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"Um dos pontos que maiores dificuldades oferecia para o desalojamento dos terroristas, era, sem dúvida, a Pedra Verde. Região acidentadíssima, com um enorme penhasco perfurado interiormente numa extensão considerável, servia de refúgio aos bandoleiros, que utilizavam esses acidentes naturais para a instalação de "ninhos" de armamento e víveres. A Pedra Verde era o assunto do dia. Todos os soldados ansiavam a esperada operação-gigante que permitisse desalojar os bandoleiros da Pedra Verde. Era, por assim dizer, o momento mais culminante e arriscado daqueles meses de guerra (...)".


Grupo "Vanguarda de Salazar" formado para defesa das populações
(foto Manuel Graça)

"Elementos dos novos países africanos de tendência nitidamente comunistas-extremistas, técnicos dos próprios países comunistas, treinados em Pequim, Moscovo, Praga, Conakry, Acera ou de qualquer outro lado, orientavam e dirigiam, por detrás dos fantoches arvorados em dirigentes nacionalistas e embaixadores do povo, toda esta chacina em grande escala contra populações indefesas. A soldo de alguns dólares, ou qualquer outra moeda estranha e de boa cotação no mercado mundial, os assassinos davam largas aos seus ancestrais sentimentos sanguinários. No palácio de vidro de Nova Iorque faziam-se discursos recheados de mentiras vergonhosas e revoltantes, procurando a todo o transe convencer a opinião pública mundial de que tudo aquilo era feito em nome da paz. Que descalabro!"


Sanzala incendiada pelos bandoleiros assassinos (foto Manuel Graça)

"Finalmente a Pedra Verde fora "varrida" da corja assassina e bárbara! Depois de uma luta estóica e longa, as nossas forças conseguiram desalojar os terroristas do seu "ninho" e de toda a região circundante. O morro de Canuncongolo, onde foi simbolicamente içada a Bandeira Nacional, depois de ocupadas as regiões de Quissacola e Gombo do Zombo, é um agressivo penhasco de 664 metros de altitude, a NNE do Úcua, que domina outras elevações menores e que se descortina a grande distância. Era um dos pontos de referência para a aviação que, nestes últimos dias, "castigou" duramente a zona, como preparativo para o avanço final das tropas.

Nesse maciço rochedo existem imensas grutas naturais e corredores estreitíssimos, cavernas abertas na rocha e um sem número de esconderígios proporcionados pela Natureza e, agora, aperfeiçoados pela mão do homem, tudo camuflado por uma vegetação densíssima. Era ali o refúgio de milhares de bandoleiros que, dali, faziam irradiar os ataques para toda a região dos Dembos. Era um ponto estratégico, ideal para impedir o trânsito pelas estradas que, do Úcua, levam a Piri, Pango Alúquem, Bula Atumbe, Quibaxe...a toda a região dos Dembos. Trânsito que forçosamente teria que ser intenso, pois que por ali se escoa a produção de uma das mais férteis regiões da Província.

Há tempos que vinha sendo efectuado um movimento envolvente, completado há poucos dias com a ocupação, na primeira fase, de Quissacala, e que tinha por fim impedir a fuga dos bandoleiros que se ocultavam nos esconderígios. A cooperação da Força Aérea nos últimos dias que antecederam a ocupação total da Pedra Verde foi preciosa a todos os títulos. Num esforço e inegualável, as forças terrestres empreenderam a fase final da ocupação com uma violência e vontade indomáveis".


Trabalhadores bailundos procuravam a protecção das nossas tropas
(foto Manuel Graça)

"Eram milhares os nativos que se entregavam às nossas autoridades, depois de terem conseguido libertar-se dos bandoleiros. Todos eles tinham narrativas longas e interessantes a fazer, da sua forçada estadia entre os terroristas. Ouvimos muitas, registando umas e apreciando apenas outras, de tantas que eram (...)".


Despedida das populações aos nossos soldados que os protegeram
(foto Manuel Graça)

"Em Angola, de ponta a ponta, processava-se num ritmo veloz a reconstrução de tudo quanto fora destruído, fazia-se o que as circunstâncias exigiam que se fizesse, numa palavra: trabalhava-se sem descanso para comentários. Não era preciso que houvesse leis a ditar ou obrigar a tal esforço. Tudo era espontâneo. Vontade de um povo de coragem e audácia incomparáveis e de uma tenacidade invejada. As estradas começaram a rasgar a terra encarnada, coberta de capim e matagal, desta parcela de Portugal em África. Escolas, hospitais, bairros para realojamento de populações deslocadas, por força das circunstâncias, das suas zonas. Pistas de aviação, abastecimento de água às populações, iluminação eléctrica a todos os cantos de Província. Obras, reconstrução, recuperação".


