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REGRESSO A PORTUGAL

Cheguei ao aeroporto da Portela em Lisboa com uma pequena mala de mão com os meus documentos pessoais alguns escudos angolanos, a guia passada pela comissão organizadora de repatriação, umas calças e uma camisa. Tudo o mais ficou lá nos caixotes e na minha vivenda que entreguei ao técnico estagiário com todo o recheio. Troquei 5.000$00 angolanos pela mesma importância de escudos portugueses.


Retornados no aeroporto da Portela em Lisboa. (foto Net)

No dia seguinte fui ao IARN inscrever-me como retornado para poder eventualmente ser colocado numa repartição do Estado e receber algum subsídio ou aposentar-me. Quando ainda em Angola enviei um requerimento para a Direcção Geral dos CTT em Lisboa para ser admitido como técnico de telecomunicações dos CTT que era a minha especialidade e porque sabia que os CTT (PT) necessitavam de técnicos especializados em telecomunicações por microondas.

Dirigi-me à respectiva repartição dos CTT (PT) e perguntei ao funcionário que me atendeu se o meu requerimento tinha chegado e como estava a minha situação. Nessa altura os comunistas do PCP tinham mentalizado as pessoas que retornado era sinónimo de explorador dos pretos por isso atendeu-me com maus modos e tive que mandar chamar o chefe para me explicar o que acontecera com o meu requerimento. A resposta dele foi breve e com o mesmo modo rude de falar:

- Sei lá do seu requerimento, há aqui milhares.

- Desculpe mas não tenho conhecimento de que mais nenhum técnico tivesse enviado um requerimento para os serviços de telecomunicações. Eu fui chefe dos serviços de telecomunicações e estou habilitado para trabalhar no vosso sistema de microondas e sei que actualmente precisam técnicos.

- Não me importa quem você foi e não me chateie mais.

Foi este o ambiente que nós encontrámos devido à mentalização de muitas pessoas pelo PCP. Havia comissões de trabalhadores do PCP em todas as repartições do Estado e nas empresas particulares. Portugal tinha virado práticamente à esquerda e os colonos eram todos vistos como exploradores dos pretos. Em face da resposta do chefe da repartição, passei-me e disse-lhe:

- Pois bem, então se é assim vou aposentar-me e vocês vão ter que descontar no vosso vencimento para pagar a minha aposentação. Se trabalhasse para os CTT na minha profissão seria melhor para o Estado do que aposentado.

- Isso é que era bom, disse-me estupidamente o chefeco sem sequer imaginar o que realmente ia a acontecer.

Eu poderia optar por continuar no IARN e ser colocado numa repartição do Estado em qualquer situação para completar os 36 anos de serviço pois na altura tinha apenas 29. Mas aquele comuna tirou-me do sério. Pedi a minha aposentação como Director de 3ª Classe dos CTT. Infelizmente para mim, a nomeação de director só saiu no Boletim Oficial de Angola depois da independência, por isso não foi considerada. Aposentei-me numa categoria intermédia naquela altura (1975) com 12.000$00 que era o vencimento de um director de repartição.

Fui aos CTT e pedi para falar com o tal chefeco comuna. Com alguma relutância chamaram o homem. Quando me viu reconheceu-me e perguntou com má cara o que era que eu queria pois já me tinha informado o que se passava e não tinha mais nada que dizer-me.

- Está enganado, eu só vim aqui para lhe mostrar quanto vou receber na minha aposentação. Peguei no papel e pespeguei-lho nas fuças. Ficou estupefacto.

Quando viu a importância que era talvez o dobro do vencimento que ele ganhava, exclamou:

- Não pode ser, impossível !

- Ai não, respondi com ar de gozo falando propositadamente alto para todos ouvirem. Por sua culpa e da sua estupidez vocês vão descontar para o Estado me pagar sem fazer nada quando eu podia muito bem trabalhar embora ganhando menos mas produzia. Agora vou procurar um emprego numa firma particular.


A minha família em S. Bartolomeu, Bragança em 1979 (foto autor).

Era este o procedimento dos comunas naquela altura. Daí a pouco tempo estava empregado numa firma particular trabalhando em equipamento de som de alta fidelidade. De chefe de serviços fui para uma bancada reparar aparelhos. Nós os tais colonos somos assim, tal como fomos lá, por isso Angola era uma país rico graças ao nosso trabalho, capacidade e inteligência.

