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Presidente da República de Angola,
José Eduardo dos Santos

GUERRA CIVIL EM ANGOLA

"Em 1976 as Nações Unidas reconheciam o governo do MPLA como o legitimo representante de Angola, o que não foi seguido nem pelos EUA, nem pela África do Sul .

No meio do caos que Angola se havia tornado, cerca de 300 mil portugueses abandonam este país entre 1974 e 1976, o que agrava de forma dramática a situação económica.

Em Maio de 1977, um grupo do MPLA encabeçado por Nito Alves, desencadeia um golpe de Estado, que é afogado num banho de sangue. No final deste ano, o MPLA realiza o seu 1º Congresso, onde se proclama um partido marxista-leninista e adopta o nome de MPLA-Partido do Trabalho.

A guerra continuava a alastrar por todo o território. A UNITA e a FNLA juntaram-se então contra o MPLA. A UNITA começou por ser expulsa do seu quartel-general no Huambo, sendo as suas forças dispersas e impelidas para o mato. Mais tarde, porém, o partido reagrupou-se, iniciando uma guerra longa e devastadora contra o governo do MPLA. A UNITA apresentava-se como sendo anti-marxista e pró-ocidental, mas tinha também raízes regionais, principalmente na população Ovimbundu do sul e centro de Angola.

Agostinho Neto, morre em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, sucedendo-lhe no cargo o ministro da Planificação, o engenheiro José Eduardo dos Santos.

No inicio dos anos 80, o número de mortos e refugiados não pára de aumentar. As infra-estruturas do país são brutalmente destruídas. Os ataques da África do sul não páram. Em Agosto de 1981, lançam a operação "Smokeshell" utilizando 15.000 soldados, blindados e aviões, avançando mais de 200 km na província do Cunene (sul de Angola). O Governo da África do Sul justifica a sua acção afirmando que na região estavam instaladas bases dos guerrilheiros da SWAPO, o movimento de libertação da Namíbia. Na realidade tratava-se de uma acção de apoio à UNITA, tendo em vista a criação de uma "zona libertada" sob a sua administração. Estes conflitos só terminaram em Dezembro de 1988, quando em Nova Iorque foi firmado um acordo tripartido (Angola, África do Sul e Cuba) que estabelecia a Independência da Namíbia e a retirada dos cubanos de Angola. A partir de 1989, com a queda do bloco da ex-União Soviética, sucedem-se em Angola os acordos de paz entre a Unita e o MPLA, seguidos recomeço das hostilidades.

Em Junho de 1989, em Gbadolite (Zaire), a UNITA e o MPLA estabelecem uma trégua. A paz apenas durou dois meses.

Em fins de Abril de 1990, o Governo Angola anuncia o reinicio das conversações directas com a UNITA, com vista ao estabelecimento do cessar fogo. No mês seguinte, a UNITA reconhecia oficialmente José Eduardo dos Santos como o chefe de estado angolano. O desmoronar da União Soviética acelera o processo de democratização. No final do ano, o MPLA anunciava a introdução reformas democráticas no país. A 11 de Maio de 1991, o governo publica uma lei autorizava a criação de novos partidos, pondo fim ao monopartidarismo. A 22 de Maio os últimos cubanos saem de Angola.

31 de Maio de 1991, com a mediação de Portugal, EUA, União Soviética e da ONU, celebram-se os acordos de Bicesse (Estoril), terminado com a guerra civil desde 1975, e marcando as eleições para o ano seguinte.

As eleições de Setembro de 1992,dão a vitória ao MPLA (cerca de 50% dos votos). A UNITA (cerca de 40% dos votos não reconhece os resultados eleitorais. Quase de imediato sucede-se um horrendo banho de sangue, reiniciando-se o conflito armado.

Em 1993, o Conselho de Segurança embarga as transferências de armas e petróleo para a UNITA. Tanto o governo como a UNITA acordaram, em parar as novas aquisições de armas, mas tudo não passou de palavras.

