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No livro "ANGOLA, Anatomia de uma Tragédia", Oficina do Livro, General Silva Cardoso, que foi o último Alto Comissário de Angola, diz o seguinte:

"Entretanto, face à ligação do MPLA às estruturas do MFA, a presença portuguesa poderia conduzir a uma posição ainda mais reforçada do MPLA. Para além das frequentes acusações da cooperação das FAP com as FAPLA, o que não deixa de ser verdade em casos isolados, por vezes difíceis de discernir, a realidade era que as acusações da FNLA não cessavam; a ligação da CPPA e estruturas do MFA, em Angola, com os dirigentes do MPLA, era claramente evidente. Pessoalmente, não tinha quaisquer dúvidas: as visitas de Agostinho Neto e outras figuras destacadas do movimento a Lisboa e os contactos que mantinham com entidades oficiais eram mais uma prova do posicionamento nacional em relação aos movimentos; a cópia da carta onde o Bureau Político do MPLA pedia ao Alto-Comissário a prisão e expulsão dos ex-elementos da PIDE/DGS, enviada directamente para o Conselho da Revolução, era mais um testemunho do apoio que o Governo português concedia a este movimento. Por estas e outras razões, nem a UN1TA, nem FNLA pretendiam a presença portuguesa em Nakuru onde até poderiam introduzir alterações ao Acordo do Alvor com reflexos nas responsabilidades de Portugal, em todo o processo".

Em Histórias Secretas da Pide/DGS, Bruno Oliveira Santos, pg. 100 :

"Em Julho de 1975, milhares de soldados cubanos começaram a desembarcar em Angola, que era ainda território nacional. A libérrima imprensa portuguesa não dedicava ao assunto una única palavra. Trinta mil soldados estrangeiros em solo português não eram notícia para quanto a flibusteiros da informação enxameavam as redacções dos jornais portugueses e propagavam a verdade que tínhamos direito.(...) Na capital, e com a prestante cumplicidade do Governador Rosa Coutinho, o MPLA recebe da União Soviética dezenas de tanques T-55, baterias de artilharia e mísseis, além de operadores da radar e aviadores."(...).

Não há dúvida de que o MPLA per se no terreno não tinha força logística e material, por isso, introduziu no país com o consentimento dos mais radicais esquerdistas do MFA que estavam interessados em entregar Angola aos camaradas do MPLA por serem da mesma cor politica, toda a espécie de material bélico actualizado ficando, assim, em vantagem sobre os outros movimentos. Os outros partidos como a FNLA e Unita não o desconheciam com veremos a seguir. Inevitavelmente isto iria, como mais tarde se verificou, dar em conflito armado entre o MPLA e os restantes partidos com a funestas consequência para Angola e as suas gentes e para nós os portugueses. A cegueira ideológica desses elementos extremistas do MFA, do qual destacamos Rosa Coutinho, não lhe permitiu medir as consequências futuras. É certo que a FNLA antiga UPA não era bem vista pelas atrocidades que cometeu em 1961 no Norte de Angola mas, havia a UNITA que era mais moderada se bem que o seu presidente Jonas Savimbi nos seus discursos em umbundo, dizia uma coisa para preto ouvir e outra bem diferente para os brancos. Isto foi-me confirmado por um vizinho e amigo que na altura era Administrador de Circunscrição, por isso sabia umbundo e teve ocasião de ver in loco alguns comícios de Jonas Savimbi.


Holden Roberto, foto Prv. Angola 1975)

"No dia 15 de Maio de 1975, o jornal a Província de Angola publicava um artigo de Holden Roberto "Encontro de Holden Roberto com a Imprensa". "O QUE ME INTERESSA PRIMEIRO DO QUE TUDO É A LIBERDADE DO MEU POVO".

