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COMENTÁRIOS INTERNACIONAIS

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Presidente de Angola
(foto DN)

DN Internacional, 28/8/2005. Veteranos da política 28 - José Eduardo dos Santos.

Entre o Afrocomunismo e os dólares do petróleo.

Fernando Mandaíl.

No longo confronto com Jonas Savimbi, ganhou na sangrenta batalha militar, nos bastidores da diplomacia, na contagem dos votos depositados nas urnas e nesse derradeiro duelo que seria fatal para o líder do Galo Negro.

"Zé Du. Do círculo mais intimo às vozes dos musseques é assim tratado o Presidente que, nos idiomas das chancelarias que disputam a influência em África (Washington e Paris), é conhecido por Dos Santos.

José Eduardo dos Santos, que sucedeu ao presidente-poeta Agostinho Neto, nasceu a 28 de Agosto de 1942, em Luanda. Quando morreu, em 1979, o autor dos versos "E os sonhos / se desfazem / contra uma muralha de baionetas", o facto de ser "uma figura discreta aceite por todas as tendências do MPLA", no entender de Georges Lory, deu-lhe o cadeirão do Futungo de Belas, a liderança do partido, o comando das forças armadas e, logo no ano seguinte, ainda o cargo de presidente do Parlamento.

Em 1979, o jovem que tinha abandonado Luanda aos 19 anos para representar o MPLA em Brazzavile e aproveitou a visão estratégica de Neto para se licenciar em Engenharia de Petróleos na União Soviética (a sua primeira mulher parece que não se adaptou à troca do país gelado pelo calor dos trópicos) já tinha feito o seu percurso de Estado como ministro das Relações Exteriores, vice-primeiro-ministro e ministro do Plano.

O MPLA tinha resolvido a questão interna das facções de Pinto de Andrade e de Daniel Chipenda; avançara para a independência com o apoio de Havana e Moscovo, contra a FNLA e as suas cumplicidades zairenses, a UNTTA e os seus apoios sul-africanos; e reprimira a tentativa de golpe de Nito Alves.

E, no entanto, ainda se estava a meio da guerra, que as populações começaram a confrontar-se com catanas e napalm desde 1961 e só deixaram de ouvir troar os órgãos de Estaline e o zumbido dos MiG em 2002 mantendo-se ainda, para cada perna de angolano, uma mina enterrada naquela terra fértil, e a guerrilha das FLEC, em Cabinda.

No longo confronto com Jonas Savimbi, ganhou no campo militar (sobretudo na batalha de Cuíto-Cuanavale, que suscitou paralelos com o lendário confronto entre Montgomery e Rommel em El Alamein); na diplomacia com que até aceitaria, por exemplo, apertar a mão ao rival em Gbadolite; na contagem dos votos em 1992; no duelo final com o líder do Galo Negro.

Entretanto, adaptou-se ao país que Tony Hodges sintetizou em título de livro: Angola from Afro-stalinism to Petro-diamond Capitalism. No xadrez regional, depois de ser decisivo na independência da Namibia, mostrou que podia influenciar em Kinshasa e Brazzaville. Tudo assente num perfil que até os seus críticos admitem ser soft. "O mais discreto e astuto dos chefes dos regimes autoritários de que há memória em África", escreveu o jornalista Rafael Marques. O escritor José Eduardo Agualusa, em depoimento para o número especial da Visão (África - 30 Anos Depois), diz que ele "pode ser um ditador, mas não o vejo como um sanguinário". E o dissidente do MPLA Joaquim Pinto de Andrade reconhecia à Grande Reportagem, em 1993, que o Presidente "não é de mandar gente para a fogueira, de mandar fuzilar pessoas".

Num país de famintos e estropiados, não vale a pena insistir no luxo do avião privado, lembrar as compras da mulher Ana Paula no Rio de Janeiro ou o fausto da boda da filha Tchizé. Até porque, com o parecer do Tribunal Constitucional, pode ser candidato a novo mandato. E talvez se continuem a pronunciar essas quatro letras que, nos negócios petrolíferos ou nas bancas do Roque Santeiro, significam poder e privilégio: Zé Du."

