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Apresentei-me na secção de pessoal tendo sido colocado na secção de encomendas postais na Estação Central dos CTT em Luanda, cujo chefe na altura era o Catela do Vale, um africano bacana que teve paciência para relevar alguma da minha inexperiência. Mais tarde fui colocado na Caixa Económica Postal. Depois, por concurso, fui promovido a 3º oficial do quadro postal. Já agora, recordo o nosso querido enfermeito dos CTT, o Palege, também um africano preto e profissional competente. Constava que uma ocasião quando esteve colocado no interior, a esposa teve uma crise de apendicite aguda. Não tinha possibilidade de levá-la para uma localidade onde pudesse ser operada. Então, como ele já tinha assistido a essas operações nos hospitais onde estivera colocado, meteu mãos à obra operando a esposa com sucesso, evitando assim uma morte certa. Parece que recebeu uma repreensão por isso, pois esse tipo de intervenções são só permitidas a médicos cirurgiões.


Eu junto à estação telegráfica dos CTT quando cheguei a Luanda (1952).


Estação Central dos CTT de Luanda (foto Net)

Quem não se lembra da Estação Central dos CTT de Luanda no Largo Pedro Alexandrino? A minha foto acima foi tirada presisamente sobre a placa desta estação. Esta foto é recente, o edifíco está bem conservado e as viaturas estacionadas parecem recentes e de marca mas, embora a estação esteja aberta vislumbram-se apenas duas ou três (?) pessoas.  No tempo em que aqui trabalhei se bem que por pouco tempo, era uma azáfama de gente a entrar e a sair. 


Antigo café Polo Norte (foto Ferreiraporto)

E o café Polo Norte que fica presisamente no largo a seguir aos correios? Havia também neste prédio uma casa de fotografia onde comprei a minha primeira máquina fotográfica de 35mm. Esta foto também é recente. Do lado direito vê-se parte do edifício dos CTT onde estava instalado o "Guichet"  da Caixa Econónima Postal onde trabalhei também durante alguns anos. Por cima era a estação telegráfica.


Livraria Lello (foto Ferreiraporto)

A livraria mais conhecida da cidade de Luanda. Foi aqui que pela primeira vez vi e comprei os primeiros livros de alquimia e, a partir daí, foi o meu "hobby" até hoje. Pratiquei e continuo a praticar desde há mais de 30 anos essa antiga "Arte" secreta tentando descobrir os segredos dos antigos Mestres. Dada a minha grande experiência nesse campo editei vários sites de alquimia, sendo o principal  http://www.tpissarro.com/alquimia/ (o antigo site da netcabo foi deletado) e o mais conhecido mundialmente pelo seu conteúdo em seis idiomas, com informação simbólica e prática sobre a Arte, actualmente com cerca de 70.000 visitas. Procurai na Google por "rubellus petrinus" e vereis que o meu site está practicamente em todos os sites ou páginas mundiais de alquimia de todo o mundo. Além disso, sou o "owner" (administrador) dos melhores sites de alquimia mundiais em Português-Espanhol e em Inglês.


Cervejaria Biker (foto Ferreiraporto)

Situada em plena baixa de Luanda é uma das mais conhecidas e antigas cervejarias de Luanda. A fotografia também é actual. O prédio não se encontra tão bem conservado como os outros. O que é de estranhar nestas fotografias é que noutros tempos estas ruas fervilhavam de gente e agora estão desertas vendo-se apenas viaturas de marca estacionadas sobretudo "jeeps".  Que se passará?



Sé de Luanda (foto Net)

A Sé de Luanda existe desde 1883 ou antes e já se vê numa das gravuras antigas de Luanda, http://rubelluspetrinus.com.sapo.pt/angola.htm não exactamente como está actualmente com as cúpulas em vidro nas duas torres laterais. A Sé parece estar bem conservada. Esta foto também é actual mas, embora a igreja se situe no coração da baixa de Luanda, vemos apenas uma pessoa a passar, estranho...Luanda o que eras em 1975 e o que és agora!


