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Em Luanda apresentei-me na Direcção dos Serviços de Telecomunicações e, seguidamente, fui para a Estação de VHF já minha conhecida (na imagem de satélite da Google Earth recente ainda se podem ver as árvores que mandei plantar faz mais de 40 anos mas a torre de 60 metros já não está lá), situada no Bairro dos CTT ao km7 na estrada da CUCA perto do musseque Sambizanga. Nessa altura já se estavam a fazer obras com vista à construção de uma nova estação com espaço suficiente para a instalação de novos equipamentos que já tinham sido encomendados. O sistema de telecomunicações por VHF era suficiente para o movimento telefónico da época até já com marcação telefónica automática substituindo a manual.

Seria também instalada uma torre metálica de 60 metros de altura que permitiria colocar antenas com maior ganho. Como a situação era completamente diferente de 1961 não necessitávamos coluna militar para nos acompanhar nas rotinas à Beira Alta. Entretanto, fui promovido a Técnico Principal de Telecomunicações.

Ficou concluída a nova Estação de Telecomunicações VHF e o equipamento da antiga foi todo transferido para a nova estação por partes para que as telecomunicações não fossem interrompidas. Como disse anteriormente, havia uma rede secundária de telecomunicações também por VHF entre Luanda, Caxito, Ambriz, Abrizete (N’zeto), Sazaire (Soio) e Cabinda. Esta rede era mais simples porque o tráfego telefónico ao tempo não o exigia. Mais tarde, a estação de Cabinda foi eliminada porque a Gulf Oil nos permitia comunicar pelo sistema scatter que instalou perto do Cacuaco.

Depois da estação pronta e estando tudo completamente operacional havia necessidade de formar novos técnicos para substituírem os antigos que iam sendo promovidos a uma categoria superior e para fazerem depois a manutenção das novas estações a instalar no futuro. Poucos anos depois fui promovido a Chefe de Serviços Técnicos de Telecomunicações.

Foram abertas inscrições para um curso de técnicos de telecomunicações para pessoal com pelo menos o antigo 5º ano do liceu. Por incrível que pareça mesmo sabendo que depois do curso quem fosse aprovado teria um emprego que de início era razoavelmente remunerado, inclusivamente no estágio, apareceu pouca gente. O curso teórico de electrónica especial já com vista ao trabalho em telecomunicações era dado pelo engenheiro chefe dos Serviços de Telecomunicações e a parte prática era dada por mim. Inclusivamente mesmo pessoal com curso médio e universitário de telecomunicações ia estagiar na Estação Central de Telecomunicações VHF em Luanda.

Sempre fui muito exigente com o pessoal que trabalhava comigo (cerca de 20 funcionários pessoal auxiliar incluído) no que respeitava a horários e desempenho porque eu era o primeiro a dar o exemplo mas quando era necessário ser compreensivo também o era e, por isso, era respeitado por todos.

A estação estava situada num terreno com uma boa área e protegido por pilares de cimento e arame farpado para segurança pois tratava-se do centro vital de telecomunicações por VHF de Angola. Por isso eu era o principal responsável e, quando algum técnico tinha dificuldade para a resolução de algum problema técnico com o equipamento, teria de ser eu a resolvê-lo.

Um dia veio ter comigo uma mulher nativa com talvez mais de 65 anos chamada Teresa provavelmente recomendada por um dos ajudantes para lhe dar licença para semear ginguba (amendoim) no terreno da estação. Ela provavelmente não teria outros recursos e a ginguba seria uma fonte de receita. Então eu disse-lhe:

- Teresa, o chão não é meu é do Estado mas como responsável não vejo motivo para que não possas semear aqui a tua ginguba. Vi na cara dela um sorriso de satisfação agradecendo-me comovidamente. A Teresa semeou a sua ginguba num espaço razoável cavando a terra todos os dias. Tão pronto amadureceu ia arrancando e depois de assada vendia cada lata pequena cheia por 2$50. Nós éramos os principais clientes da excelente ginguba torrada da velha Teresa.

Vendo o exemplo da Teresa, lembrei-me que poderíamos plantar toda a área do terreno da estação com árvores de fruto como fiz na Cela. E se assim pensei melhor o fiz. Na estação adequada comprava para consumo lá de casa caixas de mangas da ilha do Mussulo no Prior & Sobrinho situado perto do BCA. Quando comíamos as mangas deitava os caroços para o canteiro do quintal da vivenda onde morada na Maianga e dentro em pouco nascia uma pequena mangueira. Plantava-as em sacos de plástico pequenos cheios de terra. Fazia o mesmo com os cajus que trazia de Quiele que ficava a cerca de 30km de Luanda onde estava situado o nosso primeiro repetidor. Naquela zona havia cajueiros enormes de todas as qualidades.

