19

Depois do Governo de Transição ter tomado posse e, apesar dos três presidentes nos seus discursos terem afirmado nos jornais e na rádio, que a Angola independente seria para TODOS aqueles que nela viviam e trabalharam para o seu desenvolvimento e engrandecimento que desejassem continuar a fazê-lo, (que foi sempre esse o desejo de todos), o nativo comum não estava minimamente preparado para entender isso nem mesmo aqueles que tinham mais alguns conhecimentos já não falando dos indígenas do interior que nem sabiam o que isso significava.

Depois de um discurso que houve numa das varandas do palácio a que assistiu um dos meus ajudantes, por cusiosidade e para saber qual o seu entendimento (que confirma o que acima disse), perguntei-lhe sobre o que ele tinha falado:

- "Chefe ele falaste, falaste, mas não disseste nada!"

Para a maioria do povo inculto que vivia nos musseques a independência, por incrível que pareça, significava fazerem o que quisessem como ficarem com todos os bens que os brancos tinham inclusivamente com suas mulheres. Em nenhum dos discursos que foram aqui transcritos se diz abertamente e em linguagem simples que a independência significava mais trabalho para todos para permitir uma maior redistribuição da riqueza (e não mangonhice) para não sermos dependentes do exterior e dos monopólios se bem que na altura já poucos havia.

Apesar de há anos haver em Angola ensino básico obrigatório, liceus e universidades para todos os que tivessem capacidade de prosseguir, serviços de saúde gratuitos, uma classe média e média alta de naturais de Angola alguns em colocados em lugares de destaque na sociedade e na política, trabalho para aqueles que quisessem e tudo o mais necessário para a vida quotidiana, havia sempre aqueles que doutrinados em comícios de musseque pelos comunistas do MPLA contestavam tudo como é hábito dos militantes dos partidos esquerdistas.

A partir desta data o comportamento dessa gente dos musseques mudou completamente alguns mesmo confrontando os brancos sem motivo que o justificasse só por provocação. Estava claro que havia uma doutrinação pelo MPLA nesse sentido porque Luanda era onde tinha mais influência.

Felizmente aqueles que sempre trabalharam honestamente quer no comércio, na construção civil ou noutras profissões e que sempre foram tratados por igual, o seu comportamento sempre foi o mesmo que anteriormente salvo raras excepções. O pessoal que trabalhava comigo sempre me estimou e me obedeceu até ao dia que resolvi regressar a Portugal.

Foi sugerido filiar-nos num dos três partidos conforme a nossa ideologia política. Eu escolhi a UNITA porque acreditava em Savimbi e detestava os comunistas porque conhecia perfeitamente a sua maneira de actuar no mundo e a história veio dar-me razão. O Comunismo actualmente é um defunto e só os mais fanáticos continuam com um comunismo disfarçado de capitalismo como os chineses.

Coloquei numa das minhas janelas um cartaz do Galo Negro mas quando em Luanda os partidos começaram a guerrear-se apressei-me a retirar o galo do poleiro. Um meu vizinho que era militante da FNLA viu a sua casa assaltada por gente do MPLA deixando só as paredes nuas porque até as portas levaram.

O que ainda restava das tropas portuguesas assistiam impávidos aos saques. Isto foi muitas vezes presenciado por mim. Até dava raiva tanta humilhação!

O MPLA nessa altura não tinha praticamente tropa armada e foram os tais presos políticos libertados das cadeias alguns criminosos presos por delito comum, que foram engrossar as fileiras dos heróicos combatentes do MPLA. Rosa Coutinho e os seus camaradas depois de parte significativa das nossas tropas se terem retirado entregaram ao MPLA as armas do militares portugueses, fardamentos, rações e todo o mais que restou. Agora imagine-se uma G3 nas mãos de um criminoso! Mais tarde, quando as tropas portuguesas retiraram a maior parte dos soldados nativos que serviram no exercito português passaram para o MPLA com todo o armamento.

Um meu amigo com quem contacto quase diariamente e que ficou lá algum tempo depois da independência, quando terminou o contrato com a firma onde trabalhava um dos seus empregados com quem tinha mais confiança disse-lhe se não queria trazer para o Puto uma G3.  Recusou.  Imagine-se sair de Angola ou entrar em Portugal com uma G3! Por curiosidade preguntou-lhe onde ele tinha conseguido a arma. A resposta foi imediata: foi o Rosa Coutinho que as mandou distribuir pelo povo! Mais tarde, veio a saber que o empregado era simpatizante da FNL e foi assassinado. Afinal o homem o que queria era desfazer-se da G3.