O legado da impunidade

26 de Outubro de 2005 - 09:47 AM  

Luanda - Por ocasião dos 30 anos de independência, é conveniente uma abordagem, ainda que sucinta, sobre o legado de quem ao longo de cerca de 26 anos comanda os destinos do país. É óbvio que se está a falar do Presidente José Eduardo dos Santos e daquilo que deverá deixar como obra feita, como um exemplo para as novas gerações. Muito jovem, Eduardo dos Santos herdou um país fraccionado. Os angolanos tiveram de esperar quase três décadas para que essa fracção se convertesse num número completo, de pessoas que respeitam os mesmos poderes soberanos não obstante as diferenças ideológicas de cada um. A conquista suada da paz, a luta pela reconciliação nacional é, pois, um dos principais legados de José Eduardo dos Santos, embora nesse particular haja algumas questões que devem, ainda, ser esclarecidas.

De resto, temos um país transformado em escombros e milhares de vidas humanas destroçadas por uma desgraçada governação que se tornou permissiva - e porque não, cúmplice - de um rol de crimes que se desenrolam quotidianamente perante os olhos de atónitos cidadãos. Angola, hoje, está praticamente transformada num reino da impunidade. Este sentimento de impunidade é, sem sombra para dúvidas, o maior de todos os legados de José Eduardo dos Santos para as gerações que se seguem. As projecções de organizações internacionais que mantêm anos a fio Angola como um dos dez países mais corruptos do mundo deixam de ser surpreendentes para quem, como nós, conhece o volume de denúncias de crimes económicos quase sempre devidamente comprovadas, mas cujos autores nunca chegam a ser punidos.

Estamos perante uma governação que diz defender, mas que em boa verdade cospe sobre os princípios de boa gestão e manuseio transparente do dinheiro público. Não faltam, entre nós, exemplos para confirmar esta tese. É vê-los todos os dias em sumptuosas viaturas a desfilar vaidade pelas ruas do país como se nunca tivessem ferido os interesses do Estado, ou melhor, das largas dezenas de milhões de habitantes desse vasto e rico território. Embora os crimes económicos sejam a faceta mais suja e absurda da impunidade que grassa por Angola, temos de convir que ela (a impunidade) também se faz sentir no quotidiano do cidadão comum, quando vê familiares seus assassinados, sem que o assassino seja preso, ou quando é assaltado, sem que chegue um dia a conhecer o rosto ou a punição do ladrão.

Todas as semanas, a imprensa trata de tornar públicos casos dessa natureza, muitos dos quais, não obstante terem sido muito badalados, continuam sem merecer um esclarecimento, sem que as forças da ordem se predisponham a dar a mais básica informação a propósito. Os assassinatos do político Mfulumpinga, do jovem Cherockee assim como as arruaças dos filhos do primeiro-ministro são exemplos de que mais do que proteger o cidadão a Polícia está incondicionalmente ao serviço de quem detém o poder político, e que apenas age conforme as vontades e a conveniência destas mesmas pessoas. Para quem, nestas mesmas condições, ostenta o título de «arquitecto da paz», o tempo é curto para garantir que a Justiça em Angola seja, de facto, justa.

Fonte: A Capital

Exploração da riqueza de Angola: negócio para alguns.

Umoya.

Angola tem petróleo, mas o Governo tem vendida a produção de alguns blocos petrolíferos nos próximos anos para pagar as dívidas. Também tem diamantes, mas as províncias produtoras apenas têm escolas ou hospitais.

Os processos de desarmamento, desmobilização e reintegração de antigos combatentes, são um elemento chave para alguns processos de paz e se fracassam, como afirma a Escola de Cultura de Pau na sua informação Alerta 2005!, “podem gerar uma onda de violência ainda maior.”

Em África, o caso de Angola é peculiar. Com riquezas naturais que a situam como um dos pólos de atracção de investimentos estrangeiros mais importante da África Austral, aumenta o descontentamento popular ante um processo de reconstrução e reconciliação que está longe de procurar a paz aos seus habitantes.