Em Novembro de 1994, celebra-se o Protocolo de Lusaka, na Zâmbia entre a UNITA e o Governo de Angola (MPLA). A Paz parece mais do que nunca estar perto de ser alcançada. A UNITA usou o acordo de paz de Lusaka para impedir mais perdas territoriais e para fortalecer as suas forças militares. Em 1996 e 1997 adquiriu grandes quantidades de armamentos e combustível, enquanto ia cumprindo, sem pressa, vários dos compromissos que assumira através do Protocolo de Lusaka.

Em Dezembro de 1998, Angola retorna ao estado de guerra aberta, que só parou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi (líder da Unita)".

(do website Lustopia - director: Carlos Fontes)

Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_Angola

Angola moderniza os seus MIG 21

MIG-21, é apenas, o caça a jacto mais fabricado no mundo. Fabricado em quatro paises, é facilmente reconhecível pela sua fuselagem cilindrica. pela sua asa em delta com cauda e pelas suas empenagens acentuadamente em flecha. Feito para poder interceptar o bombardeiro americano B-29 o MIG-21, foi pensado para a velocidade, devendo atingir 2.000Km/h a 20.000 metros. Veio substituir o MIG-17 e o MIG-19, que se tinham mostrado inferiores aos seus equivalentes ocidentais. Os primeiros MIG-21, chegam a Angola em Janeiro de 1976, vindos de Cuba, e com o objectivo de permitir o estabelecimento de superioridade aérea no sul do país, onde ocorriam varias incursões da força aérea da África do Sul, dado os MIG-17, terem demonstrado ser completamente ineficientes.

No total, Angola deve ter recebido cerca de oitenta MIG-21, fornecidos via Cuba, e sendo normalmente entregues com um piloto de origem cubana. Vários MIG-21MF, equipados por pilotos cubanos, foram abatidos por aviões Mirage da força aérea da África do Sul. A inabilidade dos pilotos cubanos, aliada à deficiente manutenção resultaram também em numerosos acidentes durante as operações de aterragem e outras. Como resultado, o MIG-21MF, mesmo sendo superior às aéronaves da África do Sul, nunca logrou impor essa superioridade técnica. Além de tudo isto, a partir do momento em que o movimento rebelde UNITA passou a contar com misseis anti-aéreos STINGER, mais MIG foram derrubados, atingidos e mesmo abatidos.

Recorreu-se em alguns casos à canibalização, para manter parte destes aviões a voar, e neste momento, deve haver um total próximo da vintena, operacionais em Angola. Há planos, para modernizar os MIG remanescentes e os planos incluem melhoramentos ao nível da electrónica, sistemas de comunicações.

O mais provavel, é que os MIG-21 sejam modernizados segundo um padrão mais moderno, que incluirá uma revisão geral, alteração no radar, e capacidade para disparar misseis BVR (Beyhond Visual Range), além de um sistema de interligação de dados, que permitirá aos MIG-21 operar conjuntamente com outras aeronaves da FAA, sendo igualmente apoiados pelos radares de vigilância.

O radar dos MIG-21 deverá ser um derivado dos ZHUK, com um alcande entre 55 e 65Km que pode detectar e monitorizar simultaneamente oito alvos e disparar e guiar o disparo contra dois deles. O número de MIG-21 que serão modernizados deverá ser de 12 a 16, e deverão ser modernizados por uma empresa da Ucrânia.

No entanto, estas aeronaves não serão ser as principais aeronaves de combate angolanas, dado os MIG-23 também sofrerem modernizações. Estes aviões, em caso de qualquer conflito seriam sempre utilizados, em operações secundárias. Os MIG-21 poderão também ser utilizados como aviões de ataque, em caso de necessidade, em apoio dos SU-25 "Frogfoot". É entretanto desconhecido o futuro.

http://www.defensa.org/modules.php?name=Forums&file=viewtopic&p=167059


Acordo MPLA e UNITA.

"O acordo político-militar, marcou, oficialmente, o fim daquela que é considerada a guerra civil mais longa e sangrenta da África. Ao longo dos 27 anos de conflito armado, as estimativas apontam para um milhão de mortos, mais de quatro milhões de refugiados – cerca de 40% da população activa –, 100 mil mutilados e mais de 50 mil crianças órfãs. Desde a proclamação da independência do país, em 11 de novembro de 1975, as partes envolvidas no conflito – governo e Unita –, tentaram sem sucesso três acordos de cessar-fogo. Em 1989, Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi acertam um cessar-fogo, mas este fracassa no mesmo ano.

