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Como disse anteriormente, a minha esposa estava colocada numa escola em Luanda e, no fim do período escolar 62/63 conseguiu, por intermédio do director dos CTT, transferência para Santa Comba. Como naquela altura não era possível conseguir uma habitação na vila e, como estava hospedado na Pousada do Monte fomos a viver para um dos bungalows da Pousada.


Pousada do Monte em Santa Comba
(foto Memórias de Angola, João Loureiro)

Nessa altura já tinhamos dois filhos. A minha esposa foi colocada como directora da escola primária Maria do Resgate Salazar. Naquela altura, Santa Comba era um vila pequena com poucas casas comerciais onde os colonos do chamado Colonato da Cela com cerca de uma dúzia de aldeamentos iam fazer as suas compras. No colonato havia uma fábrica de queijo tipo flamengo que, em abono da verdade, não sei porque razão, não tinha grande qualidade. O técnico responsável pelo bom funcionamento da fábrica era um cidadão holandês meu conhecido. O queijo era conhecido em Angola como "Queijo da Cela".


Escola Maria do Resgate Salazar em Santa Comba (foto do autor).

Normalmente quando não havia problemas com o sistema de telecomunicações permanecíamos no edifício na base do morro onde estavam instalados os geradores que alimentavam o sistema.

Do nosso grupo que fazia caça submarina em Luanda, fazia parte o Carlos Betencourt Faria muito conhecido em Luanda por ter instalado na Mulemba o Observatório da Mulemba que era muito visitado por ter muitas coisas interessantes sobre ciência e outras coisas mais. Numa das visitas que frequentemente fazia ao meu amigo na Mulemba, contou-me que conseguia com uns receptores para onda curta que a marinha lhe tinha oferecido, escutar os satélites russos na banda de HF e, se a memória não me falha depois de tantos anos, parece que um dia escutou a voz de um astronauta russo cuja nave se estava desintegrando. Disse-me ainda que os americanos tinham instalado nos seus satélites emissores na banda de VHF 136 -138Mhz mas que naquela altura ele não tinha possibilidades de conseguir um conversor para essa frequência.

Fiquei entusiasmado com a ideia e, como eu era especializado em VHF, ser-me-ia muito fácil montar um conversor para essa frequência. Mandei vir o material dos EUA e montei o um conversor para a recepção das frequências entre 136 -138MHz. Dado o lugar onde me encontrava praticamente sem interferências, uma antena do tipo Yagi de 3 ou 4 elementos seria mais que suficiente. A recepção era feita no meu velho receptor Halicrafters que modifiquei para lhe aumentar a sensibilidade. Depois do equipamento instalado, quando tinha tempo, passava horas à escuta varrendo a frequência para ver se ouvia algum sinal. Os EUA estavam praticamente no início da exploração espacial.


Estação terminal VHF (diesel) vendo-se a antena Yagi vertical de 4 elementos,
o  campo de milho e as bananeiras.
Ao fundo os aldeamentos do colonato (foto autor).

Um dia comecei a ouvir um sinal talvez com 400-500Hz e que depois foi desaparecendo lentamente. Não havia dívidas que era o beacon de um satélite americano. Telefonei ao meu amigo Carlos relatando-lhe o acontecido. Ficou muito entusiasmado por eu ter conseguido. No dia seguinte ouvi novamente o mesmo sinal do satélite, gravei-o e enviei a fita magnética para a NASA afim de o identificarem e também oferecendo os meus préstimos para receber os sinais dos satélites em Angola se eles me fornecessem o equipamento adequado.


Escutando os satélites americanos na estação VHF (foto autor).

Tive como resposta a carta que podereis ler. Passaram a enviar-me frequentemente por via aérea as órbitas de todos os satélites que tinham no espaço. Havia um, o ECHO II, que era um balão com um diâmetro de 30 metros revestido com uma fina camada metálica para reflectir a luz solar e que se podia ver à noite a olho nu. Pelo cálculo da sua órbita verifiquei a hora que passaria à noite sobre Angola. Fui à estação propositadamente à noite para poder ouvir e provavelmente ver o ECHO II. À hora calculada comecei a ouvir o sinal no início com baixa intensidade aumentando à medida que se aproximava da vertical podendo até ouvi-lo no altifalante do receptor. Saí para o exterior da estação observando o céu. Então vi uma pequenina luzinha semelhante a uma pequena estrela movimentando-se na imensidão do espaço nocturno. Foi uma sensação inesquecível ! Era, naquele momento, o primeiro português em Angola ou mesmo no Continente que tinha escutado pela primeira vez não só o sinal do satélite americano ECHO II como também o tinha visto. Com o cálculo das órbitas era muito fácil escutá-lo nas horas certas.