Recentemente, a Comissão Interministerial, responsável da preparação das eleições em Angola, afirmava que muitos dos problemas que sofre o interior do país - a existência de minas, a reabilitação da infra estrutura básica como pontes e estradas - se resolverão com o recém pressuposto aprovado.

O anúncio chegava depois das queixas apresentadas pelos próprios representantes provinciais da Comissão, como o da província da Huila, um dos focos económicos do país, onde ficam os campos cheios de minas anti-pessoais em nove dos seus municípios.

Partilha dos despojos da Guerra.

Com o inimigo derrotado militarmente (2002), acabou o conflito armado que arrasou Angola durante três décadas. Então, uma reduzida cúpula próxima dos governantes Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) abriu-se campo para controlar os fundos provenientes da exploração dos recursos naturais (petróleo, gás, diamantes).

Segundo dados recolhidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em Fevereiro de este ano, Angola poderia chegar a exportar dois biliões de barris de crude por dia em 2007. Uma venda que - segundo o preço internacional do barril - pode chegar a gerar más de 4 biliões de dólares por ano.

Paradoxalmente, os proventos do Estado pela venda de crude caíram em 2004 respeito a 2002 já que para pagar dívidas pendentes, o Executivo tem vendida a produção que gerarão alguns dos blocos petrolíferos más produtivos nos próximos anos.

É o caso da China, que adiantou 2 biliões de dólares ao Governo angolano em troca de uma quota das exportações de crude. No entanto, pouco vêem os cidadãos de este desembolso: a maioria dos trabalhadores empregados nas obras de reconstrução vem do país asiático.


Exploração da antiga Diamang na Lunda  (foto Júlio Pedro).

Um assunto de diamantes.

No extremo Este, situam-se as províncias da Lunda Norte e Lunda Sul, reserva diamantífera desde os tempos coloniais. Depois da guerra, os rebeldes da União para a Independência Total de Angola, (UNITA) perderam o controle da sua fonte de receitas: os diamantes, que passaram para as mãos de ex-generais de ambos os grupos, políticos e empresas internacionais.

Calcula-se que cada ano, a produção era mais de um bilião de dólares. Paradoxalmente, os cofres públicos estão vazios, na Lunda Norte, apenas há uma escola primária e um hospital semi-destruído.

As pedras da morte, é a primeira indicação elaborada sobre as condições de vida da população e das Lundas. Nele, se documentam mais de 70 casos de violação de direitos humanos, desde execuções extra judiciais, outros homicídios, torturas, violações sexuais e detenções arbitrárias.

As Pedras da Morte, dirigido pelo jornalista angolano Rafael Marques - relata o caso de um garimpeiro (mineiro artesanal) André Jorge Honda, ocorrido em 19 de Setembro de 2004. Naquele dia, enquanto se banhava no rio Cuala, o guarda de segurança de uma companhia mineira que funciona na zona aproximou-se dele e acusou-o de ser garimpeiro e disparou-lhe um tiro na nuca.


Diamantes da Lunda, cada um tem mais de 13kl.


Os maiores diamantes extraídos na Lunda
(foto Júlio Pedro)


O maior diamante extraído na Lunda (192,2kl)
(foto Júlio Pedro)

Nas Lundas, “a povoação é expulsa das suas terras quando vivem sobre jazimentos ricos em diamantes. Desalojam à força as famílias e obrigam-nas a deslocar-se para outras regiões - afirma o professor de Economia da Universidade Católica de Angola, Justino Pinto de Andrade - é onde mais violações dos direitos humanos se cometam no país e onde será mais difícil qualquer projecto de democracia política.”

Este analista qualifica a região como uma bomba temporizada: se o Governo central não atende às necessidades da povoação e não investe os benefícios obtidos pela exportação de diamantes para o desenvolvimento local a violência adquirirá níveis ainda maiores.

Cabinda, reino da impunidade.

As armas também não se calaram em Cabinda, uma província situada no norte do país, que gera cerca de 10% da produção total de crude. A situação do enclave petrolífero é qualificada de guerra aberta entre o Governo da República de Angola e os nacionalistas cabindenses, organizados em volta da Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC).