Em 1991, Eduardo dos Santos e Savimbi rubricam novo Acordo de Paz na localidade de Bicesse, arredores de Lisboa, a capital de Portugal. Em função dos preceitos do Acordo de Paz de Bicesse, um ano depois (1992) realizam-se as primeiras eleições multipartidárias. Eduardo dos Santos e o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) vencem. A Unita acusa o governo de fraude eleitoral e retira das Forças Armadas Angolanas (FAA) todo o seu efectivo militar. É o reacender da guerra em Angola. Em 4 de Abril de 2002, os generais do exército, Armando da Cruz Neto e Abreu Muengo "Kamorteiro", chefes dos Estados-maiores das Forças Armadas Angolanas e das Forças Militares da Unita, respectivamente, assinam em Luanda, na sede do Parlamento angolano, o quarto acordo de cessar-fogo, o primeiro sem ingerência externa, razão pela qual pode ser bem sucedido, uma vez que foi assinado pelos próprios angolanos.

Ibrahim Gambari, secretário-geral-adjunto das Nações Unidas para a África, testemunhou a assinatura do acordo de cessar-fogo. "A paz é uma viagem longa e é como um rebento. Necessita de água para regar e de todo o nosso firme envolvimento", disse Gambari. "Esta é a oportunidade única, quando finalmente todos os angolanos estão prontos para acertarem os fundamentos da paz e reconciliação nacional, desde há muito traçados nos Acordos de Bicesse e no Protocolo de Lusaka", disse o embaixador da Rússia em Angola, Serguei Andreev, que falava em nome dos países membros da "troika" de observadores da ONU para supervisionarem o processo de paz angolano. O acordo de cessar-fogo rubricado entre as chefias militares das FAA e as Forças Militares da Unita cria as condições para o fim definitivo do conflito armado angolano e para a conclusão da implementação do Protocolo de Lusaka. O cessar-fogo completa o processo iniciado com a morte do líder da Unita, Jonas Savimbi. Após o seu desaparecimento, o governo angolano decidiu a cessação das hostilidades, que conduziu a negociações directas entre as forças militares do governo e da Unita. Alcançado o cessar-fogo, abrem-se agora perspectivas de uma paz duradoura, que finalmente permita aos angolanos dedicar-se às tarefas da reconstrução do país".

http://www2.uol.com.br/cadernos/pesquisa-public/cadernos/cadernos_240_17.htm


Em Angola, as Liberdades Política e de Imprensa são Vitais para as Eleições

(Nova York, 14 de julho de 2004) "A paz em Angola prepara o caminho para a conquista das liberdades de expressão, de associação e de assembléia, mas no interior do país essas liberdades continuam a ser violadas", afirmou a organização Human Rights Watch (HRW) em seu relatório divulgado nesta data. No dia 2 de julho último, o Conselho da República (orgão consultivo do presidente) recomendou a realização de eleições nacionais em 2006, a primeira desde 1992.

O relatório de 31 páginas, "Democracia Inacabada: A Mídia e as Liberdades Políticas em Angola", a HRW observa que a detenção e o acossamento de jornalistas tornou-se menos comum assim que, em 2002, acabou-se a guerra civil de várias décadas, e as autoridades angolanas tornaram-se mais tolerantes para com as actividades políticas da oposição. No entanto, essas mudanças são em grande parte confinadas a Luanda, a capital angolana, enquanto que, no interior do país, onde não há qualquer mídia independente, agentes do governo continuam a usar de violência contra os activistas da oposição.  

"É animador que o governo angolano pareça estar empenhado em realizar eleições em 2006," disse Peter Takirambudde, director executivo da Divisão África da HRW, "mas para conquistar sua credibilidade o governo precisará manter livres as actividades políticas, bem como a liberdade de imprensa em todo o país." 