No dia seguinte, comuniquei ao meu amigo Bettencourt o que aconteceu. Mais tarde, ele montou também no Observatório da Mulemba um sistema de recepção como o meu mas com uma antena mais potente e com equipamento que lhe permitia receber imagens dos satélites de metereológicos.


Carlos Bettencourt Faria

Infelizmente, em 1975, já em Luanda, durante a guerra civil entre os partidos, perdi contacto com ele e mais tarde soube que tinha sido barbara e traiçoeiramente assassinado à catanada no Centro da Mulemba. O Carlos era um investigador e o trabalho que fez no Observatório Mulemba seria apreciado em qualquer país civilizado mas não num país de assassinos e selvagens. Não faço ideia o que terá sido feito do material que existia no Observatório, provavelmente os camaradas cubanos certamente lhe deram algum destino.

Por fim conseguimos alugar uma casa na Vila que nos permitia um pouco mais de comodidade. Entretanto nasceu a minha filha no Hospital da Cela.


Eu com os meus dois filhos na casa que alugámos (foto do autor).

Quando alugámos a casa já podíamos cozinhar. Como na picada do morro no tempo das chuvas havia muitos colelhos e perdizes resolvi caçar alguns. Por incrível que pareça e muitas pessoas que me lerem pensarão que estou a inventar histórias da carochinha, era muito fácil caçar coelhos à noite na picada no cimo do morro. Ia lá à noite no jeep com o meu fiel ajudante Gunza. O capim, na picada estava alto e só se viam os trilhos deixados pelos rodados do jeep. Como tinha chovido, os coelhos apareciam na picada e corriam pelos trilhos não se escondendo no capim porque estava todo molhado. Diminuia a velocidade do jeep até parar mas deixando sempre o motor a trabalhar. Os bichos ficavam encandeados pelas luz dos faróis e paravam também. Então o Gunza saía do jeep empunhado um pau dirigindo-se para o coelho pelo lado escuro sem luz e, aproximando-se lentamente por detrás, desferia-lhe uma valentíssima porrada do pescoço e era uma vez um coelho. Caçávamos apenas o necessário. Esses bichos selvagens estavam cheios de carraças que era necessário tirar.

Com as perdizes o modo era diferente. Íamos ao morro em pleno dia e quando apareciam aos bandos também não gostavam de entrar no capim molhado. Corriam pelos trilhos. Abrandava a velocidade e depois parava o jeep deixando o motor a trabalhar. Como no caso dos macacos, abria lentamente a porta, sacava da arma e era um vez uma pediz. Estas aves selvagens estavam cheias de filária por baixo da pele mas depois de esfoladas davam um bom prato. É claro que o Gunza aproveitava sempre e insistia comigo para irmos ao morro todos os dias pois era certo e sabido que nesse dia havia caça para todos!

Não me recordo exactamente de quem partiu a ideia de se formar um Aero Clube na Cela. Juntámos alguns sócios e o capital para comprar uma avioneta usada ao Arero Clube de Moçamedes (Namibe), ao tempo suponho que por 150.000$00. Mandámos fazer-lhe uma grande revisão em Luanda e, por isso, ficou em condições de voar em segurança. A avioneta era um Piper Super Cruisier. O primeiro instrutor que tivemos era funcionário da Junta na Cela.


Avioneta do Aero Clube da Cela (foto do autor).

A primeira vez que voei na avioneta com o instrutor foi uma decepção. A avioneta tinha dois lugares: um à frente e outro atrás. O instruendo ia no lugar da frente. Sobrevoavamos um campo de arroz quando o instrutor puxando o manche para trás disse: assim sobe. Senti uma impressão desagradável e afundei-me no assento deixando praticamente de ver. Seguidamente, levando o manche todo à frente disse: e assim desce. Se não fosse preso com o cinto à cadeira bateria com a cabeça no teto. A sensação foi ainda mais desagradável que a anterior. Quando aterramos disse ao instrutor:

- Desculpe mas eu não dou para isto porque se fosse eu a pilotar a avioneta certamente me despenharia no solo porque eu até deixei de ver.