A impunidade, a repressão e a pobreza dos seus habitantes estão documentadas. Segundo informação elaborada pela Associação Cívica de Cabinda Mpalabanda: “A guerra prossegue em Cabinda desde cerca de 30 anos (...) Muitas aldeias estão militarizadas e alguma sitiadas (...) Esta situação está asfixiando a povoação civil e constitui uma verdadeira ocupação militar, que está reforçando um sentimento de rejeição e de revolta.”

Todos os analistas coincidem em que o risco de um novo conflito armado em grande escala em Angola é mínimo; mas enquanto um a parte da povoação aprecia e desfruta a nova situação, a maioria exige ao Governo que ponha as bases para uma paz duradoura.

As primeiras eleições em paz de Angola não tem data definitiva - especula-se com Setembro de 2006 -, mas a sociedade civil estão de olho nelas; a ida as urnas deveria marcar o fim do período de reconstrução nacional e o início de um novo momento na história de Angola.

A sociedade exige abertamente aos dirigentes o fim do roubo da riqueza nacional e o fim da corrupção e da pobreza. O Executivo pela sua parte não quer dar-se por aludido e continua com uma atitude paternalista, que só concede migalhas aos cidadãos.

Nota: tradução livre. 
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=16819

 

Luís Alberto Ferreira

Enviado JN

"Luanda, sabiam? Tem cerca de três milhões de habitantes !

A partir de 1975, semana a semana, dia a dia, a capital de Angola viu crescer, de modo avassalador, o número de utentes das suas, hoje, devassadas e corroídas infra-estruturas. Montadas para servir pouco mais de 400 mil pessoas. Hoje, positivamente a rebentar pelas costuras, a cidade de Luanda é vítima de todas as erosões possíveis. Sempre são 20 anos velozes e dilacerantes. Desde a proclamação da independência, com o saudoso presidente Neto na tribuna do Largo 1º de Maio. Ele, o dr. Agostinho Neto, aí por alturas de 1977, 78, 79, ano em que morreu, usava deslocar-se, por vezes, discreto e sorrateiro, a certos recantos de Luanda, para ver e crer. Quando começaram a manifestar-se, na pele da grande cidade africana, as primeiras feridas preocupantes. Já passaram, pois, cinco lustros - durante os quais Luanda não cessou de crescer e de receber gente, gente, mais gente, sempre mais gente. Um fenómeno visceral da guerra. Em vários capítulos. Depois de 1975, uma onda imparável, num gotejar sincopado. Depois das eleições de 1992, nova onda de deslocados, refugiados, mutilados - homens e mulheres, com as suas crianças, camponeses, operários, funcionários, militares tresmalhados, do Norte, do Centro e do Sul.

Luanda aguentou tudo isso e hoje, exausta, reconhece-se em tudo isso. Guerra de libertação, independência, guerras pontuais fratricidas. É uma cidade, apesar de tudo, estóica, lutadora, perseverante. Uma cidade rara. Ulcerada e destruída ali, refeita e repintada acolá. E a gente reconhece-a, sempre, até nos inesperados labirintos, nos esconsos de terra batida do bairro dos Coqueiros. As infraestruturas de Luanda, estripadas, são ainda as mesmas de 1974, quando a cidade acolhia cerca de 400 mil almas. As mesmas! E os novos musseques, nas imediatas periferias são, agora, de betão! Construções ao Deus dará, numa impressionante sequência de sofreguidões, improvisos e clandestinidades sem clandestinidade nenhuma.

Há edifícios de apartamentos, noutras áreas de Luanda, cuja infraestrutura comporta, na totalidade, fossas sépticas! Edifícios com uma média de 20 apartamentos por cada andar. Os rebentamentos em canalizações agudizam, no quotidiano luandense, o problema da rede de esgotos, talvez o mais sério de todos. O governador provincial de Luanda, Justino Fernandes, disse ao JN que a maior preocupação, neste momento, incide no esforço a realizar antes da eclosão das próximas chuvas. A malha de drenagem está a ser objecto de obras estrategicamente definidas, em vários pontos de Luanda. São obras avulsas, mediante contratos severamente estabelecidos.