Pacíficas manifestações públicas promovidas por vários grupos cívicos e políticos têm se tornado mais comuns em Luanda, mas no interior, segundo testemunhos recebidos pela HRW, tanto a polícia como a Organização da Defesa Civil do governo e as autoridades administrativas locais têm frequentemente interferido no trabalho dos grupos da oposição, favorecendo o partido do governo. 

Em um caso ocorrido em fevereiro último, homens armados atiraram matando pelo menos nove pessoas, incluindo-se três crianças, durante um protesto contra a remoção dos geradores eléctricos da comuna de Cafunfo, província da Lunda-Norte. A polícia deteve 17 pessoas na cena do ocorrido, três das quais vieram a morrer na prisão, enquanto que as outras continuam detidas sem qualquer processo legal e impedidas de comunicar-se com os seus familiares. 

Partidários da oposição denunciaram a maneira pela qual alguns membros da Defesa Civil trespassaram a recém-estabelecida sede de certo partido da oposição e tentaram incendiá-la, chegando a agredir vários membros desse partido. A polícia não investigou esse incidente. 

Em novembro de 2003, nos arredores da capital, membros da Guarda Presidencial sumariamente afogaram um homem por ter cantado uma canção de crítica ao governo.   

A mídia privada em Angola é bastante independente da política partidária, tendo frequentemente criticado o governo. Mas o Estado controla o único diário e a única emissora televisiva captável não via satélite. O rádio, que é o meio mais acessível à maioria dos angolanos, continua a ser um monopólio estatal na maior parte do país, havendo emissoras privadas somente em poucas cidades. A emissora católica Rádio Ecclésia, que é actualmente a mais acessível fonte de notícias independentes na capital, foi impedida de alargar a sua rede transmissora a outras regiões do país.  

Os jornais privados independentes de Angola chegam somente a alguns milhares de cidadãos abastados, quase todos residentes na capital. Jornalistas e editores revelaram que têm sido constrangidos pelas estritas leis de protecção à difamação e pelo acesso privilegiado aos tribunais concedido a indivíduos poderosos. Se as provisões da Constituição angolana que garantem a liberdade de expressão e a livre atividade política fossem devidamente impostas, estas teriam longo alcance na criação de condições para eleições livres e justas. 

"O governo angolano deve assegurar que seja permitido a líderes e partidários da oposição expressarem seus pontos-de-vista de modo pacífico, sem temer represálias", afirmou Takirambudde, que concluiu: "O governo também deveria suspender as restrições à mídia privada remanescentes, e permitir que emissoras de rádio não-governamentais possam transmitir através do país." 

A HRW conclamou os doadores internacionais de Angola e os seus parceiros comerciais não não só a prestarem a mais minunciosa atenção para com as violações de liberdade de expressão, de associação e de assembléia nesse país, como também de promover e proteger tais liberdades como parte integral de suas estratégias de assistência e negociações. Os doadores deveriam também considerar apoiarem a mídia privada e livre em Angola para ampliar a variedade de opiniões a serem ouvidas, com o aproximar-se das eleições.

 Antecedentes Históricos  

O acordo de cessar-fogo assinado a 4 de abril de 2002 entre as Forças Armadas Angolanas e o grupo rebelde União Nacional para a Independência Total de Angola, ou UNITA, terminou o conflito armado datado da década de 1960, quando movimentos de libertação rivais disputavam seu posicionamento na então colónia portuguesa. Quando Portugal se retirou do país em 1975, o Movimento Popular de Libertação de Angola, ou MPLA, tomou controle da capital Luanda e da região do litoral, enquanto que a UNITA estabeleceu-se no interior do país. Esse posicionamento definiu o ambiente para a guerra civil incentivada pelos super-poderes da Guerra Fria que supriram armas e fundos a essas facções rivais.

