei com o pé machucado por causa da dureza da cabeça do macaco. Era um bicho razoável com mais de um metro de altura. O Gunza carregou o macaco no jeep e quando chegou à estação diesel mostrou-o triunfalmente aos amigos dizendo-lhes:

- "Olha aqui o filho da puta do chefe dos macaco que comeu o nosso milho"!

Esfolou o macaco deixando-lhe a cabeça inteira agarrada à pele e colocou tudo a secar ao Sol. Todo o pessoal nesse dia comeu carne de macaco assada. Perguntei-lhe o que ele iria fazer com a pele do bicho. Então, respondeu-me:

- "Esse gajo era o chefe dos macaco que comeu o nosso milho então vou por a pele dele ao pé da minha cama e todos os dia quando me deitar e levantar vou pisar nela"!

No dia seguinte, na nossa visita à estação de rádio vimos outro bando de macacos. O Gunza apontou logo para o bando dizendo:

- "Olha chefe esses gajo são os outro e aquele que está na frente é o chefe, atira nele".

O bando estava a maior distância do anterior mas, mesmo assim, apontei a arma à cabeça do macaco. Dada a distância devo ter-lhe acertado no peito e não morreu logo. Por incrível que pareça os outros macacos carregaram com o chefe ferido e sumiram na mata com ele. Fiquei muito impressionado e nunca mais, nem mesmo com insistência do Gunza, atirei em nenhum macaco.

Pelo menos uma vez por mês tinha de deslocar-me a todos os repetidores para fazer a rotina (verificar o seu estado operacional) pois tratava-se das telecomunicações do Estado (CTT) usadas pelo público em geral para contactarem desde Luanda até Huambo e Huila. Era uma grande responsabilidade a minha, por isso, mais tarde causou-me problemas de stess. Gostava do repetidor do Calulo que estava instalado numa pequena elevação no meio de um cafezal. Quando o café estava em flor desprendia um cheiro muito intenso que me deixava meio "atordoado".


Jovem nua no morro da Cela (foto do autor)

Desde sempre fui muito interessado em conhecer os usos e costumes dos nativos angolanos e eles (os nossos ajudantes e os amigos) como tinham plena confiança em mim, contavam-me tudo o que sabiam. Como disse anteriormente, naquela altura em Angola era proibido o fabrico e destilação de bebidas alcoólicas mas os nativos faziam-no sempre às escondidas. Perguntei ao Gunza se ele sabia fazer o quimbombo e o que era preciso.

- "Chefe eu só precisa de farinha de milho, açúcar escuro, um tambor de 20 litros e um tubo de cobre para a destilação".

O milho conseguia ele comprar facilmente mas o aúcar e o cobre não lho vendiam porque desconfiam o fim a que se destinava. Então fui comprar 5 quilos de açúcar escuro (em bruto sem refinar) e o tubo de cobre. Fizemos um alambique com um tambor de 20 litros (usado para o óleo das viaturas) e com o tubo de cobre fiz uma serpentina. Em dois tambores separados colocou a farinha de milho com o açúcar para fermentar. Quando a fermentação atingiu o ponto adequado disse-me que era altura de fazer a destilação. Colocámos duas pedras no chão para suportar o tambor (alambique) e fazer o fogo. Enchemos o alambique com o material fermentado. Colocámos a tampa com a serpentina e acendemos o fogo começando a destilação. O primeiro líquido a sair na destilação era muito forte talvez a 60º enfraquecendo, como é óbvio, à medida que ia destilando e que ele comprovava pelo gosto ou se deitado no fogo ainda ardia. Repetiu-se o processo com o restante material fermentado. Ao todo destilou talvez um litro e meio de quimbombo ou mais.

O sabor era muito áspero comparado com a aguardente ou o brandy importados do Puto (Continente). O Gunza encheu umas garrafitas com o quimbombo que vendeu aos vizinhos e ele e o Paulino beberam o restante. Apanharam todos uma chibadela (bebedeira) danada.

No dia seguinte disse-me:

- Chefe, podemos fazer mais?

- Não, sabes que isso é proibido por lei e não podemos infringi-la porque a responsabilidade aqui é minha. Fizemos isso apenas para eu ver, agora vamos desmontar tudo. O Gunza não se conformou e disse-me:

- Chefe "esses gajo do Governo pensa que sabe muito mas nós podemos fazer quimbombo numa cabaça grande e uma cana de bambu".


Tumbas no "morro" da Cela por cima de uma grande pedra de granito.
Vêem-se as pedras grandes que fecham a entrada das tumba.
(foto do autor 1964)


O morro que sobrevoava que no cimo tinha as tumbas (foto Net)

- Está bem, faz isso onde quiseres mas aqui na estação não.

Sempre tive muito respeito pelas tradições do povo angolano. Quando a picada de acesso à estação de rádio no morro da Cela teve de ser reparada depois de uma grande chuvada, verifiquei que haviam algumas paredes que tinham sido reforçadas com pedras lascadas de pequeno tamanho o que me pareceu muito estranho. Perguntei ao encarregado onde tinham ido buscar aquelas pedras. Foi ali no morro, nuns montes de pedras que estão por lá. Fui verificar os tais montes de pedras juntamente com o Gunza.

- Chefe,  "esses gajo está a tirar as pedra das tumbas (?) (não me recorda do nome que ele lhe deu) dos sobas e dos outros que estão lá enterrados".

- Então explica-me lá isso para eu saber e evitar que por ignorância eles voltem a fazer o mesmo.

Quando morria um soba ou alguém importante no kimbo e como não tinham aqui pedras pequenas soltas no morro, fizeram uma fogueira por cima de uma grande pedra (granito) e depois deitaram água por cima. A pedra lascava-se e era com essas pedras que eles faziam a sepultura (tumba). Põem milongo (composto de ervas medicinais) no defunto para não apodrecer (mumificar), e sentam-no numa cadeira pequena amarrado com landobe (casca de árvore). Colocam junto dele algumas das as suas bicuatas (pertences de valor pessoal) e depois fecham tudo. Os tais montes de pedras são tumbas de sobas ou de pessoas importantes do kimbo. Por respeito, não pedi ao Gunza para abrir a entrada de um para verificar in loco o que estava dentro. Talvez nada ou só as bicuatas podres, porque tanto quanto sei, os africanos não tinham conhecimentos para mumificar como tinham os habitantes da América do Sul.

Mais tarde, quando andava a tirar o brevet, sobrevoei muitas vezes um enorme morro de granito (não me recordo do nome) que ficava perto da pista de Santa Comba, que daria milhões de toneladas de bom granito se fosse explorado. Verifiquei que no cimo havia uma espécie de piscina com água todo o ano e também muitas dessas tumbas.

Dei instruções ao pessoal para que nunca mais tocassem nos tais montes de pedra porque eram sepulturas (tumbas) de pessoas.

As estradas naquela altura ainda não estavam asfaltadas e não era fácil transitar na estação das chuvas mas já se verificavam obras nesse sentido. Acompanhei tudo a par e passo na minha zona de trabalho uma vez que andava frequentemente na estrada. Ainda estava em Santa Comba quando as estradas foram completamente asfaltadas desde Luanda até a Santa Comba prosseguindo até Huambo e depois Huila, interligando todas as principais cidades de Angola. O nosso trabalho ficou muito facilitado em termos de redução de tempo para reparar as avarias principalmente as provocadas por raios na Quibala.