Lembra-me um dia no início da minha carreira, quando fui para a manutenção e numa rotina à estação de Quiele, de um dos ajudantes ter colhido a castanha de um caju e me dizer para trincar com a casca. Resultado, fiquei com a boca a arder porque o suco da casca é tóxico. Quando se queima a casca da castanha de caju para assar não se pode respirar o fumo por ser extremamente tóxico. Como munandenga (principiante) aprendi a lição. Levava muitos cajus para casa para lhe extrair o sumo e depois bebê-lo bem fresco. Era uma bebida excelente tal como a kissangua de milho.

Por incrível que pareça, não fiz fotografias da Estação Central de VHF nem dos repetidores até à Beira Alta.

Falei com o pessoal auxiliar no sentido de plantar mangueiras e outras árvores de fruto no terreno da Estação. Não se mostraram muito receptivos por causa do trabalho que ia dar mas um dos mais velhos concordou com a ideia e, como era o mais velho, marcou de imediato o terreno onde deveriam ser abertos os buracos para plantar as árvores alinhando tudo devidamente. Diariamente cada um do pessoal auxiliar tinha de abrir uns quantos buracos para plantar as árvores. Pedi aos serviços para instalarem no terreno diversas torneiras com extensão para mangueira.


A nossa vivenda na Maianga na rua José Oliveira Barbosa nr. 22
(perto do rio seco) e os meus quatro filhos (foto autor 1971).


A nossa ex-casa actualmente e a escola da Maianga onde os meus filhos estudarm e a minha esposa dava aulas (2006).

Fui trazendo as árvores que tinha à medida que havia lugar disponível para plantá-las. Eram dezenas delas de diversas espécies, mangueiras, cajueiros, abacateiros, goiabeiras e até duas árvores de canela que trouxe de Cabinda. Depois de plantadas, veio outro problema, regá-las diariamente na estação seca enquanto eram pequenas.

Tive que ordenar turnos de serviço para a rega. Em abono da verdade, o pessoal nativo que trabalhava comigo eram trabalhadores e cumpridores mas quanto a trabalho extra mesmo sabendo que era em benefício deles tinham mangonha (preguiça) e não o faziam de boa vontade mas, o mais velho, com mais experiência de vida incitava-os a trabalhar. Como se tratava de um trabalho extra e diferente daquele para que foram contratados eu não poderia interferir oficialmente.

Foram plantadas mais de uma centena de árvores e, em pouco mais de dois anos, estavam a dar frutos de qualidade pois ali a terra era praticamente virgem e de boa qualidade. Um dia todo o pessoal auxiliar veio ter comigo:

- "Chefe, esses gajo vai roubar a nossa fruta à noite por isso é melhor ficar um aqui alguém para guardar."

- Ai é respondi, então agora é assim e quando não queriam plantá-las? Façam como entenderem tem a minha autorização para ficar à noite na estação.

E ficavam mesmo. Colhiam muitos quilos de belíssima fruta que dava para comerem todos, oferecer aos amigos e até para vender. Se alguém de Luanda que ler estas linhas for ao antigo Bairro dos Correios à Estação de Telecomunicações se é que ainda existe, verá o pomar ou parte que lá mandei plantar. Depois de 30 anos as árvores estarão enormes ou então algumas delas terão morrido. Naquela estação ficou parte de mim...

Por vezes alguém do pessoal auxiliar aparecia no trabalho com cara de caso (preocupado). Vendo isso, perguntava-lhe o que lhe tinha acontecido.

- Chefe o meu filho está doente tem febre e tosse e não dormiu toda a noite a chorar.

Como eu tinha quatro filhos pequenos, telefonava à minha esposa para saber o medicamento que ela dava aos miúdos num caso desses. Ela indicava-me o medicamento adequado para aquele sintoma visto ter experiência com os nossos quatro filhos. Escrevia-lhe num papel o nome do medicamento para ele o ir comprar na farmácia mas, como nem sempre tinham dinheiro para isso e eu dava-lho. Recomendava-lhe ir para casa medicar o filho rapidamente e que estava dispensado do serviço naquele dia.

No dia seguinte perguntava se o filho não tinha mais febre e tosse e se sentia melhor. Felizmente, quase sempre respondiam afirmativamente e agradeciam comovidos. Mas quando eu via que a coisa estava mais complicada mandava o condutor do abastecimento ir como o meu jeep a casa dele e levar o miúdo ao hospital. Nessa manhã eu ficava no terminal e não ia para a Direcção dos Serviços até o condutor chegar com a viatura.

Por vezes ainda de madrugada, um do auxiliares, normalmente era o Miguel (parece que morreu de cirrose), batia-me à porta de casa.

- Oh pá que queres a esta hora?

- "Sabes chefe morres-te o meu tio e eu tem de ir ao óbito dele mas não tem dinheiro para transporte. Faz favor empresta-me."

- Dei-lhe o dinheiro que me pediu e dispensei-o uns dias do trabalho para ir ao tal óbito.

Passados meses voltou a acontecer o mesmo e com a mesma desculpa.

- Olha lá, mas esse teu tio não tinha já morrido antes?