É que, francamente, não há dinheiro, confessa Justino Fernandes. E, por isso, tudo é negociado palmo a palmo, discutido com a Direcção de Economia. "Se der uma volta por Luanda", sugere o governador provincial, "vai certamente poder observar pequenas obras em curso, um pouco por toda a cidade". Por exemplo, estão a ser desobstruídas as mais de três mil sarjetas da capital. Obras encaixadas num "sistema" de programa a programa, passo a passo. Tem de ser assim porque, de facto, não há, no verdadeiro sentido do termo, um orçamento próprio. O grande programa "Vamos salvar Luanda", desenhado, em tempos, com algum entusiasmo, chocou com a barreira impeditiva da falta de meios financeiros. Para recuperar Luanda, segundo cálculos de 1992-1993 (na altura revelados, também, ao JN, seriam necessários cerca de 400 milhões de dólares. Agora, a política do governo provincial é mesmo arregaçar as mangas e caçar com gato, como sentencia o povo português. Programa... caderno de encargos... Programa... caderno de encargos... E Luanda lá vai cuidando das suas feridas profundas.

NEGÓCIOS

Os aviões que, saídos de Lisboa, pousam no aeroporto "4 de Fevereiro", em Luanda, despejam constantemente médios e pequenos comerciantes em busca de negócios rápidos. Em Luanda, hoje, praticamente, pode comercializar-se um pouco de tudo, de muitíssimas coisas. E, como a necessidade, em qualquer parte, aguça o engenho, não há "negócios" que em Luanda se não façam. Mesmo assim, o tradicional comércio geral, com pequenas lojas, outrora espalhadas pela cidade, está longe de um regresso em força. Lojas de vestuário há algumas, sim. De porta aberta e no coração de Luanda. Abundam, isso sim, as lanchonetes. E os pequenos restaurantes. Como quer que seja, há uma grande distância ética entre os que fazem negócios a pensar, também, no que é importante para a nutrição e a saúde das pessoas, e os que simplesmente chegam a Luanda dispostos a sacudir a "árvore das patacas" da nova era. Sem, claro está, olharem a meios. Nesse aspecto, Luanda é um verdadeiro lodaçal.

BANDIDAGEM

Luanda é uma cidade particularmente perigosa. O repórter avança com um episódio sintomático. Ao terminar, por volta das 19 e 30, no Bairro Azul, uma longa entrevista com Miguel N'Zau Puna, antigo secretário-geral da UNITA, proponho-me agarrar nos equipamentos e dirigir-me, se possível em corrida, para os acessos à Avenida Neves Ferreira, de ligação à "baixa" luandense. O entrevistado, e anfitrião, lança as mãos à cabeça, horrorizado: "Vai a pé e sozinho? Por favor! Não pense que o deixo sair daqui nessas condições, os meus auxiliares vão conduzi-lo até ao hotel...". E o deputado N'Zau Puna explicava o que eu, com efeito, já ouvira de outros luandenses: "Aqui, desaparecem pessoas sem deixar rasto. Não se trata somente de serem despojadas dos seus bens, até da própria roupa: as pessoas desaparecem, pura e simplesmente!" Enfim, o que é preciso, em Luanda como em toda a parte, é ter sorte. Umas vezes com "escolta" armada, outras vezes sozinho, aventurei pela cidade passos que me permitiram matar saudades e recolher elementos de reportagem".

http://jn2.sapo.pt/secdiv/especial/angola1.htm

O "Baton" da Ditadura

"O regime está assustado. Os seus mentores, assim como o seu sustentáculo intelectual, já começam a agarrar-se à guerra com desespero. Já não conseguem disfarçar que, afinal, eles são os principais instigadores da guerra em Angola. Os principais causadores do efeito Savimbi. As eternas sanguessugas do poder.

Para já, duas figuras se destacam na linha da frente da polícia do pensamento do regime. João Melo e o triste Costa Andrade, vulgo N’dunduma. Eles representam e encarnam todo o surto da maldade política do MPLA.

