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MPLA.

"- Objectivo político: Garantir o sucesso alcançado com a "Batalha de Luanda" por forma a ser o único Movimento presente na capital no dia 11 de Novembro e se, necessário, declarar unilateralmente a independência de Angola.

Mau grado o cerco a que se encontrava sujeito era, indubitavelmente, o Movimento que reunia maiores vantagens políticas e estratégicas. Desde logo o domínio total da cidade de Luanda, não só a capital de Angola, mas também área de concentração de dois terços da estrutura industrial e da única refinaria do território; supremacia inquestionável em Cabinda, onde o petróleo representava algo mais do que dois quintos da entrada de divisas; por fim o controlo da região Lobito-Benguela, terminal do CFB, linha ferroviária da maior importância para escoamento do cobre do Katanga.

- Objectivo estratégico: Impedir, a todo o custo, a entrada da FNLA em Luanda; consolidar a sua hegemonia no eixo Luanda-Salazar/Dalatando-Malange-Gago Coutinho/Saurimo-Luso/Luena; controlar a faixa litoral, muito especialmente a região Benguela-Lobito.

- Manobra psicológica: Intensa. Logo após a FNLA e a UNITA terem abandonado Luanda, o MPLA passou a dominar totalmente os órgãos de comunicação social e, em particular, a Emissora Oficial.

Os programas de cariz ideológico, decalcados do que pior havia na Rádio Angola Livre dos tempos de Brazzaville, passaram a martelar, quotidianamente, os ouvidos de todos os luandenses.Vibrantes e mobilizadores para os militantes e simpatizantes do MPLA; assustadores e traumatizantes para os portugueses ali nascidos ou radicados.

No meio da desgraça em que passaram a viver, estes últimos tornaram-se nos alvos preferenciais de ataques descabelados, enquadrados obviamente na linha oficial do partido, em especial através do célebre programa radiofónico "Kudibanguela" no qual os brancos eram sistematicamente ofendidos, vilipendiados e causticados sem descanso com o anátema de colonialistas, reaccionários, exploradores, imperialistas etc., etc. numa lógica que me escapava. Seria porque a esmagadora maioria havia optado por regressar a Portugal não acreditando no projecto daquele MPLA? Que outras razões justificariam ataques tão demolidores?

- Manobra militar: Para além dos desenvolvimentos já atrás descritos na frente norte durante os quais se notou a travessia da cidade de Luanda, na madrugada de 28 de Agosto, por uma numerosa coluna de blindados vindos da Barra do Cuanza, as FAPLA empenhavam-se numa intensa actividade operacional quer no leste, quer na faixa litoral a sul de Luanda e mantinham acções militares esporádicas no planalto central.

Em princípios de Setembro o MPLA dominava em Sá da Bandeira/Huila e Moçâmedes/Namibe, vencedor das confrontações em que se envolvera com a UNITA aliada à FNLA (facção Chipenda). Informações adicionais revelavam confrontos entre o MPLA e a UNITA na região de Caçula, uma povoação a nordeste de Sá da Bandeira, alargados à cidade da Jamba que acabou por cair, durante algum tempo, em poder do MPLA.

Na mesma altura era desviado, em Benguela, um avião dos TAAG (Transportes Aéreos Angolanos) que teve de rumar até Cabinda onde embarcou material diverso, incluindo armamento, para o MPLA retornando depois àquela cidade. Em meados de Setembro, era anulada uma tentativa de assalto às instalações do ASMA (Agrupamento do Serviço de Material de Angola), em Luanda, para roubo de armamento, sendo detidos os 22 autores do assalto, afectos ao MPLA. "

Em: A Vertigem da Descolonização, General Gonçalves Ribeiro, Editorial Inquérito.

