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Na hora que me foi indicada estava na estação. Um dos funcionários meu conhecido viu-me e perguntou o que estava a fazer aquela hora na estação.

- Vou para Silva Porto, respondi.

- Deves estar enganado porque o comboio já passou faz mais de uma hora. Fiquei arrasado.

- Quem foi que te deu a informação?

- Não sei bem era um tipo que estava aqui de serviço ontem quando vim perguntar.

Só me restava esperar mais uns dias (?) por outro comboio o que ia complicar-me a vida. Entretanto passando em frente à Robert Hudson vi que o gerente estava preparando a carrinha comercial aberta para viajar. Quando me viu com cara de chateado perguntou-me o que me tinha acontecido. Disse-lhe que me tinham dado informação errada da partida do comboio e que precisava de ir o mais rapidamente para Silva Porto (Kuito). Você está com sorte porque vou partir para Silva Porto daqui a pouco tempo e se quiser aproveitar a boleia é só dizer. Só tem um pequeno contra, é que levo a minha esposa na cabine e você terá de ir na caixa de carga.

- Sem problemas, disse-lhe, é para já e agradeço muito. Mais uma vez a minha estrela estava lá.

A estrada que ligava Luso (Luena) a Silva Porto era de terra arenosa na zona próximo do Luso. Foi a primeira vez que vi na mata perto da estrada bandos de papagaios cinzentos muito barulhentos e também de macacos rafeiros cinzentos. Viajar na caixa aberta da carrinha não era muito agradável por causa do pó e ainda tinha-mos umas centenas de quilómetros pela frente. Ao fim da tarde depois de uma viagem cansativa felizmente chegámos a Silva Porto. Ao tempo, era uma cidade completamente diferente de Vila Luso tanto na população como na urbanização. Sabia que um dos filhos do meu padrasto que era mestiço trabalhava no hospital local e estava hospedado no Hotel Pimenta. Procurei por ele e quando nos encontrámos convidou-me a ficar no mesmo hotel. Embora não nos conhecendo pessoalmente foi muito prestável, ajudando-me a tratar da passagem de autocarro para o Dondo. Anos mais tarde encontrámo-nos num eléctrico em Lisboa. O seu aspecto era muito envelhecido, estava aposentado como eu. Cumprimentei-o mas respondeu-me sem grande entusiasmo.

No dia seguinte seguimos a caminho do Calulo onde deveríamos pernoitar e depois seguir para o Dondo. Quem diria, que alguns anos mais tarde viria a conhecer bem o Calulo onde tínhamos um repetidor de telecomunicações que pertencia à minha área de manutenção cujo centro era na Cela (Waku Kungo).

Chegados ao Calulo, atrasei-me um pouco para retirar a minha mala do autocarro e quando cheguei ao hotel perguntei se ainda havia quartos disponíveis. O empregado branco disse-me que já estavam todos ocupados. Fiquei aborrecido mas em alternativa dormiria no autocarro. Entretanto disse-me:

- Espere, tenho um quarto que tem duas camas mas já o aluguei a um preto. Fiquei um pouco chocado com a atitude do empregado mas naquele tempo era mesmo assim, havia uma certo preconceito racial, principalmente pelos antigos colonos. Apenas lhe fiz uma pergunta:

- Esse preto é uma pessoa asseada? Parece que sim pelo menos está bem vestido e deve ser da sua idade. Então está tudo bem fico com ele no quarto. Quando entrei no quarto vi nele um certo embaraço e acanhamento. Começámos a conversar e então contei-lhe a minha aventura. Disse-lhe que ia para Luanda a um concurso para operador do quadro dos CTT mas que já tinha a nomeação interina. Esboçou um sorriso de satisfação.

- Sabe que eu também vou a esse concurso?

- Que coincidência, vamos ser colegas ! Disse-me o nome, Espírito Santo de apelido e que tinha estudado até ao 5º ano numa missão por isso tinha habilitações para concorrer ao cargo.