Sem uma ideologia, obra política, social, económica e cultural a defender, os escribas de serviço da nomenclatura continuam a imaginar que ainda estão nos seus áureos tempos de perseguidores da mudança e da mentalidade independente. Continuam a imaginar que ainda têm todas as cartas na mão e que, de facto, podem jogá-las como bem entenderem. Assim como continuam a julgar que podem, efectivamente, forçar os filhos dos pobres e desgraçados a combater em defesa dos seus complexos e privados interesses.

João Melo, nas suas "Multivisões", considera oportunismo o facto de um grupo de cidadãos tentar criar uma corrente de solidariedade para a paz, de defesa dos interesses da nação e da vontade da maioria. Está tudo claro, esse senhor é o que se pode chamar de belicista cobarde.

Quer a guerra, sim. Mas a que é feita entre os pés descalços e por si aplaudida.

Doutro modo, ter-se-ia voluntariado a integrar o exército e a ir para as matas, onde, com todo o patriotismo, poderia, pelo menos, escrever as cartas dos soldados analfabetos que, humanos, e já sem reclamar salários, gostariam apenas de comunicar-se com os seus familiares.

Por outro lado, esse mensageiro da morte em momento algum interveio na sensibilização da elite e do grupo minoritário a que pertence para o envio dos seus filhos para a tropa. Portanto, é mais do que evidente o papel de João Melo. Defender o poder pelo poder, a classe dominante, os seus bens, interesses e o resto que se lixe. Ou melhor, que seja lixado!

Mas, como a perversidade também tem as suas universidades, João Melo consegue, com muita argúcia, transformar um argumento totalmente esfarrapado em verdade de seda. "É preciso destruir a máquina militarista de Savimbi." Esse filho africano, tão inteligente quanto infestado de defeitos, só não é crucificado em praça pública porque não lhe conseguem deitar as mãos.

Porquê? Porque o regime precisa de tapar o seu principal buraco. A sua maior fraqueza de governação. A responsabilidade de José Eduardo dos Santos na destruição do país e no descalabro das instituições do Estado. A responsabilidade do presidente do MPLA e da República na promoção da incompetência, do peculato e da corrupção como valores sociais e políticos.

Nada melhor que elevar Savimbi à categoria de obsessão nacional para esconder José Eduardo dos Santos e tudo o que está por detrás dele. O mais discreto e astuto dos chefes dos regimes autoritários de que há memória em África. O exemplo mais alto do antipatriotismo em Angola. O modelo de liderança antipopular. Antipovo.

A esse respeito, o notável escritor luso-angolano José Eduardo Agualusa é mais prático. "Sim, é preciso julgar Jonas Savimbi. Mas porquê apenas Savimbi? Não podendo julgar todos os criminosos de guerra, que se levem a tribunal pelo menos os chefes: Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos."

Mas, o povo angolano quer, acima de tudo, paz duradoira, justiça social e reconciliação nacional. Porque, de acordo com Martin Luther King, "nós jamais nos libertaremos dum inimigo respondendo ao ódio com ódio. Só nos libertaremos dum inimigo libertando-nos da inimizade. Por sua própria natureza, o ódio destrói e dilacera; por sua própria natureza, o amor cria e constrói. O amor constrói com o seu poder redentor".

Nem José Eduardo dos Santos, nem Savimbi, quanto mais os seus fantoches, têm esse amor. Daí que o povo tenha necessidade de se unir e pacificamente lutar contra a guerra e os seus promotores.

É preciso cerrar fileiras contra o diversionismo de João Melo e Costa Andrade e a grande inimizade que estes nutrem pelo povo. Que o povo pergunte a esses senhores o que ambos já fizeram pelo seu bem-estar. Ambos são membros do Parlamento. Quantas vezes já defenderam os genuínos interesses do povo na Assembleia?

Defender o MPLA não é defender o povo angolano. Há quem o faça fanaticamente, não para defender o povo, mas como única alternativa de buscar o "caminho marítimo para a Índia".  

Os mesmos foram colocar-se no pedestal político da intelectualidade angolana. Quantas vezes já usaram o seu verbo para defender os valores da cultura nacional e as ricas tradições dos povos de Angola? Mais perguntas? Fácil é ser intelectual do MPLA, ou escriba em troca de privilégios, mas difícil é ser intelectual a favor da Nação.