"A Entrada de armas em Angola" – A questão de entrada de armas em Angola. – Acho que isso são casos a resolver pelo Governo de Transição. Há aviões que aterram em Angola, barcos que desembarcam armas em Angola. Não sei qual é a margem da actuação do Governo de Transição, mas são coisas que deveriam ser resolvidas por esse Governo. Tudo isso faz parte de um "complot", porque não creio que o Governo e o Exército portugueses não estejam ao corrente da chegada desses barcos e desses aviões. Acho que o Governo de Transição deveria desempenhar o seu papel para que as armas não pudessem entrar em Angola. Porque quando as armas entram é para matar angolanos. E isso não podemos admitir.

Queremos Paz em Angola. Lutámos 14 anos e ficou decidido em Portugal que o processo de descolonização de Angola se deveria fazer em Paz. Foi essa linha de conduta que a FNLA sempre seguiu. Quando as nossas tropas chegaram a Luanda foi com essa missão: manter a Paz.

Durante um certo tempo fizeram isso, mas depois houve manobras e provocações. Continuarem a entrar armas em Angola é uma prova de que as provocações vão continuar.

ROSA COUTINHO. A sua opinião sobre Rosa Coutinho?

- Conheci o sr. Rosa Coutinho em 1961. Ele foi prisioneiro da FNLA. O sr. Rosa Coutinho, a chorar, a dizer-me que era mandado, que não era responsável, que era militar na Marinha, capitão de fragata ou tenente, não sei. Hoje depois de ter servido o fascismo, hoje, o sr. Rosa Coutinho diz-se progressista. Em Portugal, durante o jantar que o Presidente da República Portuguesa ofereceu aos elementos das Delegações dos Movimentos da Libertação, o sr. Rosa Coutinho falou. Realmente o sr. Rosa Coutinho, sabe falar, fala muito. Houve um Ministro que estava ao seu lado e que lhe disse: foste corrido de Angola não foi? Todos nós ouvimos...E acrescentou: tu não és político. É melhor não falares, porque cada vez que falas, abres a boca e só dizes asneira. Defini quem é o sr. Rosa Coutinho.

A diferença que existe entre o sr. Rosa Coutinho e o general Silva Cardoso, é que apesar da tarefa deste não ter sido fácil, é difícil, conseguir até agora desempenhar o seu papel. Tem cometido os seus erros. É normal, pois num trabalho destes, os erros não podem ser evitados. Mas reconhecemos uma coisa: até agora tem feito o que lhe é possível".

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Savimbi no Huambo (foto Jornal Comercio 1975)

"No Jornal O Comercio, de 28 de Abril de 1975 na primeira página. Presidente da UNITA no Comício da Cidadela. RECONHECIDA A INDEPENDÊNCIA PARA QUÊ A CORRIDA ÀS ARMAS?

Comício da UNITA foi mais do que acontecimento na tarde luandense. "Muata" Savimbi chegara à capital um ano após a promessa da libertação, para saudar o povo e não só. Para lhe trazer palavras de ordem do seu movimento, ou aproveitar a conjuntura do momento para, também, analisar a situação política deste portentoso país que nasce e mãos alheias pretendem lançar na desordem interna com o malévolo fito de se aproveitarem. O mensageiro da paz tem estado atento. E pronunciou-se de uma forma que não dá lugar a desmentido. A dor ultrapassada pela necessidades dos momentos políticos que chamou a si com a garra de um líder e o amor de verdadeiro filho do povo lutando pela promoção dos mais humildes, dr. Jonas Savimbi fez comício de longo significado. Deu razão e também criticou. Atacou e fez elogio. Reconheceu a verdade mas não poupou à denúncia os que, obnubilados pela farsa dos profissionais do anarquismo internacional como forma de vingar ideologias e confundidos pela cultura apressada e mal digerida, entenderam conjugar não em mor do povo mas para satisfação de largar correntes do (tão falado) imperialismo internacional".

"Jornal a Província de Angola, 1 de Julho de 1975. A LUTA ARMADA ENTRE OS MOVIMENTOSS EQUIVALERIA A UM ANIQUILAMENTO DO PAÍS. O presidente da Unita no Huambo. (extractos).