Luanda, Hotel Globo (foto actual Net)

Entretanto, tinha adquirido recentemente uma scooter NSU Prima (de cor verde escuro) que me permitia facilmente não só a deslocação diária para o local de trabalho mas, também, passear por toda a zona da cidade e arredores, por vezes acompanhado de alguma colega que gostava também da liberdade que se sentia andar neste meio de transporte muito em voga naquela época, como as vespas e as lambretas só que a NSU Prima era um pouco mais sofisticada e cómoda.

Como fotógrafo amador tinha uma máquina tipo caixote Kodak com que fiz a maior parte das fotos anteriores que coloquei neste site. Mais tarde, comprei outra máquina fotográfica Woigländer de 35mm com a qual fiz fotos muito interessantes e que ainda hoje conservo religiosamente como uma preciosa recordação. Porque fazia caça submarina  fiz uma caixa estanque para colocar a máquina que me permitiria fazer fotos subaquáticas.

 
Rebentação das ondas na Ilha junto ao Restinga (foto do autor).

Tínhamos formado um grupo que fazia caça submarina na Ilha de Luanda, na Ponte do Carvão, no Morro dos Veados, enfim, em diversos locais. A água do mar naquelas zonas não era muito transparente mas, com sorte, havia dias que estava perfeitamente cristalina o que me permitiu fazer excelentes fotos subaquáticas que ainda hoje tenho nos meus álbuns. Em qualquer lugar dos mencionados havia muito peixe tanto na ponta da Ilha como na Ponte de Carvão ou no Morro dos Veados. Um dia fui tomar banho para a Ilha e, como sempre, levava o respectivo equipamento. Mar adentro, talvez a uns 50m da praia, deparei com muitas pedras submersas que nunca tinha visto antes. Qual não foi o meu espanto por ver nessas pedras centenas de lagostas. Foi apanhar lagostas à mão até não querer mais. Dias depois estavam lá apenas algumas porque o resto tinha migrado para outras paragens.

Noutra ocasião fomos caçar ao largo da Ilha do Mussulo. Quando mergulhei vi um peixe enorme, maior do que está na foto abaixo. Disparei o arpão junto à cabeça para evitar que fosse arrastado por ele. Vim imediatamente para a superfície desenrolando fio do carreto da arma. Puxei o arpão com o peixe mas pareceu-me muito leve. Quando o arpão chegou à superfície só trazia metade do peixe com um corte em meia lua. Não havia dúvidas fora comido por um alfaiate (tubarão). Saimos imediatamente da zona.


O Van Rossum, Eu (com a câmera fotografica e aparelho de mergulho)
e o António Rodrigues na Ilha de Luanda (foto do autor).

Na Ponte do Carvão havia destroços de batelões afundados a uns 10m ou mais de profundidade e, nesses destroços ferrugentos quase sempre havia meros. É claro que era preciso estar bem treinado para descer a essa profundidade e manter-se lá o tempo suficiente para poder caçar um peixe desses que normalmente pesavam uns bons quilos. Também havia por lá muitos pargos mulatos de grande porte. Na baía de Luanda não era permitido pescar à rede pois era considerada um viveiro onde os peixes cresciam tranquilamente antes de irem para o mar alto. Pois bem, depois da independência os cubanos e os russos limparam tudo. E não foi só os peixes mas também os automóveis dos brancos que por lá ficaram cujos donos não os puderam trazer para Portugal. Actualmente quando se vêem documentários sobre Cuba ainda se encontram em circulação esses velhas viaturas. Mais à frente falarei sobre isso.


Ponte do Carvão na Ilha de Luanda e  Eu como o meu aparelho de mergulho (fotos do autor).

 
Fotos subaquáticas feitas na Ponte do Carvão (veja-se a quantidade de peixe que havia nos destroços a cerca de 10m de profundidade (fotos do autor).

Como funcionário da Caixa Económica e chefe da secção, atendia diariamente muitas pessoas de todos os extractos sociais algumas das quais bem conhecidas na cidade de Luanda. Lembra-me de alguns nomes de clientes da caixa e dois deles, actualmente, figuras de destaque em Angola. O então padre Alexandre do Nascimento e o padre André Muaka.