Entretanto tinha chegado a Lisboa o barco Italiano onde o meu Citroën DS20 vinha. Fui assistir ao desembarque das viaturas. Um Mercedes que descia pela rampa de repente chocou conta uma coluna de cimento ficando a frente toda danificada. Tinha sido feito propositadamente pelo comuna que o conduzia. Vi o meu carro no cimo da rampa e para que não acontecesse o mesmo, fui imediatamente ter como a pessoa que o conduzia dizendo-lhe:

- Você já conduziu alguma vez uma carro destes? Respondeu-me que não. Pois bem se não o conhece quando travar na rampa vai bater com a cabeça no para-brisas (naquela altura não havia cinto de segurança) porque este carro tem travões hidráulicos. O carro é meu veja aqui os documentos.

Felizmente ele aceitou entregar-me a viatura que retirei do barco ilesa. No dia seguinte fui com o meu cunhado procurar a viatura dele que estaria junta com centenas delas ao longo do cais. Esses comunas deixavam propositadamente as chaves de ignição ligadas e se houvesse a pouca sorte de os platinados do distribuidor estarem em contacto a viatura incendiava-se. Desliguei muitas chaves para evitar esse problema. Muitos foram roubados.

Os caixotes que vinham nos barcos eram descarregados e aglomeravam-se às centenas ao longo do cais. Alguns deles eram deixados cair das gruas propositadamente só para os destruir. Já não bastara a pilhagem dos pretos. Aqui procedia-se na mesma. Quando viam que nos caixotes vinha algo de mais valor eram sistematicamente roubados.

Aqueles que não tinham família ou casa eram alojados em pensões ou hotéis que estavam vazios, com subsídios do IARN. Não foram só os brancos que saíram de Angola mas também pretos e mestiços que, tal como nós, foram perseguidos e fugiram da guerra.

A minha esposa que tinha vindo antes, estava já colocada numa escola na Damaia e tinha alugado um andar para vivermos. Com a madeira dos caixotes fiz alguns móveis improvisados e dormíamos em colchões e cobertores emprestados no soalho sem cama. As camas dos filhos, a geleira, o televisor algumas roupas acabaram por chegar. Começámos praticamente do zero.

Passados talvez 5 anos, comprámos o andar em que vivíamos que tínhamos alugado e que pouco a pouco tinha sido mobilado modestamente. Tínhamos quatro filhos para criar e educar. Além da minha aposentação e do vencimento da minha esposa, tinha também o meu como técnico de electrónica. Trabalhava em part-time. Um dia um amigo que fazia acupunctura (que já faleceu), incentivou-me a fabricar equipamentos de acupunctura e outros para medicinas alternativas o que fazia em casa da parte de tarde. Fabriquei algumas centenas desses equipamentos que vendia a médicos e terapeutas. Eu era muito conhecido no meio não só pelos meus conhecimentos sobre a matéria em questão mas pela perfeição com que fabricava os ditos aparelhos que, ainda hoje, estão a trabalhar na perfeição. Por vezes, passados que são alguns anos, ainda recebo telefonemas de antigos clientes a pedir alguma informação.

Mais tarde a firma onde trabalhava passou a vender aparelhos de telecomunicações na banda do cidadão e depois em VHF. Nessa altura eu era já o chefe da oficina. Anos depois deixei de trabalhar e aposentei-me novamente mas continuando a fabricar aparelhos em casa.

Criámos os nossos quatro filhos permitindo-lhe uma formação académica universitária e, felizmente, hoje estão bem na vida.

Actualmente com 74 anos e cinco netos faço o que gosto e felizmente vivemos sem problemas financeiros. A alquimia é o meu hoby bem como a Internet principalmente como web master, daí a facilidade para editar este site.

A vinda dos retornados para Portugal mudou os hábitos de vida de muita gente que não estava habituada à nossa maneira franca de conviver e de estar na vida. Onde vivo há muita gente que veio do Ultramar aliás, por todo o país também.  Quando conversamos com alguém distinguem-nos pelo nosso modo de falar e de ser e há sempre um patrício onde menos se espera. Somos estimados porque reconhecem o nosso valor. Há retornados em todos os quadrantes sociais, na política, na indústria, no comécio, enfim em todo o lado.