 Em 1991, um acordo de paz deu lugar a eleições multipartidárias no ano sucessivo, vencendo o MPLA por uma margem reduzida. As eleições, no entanto, não conseguiram manter a paz. Com a matança generalizada de partidários da UNITA em Luanda, esse movimento rebelde — não tendo cumprido sua obrigação de entregar as armas — reiniciou a guerra, tomando controle de grande parte do interior. Gradualmente, o governo reconquistou território durante a década de 1990, com a ajuda de sancções impostas pela ONU sobre o comércio de diamantes com que a UNITA custeava seus esforços de guerra. A essa volta à guerra seguiu-se uma erosão das liberdades que deveriam acompanhar o sistema multipartidário prometido pela Constituição de 1992. 

Em princípios de 2002, o governo conseguiu isolar no leste do país o fundador e líder da UNITA, Jonas Savimbi, morto em combate no dia 2 de Fevereiro. Os líderes da UNITA sobreviventes entabularam negociações com o governo, levando ao fim das hostilidades e à desmobilização das forças da UNITA. Com a paz resultante, é que se abriu a perspectiva de eleições nacionais".

http://hrw.org/portuguese/docs/2004/07/14/angola9082.htm


Jonas Savimbi, ex-presidente da UNITA.

Jonas Savimbi, um carrasco implacável de seu país

""Paris - Ele morreu, o "guerreiro da selva", o "filho do país", o "negro autêntico", um dos mais velhos e mais terríveis resistentes do mundo, em luta há trinta e seis anos contra os "cidadãos educados", os "descendentes do colonialismo" que reinam em Luanda - sob a presidência de Eduardo dos Santos.

A questão é: a morte de Savimbi com quinze balas, duas delas na testa, vai colocar um fim na guerra que fez de Angola um país massacrado, com um milhão de civis mortos, uma terra diabólica com milhões de áreas minadas e quatro milhões de pessoas deslocadas, dos 12 milhões de angolanos?

Figura complicada

Não tentaremos responder a essa pergunta. O mais sensato é lembrar o sangue derramado por Savimbi (ao qual corresponde o sangue derramado pelo regime de Luanda, não menos corrupto, não menos despótico que o poder do "homem da floresta", Savimbi).

Savimbi era uma figura complicada. No início, não só celebrou "a autenticidade africana", mas também pegou em armas em 1965 para lutar contra Portugal (de Salazar), com a Frente de Libertação Nacional de Angola (FLNA), cujo chefe era então Holden Roberto. No ano seguinte, fundou a "Unita" (União Nacional pela Independência Total da Angola).

Longa marcha

Começa-se a suspeitar dele. Suspeita-se que era apoiado pela PIDE (polícia política portuguesa). Depois, em 1975, deu-se a "Revolução dos Cravos" em Lisboa, e Portugal deixa Angola aos pró-soviéticos do MLPA (até hoje no poder em Luanda).

Savimbi parte para suas "terras no fim do mundo", em Jamba. É o início de sua "longa marcha", com 3 mil homens. O final da "longa marcha" não é original: apesar de seu "anti-marxismo" obstinado, Savimbi tinha feito um estágio na China no final da década de 60 e, na direção dos resistentes, aplica os preceitos de Mao Tsé Tung. Mas coloca esses preceitos a serviço do campo ocidental, contra os "vermelhos" de Luanda.

Peão dos EUA

Desde então, Savimbi estará na disputa, em primeiro lugar na "guerra fria", em seguida na "nova ordem mundial". No início, os Estados Unidos entregam toneladas de armamentos. Savimbi torna-se um peão utilizado pelos Estados Unidos. Savimbi, esse "independentista" autêntico chega a aliar-se aos países do apartheid, à África do Sul.

Reagan o batiza: "Combatente da liberdade". Isso não é falso, uma vez que o campo inimigo, o MLPA de Luanda, recebe o apoio de 50 mil barbudos cubanos. O muro de Berlim cai em 1989. O mundo está em paz. Em 1991, foi assinado um tratado de paz entre Savimbi e Luanda, sob a égide da ONU.

Estorvo para o Ocidente

Houve eleições. Savimbi estava certo de vencê-las. Ele perde, parecia muito arrogante, muito "revanchista". Não aceita seu fracasso. Volta para sua selva, e é a guerra total: cidades bombardeadas, montanhas de mortos, terror.

O poder legal de Luanda estava na defensiva. Mas a comunidade internacional, que então estava livre da ameaça soviética, "mostra os dentes".