Conversámos longamente e acabamos por adormecer. No dia seguinte o empregado perguntou-me se dormi bem. Claro que dormi e o preto vai para Luanda fazer um concurso para os CTT tal como eu. Parece que o homem não ficou muito satisfeito com a minha resposta. Dali até ao Dondo fomos sentados lado a lado no autocarro conversando sobre Angola e o nosso futuro nos CTT. Era uma pessoal afável e educada, foi muito bom tê-lo conhecido.

Chegados ao Dondo entrámos no comboio com destino a Luanda. O Espírito Santo ia sentado ao meu lado e à nossa frente dois brancos que, pela conversa entre eles, seriam talvez comerciantes em Luanda. Já perto da capital perguntei ao meu futuro colega onde é que ia ficar. Disse-me que tinha lá família mas que era num bairro periférico um musseque não me recorda exactamente qual. Disse-lhe que não conhecia Luanda e teria que procurar uma pensão. Entretanto, um dos homens que estava à nossa frente disse-me que tinha uma pensão em Luanda e que estaria na estação pessoal com uma carrinha à espera, por isso, se quisesse, poderia aproveitar.


Cidade de Luanda e a Ilha em 1952 (fotos do autor).

A pensão era no Bungo quase no centro da cidade perto da antiga Junta de Exportação. O proprietário da pensão informou-me-me que tinha um quarto com duas camas mas que apenas uma estava ocupada e, se não me importava ficar nesse quarto. Disse-me também que a pessoa que estava lá era praticamente da minha idade e assim nos entenderíamos. Aceitei e fui dar uma volta pelas redondezas uma vez que eu não conhecia Luanda. Regressei à hora de almoço e perguntei-lhe onde era a minha mesa para almoçar.  

- Olhe, aquele jovem que está naquela mesa é o seu futuro companheiro de quarto e se você quiser pode sentar-se lá.

Apresentou-nos e depois sentei-me. Conversando, acabei por lhe dizer que era transmontano e tinha vindo do Luso para ir a um concurso para operador dos Correios.

- Mas que coincidência disse ele, eu também sou transmontano de Vila Pouca de Aguiar e trabalho nos correios como escriturário. Se você quiser pode vir comigo que eu mostro-lhe onde ficam os Correios e o local onde trabalho. Fiquei pasmado! Mais uma vez a minha estrela estava lá. Encontrei no Calulo um futuro colega, depois no comboio o dono da pensão e agora um patrício que me iria ajudar.

Fomos para os Correios à secção de pessoal para me apresentar. Disseram-me para comparecer às 08.00h do dia seguinte para me passarem guia para uma secção. O local onde o meu colega de pensão trabalhava como escriturário era no armazém geral de material. Quando entrei, vi uma chave de morse montada numa mesa junto com um buzzer. Por curiosidade perguntei porque estava ali aquela chave. Informou-me que um funcionário dos CTT costumava dar aulas a alguns funcionários que eram operadores interinos e também iriam ao mesmo concurso que eu. Sentei-me na cadeira e comecei a transmitir com a chave algumas palavras que me vinham aleatóriamente à memória.

Então, entrou na secção um homem de meia idade que, pela sua postura, me pareceu que deveria ser um funcionário graduado. Viu-me a transmitir e prestou atenção. Quando acabei perguntou quem eu era. Expliquei-lhe ao que vinha.  

- Não me conhece?

- Respondi que não.

Pois bem, sou o J.J. (João de Jesus Silva?) e vou ser eu que lhe vou fazer o exame de transmissão de morse. Então, disse-me para me levantar sentando-se em seguida na cadeira onde eu tinha estado. Transmitiu uma palavra numa cadencia rápida e perguntou-me depois o que tinha transmitido. Eu respondi. Está certo disse, continue a treinar mas olhe que eu sou de gancho por isso me chamam J.J.

Quando saiu perguntei ao meu futuro colega quem era aquele homem. Era o director da 3ª Repartição de Telecomunicações mais conhecido por J.J. e que era mesmo de gancho mas pareceu-me que simpatizou consigo. Pensei cá para mim, puxa, mas que série de coincidências!