Com a guerrilha urbana entre o MPLA, FNLA e UNITA, tinha-se instalado o caos e já não havia mais nada a fazer. As razões dos ataques demolidores feitos aos brancos pelo MPLA na Emissora Oficial, eram para que abandonassem o mais rapidamente Angola, ficando eles senhores de um país que na altura era rico mas estupidamente não pensaram que quem construiu essa riqueza foram os portugueses e angolanos brancos e pretos conjuntamente mas os quadros principais - dirigentes - eram os portugueses (alguns já nascidos em Angola, portanto angolanos também e alguns angolanos pretos se bem que poucos, mas esses não ficaram também) e eles não teriam competência técnica para a fazer continuar a progredir. Os dirigentes dos partidos sabiam perfeitamente disso mas a ambição política foi maior e deitaram tudo a perder. A prova está actualmente (2005) à vista. Angola é um país pobre e dependente (pedinte) da ajuda internacional o que nunca aconteceria se a independência fosse feita para todos (que também a desejávamos) como na África do Sul que, apesar de todas as convulsões posteriores à independência continua a ser um dos países mais ricos de África.

Na verdade há muita riqueza natural em Angola mas, grande parte, foi empenhada para comprar armamento que serviu para matar e estropiar aos milhares as vossas gentes e essa foi a vossa desgraça. Mesmo assim, há por lá muitos previligiados que vivem à fartazana mas o povo é infeliz e vive agora bem pior que em 1975. Pode bem dizer-se que Angola, actualmente, é uma autêntica bagunça !

Mas, nessa altura, em Luanda, os pretos mentalizados pelo MPLA de que tudo que deixávamos seria para eles, assaltaram as casas dos brancos, fábricas e tudo o mais donde pudessem levar algo. Era a anarquia total contra a qual as poucas tropas portuguesas que ainda restavam nada podiam fazer. Cada um procurava safar-se como podia porque em alguns casos, principalmente aqueles que viviam no interior, vieram apenas com a roupa que tinham no corpo.

Em Luanda e nas cidades portuárias era mais fácil enviar algumas coisas em caixotes feitos com madeira de qualidade (que se esgotou rapidamente) que mais tarde no Puto poderia ser usada para fazer alguns móveis improvisados como foi o meu caso. A maior parte foram saqueados e nunca chegaram a aparecer.

Um amigo e vizinho que estava na Huíla enviou os caixotes para o porto de Moçâmedes (Namibe). Os pretos deitaram fogo a tudo quanto se encontrava no porto e estiveram três dias e três noites a arder. Os que viviam no Huambo tiveram também problemas, o Savimbi não deixava sair nada nem sequer os automóveis.

Conheci recentemente uma pessoa que vivia em Benguela e era dono de uma frota pesqueira. Os patrões dos barcos e as tripulações avisaram-no para se porem a andar com os barcos para Portugal enquanto era tempo. Ele acreditou que Angola seria para todos tal como apregoavam os presidentes dos partidos e não deu ouvidos aos empregados. Eles partiram e quando se quis vir embora com os barcos já não tinha quem os trouxesse. Teve de sair de emergência deixando lá o fruto de uma vida de trabalho. Veio para Portugal com a roupa que tinha no corpo e quando chegou recebeu os 5.000$00 do IARN. Felizmente que, como quase todos nós, refez a sua vida à custa de muito trabalho e hoje está bem como empresário. Nós, os tais brancos colonizadores somos assim. Progredimos, mas para isso trabalhamos tal como sempre o fizemos em Angola. A mangonha (preguiça) não faz parte do nosso vocabulário. Os barcos que deixou ou foram levados pelos cubanos ou estão lá a apodrecer por falta de peças ou de manutenção ou ainda de pessoal competente para trabalhar.

Contou-me que para facilitar a vida dos empregados mandou construir uma casa perto no cais onde pernoitava o pessoal que entraria de serviço para não ter de ir buscá-los aos bairros periféricos onde moravam. Muita vezes marcava a hora de saída para a pesca mas como ninguém aparecia tinha de os ir buscar. Tinham recebido a féria da semana e estavam todos chibados (bêbados). Infelizmente acontecia isso várias vezes, o pessoal era irresponsável. Sendo assim, agora sós sem que ninguém os incomode ou oriente o que acontecerá? A falência total.