Diamantes

Savimbi, o maravilhoso Savimbi, o "cruzado" anti-marxista, de repente torna-se terrível para o Ocidente. A ajuda internacional lhe foi negada. Os Estados Unidos o colocam na categoria dos "violentos". Savimbi é um "pária". Mas esse "pária" ainda tem garras. Ele intensifica seu tráfico de diamantes, que lhe rende 500 milhões de dólares por ano, e esses dólares transformam-se em morte, em armas.

No entanto, seu isolamento o enfraquece. Luanda lança contra ele uma guerra total. Savimbi luta, mas recua diante de todos os adversários. Sozinho no mato, continua a reinar. Mas seu reino é atroz: realiza "purgações" constantes em seu estado-maior.

Cabeça excepcional

Exige ser admirado como um génio. E infelizmente ninguém se extasia diante de nenhuma de suas palavras. É um guerreiro. Jamais recusou um combate. Mas ele não é apenas esse tirano cruel, banido da sociedade internacional desde o final do regime soviético.

É também uma cabeça excepcional. Esse homem, que nasceu em 1934 e foi um dos únicos de sua etnia (os ovimbundos) a estudar em Lisboa sob o regime de Salazar e a se tornar médico, é fascinante.

O jornalista português Pedro Rosa-Mendes o conhecia bem: "Jonas Savimbi é um dos seres mais inteligentes que já vi. Dispunha de uma força de convicção e de uma inteligência tática excepcionais...colocadas a serviço de uma sede de poder patológica".

Grandes interesses

Não devemos esquecer nessa litania do mal o papel desempenhado pelos ocidentais - seja a estupidez, seja a avidez. Passemos por Washington, que se aliou sucessivamente aos "maoístas" ferozes da UCK no Kosovo, e depois aos talebans de Cabul. Por que não teriam ajudado Savimbi, anti-marxista, antes de esmagá-lo?

Mas não há apenas governos. Há, ainda mais, os grandes interesses da sociedade mercantil. Os comerciantes do diamante e, sobretudo, como sempre, os grandes "petroleiros" pressionaram sucessivamente um e outro campo, contribuindo para o sangue, mas também para o delírio paranóico em que essa pobre população mergulhou.

E para que a distribuição dos prémios "luciferianos" seja completa, não nos esqueçamos dos "derrubadores" de Savimbi: o governo de Luanda. É o outro lado de Savimbi, o cidadão evoluído e não o forasteiro e selvagem: fraudes, violências, mortes.

Denúncias

Em 2001, Luanda conseguiu desviar 1,4 bilhão de dólares de receitas petrolíferas (informação dos ingleses do Global Witness). Os Médicos do Mundo diversas vezes denunciaram, há dez anos, o uso que Luanda faz da ajuda humanitária dada ao país - uma maneira de privar de alimentos o interior de Angola. Todo o mundo sabe disso. As Nações Unidas ficaram mudas.

Esse foi o homem que morreu na sexta-feira. Esse é o país mártir. Essas são as potências obscuras da África ou do Ocidente que "atiçaram o fogo". E amanhã? "

Gilles Lapouge, correspondente

http://www.estadao.com.br/agestado/noticias/2002/fev/25/311.htm

Angola anuncia morte do líder dos rebeldes da Unita

"Luanda - O Exército de Angola matou Jonas Savimbi, por 30 anos o líder do grupo rebelde UNITA. O Exército e o governo anunciaram num comunicado conjunto que Savimbi morreu em confrontos na província de Moxico, sudeste de Angola, por volta das 15 horas em 2 Fevereiro de 2002 (horário local). Não houve imediata confirmação da notícia por fontes independentes.

Aldemiro Vaz Conceição, porta-voz do presidente José Eduardo dos Santos, disse que o Exército mantinha o corpo de Savimbi em Moxico. "Vamos divulgar imagens do corpo pela televisão", afirmou Aldemiro por telefone à Associated Press. Entretanto, as imagens só devem chegar aos estúdios de TV em Luanda, na capital, neste sábado, devido ao mau tempo que tem prejudicado os vôos.