O instrutor esboçou um sorriso e explicou-me que se fosse eu a fazer aquilo não o sentiria assim. Mais tarde comprovei que ele tinha razão. Já tinha cerca de 10 horas de instrução quando numa manhã o instrutor me mandou voar para a pista da DTA na Cela. Nós tínhamos uma pista particular junto da vila de Santa Comba que tinha sido construída pela Junta. Disse-me para aterrar na pista mas fazendo uma aterragem curta. Seguidamente saiu da avioneta, fechou a porta e disse:

- Siga, de que está à espera? Fiquei surpreendido porque não esperava ser largado tão cedo e apenas lhe perguntei:

- Há quanto tempo você não toca no manche quando voamos? Respondeu-me que já alguns dias que ele nem sequer mexia nele. Perante essa resposta meti motor a fundo e descolei dando uma volta à pista e aterrando novamente, parando onde ele me estava esperando. Entrou e mandou-me voar para a pista junto da vila. Tinha à minha espera a malta toda e quando saí da avioneta despejaram-me um balde de água fria por cima. Era a tradição! Afinal todos sabiam que eu ia ser largado naquele dia. Fui o primeiro do grupo a ser largado.


Eu em Santa Comba com 32 anos de idade
quando tirei o "brevet" (foto autor).

Quando o tempo estava em condições, voava muitas vezes até à Quibala e, por vezes, fazia voos rasantes por cima dos camiões que transitavam na estrada. Uma dia um deles perguntou num restaurante da vila quem era o maluco que andava numa avioneta a voar por cima deles.

Estava pronto para fazer o exame final mas tinha de concluir pelos menos 30 horas de voo. Gastava as horas a voar por cima do arrozal treinando manobras mais complicadas entrando propositadamente em perda com a devida segurança, vir alto para a pista e perder altura rapidamente glissando para aterrar exactamente na cabeceira (início) da pista.

Antes do exame fizemos uma viagem até Novo Redondo (Sumbe) mas o instrutor disse-me logo. Eu vou consigo mas não toco em nada, você é que se tem de se desenrascar. E desenrasquei–me mesmo.

Chegou o dia do exame final mas apenas só para alguns os que estavam aptos. No dia marcado apareceu o examinador. Fiquei surpreendido, pois era o meu velho amigo Pinheiro antigo colega radiotelegrafista dos CTT que entretanto tinha ido para a DTA. Era uma pessoa avantajada e, por isso, lhe chamávamos imbondeiro. Quando entrou para a avioneta eu disse-lhe:

-É pá será que esta merda descola com os dois?

- Não te preocupes e toca lá isso para a frente. Meti motor a fundo e descolou mesmo. Demos uma volta à pista, mandou-me fazer as manobras clássicas a que já estava habituado e aterrámos. A partir daquele momento eu já era um piloto de teco-teco como dizem os nosso irmãos brasileiros. Passados dias recebi o brevet da Direcção dos Serviços de Aeronáutica Civil. Infelizmente esse meu amigo já não pertence ao número dos vivos. Morreu aqui em Portugal.


As minhas "asas" de piloto que guardo como recordação (foto autor).

Como já tinha feito 4 anos de permanência na estação de Santa Comba pedi a transferência para Luanda visto que o técnico que estava lá colocado era um novato. Como a esposa dele também era professora foi tudo muito simples. Trocaram de escola e eles foram viver para a nossa casa em Santa Comba e nós para a deles em Luanda na rua Paiva Couceiro em frente à Missão de S. Paulo.

As nossas bicuatas foram transportadas numa das camionetas dos serviços de abastecimento e nós fizemos a viagem num Fiat 800 que tinha comprado novo havia pouco tempo no Guedes & Almeida em Luanda. Como estava habituado a conduzir um Land Rover não me sentia em segurança num Fiat 800, por isso vendi-o e comprei um Peugeot 204.