Uma manhã ia para a estação de telecomunicações e, para encurtar caminho, subia a avenida do Brasil e voltava junto ao hospital dr. Américo Boavida (na altura Hospital Universitário) por uma rua junto ao musseque sambizanga que ir dar à rua da Cuca e ao Bairro dos Correios onde estava instada a estação de telecomunicações. Saiam densas nuvens de fumo do meio do musseque e as casas dos comerciantes que ladeavam a rua estavam todas a arder. Junto das casas vi automóveis também arder com brancos lá dentro já carbonizados, provavelmente os comerciantes e as famílias que tentaram escapar. Era uma visão apocalíptica. Nem queria acreditar no que via! Para mim, o que estava vendo, destruiu imediatamente a intenção da paz tão apregoada pelo MPLA e pelos restantes partidos.

Não obstante todos esses problemas havia liberdade de expressão tal como havia em Portugal senão mais ainda. Para atenuar um pouco as complicações surgidas no dia a dia ia de vez em quando ao cinema ver filmes que nunca até então tinham sido autorizados a projectar tal como o filme erótico Emmanuelle e outros mas foi este filme que foi projectado no cinema Avis que ficava no bairro "chique" do Alvalade perto da minha casa na Mainga que mais apreciei. Ainda hoje recordo com saudade este excelente filme que actualmente tenho em DVD na versão original e do qual podereis ver a introdução.

Como de costume ia com, o jeep Land Rover dos serviços que me estava distribuído. Um pouco mais adiante, estava colocada na rua uma barricada com as bicuatas dos comerciantes brancos a arder. Olhei para o lado do mussseque e vi um grupo de nativos armados com catanas que, apontando o jeep diziam: "Vem ali mais um filho da puta do branco, vamos matar o gajo". Vendo o perigo, abrandei a marcha e aproximei-me lentamente da barreira a arder. Parei. Os pretos já vinham a correr para me lincharam. Fechei as janelas das portas, meti o reforço na caixa de velocidades do jeep, a seguir a primeira e acelerei a fundo. Levei tudo à frente do jeep num mar de chamas mas passei a barreira. Olhei para trás abri a janela e fiz-lhe o manguito. Tive sorte eles não terem uma arma automática caso contrário ficaria lá como os outros brancos a estorricar dentro do carro. Era a barbárie instalada com o consentimento do MPLA. Era este o comportamento dos heróis do MPLA tal como foi os da FNLA em 1961.

Para vos mostrar a estupidez e ignorância desses soldados de ocasião do MPLA vindos das cadeias, vou contar um caso que mais parece uma anedota mas que foi real. Uma manhã quando ia com o meu ajudante no jeep pela rua da Cuca que ir dar à estação de telecomunicações, um miúdo pioneiro do MPLA armado com uma arma feita de madeira, foi para o meio da rua e fez-me sinal para parar.


O descalabro! Pioneiro do MPLA (1975)

- Disse ao meu ajudante: - mas que é que esse puto quer? Vou lá fora e dou-lhe um tapa no focinho.

- Chefe não faz isso olha para quem está ali. Olhei para onde me indicava e vi dois soldados do MPLA armados com G3. Um deles aproximou-se do jeep e disse-me para sair porque queria revistá-lo para ver se eu trazia armas. Saí e disse-lhe:

- Não sabes de quem é este jeep? É do Estado.

- Sei bem, ele é nosso mas quero ver se tens armas. Seguidamente revistou o carro e encontrou um desmonta que sempre trazia para poder substituir um pneu na estrada em caso de um furo numa roda. Pegou no desmonta e voltando-me para mim disse:

- Para que é isto? "Para bater nos preto"?

- Então não vês que isso é para desmontar os pneus do carro? Concordou. Entretanto encontrou um pedaço de cabo telefónico semelhante a um cacetete de um polícia que eu trazia no jeep porque era a única coisa com que me poderia defender.