Tomei posse como operador interino mas, poucos dias depois foi o concurso. Encontrei lá o Espírito Santo também. Dias depois saíram os resultados ficando colocado numa boa posição e o Espírito Santo também ficou aprovado. Nunca mais o vi, provavelmente terá sido colocado numa estação no interior e, depois da indepedência, ascenderia a um cargo superior dos CTT. Entretanto fui colocado na Estação Central Postal de Luanda, mas, no dia 4 de Janeiro de 1952 fui chamado para frequentar o curso de sargentos milicianos (CSM) na Escola de Quadros Militares em Luanda.

Apresentei-me na Escola de Quadros, que ficava perto do Palácio do Governador e da repartição de Fazenda (Finanças) na parte da cidade alta. O Comandante da Escola era o então capitão Rebocho Vaz. Recebi o fardamento que me foi distribuído e foi-me indicada a respectiva camarata. Se bem me lembro, eram duas camaratas para os alunos do curso de sargentos milicianos e uma para o de oficiais. Naquele ano éramos apenas cerca de 80 alunos. Foi-me atribuído número 38. Todos os alunos do curso de sargentos milicianos e de oficiais tinham o seu emprego fixo na vida civil. Funcionários públicos como o meu caso, do quadro administrativo, empregados comerciais, etc.

Naquele tempo só eram incorporados no serviço militar indivíduos de raça branca e preta. Os mestiços só muito mais tarde é que viriam a ser incorporados na escola de sargentos milicianos, de oficiais ou simplesmente praças.

O fardamento era constituído por uma balalaika, camisa, calções e calças, peúgas altas, um bivaque e sapatos. A balalaika os calções e o bivaque eram de caqui. Conforme o regulamento militar, os calções deveriam ficar uma mão travessa acima do joelho. Para quem estava habituado na vida civil a usar calções mais curtos normalmente mandava-mos encurtá-los.

Dormia-mos em beliches de duas camas com mosquiteiro. Os exercícios, aulas de treino de ordem unida e ginástica normalmente eram feitos da parte da manhã por causa do calor e as aulas teóricas da parte da tarde. Um dos oficiais instrutores, ao que parece, tinha um caso com uma senhora do Bar-Restinga que ficava junto da praia da Restinga na Ilha de Luanda. Então, quando estava de serviço, para se exibir, as aulas de ginástica eram dadas na praia junto ao Restinga para onde éramos transportados numa camioneta. A meio da manhã era distribuido um lanche que era transportado por uma carrinha aberta. No fim da ginástica tomávamos banho. Enfim, o curso era praticamente umas férias excepto na remuneração.


Grupo de alunos do CMS (eu incluído) em Luanda, 1952 (fotos do autor)

Depois do almoço e devido ao calor, tínhamos duas (?) horas de descanso que alguns aproveitavam para fazer a sesta. Éramos acordados pelo toque do corneteiro para a instrução. Um dia houve alguém que se lembrou de colocar gindungo (piri-piri) no bocal da corneta. Quando o corneteiro quis tocar não conseguiu por causa do ardor provocado pelo gindungo. O oficial de serviço chamou o corneteiro e perguntou-lhe:

- Olha lá, porque não consegues tocar?

- "Os minino puseste gindungo nos corneta".

Como ninguém se acusou, o resultado da brincadeira foi darmos todos uma série de voltas à parada em passo acelerado debaixo de um calor intenso.


Eu na restinga da Ilha de Luanda em 1952.
(foto autor)

Um nosso camarada o Lopes (Lopis como ele pronunciava pois era natural de Goa) lembrou-se de comprar um pequeno acordeom e, precisamente nas horas de descanso é que ele se lembrava de treinar. Como estava a aprender era chato estar sempre a ouvir a mesma coisa e, por isso, foi avisado para não tocar àquela hora. Não fez caso e continuou. Na ausência dele da camarata alguém lhe tirou o acordeom do armário e o escondeu no cimo de uma das grandes árvores da parada. O Lopes dando pela falta, refilou mas ninguém se acusou. Enfim, pudemos dormir descansados. Como a árvore era de folha caduca, quando lhe caiu a folhagem, lá estava o acordeom todo estragado pela chuva.