Na estação de telecomunicações dos CTT que eu chefiava tinha lá um ajudante que era um excelente trabalhador mas quando recebia o vencimento chibava e dava-lhe para trepar à torre metálica de 60 metros de altura e depois ficar de pé no topo com as mãos estendidas qual Cristo-Rei, até que um dia se saiu mal. Foi corrido a rajadas de metralhadora. Foi num ápice enquanto chegou à base felizmente ileso. Ficou-lhe de emenda!


Fila para comprar bilhetes na TAP em Luanda.
(Foto A Vertigem da Descolonização, General Gonçalves Ribeiro)

Formavam-se bichas enormes para comprar passagens na TAP para Portugal. Eu tive a sorte de ter passagens marcadas para vir de licença graciosa e a minha esposa e os filhos aproveitaram mas eu ainda fiquei na esperança de que as coisas melhorassem mas, a 26 de Outubro, pouco antes da independência, vi que aquilo não tinha mais condições de vida para ninguém e vim para Portugal num DC10 americano como já relatei anteriormente. Refizemos a vida a partir do zero e, felizmente, estamos bem graças ao nosso esforço ao largo destes anos.

Outros menos corajosos e menos habilitados morreram de desgosto ou por falta de meios de subsistência quando se esgotou o prazo da estadia gratuita nas pensões ou nos hotéis que ocupavam a expensas do Estado Português.

Não eram só as pilhagens e ataques pessoais aos brancos, era a guerrilha urbana entre o MPLA, FNLA e UNITA que não parava nem parou até o MPLA conseguir expulsar de Luanda e de outras cidades a FNLA e a UNITA. Disparavam estupidamente à sorte para tudo quanto era lado havendo milhares de balas espalhadas pelo terreno. À noite parecia fogo de artifício. Morava perto do Catambor que foi onde começou a guerrilha. No meu terraço apanhei umas quantas balas das quais guardei só três para recordação: duas tracejantes e uma perfurante. O MPLA era "dono e senhor" de Luanda.


Balas (foto autor)

Como vimos, o MPLA foi sempre apoiado descaradamente pelos ultra-esquerdistas do MFA. No início não tinha praticamente ninguém até que os chamados presos políticos foram libertados e, só mais tarde, os soldados pretos desmobilizados do Exército Português foram engrossar as suas fileiras. Vieram milhares de camaradas cubanos para ajudar e os navios da URSS e dos países satélites desembarcavam na costa de Angola material de guerra ligeiro e pesado tornando, assim as FAPLA num exército bem apetrechado para enfrentar a FNLA também ela bem armada pelos EUA.

Actualmente, sabe-se quais são os resultados de uma luta de guerrilha urbana. Ninguém está em segurança por isso não havia nada, os mercados eram assaltados e pilhados e havia carências de toda a espécie. Luanda era uma cidade fantasma poucos brancos tinham ficado e estava tudo paralisado. O mesmo aconteceu nas principais cidades Angolanas. Angola estava entregue aos bichos.

Os nativos dos musseques que tinham vindo do interior procuravam sair daquele inferno indo para as suas terras onde podiam pelo menos encontrar um pouco mais de segurança. As casas comerciais dos brancos em todos os musseques de Luanda foram pilhadas e incendiadas. Aqueles que não conseguiram escapar morreram à catanada ou simplesmente assados dentro das suas casas.


Debandada
(Foto A vertigem da Descolonização, General Gonçalves Ribeiro)

Não era isto certamente que Agostinho Neto dizia nos seus famosos versos "Havemos de Voltar". Ainda hoje me custa a acreditar como um homem que foi um Grande poeta e para isso é preciso uma sensibilidade especial como o demonstra nos seus versos, tivesse sido um chefe de assassinos. Ele não ignorava o que estava acontecendo.