- E isto para que é? "Este é mesmo para bater nos preto, tás fodido branco da tuge (merda) ". Tinha que conseguir uma desculpa rapidamente senão iria ter problemas.

- Já viste a chapa vermelha que está à frente do carro?

- "Já viste és dos correio".

- Então de quem são os telefones? Não sabes o que é um telefone?

- "Já viste muitos terefone es dos correio".

- Com que trabalham os telefones, perguntei.

- "Com os fio". Então olha aí para dentro do cabo, o que tem lá?

- "Tem os fio"

- Então é para bater nos pretos? Este cabo é para substituir um que está avariado. Conformou-se e deixou-nos seguir. O meu ajudante ainda assustado e   mal acreditando no que tinha presenciado olhou para mim e disse:

- "Estes gajo es mesmo burro estamos fodidos!"

Quando cheguei à estação contei o sucedido ao pessoal e disse que se assim continuasse, teria que ir para Portugal porque estava a arriscar a minha vida. Estávamos já em Outubro de 1975. Eles nem queriam acreditar que eu me iria embora e um deles perguntou-me:

- Chefe e quem vai ficar aqui ? Indiquei-lhe um técnico angolano mestiço que eu tinha ensinado mas sabia de antemão que ele não daria conta do recado.

- O quê? "Esse mulato vais ser o nosso chefe, não pode!" Tá bem disse, então quem é que aqui mais sabe fazer isso? Silêncio.

Nesse dia à tarde estava eu mais o meu ajudante à porta da entrada do bairro dos Correios porque houve algum problema na rua. De repente um gatuno sem que eu visse, deita a mão ao meu relógio de pulso que era um cronómetro que usava para mergulhar e voar desatando depois a fugir. Naquela altura para mim era fácil deitar-lhe a mão mas o meu ajudante agarrou-me.

- Chefe pára, olha quem está ali. Dois soldados do MPLA armados impávidos e serenos com um sorriso nas fuças pelo que acabavam de presenciar.

Fiquei sem o meu cronómetro que me ajudou nos bons e nos maus momentos quando voava ou mergulhava. Quis comprar outro relógio mas já não havia. A única ourivesaria aberta onde fui, tinha vendido (estupidamente) todo o ouro e os relógios restando apenas uns despertadores baratos. Comprei o mais pequeno para o trazer no bolso atado com um cordel ao cinto. Mais tarde em Lisboa, encontrei o proprietário da ourivesaria e perguntei-lhe porque razão tinha vendido o ouro e os relógios em vez de os trazer para Portugal. Respondeu-me que pensava que poderia trocar os escudos angolanos por escudos portugueses. Infelizmente para ele os escudos angolanos naquela altura em Portugal nem para limpar o cú serviam!

Foi feito um aviso pela rádio e nos jornais para que todos os brancos entregassem as armas que tinham em casa. Era uma maneira de nos desarmar. Constava que isto tinha sido ideia do almirante vermelho Rosa Coutinho. Peguei nas munições e fui deitá-las ao mar na baía. No dia seguinte fui entregar a arma na Direcção Geral da Polícia que era mesmo em frente à Direcção Geral dos Correios. Na altura já só tinha em casa uma pistola Bereta 7,65 que tinha comprado para a minha mulher ainda estávamos na Cela. Era uma arma muito boa e na altura o melhor que havia para trazer no bolso porque era muito leve. Este calibre não era permitido em Portugal por ser o usado pelas forças de segurança por isso, não podia trazê-la.

É claro que não lhes iria entregar uma arma a funcionar como muitos fizeram. Para a inutilizar retirei-lhe a mola do percutor e guardei-a no bolso. Atendeu-me um subchefe preto buçal auto-promovido porque a maior parte do pessoal branco já tinha dado o fora.

- Venho entregar esta arma. Recebeu a arma e a primeira coisa que fez foi puxar a culatra para trás e vendo que não tinha bala na câmera premiu o gatilho. Nada.

- "Este pistola está estragado para que serve"?

- Então que esperava, que eu lhe trouxesse uma arma a trabalhar, não?

- "Se estivesse boa ainda comprava pra mim".

- Aí eu respondi: e quanto dava? Não me recordo quanto ofereceu.

- Está bem, ponha aí o dinheiro no balcão. Foi à gaveta do dinheiro (do Estado) e colocou as notas em cima do balcão. Guardei-as e sacando do bolso a mola entreguei-lha junto com a documentação.