Cinema Restauração em 1952 (foto Memórias de Angola, João Loureiro)


Francisco José (foto Net)

Olhos Castanhos
Guitarra Toca Baixinho


Amália Rodrigues (foto Net)

Foi Deus
Lisboa Antiga


Tony de Matos (foto Net)

Cartas de Amor
Vocês Sabem Lá


Alberto Ribeiro

Marco do Correio
Coimbra


Rui de Mascarenhas (foto Net)

Encontro às Dez
Mentirosa

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Nos fins de semana se havia dinheiro ou íamos ao cinema Restauração ver um filme (estavam na moda os filmes italianos) vi lá um show de Francisco José onde cantou as melhores canções românticas dos anos 50/60 que estão em links e que vos sugiro ouvir bem com outros artistas da mesma época como Amália Rodrigues e Tony de Matos, Alberto Ribeiro , Milú e Rui de Mascarenhas ou à noite para um pub da "chunga" chamado Karibala que ficava perto do Bairro Operário.

Nesse tempo a zona ainda estava pouco urbanizada. As moças que frequentavam esse pub eram normalmente mulatas de Angola ou Caboverdianas e alguma pretas. Normalmente eram raparigas ainda jovens. Que saudade desse tempo da minha juventude !

Na altura estava muito na moda a música brasileira principalmente o samba. Pedi a uma moça para dançar mas, como ainda não estava muito habituado a dançar o samba não o fazia da melhor maneira. Então ela disse-me:

- "Minino estás a dansar varsa ó samba?"

Chameguinho

Elba Ramalho - Chameguinho


Elba Ramalho

Entretanto pediu-me para irmos ao bar para comer uma sandwich. Pedi uma de paio. Quando o empregado a trouxe ela olhou para o conteúdo e exclamou:

- "Ué no sabia que os chouriço quando vais no baile vira paio! "

Acabado o curso de sargentos e promovidos a cabos milicianos em 7 de Junho de 1952, teríamos de fazer uma recruta em Luanda ou Nova Lisboa (Huambo). Fui colocado em Nova Lisboa.

Nova Lisboa era uma cidade linda situada no planalto do Huambo. Era completamente diferente de Luanda. As ruas eram todas asfaltadas e practicamente planas. O Batalhão ficava afastado da cidade talvez 1km, por isso, tivemos de adquirir uma bicicleta para nos deslocar-mos da cidade para o Batalhão porque alí não nos forneciam refeições. Íamos comer no hotel Ruacaná que ficava quase em frente ao cinema do mesmo nome.


Batalhão - Nova Lisboa 1952.

Apresentámo-nos no Batalhão tal como andávamos fardados em Luanda, com parte da balalaika desabotoada por causa do calor e as mangas arregaçadas. Na Escola de Quadros em Luanda nunca fomos chamados à atenção por isso. O sargento da companhia olhou para nós e disse:

-  "Pipis de Luanda, está-se mesmo a ver". Abotoem já essa balalaika porque aqui tem de andar na linha. Explicámos que em Luanda andávamos assim mas ele não quis saber. Tivemos de obedecer embora indignados pela prepotência do sargento. Mau começo, pensámos.


O nosso grupo CSM na Companhia em Nova Lisboa com o sargento e o outro com os cofiós dos praças - 1952.

O comandante da nossa companhia era o então capitão Altino de Magalhães actualmente General. Recordo-me de um caso que se passou antes de se iniciar a recruta. Foi designado um sargento do quadro para nos fazer uma demonstração da metralhadora Madsem (?) que nós já conhecíamos bem na escola de sargentos milicianos em Luanda.

Então, a certa altura, depois de desmontar a arma um de nós voltou a montá-la. Muito bem. Então como funciona esta metralhadora? Primeiro puxa-se a culatra e solta-se e, assim, coloca uma bala na câmara. Depois prime-se o gatilho, dá-lhe a percussão e respectiva explosão da pólvora dentro do cartucho. Então os gases expondem-se nas partes parabólicas do cano, dá-se o recuo, é introduzida nova bala na câmara e assim sucessivamente. Risota geral por causa do expondem-se (expandem-se) e das partes parabólicas (parábola) do cano. O capitão Altino de Magalhães mesmo vendo a bronca do sargento chamou-nos à atenção, lembrando-nos que estávamos no exército e, por isso, teríamos de respeitar os superiores hierárquicos. Resultado, pusemos ao sargento a alcunha de Voz do Planalto (que era o título de um jornal local) pela maneira enfática dele falar embora com broncas como as que disse.


