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Devido a problemas de saúde fui de licença graciosa  por 6 meses à Metrópole (Portugal). Cheguei a Lisboa em 28 de Junho de 1958 hospedando-me na Pensão Flor na Praceta João do Rio perto do Areeiro pois, esta pensão, era frequentada pelo pessoal do Ultramar que vinha de férias a Portugal e, embora fosse uma pensão, tinha excelentes condições melhores que alguns hotéis e além disso, tínhamos a companhia de pessoal a que estávamos habituados. Precisamente naquela primeira noite senti-me mal e pedi ao recepcionista para me chamar um táxi e me levar ao hospital. Quando disse ao taxista que queria ir ao hospital ele respondeu-me que, àquela hora, havia lá muita gente e se eu quisesse me levaria a um médico que ele conhecia e que me atenderia bem. Por incrível que pareça, o médico era precisamente um especialista em doenças nervosas e explicou-me que eu tinha espasmos que me causavam o mau estar que sentia devido ao desequilíbrio no sistema neurovegetativo. Deu-me uma injecção para acalmar e recomendou-me voltar lá no dia seguinte para ver como estava. Paguei 200$00 pela consulta e agradeci. No dia seguinte, como me sugeriu, voltei lá. Conversámos demoradamente sobre o meu problema e, por fim, sugeriu-me que uma vez que estava de férias me distraísse o mais possível e que comesse de tudo sem problemas. Segui o seu conselho e realmente os sintomas que sentia desapareceram pouco a pouco.


Gaivotas no Tejo, (foto do autor).

Naquela época (1958) a vida nocturna em Lisboa era muito intensa com muita gente a encher os cafés da baixa lisboeta e o diversos cinemas como o Éden e outros do género. Numa sessão e num intervalo, na plateia, levantou-se uma jovém atraente e bem vestina exibindo-se. Terminada a sessão, verifiquei que ela era seguida por uns quantos homens que, mal comparado, até pareciam cachorros atrás de cadela com cio. Era assim mesmo naquele tempo em Lisboa. Nunca tive problemas e, algumas vezes por não conseguir o último eléctrico (01.00h) fazia o trajecto a pé desde o Martins Moniz até à Praceta João do Rio perto da Praça de Alvalade sem que ninguém me incomodasse. A essa hora e no Verão já havia brigadas lavando as ruas principais da cidade.


Lisboa, Rossio, 1958 (foto autor).

Um meu amigo de infância que frequentou comigo a escola primária até à industrial e que também era solteiro, vivia em Lisboa há alguns anos. Por isso, fazia uma vida nocturna intensa e eu, como não conhecia praticamente nada da cidade acompanhava-o frequentemente nas digressões nocturnas pelos bares e pubs da capital. Durante o dia vagueava pela cidade e frequentemente dava passeios na minha scooter pelas localidades dos arredores de Lisboa.


Gaivotas no Tejo ao por do Sol (foto do autor)

No dia seguinte à minha chegada a Portugal fui à Alfândega para desalfandegar a minha scooter NSU que tinha vindo no mesmo barco. Fui informado que teria de pagar uma taxa, não me lembra quanto mas, para isso, necessitava de um despachante oficial ou, então, inscrever-me como sócio do Automóvel Clube de Portugal. Fiquei pasmado! Angola na altura era considerada uma Província Ultramarina. Então, por achar isso uma completa aberração perguntei ao funcionário se como estava na Província da Estremadura quando me deslocasse para a Província de Trás-os-Montes teria de pagar também. Claro que não, respondeu. Então se é assim, porque razão tenho de pagar se venho da Província Ultramarina de Angola para a da Estremadura? O funcionário percebeu a minha intenção, não ficou satisfeito mas engoliu. Naquela altura podia ter-me saído mal a brincadeira. Tornei-me sócio do ACP e bem a contra gosto tive de pagar pelo desalfandegamento da scooter.


Cisne, lago aven. Liberdade (foto autor)

Havia no entanto, alguns preconceitos a que não estava habituado em Angola. Por incrível que pareça não se podia entrar até num simples cinema sem gravata. Como não gostava de andar com gravata e ainda hoje detesto, comprei uma camisola de lã com a gola direita de forma que não se via se trazia ou não gravata. Mas isto só funcionava na Primavera, Outono e Inverno.

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Eu com 27 anos em Lisboa.