- "Estes branco são mesmo fodidos exclamou! Dei o fora.

Um dia o engº Chefe dos Serviços de Telecomunicações manda-me chamar e fomos ambos ao Director Geral dos Serviços. Quando entrámos no gabinete o Director disse-me:

Todo o sistema de telecomunicações Salazar (N’dalatando) até Uige está parado e precisamos de o por a funcionar. Eu era o Chefe responsável pela Zona Norte de telecomunicações. Veja o que pode fazer e, dadas as circunstâncias, não é uma ordem mas faça o que puder.

Cheguei ao terminal, reuni os técnicos que ainda restavam e perguntei quem se oferecia como voluntário para ir reparar o equipamento. Silêncio, até que um disse:

- Se o Chefe for eu vou também.

- Se é assim eu não preciso de ninguém vou eu mesmo. Precisava também um técnico de motores diesel e o meu antigo companheiro da Cela (também piloto) que na altura estava colocado em Luanda ofereceu-se imediatamente para me acompanhar.

Dias antes o camião de abastecimento de gasóleo tinha partido para abastecer as estações do Norte acompanhado de tropa portuguesa e de pessoal do MPLA e da FNLA.

Dei a resposta ao Director e, no dia seguinte, transportando os aparelhos de ensaio e as ferramentas comparecemos no aeroporto onde nos esperavam dois helicópteros Alouete. Voámos até Salazar e pousamos para recolher o técnico de rádio que ainda estava lá que conhecia bem a região e mais dois elementos dos movimentos, um do MPLA e outro da FNLA para nos acompanharem.

Voámos sempre rente às copas das árvores. Sem protecção para os ouvidos dentro do helicóptero era um barulho infernal. Pousámos no repetidor do Negage junto à estação que ficava num morro. Foi preciso muita perícia dos pilotos para conseguiram pousar no local devido às espias dos mastros das antenas. Acabado o serviço e vendo que o equipamento estava a trabalhar nas devidas condições eu e o técnico diesel estávamos a conversar à porta da estação. De repente apareceu uma carrinha aberta conduzida por um branco com soldados da FNLA com uma bazuca.

- Quem autorizou aterrarem aqui? Vou partir essa merda toda, apontando a bazuca para os helicópteros. Eu respondi que nós éramos técnicos e não tínhamos nada a ver com isso só reparámos os equipamentos. Entretanto chegaram os pilotos e os dois homens do MPLA e da FNLA. Reparei que o homem da FNLA trazia uma faixa vermelha na cintura.

- O homem da FNLA que trazia a bazuca volta a perguntar quem tinha dado autorização para aterrarem ali os helicópteros. O da FNLA que nos acompanhava era certamente mais graduado e respondeu-lhe que quem mandava ali era ele e que se fosse embora imediatamente. O outro ainda retorquiu: mesmo assim deviam ter avisado.

Depois de saírem e a sós com os pilotos que eram tenentes aviadores eu disse-lhe:

- Afinal o que se passa, vocês já não tem controle nisto?

- Infelizmente não, até estamos proibidos de trazer armas nos helicópteros e faz pouco tempo que um dos nossos colegas morreu por causa de não se poder defender. Fiquei passado, aonde tínhamos chegado!

Dali seguimos para a base aérea do Negage onde almoçámos na companhia dos dois elementos do MPLA e da FNLA. A comer comportavam-se como autênticos buçais que eram. Estavam ainda estacionados na base alguns aviões mono motores que nós chamávamos de "cauda vermelha" e que provavelmente lá terão ficado (?).

Dali seguimos para Carmona (Uige). O técnico já tinha dado o fora. Verifiquei os equipamentos e pareceu-me tudo normal. Chamei para Luanda e estava efectivamente tudo a trabalhar bem. Uige era uma cidade deserta e só se viam nas ruas as putas que vieram do Congo que invadiam tudo. Até que eram mulheres jeitosas! Um maluco dono de um restaurante ainda por lá tinha ficado e foi o que nos valeu para comer. Dormimos lá num colégio que estava deserto e já não me recordo quem ainda estava por lá.