POSIÇÃO FIRME SOBRE CABINDA. Também tomámos uma posição firme quanto a CABINDA é parte intregrante e inalienável do território nacional. Na conferência de Marrocos apareceu uma delegação que não conseguiu expor a sua posição secessionista. Foi o nosso camarada Puna que combateu essa posição, até por ser Cabinda e por pertencer a uma das famílias que assinou o tratado de Simulambuco. O representantes da FLEC ficaram muitos "danados" e insultaram o nosso secretário Geral. Mas nós, na UNITA sempre crescemos no meios de insultos. Quanto mais nos insultarem mais nós avançamos...

ÊXODO DE TÉCNICOS. Também tomamos uma posição em relação ao êxodo constante dos técnicos ou mesmo da população da Angola na etnia branca, pois que tinha um papel cimeiro na economia do País. Pensamos e queremos compreender que parte daqueles que vão foi porque a segurança no País está abalada. Logo, a "Cimeira" de Nakuru garante e os Movimentos de Libertação se propões aplicar essa decisão – garante a paz de Angola. A tranquilidade em Angola. Mas queremos que eles também compreendam: num processo revolucionário como este que estamos a viver, de vez em quando há certas posições que escorregam. Não deve ser por causa de um tiro que toda a população começa a debandar, porque senão teríamos de lamentar essa atitude.

Aqueles que afirmaram, com os pés juntos que amavam Angola, que vivem por Angola, ao primeiro tiro começam a debandar. Afinal, que tipo de Angola amam eles? Afirmei-o ontem. Se nós desde a cessação das hostilidades com o Governo português afirmámos que o angolano poderá ser preto, branco ou mestiço, se nós nos batemos para que a situação social não pudesse enveredar por uma descriminação racial, por que é que eles fogem? Por causa das dificuldades. Então durante a luta de libertação nacional havia tiros no Norte, havia tiros no Leste, a população branca não fugiu. Agora os tiros são condenados, são lamentado, estamos a lutar para que cessem. E esta população foge? Então a Angola que eles amaram foi aquela. Angola colonialista, não é a Angola liberta.

Nós queremos que aqueles que dizem que amam Angola e que estão dispostos a caminha comigo, com bons ou maus dias, fiquem em Angola. Aqueles que só podem amar Angola quando há tranquilidade, esses amaram Angola. (...) Angola precisa mais hoje do que nunca, dos brancos daqueles que estão a partir. As fábricas estão a fechar e nós reconhecemos o valor dessas pessoas aqui. Deviam neste momento afirmar connosco que nós vamos vencer as nossas dificuldades, mas aqueles que partem e vão para Portugal – e a Imprensa europeia hoje ataca-nos dizendo que estamos a repetir aqui aquilo que se passou no Congo – esses indivíduos estão a trair-nos. Portanto nós preferimos, que as pessoas fiquem. Aqui houve uma luta que demorou alguns dias, em Luanda tem havido constantemente luta, no Luso também. Mas não me digam que toda a Angola já está transformada em guerra, que já há tiros em toda a parte.

Então queremos que neste momento os indivíduos se definam. Os angolanos vão ficar connosco e eu estou convicto que não vão morrer, porque nós vamos lutar para que não haja represálias raciais, nós vamos lutar para que haja justiça séria e sincera de todos os angolanos. Nós vamos lutar para que a paz fique connosco para sempre e aqueles que não concordam com isto queremos também. Catalogá-los. Eles gostariam de viver numa Angola de privilegiados e nós vamos lutar contra estes privilégios".

Savimbi apesar das suas boas intenções não conhecia bem o povo angolano. Como já dissemos, era a maior parte dessa gente ignorante, sobretudo nas cidades do litoral onde eram instigados pelo MPLA que, para essa gente, a independência era sinónimo de se apossarem de tudo quanto os brancos tinham.

Era completamente impossível viver num ambiente de guerrilha urbana por mais amor que se tivesse a Angola. Depois veio o descalabro total onde a organização desapareceu dando lugar à anarquia. Por isso, por mais que nos doesse na alma, a solução era abandonar a nossa queria terra àqueles selvagens que de pacíficos cidadãos instigados pelos comícios de mosseque se tornaram autênticos violadores e assassinos. Felizmente muitos deles reconheciam o erro mas eram uma minoria que não poderia exteriorizar as suas opiniões com risco da própria vida e vistos como traidores à pátria.