Certamente nunca passou pela cabeça desses imbecis ultra-esquerdistas do MFA principalmente do almirante vermelho Rosa Coutinho e dos seus camaradas e auxiliares (kuribekas) alguns ainda vivos, bem de vida e que foram políticamente activos em cargos da maior responsabilidade neste país, que fosse acontecer uma catástrofe desta natureza. A descolonização não foi a possível como dizem, foi uma entrega irresponsável. Não haverá nessa gente uma ponta de remorso por tanta infelicidade que causaram não só aos portugueses com às gentes de Angola que morreram aos milhares e que de uma Nação próspera que era, hoje é uma das mais pobres de África? Nós não estávamos a oprimir ninguém, bem pelo contrário, como já o referi com provas mais que suficientes até com fotografias. Quem o afirmar mente. Todos nós os retornados retomámos a nossa vida a partir do zero à custa de muito trabalho (sem receber heranças e contrapartidas) e os angolanos (o povo) que hoje estão a sentir na pele toda a espécie de carências - por isso vem para Portugal aos milhares - lamentamos a vossa inépcia e a vossa cegueira ideológica que jamais esqueceremos. Mas não tem mais remédio o que está feito está feito.


1º de Maio numa esplanada em Luanda.
(foto A Vertigem da Descolonização, General Gonçalves Ribeiro)

Nesta fotografia tirada numa esplanada de Luanda do dia 1º de Maio vê-se a nossa convivência multirracial ignorada propositadamente por aqueles que sempre nos quiseram denegrir aos olhos do mundo alguns dos quais nunca puseram os pés em Angola nem nos outros territórios Ultramarinos.

Não conheciam Angola nem as sua gentes, os seus hábitos, o seu desenvolvimento, e o seu "modus vivendi", senão não teriam entregue Angola ao MPLA porque havia todas as condições para que nessa altura fosse feita uma descolonização para todos e não só com os partidos por vós reconhecidos ditos representantes do povo. E os nossos filhos e os angolanos brancos que lá nasceram não faziam parte desse povo?

Vê-de estas fotos que consegui sacar na Net da autoria de Claudio Versiniani/CB Press. São o resltado da guerra civil entre a UNITA e o MPLA que terminou com a morte de Savimbi em 2 de Fevereiro de 2002. Olhando para esta visão apocalíptica não sentireis remorsos pelo que aconteceu por vossa culpa? No Kuito não ficou pedra sobre pedra e no Huambo pouco menos. Segundo informações que recolhi na Net são cerca de 18 milhões as minas antipessoais colocadas em Angola por esses fanáticos que só lhes interessava o poder e nunca pensaram no povo. A  população de Angola é actualmente estimada em 11 milhões. É mais que uma mina por habitante! Se quiserdes saber mais pornenores sobre esta desgraceira toda sugiro-vos visitar este site:

http://www.joserezendejr.jor.br/reportag/angola.htm

Não haveria condições no tempo de Salazar nem em 1961 porque Angola ainda não tinha a evolução de 1974/75 mas, Marcello Caetano, como já referimos anteriormente, queria fazê-lo só que o 25 de Abril antecipou-se-lhe. Infelizmente para nós, os mentores do 25 de Abril eram todos ultra-esquerdistas fanáticos. Foi essa a nossa pouca sorte tanto para os portugueses que viviam no Ultramar como para aqueles que viviam em Portugal porque aqui estagnamos anos para que se pudesse recuperar da destruição que eles fizeram. Alguns, recentemente, já foram prestar contas ao S. Pedro mas ainda restam algumas dessas sementes velhas e podres e, alguns portugueses, principalmente os de uma geração mais recente que desconhecem o que se passou, acreditam neles.


O ÚLTIMO DIA

Na tarde do dia 10 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi pela última vez arreada no Palácio do Governo e na fortaleza, dobrada e redobrada. O alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, ao qual coube a ingrata tarefa, proclamara horas antes a independência de Angola. Quatrocentos e noventa e dois anos depois das naus portuguesas ali terem largado ferros, o último representante da soberania portuguesa abandonava a jóia do ex-Império, e partia, "sem cerimonial, mas de cara levantada", rumo à base naval da ilha de Luanda.


Arriar da bandeira Portuguesa no Palácio
(foto África 30 anos Depois, Visão)

Ao largo, na baía já abandonada por barcos carregados até à borda de multidões e contentores, a fragata "Roberto Ivens" escoltava o "Uíge" e o "Niassa", com as máquinas prontas para, pela última vez, zarparem para Lisboa. Uma semana antes, a cidade branca acabara de esvaziar-se. A ponte aérea, organizada com o apoio de países estrangeiros, retirara de Angola, no meio de indescritíveis cenas de pânico e confusão, quase meio milhão de portugueses.