Num comunicado separado, a polícia pediu à população civil para manter a calma. Oficiais da UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola), que estão escondidos em florestas angolanas, não puderam ser contactados.

Em Luanda, integrantes da guarda presidencial fizeram disparos de armas automáticas para o ar em comemoração. Milhares de tropas de elite guardam o palácio presidencial nos arredores de Luanda. O governo afirmou que irá agora buscar o fim da guerra civil em Angola, que tem sido travada pelos dois lados durante a maior parte dos últimos 27 anos, e anunciou que estava pronto para executar um acordo de paz de 1994 que previa eleições democráticas periódicas.

Estima-se que mais de 500.000 pessoas tenham morrido durante a guerra civil. Cerca de 4 milhões - aproximadamente um terço da população - foram forçadas a abandonar as casas devido aos combates.

Não está claro se alguém da hierarquia da UNITA conseguirá substituir Savimbi, que liderava o grupo com mão-de-ferro desde que ele foi fundado em 1966 para combater a administração colonial portuguesa. Acredita-se que o vice-presidente da Unita, António Dembo, assim como Paulo Lukamba Gato, assessor próximo de Savimbi, estejam vivos e escondidos no interior de Angola.

A Unita dispõe de stoques de diamante, vendidos no mercado negro internacional, o que permite que o grupo continue lutando apesar de sanções das Nações Unidas ao comércio de petróleo e armas. O governo financia a guerra com a produção de petróleo. Grupos de direitos humanos acusam os dois lados de cometerem atrocidades.

O Exército do governo expulsou a UNITA dos principais bastiões no último ano, depois do retorno da guerra civil ao país após desmoronar em 1998 um acordo de paz assinado quatro anos antes. O acordo de 1994 foi mediado pelas Nações Unidas e seguiu-se a dois outros acordos de paz anteriores que também foram desrespeitados.

Savimbi, que tinha 67 anos, foi uma peça-chave na luta pelo domínio da África durante a Guerra Fria, mas acabou isolado internacionalmente ao não aceitar resultados de eleições democráticas. Dos anos 60 aos anos 80, ele foi um importante aliado dos Estados Unidos e do governo racista da África do Sul na luta contra o governo marxista em Angola. Em 1986, Savimbi foi recebido como chefe de Estado pelo então presidente Ronald Reagan na Casa Branca.

Mas, depois do fim da União Soviética, o governo angolano abandonou as políticas marxistas e se aproximou dos EUA, levando companhias petrolíferas norte-americanas a investir bilhiões de dólares no país. Ao rejeitar a derrota na primeiras eleições democráticas em Angola em 1992, retornando à guerra civil, Savimbi acabou sendo isolado pelas potências ocidentais que pressionavam pela democracia na África.

O ex-subsecretário de Estado para Assuntos Africanos dos EUA Chester A. Crocker afirmou que Savimbi tinha "uma mente estratégica de classe mundial". "Era difícil não ser impressionado por esse angolano, que combinava qualidades de um senhor da guerra, chefe supremo, demagogo e estadista", escreveu Crocker em 1992.

Nascido numa família humilde na vila de Munhango, no centro de Angola, Jonas Malheiro Savimbi era um guerrilheiro formado na universidade e que falava três línguas africanas e quatro europeias. Muitos dos comandantes da UNITA foram recrutados na tribo ovimbundu, de Savimbi, mas ele sempre resistiu à idéia de que a guerra civil angolana era travada entre tribos.

Quando o país se tornou independente de Portugal, em 1975, o governo Movimento Popular para a Libertação de Angola, ou MPLA, reforçado por militares cubanos, lançou uma grande ofensiva, forçando a UNITA de Savimbi a embrenhar-se nas matas, no que ficou conhecido como "A Longa Marcha" do grupo. A UNITA reagrupou-se e recebeu apoio de tropas da África do Sul e ajuda secreta da CIA. Em duas décadas de guerra, Savimbi formou uma força de mais de 60.000 homens, mas nunca dispôs do poder aéreo do MPLA".

http://www.estadao.com.br/agestado/noticias/2002/fev/22/246.htm