O  pelotão de sapadores comandado por mim e na outra foto o tenente Brito, o furriel, eu (vê-se pelos calções) e o meu camarada Menandro - 1952.

Como tinha conhecimentos de rádio e de morse esperava ser colocado na secção de radiotelegrafia do Batalhão e, por isso, não aceitei as outras especialidades. Para minha surpresa não havia essa especialidade assim, eu e mais outro camarada que era funcionário dos CFB no Lobito, fomos para o pelotão de sapadores. Não era mau de todo porque além de nós dois integrava também o pelotão um furriel do quadro que tinha trabalhado como construtor civil. O Comandante do pelotão era, ao tempo, o tenente Brito.

A ordem unida e a ginástica quando o comandante do pelotão tenente Brito estava de oficial de dia, era dada por um de nós que por isso comandava o pelotão. Num campo perto do Batalhão onde passava um riacho estávamos a construir um pontão de madeira. O soldados do pelotão eram só pessoal africano. Nunca tive problemas com o pessoal africano, antes pelo contrário, esforçavam-se por cumprir o seu dever se bem que com algumas dificuldades na apendizagem.


Eu no jardim junto ao cinema Ruacaná - 1952

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Cinema Ruacaná e Hotel 
(foto Memórias de Angola João Loureiuro)

Nos domingos à tarde era frequente algumas jovens da cidade que estudavam no Liceu frequentarem o jardim que ficava em frente ao Palácio do Governador. Alguns de nós também frequentávamos o dito jardim e aproveitávamos para conversar com algumas dessas jóvens pois eram pessoas educadas e simpáticas que proporcionavam momentos de conversa muito interessantes. Um dos meus colegas também funcionário dos correios como eu, foi lá que conheceu uma jovem que namorou e quando passou à disponibilidade pediu a transferência para a estação dos CTT de Nova Lisboa e casaram. Infelizmente esse meu amigo e antigo colega e camarada já não está neste mundo.


Monumento a Norton de Matos no Jardim junto ao Palácio.
(foto Era Uma vez...Angola, Paulo Salvador)

Conheci lá uma jovem morena muito simpática a "Gaby" com quem conversava frequentemente pois havia entre nós uma empatia diria até, mais que simples amizade. Algumas vezes ia acompanhada pela irmã uma morena ainda mais linda que ela, a "Carocha". Um dia vi num dos jornais de Lisboa que ela já formada e professora do ensino secundário veio a Portugal dar uma conferência. Reconheci-a apenas pelo nome pois o seu aspecto físico com o passar dos anos era completamente diferente como é evidente tal como o meu actualmente é. Quando vi a notícia, recordei com saudade os bons momentos das nossas conversas no jardim. Tentei contactar com ela pela Internert mas não obtive resposta. Se um dia ela visitar este site e vir a foto acima, é provável que mesmo passados mais de 50 anos ainda se lembre de mim e das nossas agradáveis conversas. Infelizmente soube recentemente que a minha querida amiga Gaby (Drª. Maria Gabriela Antunes) tinha falecido. Paz à sua alma.

A nossa estadia no Batalhão em Nova Lisboa foi cheia de peripécias tão loucas e, por isso, me abstenho de relatá-las aqui. Nenhum dos cabos milicianos que foram colocados no Batalhão em Nova Lisboa para fazer a recruta saiu de caderneta limpa por causa da nossa rebeldia de não levar as coisas muito a sério mas que tivemos de aguentar e encarar como um dever cívico e patriótico não obstante o prejuízo monetário que nos causou termos de deixar os nossos empregos por cerca de um ano. Nenhum de nós tinha intenção de vir a seguir a vida militar. Além disso, em 1952 a tropa regular era pouca.

Regressei a Luanda à vida civil no dia 26 de Novembro de 1952.