Como cheguei a Lisboa no Verão e fazia calor, andava vestido como em Angola: camisa de manga curta por fora das calças e calça clara. Como no continente não havia esse hábito de vestir e tudo era mais formal, as pessoas reparavam. Um dia encontrei uns amigos de Angola que iam ao Rex (pub) e como eu estava vestido à africano, avisaram-me de que assim não me deixavam entrar. Deixem comigo, digam apenas que me encontraram na rua e que sou Italiano. Estava-se no auge dos filmes italianos e, por isso, aprendi um pouco de italiano. Quando ia a entrar o porteiro disse-me:

- Não pode entrar assim em camisa sem casaco nem gravata.

- "Ma comme signore, perché"? Respondi em italiano.

- O que é que esse gajo disse, perguntou? Sabemos lá, também não entendemos italiano. O porteiro acabou por me deixar entrar assim mesmo.

Entrámos e separámo-nos. Sentei-me numa mesa e, em pouco tempo, apareceu uma muchacha ainda jovem e bonita sentando-se ao meu lado. Naquele tempo nos pubs em Lisboa havia muitas muchachas espanholas. Como eu também sabia falar um pouco de Espanhol misturava-o com o Italiano. Pedi um whiskey e ela um cocktail. Durante a conversa  por acaso coloquei-lhe uma mão na perna mas ela repeliu-a. Voltei a insistir...aí ela disse: "hijo mío esta mano te pierde". Entretanto, um amigo de Angola que estava também na sala viu-me e dirigiu-se a mim. Então Pissarro, também estás por cá? Estragou tudo, a muchacha deu o fora com uma desculpa qualquer. 


Fonte Luminosa na Alameda, Lisboa, 1958 (fotos do autor)

Como não tinha trazido os meus calções de banho, fui a uma casa da especialidade muito conhecida na Rua Nova do Almada e escolhi uns calções de nylon curtos semelhantes aos que usava em Angola. O empregado avisou-me de que não poderia usá-los nas praias de Portugal. Disse-lhe que vivia em Angola e só os usaria no rio que passava perto da minha cidade e aí não havia problemas.


Parque Eduardo VII, Lisboa, 1958 (foto do autor)

Como fotógrafo amador não resisti à tentação de fazer algumas fotografias com a minha máquina fotográfica de 35mm que mandava depois revelar numa casa da especialidade em Lisboa para depois mais tarde recordar. Decorridos que são mais de 40 anos ainda as conservo em boas condições como se pode ver aqui. Naquele tempo, em Portugal, ainda não estava vulgarizada a fotografia a cor por ser cara mas eu gostava mais de fotografar a preto e branco porque me permitia fazer fotografias com grande contraste de luz.


Dia de noveiro no Parque Eduardo VII, Lisboa, 1958 (foto do autor)

Fui por duas vezes na minha scooter de Lisboa a Bragança directamente e vice-versa (cerca de 10 horas de viagem) sem problemas.

Numa dessas viagens passei já a meio da tarde pela serra do Marão e, antes de iniciar a subida, parei junto de uma adega que havia junto à estrada para descansar devido ao calor. À porta da adega estavam sentados alguns homens de meia idade conversando à sombra. Então um deles perguntou-me:

- De onde vomecê vem?

- De Lisboa e vou para Bragança, respondi.

- E essa coisa vai auguentar a viage?

- Claro que vai, porque não.

Gentilmente convidaram-me para partilhar com eles uns petiscos que estavam comendo regados com um bom tinto. Aceitei mas não abusei do tinto. Segui viagem agradecendo a gentileza. Quando me aproximava de Bragança por sítios meus conhecidos era já à tardinha. Sentia aquele cheiro fresco e perfumado da erva dos lameiros de regadio que tão bem conheci. Senti-me regressar ao passado só que agora em circunstâncias completamente diferentes.

Entrei na cidade pela rua do Loreto e fiz o caminho até casa pelas mesmas ruas que tantas vezes tinha feito a pé anos atrás. Quando cheguei a casa a minha Tia não estava mas uma vizinha foi imediatamente chamá-la. Foi uma grande alegria abraçá-la depois de 7 anos! Conversámos longamente durante várias horas sobre a minha vida em Angola e sobre os meus dois irmãos que posteriormente a mim tinham ido para lá também procurando uma vida melhor da que poderiam ter na nossa cidade. Enfim, dormi na mesma cama e no mesmo quarto que tinha antes de ir para Angola.