ELEIÇÕES

"As primeiras eleições nacionais angolanas foram realizadas nos últimos dois dias de Setembro de 1992. As eleições ofereceram aos angolanos a primeira oportunidade de expressarem a sua vontade no que a ONU e outros observadores estrangeiros concluíram ter sido um processo "geralmente livre e justo". Com uma afluência de mais de 91 por cento (4,4 milhões) de eleitores registados, o Presidente Eduardo dos Santos, candidato do MPLA, obteve 49,6 por cento dos votos, contra os 40,7 por cento de Savimbi. Nas eleições para a legislatura, o MPLA obteve 54 por cento dos votos contra os 34 por cento da UNITA. A lei angolana prevê uma segunda volta eleitoral caso o vencedor das eleições presidenciais não obtenha mais de 50 por cento dos votos, o que, contudo, não veio a acontecer. Em vez disso, a UNITA rejeitou os resultados e reencetou a guerra civil para o que tornou a mobilizar as suas forças em todo o país. Menos de um mês após as eleições, iniciava-se a "Terceira Guerra", que duraria até Novembro de 1994.

Este conflito extremamente destrutivo tornou-se notável pelas violações sistemáticas das leis da guerra tanto pelo governo MPLA como pelos rebeldes da UNITA. Esta efectuava o bombardeamento indiscriminado de cidades sitiadas repletas de civis famintos, resultando numa destruição enorme e na perda de um número sem conta de vidas de civis. O bombardeamento indiscriminado realizado pelo governo também reclamou muitas vidas civis, assim como as minas terrestres, a fome e as doenças. Calcula-se que 300.000 angolanos - 3 por cento da população - tenha morrido como resultado das lutas entre Outubro de 1992 e fins de 1994; provavelmente mais pessoas do que nos precedentes 16 anos de guerra. A ONU participou que entre Maio e Outubro de 1993 morriam todos os dias cerca de 1000 pessoas em Angola - mais do que em qualquer outro conflito mundial na época.

Em fins de 1993 já a UNITA controlava mais de 70 por cento do território angolano. No decorrer de 1994, contudo, as vitórias militares obtidas pelo governo forçavam a UNITA a fazer concessões ainda maiores nas conversações de paz de Lusaka, e a aceitar propostas para a reconciliação nacional. Visto estar a perder territórios a uma proporção cada vez mais rápida, a UNITA prometeu assinar o protocolo, num esforço para persuadir o governo a interromper os seus avanços militares. Ambos os lados rubricaram o Protocolo de Lusaka a 31 de Outubro de 1994, tendo o presidente Eduardo dos Santos prometido aos EUA e à ONU que as forças do governo não capturariam o quartel-general da UNITA, em Huambo. Mas as forças do governo continuavam a avançar e, como a UNITA se tinha retirado, o governo capturou rapidamente a cidade. Em Novembro de 94 as ofensivas do governo tinham reduzido o controle territorial da UNITA para 40 por cento do país".

http://hrw.org/portuguese/reports/angopor/entirebook-04.htm

A guerra só terminou com a morte de Savimbi em 2 de Fevereiro de 2002. Não conseguimos saber exactamente o que levou Jonas Savimbi a não ir à segunda volta nas eleições e, se voltasse a perde-las, aceitar um lugar de vice-presidente de Angola. Teria provavelmente sido a melhor solução para todos porque haveria depois oportunidade de mostrar que o governo não serviria os interesses da Nação. Infelizmente isso não aconteceu e o resultado está à vista de todos. Milhares de mortos e uma Nação de rica que era passar a uma das mais pobres da Costa Ocidental de África tudo isto pela ambição desmedida dos seus políticos que se quiseram afirmar pela força olvidando o povo. Um dia a História lhes fará justiça!