Um dos funcionários da tesouraria dos CTT era o Ilídio Tomé Machado com quem convivia diariamente porque era ele ou o Pinto Pereira que pagavam os cheques ou recebiam os depósitos. O Ilídio Machado, pertenceu aos quadros superiores do MPLA e foi mesmo o seu primeiro presidente conforme vi na Internet. Durante o tempo que estive como chefe de secção nunca lhe ouvi falar em política mas certamente já pertenceria clandestinamente ao MPA. Ao que parece, já não está entre os vivos este meu antigo colega. Paz à sua alma!

O ambiente de trabalho na nossa secção ("Guichet") era excelente. Dentro das horas de serviço trabalhavamos sem interrupção porque tinhamos sempre clientes à espera de serem atendidos mas depois das horas de expediente e com as contas do dia encerradas, muitas vezes confraternizavamos até porque havia um bar muito próximo da estação que era o Rialto no Largo Pedro Alexandrino.


O nosso grupo do ("Guichet") Caixa Económica Postal de Luanda (Julho de 1956)

Nessa altura, ainda solteiro, compartilhava o meu quarto situado num prédio do Constantino nos Coqueiros, próximo da fábrica da Pepsicola, com outro colega pois sempre ficava mais em conta e não estava só. Comíamos no Hotel Paris que ficava mesmo enfrente ao prédio, mas quando a comida já não agradava, mudávamos para outro das redondezas e assim sucessivamente. Como ficava perto do Baleizão íamos lá frequentemente beber umas patas de elefante (canecas de vidro grandes e largas) que normalmente eram servidas com mariscos, castanha de cajú ou outros petiscos à escolha sem pagar mais por isso. Era assim em Luanda!

Quando saía do trabalho e, antes de jantar, os meus passeios favoritos eram ir até à ponta da Ilha, Marginal onde me sentava nos bancos para apreciar o mar e as traineiras a chegar ou a partir, ou até à Fortaleza de S. Miguel onde passava horas admirando o mar e a beleza do pôr do Sol. Fiz muitas fotografias do mar e do pôr do Sol visto da Fortaleza.


Pôr do Sol visto da Fortaleza de S. Miguel em Luanda (foto do autor).

Encontrava frequentemente nesses passeios pela Fortaleza os então padres Alexandre Nascimento, actualmente Cardeal e o André Muaka presentemente arcebispo de Luanda, com as suas sotainas brancas e como nos conhecíamos por serem clientes da Caixa Económica Postal, conversávamos algumas vezes. O padre Nascimento tinha uma maneira mais erudita de falar com ênfase e devagar enquanto o padre Muaca era uma pessoa mais simplista.

Como já tinha meios financeiros suficientes, fiz um curso de electrónica por correspondência da National School nos EUA. Com estes conhecimentos mais avançados de electrónica montei um emissor de 50 Watts para a banda de radioamador em onda curta (7 e 14 Mhz). Com este emissor comunicava em telegrafia com qualquer estação de rádio amador no mundo. Para a recepção adquiri um receptor Halicrafters em segunda mão adequado para as bandas autorizadas para radioamadores.

Naquele tempo em Angola não eram passadas novas licenças para estações de radioamadores e era expressamente proibido contactar com países da chamada cortina de ferro. Mesmo assim, havia um grupo que tinha estações de radioamador à revelia, eu incluído. Escolhi o indicativo de CR6CW. Uma dia chamei em fonia um colega de Luanda para fazer um teste. Um meu colega que trabalhava na repartição de telecomunicações na direcção dos serviços cujo nome me abstenho de mencionar e que prestava serviço de escuta na PIDE ouviu-me e fez a denúncia mas, talvez por um rebate de consciência, foi ter comigo à repartição onde trabalhava e disse-me para ir retirar imediatamente todo o equipamento do meu quarto que tinha alugado nos Coqueiros onde vivia, porque nesse dia o chefe da repartição de telecomunicações, Câmara Pires, iria fazer uma revista à minha residência. Retirei todo o equipamento deixando apenas a antena.