No dia seguinte regressámos a Luanda voando sempre a rasar as árvores, deixando as telecomunicações a trabalhar entre Uige e Luanda. Trabalho inglório porque dias depois tudo parou. Soubemos então que os gloriosos nacionalistas do povo tinha roubado o gasóleo dos depósitos e, por isso, os geradores pararam de fornecer energia e todo o sistema parou. Com gente deste espécie nada mais havia a fazer. Tinham o que mereciam.

A vida em Luanda estava cada vez estava pior e era um problema já não digo para viver mas sobreviver. Na Direcção dos Serviços de Telecomunicações já só lá estavam, o chefe da secretaria, a dactilógrafa (preta) e um colega da mesma categoria que eu como subchefe. Sempre nos demos bem. Ambos era mestiços e militantes do MPLA. Mais tarde encontreio-os em Lisboa no Rossio ambos também aposentados com uma pensão do Estado Português. Afinal mesmo como militantes do MPLA parece que foram considerados persona-non-grata.

Havia prepotência mesmo daqueles que tinham mais instrução pois já se julgavam os senhores da terra e com direito a tudo. Uma tarde estava no Baleizão a beber umas cervejas e à minha frente estava um grupo de angolanos (pretos) a beber e conversar. Pela conversa depreendi que eram militantes do MPLA e trabalhavam para o Governo Provisório provavelmente como subalternos. Quando acabei de beber um deles levantou-me e veio ter comigo e de modo autoritário disse-me:

- Leva-me ao Palácio.

- Eu respondi-lhe. O jeep não é táxi e eu não sou motorista. O carro é do Estado mas eu sou o responsável.

- O carro é nosso por isso posso usá-lo.

Para que conheceu o Baleizão, havia uma rua com calçada muito estreita e íngreme que só tinha sentido descendente e ia dar à rua da Fortaleza. Eu tinha o jeep estacionado no fim da rua mesmo junto ao bar. Pensei cá para comigo se não levo este gajo ao palácio vou ter problemas mas tenho de lhe dar uma lição para lhe acabar com a prepotência.

- Está bem, entre no carro.

Andei um pouco para a frente para endireitar o jeep no centro da rua, verifiquei se não vinha ninguém a descer, meti marcha atrás e acelerador a fundo porque de jeeps conhecia eu bem das picadas. O homem vendo aquela manobra arriscada de preto ia virando branco!

- Pára aí, você é maluco e ainda me mata. Voltei para a minha cerveja e ninguém mais me chateou.

Já tinha pouca comida em casa e nos restaurantes não prestava por ser de má qualidade e um dia até o peixe estava estragado. A dactilógrafa cujo nome me abstenho de divulgar disse-me:

- Chefe hoje não tenho dinheiro para comer. Não faço ideia o que ela fazia ao seu vencimento mas parece que gostava de beber uns copitos ou coisa parecida.

- Bom, então só temos uma solução: - eu tenho arroz e azeite em casa mas conduto não há. Como tenho uma cana de pesca vamos até à ilha pescar e depois grelhamos o peixe e comemos com arroz. Já não tinha nada que fazer nos serviços pois o sistema de telecomunicações estava todo parado. No Norte já sabemos porque motivo mas no Sul foram os técnicos que por não poderem aguentar mais deram o fora por isso, tinha tempo de sobra para pescar.

Fomos para a ilha de jeep e ela foi apanhar mabangas na praia para isco. Nos pontões de pedra da ilha de Luanda havia muito peixe e eu sabia muito bem onde porque fazia caça submarina. Em menos de uma hora tínhamos bom peixe para comer ao almoço mas faltava o vinho. Então ela disse que poderia conseguir os garrafões de vinho que quisesse, bastava ir com ela ao musseque onde morava.

- Tens a certeza de que não há problemas? Olha que eu já me safei de uma e não me quero meter noutra. Tenho quatro filhos para criar. De certeza Chefe vem só comigo. Eu não sabia que ela era militante do MPLA.

Fomos de jeep ao tal musseque do qual já não me lembra do nome. Quando entrei tinha andado ainda pouco quando ouvir dizer. Oh ..... ainda andas com o colono?

- Ela respondeu: cala a boca este não é um colono é o meu chefe.