As estátuas dos imortais portugueses jaziam apeadas, no sítio havia só os pedestais, já pintados com o vermelho-negro do MPLA. Para trás ficara a companhia de pára-quedistas, o almirante e uma meia-dúzia de funcionários que agora, no meio de grande e inútil aparato militar, se dirigiam para o porto.

Polícias angolanos, de farda azul, ganharam de imediato as posições desocupadas. Às janelas do palácio, alguns criados negros assistiram à saída de blindados e "Berliets".
Na baixa luandense, nem isso. Cortadas por fuzileiros, as ruas estavam desertas.

http://jn2.sapo.pt/secdiv/especial/angola1.htm

O ADEUS PORTUGUÊS


Declaração da Independência de Angola no Palácio do Governo em 10/11/1975.
(foto A Vertigem da Descolonização, General Gonçalves Ribeiro)

Das areias de Portugal, anunciadas pelo gajeiro, ninguém presente, além dos presentes. Quão poucos! Não davam para encher dois navios de passageiros.

Foram entretanto chegando o Brigadeiro Telo, o Capitão de Mar e Guerra Gabor Patkoczi, mais alguns oficiais. E muitos jornalistas da televisão, rádio e imprensa, angolanos, portugueses e estrangeiros, convocados para ouvirem a declaração da independência de Angola.

O Alto-Comissário tinha o discurso preparado. E proferiu-o, com inicio às 12 horas e 10 minutos, no imponente salão nobre do Palácio do Governo, rodeado de todos os seus colaboradores mais directos e de alguns membros do Governo de Transição tendo como única audiência os jornalistas ai presentes.

Após breves palavras de abertura dirigidas a Angolanos e Portugueses concentrou-se nos órgãos da comunicação social: "Dirijo-me também, por vosso intermédio, ao resto do mundo para que tome conhecimento da forma pela qual Portugal se viu na necessidade de proceder à concretização do importantíssimo acto que hoje se realiza.

Lamento sinceramente não me ser possível tomar parte em qualquer cerimónia comemorativa da hora maior na vida do Povo Angolano, dado que, fazê-lo, nas actuais circunstâncias, equivaleria da parte de Portugal a uma ingerência no sagrado direito que assiste àquele Povo de decidir o seu próprio destino."

E mais à frente. "A única recriminação que (Portugal) poderá aceitar é a ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do Acordo do Alvor. Daí em diante os acontecimentos foram progressivamente fugindo ao seu controlo, à medida que o conflito se internacionalizava e melhorava rapidamente a qualidade e aumentava a quantidade do material de guerra que entrou em Angola por todos os meios.

As cúpulas dos três Movimentos, reunidos em Nakuru, há pouco mais de quatro meses - desta vez sem a presença de Portugal - fizeram uma honesta autocrítica em que unanimemente se consideravam os únicos responsáveis pelos insucessos na execução do que acordaram no Alvor. Mas foram demasiado austeros para consigo próprios pois as culpas cabem menos aos Movimentos do que às potências que colocam nas suas mãos armas mortíferas com que o povo angolano se destrói".

Seguidamente proclamou a independência de Angola, nos seguintes termos: "Portugal nunca pôs, nem poderia pôr em causa a data histórica de 11 de Novembro, fixada para a independência de Angola, que não lhe compete outorgar, mas simplesmente declarar. Nestes termos, em nome do Presidente da República Portuguesa, proclamo solenemente - com efeito a partir das O horas do dia 11 de Novembro de 1975 - a independência de Angola e a sua plena soberania, radicada no Povo Angolano, a quem pertence decidir as formas do seu exercício."

Acrescentou ainda: "E assim, Portugal entrega Angola aos angolanos depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desapareceram mas a sua obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos; deixa um país de que se orgulha e de que os angolanos podem orgulhar-se".

E a concluir, depois de exprimir os mais profundos e melhores votos pelo fim da luta fratricida, também pela paz, felicidade e justiça social do povo angolano e ainda pela perenidade de laços fraternos e de respeito mútuo entre os dois povos, declarou: "São estes os votos muito sinceros do último representante da soberania Portuguesa em Angola que, hoje, à meia noite, partirá sem celebrações, mas de cara levantada.