O programa do MPLA transformou-se no da UNITA e o da UNITA no do MPLA, pelo menos em tautologia. Ainda que na prática todos escrevem por cima da água.

"O diálogo, por sua vez, ensina-nos a conhecer melhor os demais e a descobrir que também eles têm boas intenções, desejos de paz, de justiça e de amor. Pelo diálogo, degelam-se sentimentos de dureza e hostilidade, sintonizam-se as almas, encontram-se os homens a si mesmos e confiam uns nos outros", ensinam-nos os bispos católicos na sua reflexão pastoral.

A persistência na guerra pretende tão-somente esconder os podres do poder. Apagar da memória colectiva a necessidade de educação, de equilíbrio social, de desenvolvimento e prosperidade para o país. Outrossim, essa confusão permite a gestão do país sem qualquer tipo de contestação. Sobretudo em relação às matanças que minam a suposta "santidade" do regime.

Veja-se, por exemplo, o caso de Thabo Mbeki, o actual Presidente da África do Sul. Já alguém teve coragem de expor as sevícias por que o homem passou na Estrada de Catete, quando lá foi detido em companhia de compatriotas seus, no ano de 1983? Já alguém teve a coragem de assumir que Thabo Mbeki foi forçado a assinar um documento em que tinha de assumir um inexistente atentado contra Oliver Tambo?

Tudo porque em 1983, 70 estudantes universitários sul-africanos que se haviam juntado às causas do ANC foram fuzilados no município do Cacuso, Malanje, por se terem recusado a combater a UNITA. Segundo informações dignas de apreço, os mesmos contavam receber treino aqui para lutar contra o "apartheid" e não para se envolver numa guerrilha civil alheia.

Consta que Thabo Mbeki juntou a sua voz à dos outros membros do ANC que repudiaram o acto. E, cadeia com eles!

Nesse mesmo ano, 26 outros membros do ANC, de um grupo de 40 detidos na Estrada de Catete, foram fuzilados. As sobreviventes Grace e Kate ainda podem contar a história.

Há muitos crimes por revelar e, graças a Deus, Thabo Mbeki sobreviveu para ser Presidente da África do Sul e estender a mão a José Eduardo dos Santos que, entretanto, a recusou.

Haja seriedade!"

Rafael Marques http://www.cabinda.net/batonditadura.html


Rafael Marques

A população das Lundas passa pior que os Escravos

"Rafael Marques, angolano, jornalista, activista de Direitos Humanos, apresentou em Lisboa um relatório intitulado "Lundas - as pedras da morte", que examina os padrões de abusos dos direitos humanos naquela região diamantífera de Angola.

- Por que é que fez um exame dos abusos dos direitos humanos nas Lundas?

Porque é actualmente a região angolana mais afectada pela miséria, pelo analfabetismo, pela falta de infra-estruturas e onde só impera a lei de impunidade e do terrorismo de Estado porque os crimes são praticados pelas forças policiais do Estado. Quem garante e promove a desordem são sobretudo os agentes da Polícia Nacional. A população das Lundas passa por uma vida pior que os escravos.

- Mas não é o Estado que deve garantir a segurança das populações, sobretudo numa zona tão rica como as Lundas?

O Estado tem o controlo absoluto da zona, mas precisa do caos e da ilegalidade precisamente para que as elites continuem a prosperar, para que os interesses estrangeiros, que vivem à custa do sofrimento dos angolanos, possam continuar a receber os fundos que alimentam e garantem apoio ao próprio governo.

Até os compradores de diamantes que encontramos nas Lundas são quase exclusivamente estrangeiros. Raramente o governo passa licença aos angolanos para extracção ou compra de diamantes. Mas sabe-se que há generais que estão a explorar diamantes... Há sim senhor. Há um que recebeu uma concessão de um quilómetro do rio. Ele não paga aos trabalhadores e nem sequer comprou uma tenda para os instalar. O investimento é mínimo mas os lucros são fabulosos.

- Como é o dia-a-dia nas Lundas?