- "Chefe descurpa mas com esta foste só a segunda vez"!

Já depois do 25 de Abril, estava a dar explicações sobre o funcionamento dos equipamentos aos novos técnicos estagiários onde havia pretos, mestiços e brancos, quando um dos auxiliares o Zé Maria, armado em experto, me disse:

- "Chefe porque é que só ensinas esses gajo e a nós não"?

- Por uma simples razão, eles tem formação para aprender e tu não porque não estudás-te como eles.  Não ficou satisfeito com a respostas e contestou:

- "Mas eu es capaz de aprender também".

- Está bem, então junta-te a eles, vais ouvir as minhas explicações e, depois, vais responder ao que te perguntar.

Já sabia de antemão que ia dar bronca mas ele tinha de apanhar a lição para compreender que não havia preconceitos mas sim ignorância da parte dele. Acabada a explicação disse ao Zé Maria:

- Então explica lá o funcionamento desse painel. Como era óbvio não entendeu absolutamente nada.

- Fiz a mesma pergunta a um estagiário também preto o Ambrósio que estava a assistir. Respondeu correctamente.

- Então, agora, vais fazer o serviço que te compete aqui dentro e se quiseres aprender vai primeiro fazer um curso de electrónica como eles fizeram. O Zé Maria aprendeu a lição.

Algum de vós que sempre tratei com muita amizade tal como um pai, se por acaso tiverdes Internet (o que duvido) e lerdes estas linhas certamente me recordareis com saudade tal como aqueles que eu ensinei a fazer a manutenção dos equipamentos e que, provavelmente serão agora os chefes se lembrarão também.

Fui sempre muito interessado em conhecer as propriedades medicinais das plantas de Angola. Actualmente contacto pela Internet com o Brasil afim de conhecer as suas plantas medicinais. Conversei muitas vezes com o Sambo (filho) que infelizmente morreu de acidente na estrada quando ia de viagem para o Calulo. Por isso perguntava sempre ao pessoal aquilo que conheciam sobre as plantas medicinais de Angola. Aprendi muita coisa com eles que por saberem da minha sinceridade numa me esconderam nada.

A propósito de plantas medicinais, aconteceu um caso interessante uma vez que tive de me deslocar ao Ambriz para reparar uma avaria que o técnico não conseguia reparar dada a sua complexidade. Naquela altura já se podia viajar com segurança para o Norte o que era impensável em 1961/62.

Levava comigo um ajudante, o Pedro. Saindo da estrada principal asfaltada e quando me dirigia à estação repetidora de VHF reparei que no caminho de terra batida havia uma cubata grande onde na frente e à sombra, estavam sentados um nativo já com idade avançada com três fogosas mulheres rondando talvez os 30 e poucos anos cada uma com um filho ao colo. Olhei e disse ao Pedro. Não pode, este velho não dá conta destas três mulheres e para fazer os filhos deve ter um ajudante.

- "Oh Chefe, não fala isso os filho es mesmo dele."

- Tá bem, mesmo assim desconfiei que ali haveria milongo (medicamento) e tinha curiosidade em saber o que era. Evidentemente, se fosse eu a perguntar ao homem ele nunca me diria nada.

- Olha lá, vamos ver se conseguimos saber mas o velho não te vai revelar o segredo assim só. Vais comprar uma caixa de Cuca (cerveja) e ficas aqui com ele a conversar enquanto eu vou reparar o equipamento. Dei-lhe dinheiro para comprar a cerveja.

Demorei mais do que contava pois a avaria estava complicada e era já tardinha quando voltei a passar pela cubata do velho. Lá estava o Pedro e o velho à porta mas ambos chibados (bêbados).

- Então como é, perguntei.

- "Chefe no tens problema podemos ir".

O Pedro mal se aguentava de pé, despediu-se do velho e partimos rumo à capital. Ele ia ao meu lado mas tal era a chibadela que caía para cima do meu ombro. Mandei-o ir dormir para trás no jeep. Chegados a Luanda acordou. É pá lindo trabalho, então como é que tu ficaste assim dessa maneira?

- "Chefe ele bebeste eu bebeste até que acabas-te".

- Tá bem e o resto?

- "É chefe tens razão ele toma milongo para ter os pau direito e fazer os filho".

- Então qual é o milongo, perguntei. Disse-me o nome e que vinha de Malange.

Telefonei ao técnico de Malange que pertencia à minha área de chefia e perguntei-lhe se conhecia a tal planta. O pessoal auxiliar da estação ouvi-o pronunciar o nome do milongo e ouvi gargalhadas do outro lado.

- Porque é que o teu pessoal aí está a rir, perguntei?

- É porque eles conhecem essa erva e sabem para que serve.

- Então pede-lhes para arranjarem a erva e depois envia-ma para Luanda para eu ver. Infelizmente, algum tempo depois houve a guerra civil e ele nunca chegou a enviar-me o milongo que não era, como alguns hão-de pensar, a kikuala (pau de Cabinda). Isso é outra história!