"VIVA PORTUGAL ! VIVA ANGOLA INDEPENDENTE ! "

Seguiu-se uma refeição privada, a última, na sala de jantar da residência, finda a qual houve a comovente despedida de todos os empregados ali em serviço, destacando-se o profissional competente e dedicado, de seu nome Gaspar. Que será feito dele?

Nos jardins traseiros do Palácio havia-se concentrado um destacamento do Agrupamento Blindado do Major Moreira Dias que, ao princípio da tarde, escoltava o Alto-Comissário e todos os seus colaboradores até ao largo adjacente à entrada da Fortaleza de S. Miguel, onde se encontrava hasteada a última bandeira portuguesa.

A cerimónia do arriar da bandeira foi feita com todas as honras por uma força conjunta de fuzileiros, cavaleiros e pára-quedistas, na presença do Almirante Leonel Cardoso, que tinha a seu lado o General Heitor Almendra, o Brigadeiro Telo, o Capitão de Mar e Guerra Gabor Patowski, o Coronel Pil. Av. Ferreira de Almeida, eu e o Tenente-Coronel "pára-quedista" Ramos Gonçalves. Arriada a bandeira, às 15h30, por um marinheiro enquadrado por dois cabos, um de cavalaria e outro pára-quedista, foi de seguida depositada nas mãos do Almirante Leonel Cardoso, que a passou ao ajudante de campo.

Seguiu-se um cortejo automóvel até à base naval situada na ilha de Luanda. Dali saímos, às 16hl5, em lanchas da Armada até ao "Niassa", onde embarcámos. A bordo, também, o Batalhão de "paras" do Ten-Cor. Ramos Gonçalves.

No "Uíge" embarcava o Agrupamento Blindado do Major Moreira Dias e a pequena Força de fuzileiros constituída pela Companhia do 1.° Tenente Mateus e pelo Destacamento do 1.° Tenente Correia Graça.

Jantámos a bordo, ouvindo o som cavo dos motores dos navios e paquetes ancorados na baía de Luanda.

Poucos minutos antes da meia noite foram levantadas as âncoras, pondo-se o conjunto dos navios em movimento para a saída da baía e, depois, rumo ao norte.

E na serenidade da noite escura angolana, quente, acolhedora, recordo, como se fora um filme, o espectáculo de luz e som que, à meia noite em ponto, irrompeu subitamente na cidade de Luanda, traduzido em miríades de rajadas de balas tracejantes, à míngua de fogo de artifício, enquanto um pouco mais a norte, junto à foz do rio Bengo, na região de Quifangondo, a escuridão era rasgada por autênticas "mangueiradas" de fogo trocadas entre a organização defensiva do MPLA apoiada por cubanos e a coluna da FNLA, integrando mercenários e soldados zairenses, que procurava, sem sucesso, chegar à capital angolana no dia da independência.”

A Vertingem da Descolonização, Da Agonia do Exôdo à Cidadania Plena, General Gonçalves Ribeiro, Editorial, Mem Martins, Portugal.

Leonel Cardoso não pode responder, não estava presente no palanque de Neto, cumprira a promessa feita em confidência um mês antes a Cáceres Monteiro, enviado de "O Jornal": "Se um movimento não quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com os outros dois. Só com um, eu não tomo parte nas cerimónias. A um, eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse movimento".

No Campo da Revolução, no Sambizanga, o povo, na véspera, condenara ao enforcamento os espantalhos dos presidentes da FNLA, Holden Roberto, e da UNITA, Jonas Savimbi. Mas nessa noite, as palavras do líder do MPLA, agora presidente de Angola, perdiam-se no barulho dos disparos de faplas festejando, e, mais ao longe, de um fragor de explosões. Ao largo de Cabo Ledo, um submarino soviético estava para o que desse e viesse, pronto para dar fuga a Neto.