Para a população é uma vida de escravidão. Não tem direito a nada. A Polícia Nacional prende e tortura arbitrariamente. Se há espaço para extrair diamantes, deveria haver espaço para construir escolas, postos de saúde, criação de empregos. Mas nada disto existe. Contudo, nunca vi tantos telefones satélites que se utilizam para contactos de negócio. Há uma empresa que enterra os carros quando já não estão em condições de circular para que ninguém tire uma peça. A população recebe um cabaz mensal com algumas garrafas de vinho, de cerveja, uns quilos de arroz e feijão. É o que ganham por tanta riqueza no seu subsolo.

- Quanto ganha o governo com a exploração de diamantes?

Segundo o ministro da Geologia e Minas, Angola ganha, por ano, 900 milhões de dólares com a venda de diamantes. Só o governo pode explicar onde os aplica. Nas Lundas não é de certeza.

Rafael Marques, de 34 anos, natural de Malange, é solteiro e pai de um menino de três anos que se chama Okidi, que em quimbundo quer dizer ‘a verdade’. Jornalista e activista de direitos humanos, Rafael Marques trabalhou entre 1997 e 2004 para a Open Society Institute, em Angola. Os textos escritos por Rafael Marques, que denunciam a violação de direitos humanos, motivaram a sua detenção entre Outubro e Novembro de 1999. Foi jornalista no ‘Jornal de Angola’ entre 1992/1995, e comentarista para a televisão sul-africana. Em 2000, recebeu o prémio coragem ‘Percil Qoboza’ (jornalista sul-africano assassinado pelo regime do ‘apartheid’) e no mesmo ano o Parlamento Europeu concedeu-lhe o ‘Passaporte da Liberdade’.

Relatório sobre Direitos Humanos nas Lundas, por Rafael Marques e Rui Falcão de Campos".

http://www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=4491

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Descolonização de Angola originou a guerra

"A UNITA acusa as autoridades portuguesas de terem feito uma má descolonização em Angola, que segundo o movimento de Jonas Savimbi é uma das causas profundas do conflito angolano, afirma o último número do "UNITA News e Review".

"A forma como as autoridades portuguesas de então conduziram o processo de descolonização de Angola é uma das causas fundamentais que está na origem dos cíclicos conflitos que Angola enfrenta desde a sua independência", afirma o boletim semanal.

Na edição alusiva 26º aniversário da independência de Angola, a UNITA considera que "se as autoridades portuguesas tivessem entregue a sua antiga colónia aos angolanos de uma forma digna, transparente, responsável e com alto sentido histórico, o rumo dos acontecimentos que se seguiram teria sido outro e o país teria conhecido outro destino e mais feliz".

O mau processo de descolonização, "resultante da má fé com que Portugal negociou os Acordos de Alvor, contra a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e a favor do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder), é o "pecado original", segundo o boletim.

De acordo com a UNITA, depois de Portugal ter feito "a transferência unilateral do poder para o MPLA" foi sempre o seu líder, Jonas Savimbi, quem tomou iniciativas e se esforçou por acabar com o conflito angolano.

Para o estabelecimento de uma paz definitiva no país, a UNITA apela para a comunidade internacional reexaminar a sua posição relativamente a Angola e juntar-se às iniciativas, actualmente em curso, para a pacificação do território.

"Os actuais esforços de paz da UNITA não podem nem devem ser vistos como sinais de fraqueza desta organização que na sua constante e permanente coerência procura, e para quando mais cedo melhor, pôr fim ao desnecessário sofrimento do povo, acabando com esta guerra absurda", lê-se no boletim de informação e opinião.

Apesar de saudar o 11 de Novembro de 1975, como data que "marca o fim do colonialismo clássico", a UNITA diz que o povo angolano comemora mais "um aniversário da independência do país na total frustração, inquietação e cepticismo, por viver uma vida sem perspectiva de futuro".

Contudo, "a Direcção da UNITA espera confiante pelas mudanças qualitativas e quantitativas que os meses à nossa frente nos reservam", culmina o boletim."

11.Nov.01

http://www.orlandopressroom.com/arquivo/suaspal/arq11.html