Quando o chefe entrou no meu quarto não encontrou nenhum equipamento como é óbvio mas perguntou-me para que servia a antena exterior que tinha instalada. Respondi-lhe que era para facilitar a recepção de estações estrangeiras no meu rádio transistorisado. Não engoliu bem mas aceitou.


Operando a minha estação de radioamador CR6CW e o meu amigo Tavares da Silva CR6CV.

Mais tarde foram passadas licenças para a instalação de novas estações de radioamador em Angola o que se verificou depois terem sido de grande utilidade em 1961, como relatarei mais adiante. Havia a Liga dos Amadores de Rádio de Angola (LARA) que fora fundada pelos antigos radioamadores mas que na altura estava praticamente inoperativa. Os recentes radioamadores, eu incluído, tornámo-nos sócios e depois convocámos uma reunião e tomámos conta da Liga. Instalámo-nos numa pequena sala alugada no prédio do A. Santos Pinto que ficava no centro da baixa cujo aluguer era pago com as quotas pagas pelos respectivos sócios. Mais tarde a Associação Comercial de Luanda cedeu-nos uma sala na sua sede do Palácio do Comércio situada também no centro da baixa de Luanda. Numa reunião de sócios fui nomeado secretário da Liga.

Entretanto dadas as circunstâncias, adquirimos um moderno transmissor-receptor de 150 Watts que nos permitia contactar em telegrafia e fonia com os radioamadores de todo o mundo nas bandas autorizadas. O nosso indicativo era CR6LA. Foi com este equipamento que eu ajudei a repelir um ataque dos terroristas em Cangola no Norte de Angola em 1961 como à frente descreverei.

Uma noite estava fazendo uma chamada geral em morse (CQ) na banda dos 14 MHz quando recebi resposta de uma estação argentina cujo indicativo não me recorda presentemente, com um sinal muito forte. Comunicámos como o fazia habitualmente e no final ele enviou "un fuerte abrazo".  Dias depois, recebi por via aérea uma carta da Presidência da República Argentina. Foi com grande curiosidade que abri o envelope e qual não foi o meu espanto quando vi que era um cartão a confirmar essa comunicação que afinal fora com o Presidente Perón da República Argentina!

Os cartões de "QSL" comprovativos das telecomunicações entre radioamadores eram enviados por correio aéreo ou normal e, como trabalhava todas as noites na minha estação contactando praticamente com todo o mundo, recebia muitos desses cartões alguns de radioamadores que só faziam escuta. Nesses cartões de escuta havia alguns de países da então chamada cortina de ferro. Alguém na secção de distribuição de correio ao serviço da PIDE fez chegar à repartição de telecomunicações esses cartões de escuta dos países da cortina de ferro. Fui chamado ao director dos serviços para justificar essas comunicações então proibidas. Levei outros cartões idênticos que tinha recebido anteriormente e expliquei-lhe que se tratava apenas de cartões de escuta como podia verificar e que eu não poderia evitar que mos enviassem. Então, apontando para um cartão que tinha na mão perguntou:

- E estes códigos o que significam? Ele desconhecia os códigos usados pelos radioamadores. Pacientemente expliquei-lhe minuciosamente o que significavam mas ele respondeu:

- Terá de ir explicar isso no Governo Geral. Fiquei atónito com tamanha imbecilidade daquele coronel lateiro colocado pelo Governo Geral como director dos CTT. Imagine-se um coronel do exército como Director Geral dos CTT mas, infelizmente, naquele tempo era assim. Felizmente, muito mais tarde, o último director que conheci foi o engenheiro Poiares Batista um homem muito competente e compreensivo.

Não me recorda de ter sido chamado ao Governo Geral para dar explicações mas fiquei marcado pela PIDE e, em cada promoção que tinha na minha carreira, os meus requerimentos eram enviados à PIDE para informação. Felizmente nunca houve problemas. Quem me passou esta informação foi um amigo angolano preto o Gamboa que era funcionário da secção de pessoal e que, segundo me informaram, depois da independência aspirava ou foi nomeado director de repartição. Ao que parece já faleceu. Paz à sua alma porque foi um grande amigo!