Içar da bandeira de Angola na noite da inpendência
em Luanda (foto Net)

No Caxito e Quifangondo, e Holden Roberto, que celebrava a independência em Carmona, hoje Uíge, encerrara o discurso às tropas com um "até logo, em Luanda". Vinte e quatro horas depois, à meia-noite do dia 11, não em Luanda, mas em Ambriz, proclamava a República Popular e Democrática de Angola.

No Sul, o MPLA acabara de perder Sá da Bandeira, Moçâmedes, Porto Alexandre, Benguela e o Lobito, e a UNITA celebrava naquela que viria a ser a sua capital, Nova Lisboa, depois crismada Huambo".

http://jn2.sapo.pt/secdiv/especial/angola1.htm

Angola na visão do MPLA estava pronta para a dita independência. Para a relatar, com a devida vénia, vamos servir-nos, da edição "ÁFRICA 30 Anos Depois" da Visão, descrevendo alguns excertos do texto e de imagens que encontrámos noutros livros para vos dar uma visão do que se passou.

A BATALHA DE LUANDA

Crónica

Carlos Cáceres Monteiro.

"Agostinho Neto, figura mítica dos nacionalismos africanos chegou sem pompa nem circunstância, no Citroën boca de sapo bege, à tribuna do Campo 1º de Maio, onde nesse fim de noite, já fora de horas, nasceu o novo grande país.(...) Pompa havia pouca naquela tão circunstancial noite de independência.


Agostinho Neto na varanda do Palácio depois do discurso
da independência (foto Net)


Agostinho Neto na Varanda do Palácio
(foto Net)

Foi uma noite de alvoroços. Até ao último momento – e mesmo depois da própria hora da proclamação da independência – não foi claro que a solenidade tivesse força para se impor como acto político perdurável dentro e fora de fronteiras. (...) Na larga avenida da cidade onde fora improvisado o palanque, ouvia-se ao longe o fragor dos combates de Quifangondo. Luanda era uma cidade cercada. E cercada continuou, à hora da "festa" do adeus ao vínculo colonial. "Festa" que estava anunciada dos dois lados. O MPLA previra esta nervosa sucessão de discursos e o hastear da nova bandeira.


Arriar da última bandeira de Portugal na Fortaleza de S. Miguel em 10/10/1975
(Fotos A Vertigem da Descolonização, General Gonçalves Ribeiro)

A FNLA de Holden Roberto prometera (ameaçara) que estaria em Luanda antes da meia-noite, temendo-se um banho de sangue e champanhe, um dilúvio de tiros e uma chuva de lantejoulas. Ao longo do dia, em toda a Angola, mas sobretudo no anel de fogo que cercava Luanda, foi aumentando a tensão e a intensidade dos combates. Com a partida das últimas forças navais portuguesas, O MPLA e os cubanos sentiram-se mais avontade para, num autêntico "contra-relógio", desembarcaram armas pesadas, transferidas em directo dos barcos que se situavam ao largo para as linhas da frente, que, afinal, se encontravam próximos das praias. Antes da Batalha de Luanda, tinham-se desenrolado poderosos enfrentamentos na foz do rio Bengo, e, por exemplo, a cidade de Caxito mudou de mão mais que uma vez.(...).

Portugal, optara por fazer nenhuma transferência de poderes, entregando a ex-colónia ao "povo de Angola". Depois dos "desacordos" de Mombaça, Alvor e Nakuru, o instável poder dos governos provisórios de Lisboa decidira, uma fórmula "à Pôncio Pilatos", deixar Angola em herança aos três movimentos guerrilheiros: MPLA, FNLA e UNITA, cada um dos quais contava com os seus apoios internacionais. A situação do grande país era, assim, em 1975, no auge da "guerra fria", um dos pontos mais críticos da situação internacional. A importância da Revolução dos Cravos e os seus jogos de poder em Lisboa muito tinham a ver com os efeitos reflexos nas ex-colónias. Nesse tempo, a União Soviética, servindo-se em parte, de Cuba como correia de transmissão, tentava jogar em África um importante papel. O MPLA concentrou na região de Quifangondo muito material desembarcado secretamente em Porto Amboim dois meses antes; a esse acrescentou mais armamento que entretanto, chegara, a bordo de navios de várias nacionalidades: órgãos de Estaline, carros de combate T-54 e T-55, baterias antiaéreas e viaturas blindadas tomaram posições, em alguns casos já nessas horas decisivas.