Chegados à casa do fornecedor bateu à porta e quando a abriram o homem um preto também, olhou-me com cara de espanto mas ela disse-lhe:

- Camarada, este é o meu chefe e não é um branco como os outros. Queremos comprar dois garrafões de vinho. Dentro de instantes tínhamos o vinho no jeep e fomos almoçar. Dali para a frente quando precisava comida íamos ao musseque ao fornecedor que tinha de tudo, desde rações de combate e outras comidas enlatadas até aos garrafões de vinho, etc. Era mais que evidente que eu sabia perfeitamente de onde tinha vindo aquilo tudo mas não o comentei com a minha amiga.

Aqui está uma prova mais que evidente de que o camarada Rosa Coutinho permitiu o saque dos armazéns da tropa depois de parte dela ter abandonado Angola.

Havia ainda um problema para resolver que me preocupava. Tinha que enviar para Portugal o meu carro particular um Citroen DS20 2.000 (boca de sapo) quase novo. Andava por lá um gajo do MPLA a cobiçá-lo mas eu nunca deixava as chaves em casa nem os documentos. Para o enviar necessitava um comprovativo de que eu vinha para Portugal e o último barco italiano que iria carregar viaturas viria dentro de dias. Tive que comprar uma passagem via aérea para Lisboa que nunca usei para poder embarcar o carro. Tratei da papelada e no dia marcado retirei gasolina do depósito deixando apenas a suficiente para chegar ao barco e pouco mais. Um amigo foi comigo para me trazer de volta. Era já o entardecer quando o meu carro entrou no barco italiano.

No dia seguinte o camarada do MPLA passou por lá para ver se a máquina ainda lá estava. Eu estava à porta de casa e quando ele passou disse: - querias! Já vai a caminho do Puto, anda a pé porque não tens categoria para um carro daqueles. O gajo ficou com uma tromba danada. Escrevendo actualmente estas memórias e relembrando o que passei, penso que dada a minha atitude de não submissão e sempre de cabeça erguida não ter tido problemas com os camaradas dos MPLA.

Já nessa altura se viam cubanos em Luanda. Um dia uma moça cubana passou junto à nossa porta e numa das varandas estava uma velha cadeira de vime. Ela perguntou se estávamos interessados em vendê-la. Oferecêmo-la. Isto era prova mais que evidente que já nessa altura havia camaradas cubanos infiltrados em Angola para ver o que se passava. Mais tarde viria a confirmar-se que vieram cerca de 30 mil cubanos a prestar ajuda ao MPLA nas costas dos outros partidos.

Sempre ficarei grato a esta minha amiga e ao técnico estagiário ambos angolanos de raça negra mas que com a sua influência como militantes do MPLA me ajudaram a resolver muitos problemas burocráticos da minha esposa e meus que de outra forma seria muito difícil solucionar.

Meti algumas bicuatas em caixotes como a geleira, máquina de costura, o televisor, os meus aparelhos de ensaio e ferramentas, as camas do miúdos, o aparelho de ar condicionado e pouco mais. Encarreguei um dos técnicos que ainda lá ficaram para me levar ao porto os caixotes. O ar condicionado como era o caixote mas pequeno foi imediatamente roubado mas os outros felizmente chegaram. Falarei nisso mais tarde. O resto das bicuatas mobílias incluídas ficaram com o técnico angolano que trabalhou comigo.

Cheguei ao limite e disse-lhes que me ia embora. O técnico estagiário ficou na minha casa e à dactilógrafa não sei o que lhe terá acontecido. No dia 26 de Outubro de 1975 disse ao técnico que me iria substituir na chefia que não dissesse nada. Eu levava o jeep para o aeroporto e depois ele iria lá buscá-lo indicando-lhe onde deixaria as chaves. Fui um dos únicos técnicos brancos que sempre usei a viatura dos serviços até ao fim aos outros foi-lhes retirada.

As inscrições para embarque eram feitas com antecedência e depois as pessoas eram chamadas pela rádio. No meu caso quando apareci no aeroporto o responsável militar perguntou-me se já tinha sido chamado. Disse-lhe que que não mas corria risco de vida. Concordou em incluir-me no próximo voo num DC10 americano. Passei a noite no aeroporto. De manhã chegou o avião e embarquei rumo a Lisboa. Quando o avião levantou voo olhei para trás para ficar para sempre na minha memória aquela terra a quem tanto dei e nada recebi !