Mas o nosso coração está em Angola na nossa querida terra que poderíamos ajudar a construir e engrandecer e que nos foi negada pela traição dos ultra esquerdistas traidores do MFA com uma visão ideológica cega e a ambição dos chamados movimentos para a libertação de Angola sobretudo do MPLA.

Destruíram tudo o que construímos e sabe-se lá quantos anos mais levarão para que seja aquela Angola que deixámos em 1975!


Estação da CP de Monte Abraão, 2005  (foto autor)

Com a independência das antigas colónias portuguesas, (PALOP) a economia desses novos países degradou-se de tal maneira que a vida dos seus cidadãos (o povo) desceu a níveis tão baixos que eles, imagine-se, por ironia do destino, vêm para Portugal aos milhares. Com é óbvio, procuram instalar-se junto de familiares nos bairros periféricos de Lisboa que em Angola chamávamos musseques.

Há vários messeques, mas um dos mais conhecidos é o da Cova da Moura perto da cidade da Amadora. Há mais desses bairros da lata espalhados pela periferia das cidades satélites de Lisboa. Aí habitam cidadãos brancos, pretos e mestiços em pacífica convivência que trabalham honestamente nas mais variadas profissões tal como em Angola, nas mais modestas como na construção civil, limpezas, enfim, naquilo que conseguem arranjar mas, mesmo assim, têm um nível de vida muito superior à que tinham nas suas terras de origem. Infelizmente também lá habitam pessoas desonestas, ladrões e assassinos que nos estão a causar muitos problemas.

Portugal além se ser um país pequeno não é rico como Angola, cujas riquezas naturais como o petróleo, diamantes, minérios, café, etc. davam perfeitamente, se fossem utilizadas em proveito das suas gentes, uma vida digna para todos os seus habitantes e não só para os  previligiados. Mas eles estão aí e cada vez mais. Vêm com passaporte de turismo e por cá ficam alguns legais mas a maior parte ilegais.

Alguns habitantes desses bairros, a maioria de raça negra já nascidos em Portugal e, embora no nosso país a instrução básica seja obrigatória para todos sem excepção tal como já era em Angola em 1975, esses indivíduos preferem não estudar e dedicarem-se à vadiagem, ao roubo e à venda de droga.

É frequente nas ruas de Lisboa e cidades próximas (menos no interior) ver pessoal africano, pretos e mulatos por todo o lado. Se assim continuar daqui a pouco parece que estamos em Angola. As pessoas que vêm para cá muitos deles nasceram depois de 1975 por isso, desconhecem o que se passou, caso contrário não se sentiriam bem se fossem os mesmos que em Angola nos diziam: "vai para a tua terra colono"!

Penso que são muitos os cabo verdianos, alguns guineenses e moçambicanos mas a maior parte são angolanos.

Algum desse pessoal africano que não quis estudar nem trabalhar mas quer botar figura com roupa, ténis de marca e telemóveis por isso, dedica-se ao roubo. Ultimamente juntam-se em grupos e assaltam os passageiros nos comboios principalmente os da linha de Sintra na zona de Amadora - Queluz.


Arrastão em Carcavelos no dia 10/10/2005 (foto DN 11/07/2005)

O nosso Governo não tem sido suficientemente firme dando a necessária força e material adequado às autoridades policiais para actuar em conformidade nestas ocasiões como está a ser feito noutros países da Europa. Estrangeiro que não tenha o devido comportamento é imediatamente extraditado nascido ou não no país. No dia 10 de Junho de 2005, na praia de Carcavelos houve um arrastão provocado por pessoal africano dos bairros periféricos, imitando o que se passa nas praias do Brasil como se pode ver na fotografia. As autoridades foram apanhadas de surpresa mas actuaram. Pouco tempo depois houve assaltos nos comboios mas, actualmente a situação parece estar controlada, com as autoridades a actuar firmemente.

Na opinião da maioria dos portugueses esse pessoal africano provocador de desacatos deveria ser imediatamente repatriado para as suas terras de origem. Com essa espécie de gente não pode haver contemplações e se as autoridades agirem em conformidade como deve ser nestes casos os problemas acabavam de vez.

Esperemos que sim para não termos de assistir a este triste espectáculo de violência que não iremos tolerar.