Holden Roberto que, de acordo com os registos históricos hoje confirmados, fazia parte da lista de pagamentos da CIA, anunciara a véspera de independência como o momento em que ia ultrapassar a barreira defensiva do MPLA, que acreditava, porém, ser mais frágil. Fatalmente, com excesso de confiança, optou por um ataque frontal e fracassou. Os 480 conselheiros militares cubanos que em Outuibro tinham desembarcado em Luanda não tinham estado de braços cruzados. (...)

Ver: http://petrinus.com.sapo.pt/batalha.htm

Na Luanda isolada, fartura só de medo e de boatos. Nos musseques, afiam-se as catanas para cortar as gargantas dos brancos; milhares de soldados da FNLA já se encontrariam escondidos dentro dos limites da cidade, para se juntarem aos invasores. Aumentando a tensão, chovem panfletos, nos quais se anuncia a "iminente marcha para libertar Luanda".(...) Luanda está estranhamente silenciosa. Deixam de se ouvir as marteladas nos caixotes de madeira, armados pelos portugueses. "Em Luanda, vive-se já, entretanto uma transição histórica. O centro da cidade é atravessado, por vezes, por camionetas de carga, carregadas de colonos brancos, na direcção do aeroporto. No caminho para o porto, alinham-se ainda uma fila interminável, camiões com caixotes e automóveis. Às portas de muitas moradias encontram-se caixotes prontos para seguirem para Portugal. No aeroporto militar, a confusão é permanente.(...).

Uma atrás de outra, as cidades mudavam de mãos. Na sequência da retirada das tropas portuguesas, O MPLA não conseguiu suster as posições, Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Porto Alexandre, Moçâmedes, Lobito e Benguela – as maiores cidades tinham sido tomadas pelos dois movimentos rivais e, a sul, pelo sul-africanos, e, em ambas as frentes, por portugueses dispersos. (...) Este isolamento de Luanda era especialmente visível num mapa que existia, e ia sendo actualizado, no quartel-general das tropas portuguesas. Com o corte dos acessos a sul, ia-se confirmando o pior para quem estava na cidade: Luanda poderia vir a tornar-se um enclave, uma ratoeira infernal e quem ali ainda permanecesse em 11 de Novembro, depois da saída das tropas portuguesas (que até lá constituíam a única garantia de segurança) poderia morrer sem que fosse viável qualquer auxílio do estrangeiro. Os presságios diabólicos pareciam cumprir-se, um atrás de outro. Com a queda de Benguela, fechava-se o acesso a sul.(...)

Na baía de Luanda, estavam ao largo duas fragatas da Armada portuguesa, uma corveta, um navio petroleiro e dois navios de passageiros, o Niassa e o Uíge. Nos pátios do palácio governamental, concentrava-se uma força de fuzileiros, a Cavalaria (com os seus blindados e camionetas Berliets) e páraquedistas. E, às 15.30, era arriada, por um marinheiro, a última bandeira das quinas. O destacamento português pôs-se em movimento. E logo as guaritas do palácio-quartel foram ocupadas por polícias angolanos, nas suas novas fardas turquesa. Na varanda colonial, assistindo à despedida, ao render do poder, apenas alguns empregados africanos, vestindo as fardas brancas: Adeus Portugal. Ver: http://petrinus.com.sapo.pt/arriarbandeira.htm

Os portugueses partiam de cabeça (fisicamente) levantada, como anunciara o último alto comissário, Leonel Cardoso. Mas com os corações apertados e intranquilos. Pessoalmente, senti um grande nó na garganta e na boca um sabor amargo.(...) Assim, com a previsível carga pesada das consequências, que traduziria em 27 anos de guerra, Portugal fechava o ciclo aberto em 1483, quando as primeiras embarcações portuguesas lançaram âncora na foz do rio Congo".

In: ÁFRICA 30 Anos Depois, Visão, EDIMPRESA.  www.visaoonline.pt