Os filhos dos "libertadores" abandonados tinham este desolador aspecto
(foto Manuel Graça).

"E não ficámos apenas pela reedificação do que fora destruído. Fomos muito mais além: iniciámos a construção de obras de vulto, cujo dispêndio financeiro poderia parecer um desastre na altura em que sustentávamos uma guerra tão cara nos estava a ficar. Mas nenhum português se amedrontou. Jamais mudaríamos de ideia: estávamos para ficar, porque estávamos na nossa Pátria, em Portugal! Tal como se estivéssemos na Europa ou na Ásia onde, com inveja de muitos que se apelidam a si mesmos de grandes e poderosos, temos pedaços da nossa Nação pluricontinental e milenária (...)".


Os jovens abandonados tiveram sempre a protecção das nossas Forças Armadas

(foto Manuel Graça)

"Com alegria e orgulho percorri aquelas regiões que outrora encontrei impregnadas de destruição e morte e que agora via palpitantes de vida e cor! Deus sabe quanto suor, quantas lágrimas e até mesmo quanto sangue, tinham conseguido aquele milagre.

Vieram até nós jornalista estrangeiros para se certificarem do que julgavam ser apenas publicidade. E ficaram boquiabertos perante o milagre de Angola, o milagre português. Perante tais factos, que outra coisa poderiam eles fazer senão desmentir publicamente o que se dizia contra nós lá fora? Não era um favor que faziam, nem um gesto simpático: era, isso sim – um dever de consciência, um dever da sua profissão. E foi sempre o que aconteceu. A imprensa de alguns países que nos eram hósteis começou a proclamar a verdade de Portugal, pelo punho dos seus enviados especiais a esta Província. Era o primeiro passo para que, lá fora, a mentira tendenciosa desse lugar à verdade ÚNICA e indesmentível".

In "ANGOLA 1960/1965, Surpresa – Guerra – Recuperação" de Manuel Graça, Edição do autor, Impasse Caridade, nr.11, Agualva – Cacém.


Os responsáveis pelos assassinatos - dirigentes da UPA,  Rosário Neto,
João Pinóquio e Aníbal Melo, em Leopoldeville - olham os seus crimes.

(foto Horácio Caio).

Dada a extensão do texto do livro tivemos de fazer um resumo sumaríssimo dos acontecimentos do Norte de Angola em 1961 descritos no excelente livro de Graça Moura mas, houve outros feitos aqui não descritos que encontrei na Internet sobre as violentas batalhas nas traiçoeiras matas do Norte para exterminar esses bandoleiros assassinos enviados por Holden Roberto e seus kuribecas. Esses assassinos e quem os ajudou nas matanças de inocentes civis pagaram muito caro pelos seus crimes tendo sido exterminados aos milhares pelas nossas tropas. Foi necessário fazê-lo para dar paz às populações que estavam subjugadas por esses bandidos.

http://www.macua.org/livros/alferesrobles.htm

http://www.macua.org/livros/soba.htm

Restabelecida a paz no Norte de Angola, restavam apenas uns grupelhos desgarrados que por vezes faziam alguma emboscada mas sem grandes consequências. Foram implementadas telecomunicações por VHF via litoral entre Luanda, Caxito, Abriz, Anbrizete (N'zeto) e Sazaire (Soio). Uma ocasião um dos técnicos que fazia a manutenção desse sistema do qual eu era o principal responsável, deslocou-se ao Ambriz para reparar uma avaria e em plena estrada sofreu um ataque de um desses grupelhos com uma rajada de uma metralhadora ligeira mas, felizmente, sem grandes consequências a não ser que a viatura parou uns quilómetros depois porque uma das balas tinha atingido o radiador do Land Rover. Mais tarde soubemos que esse ataque não era dirigido a nós pessoal dos CTT mas porque a nossa viatura tinha sido confundida com as da PIDE.

Há factos que não foram relatados nos livros e que se desconhecem. As nossas tropas também praticaram excessos que poderiam ter sido evitados mas havia um clima de guerra e terror e, por vezes, a "vingança" falava mais alto dado o que aconteceu no Norte de Angola em 1961. Eis aqui um relato feito por um angolano, pessoa em quem tenho confiança, portanto fidedigno, de alguns excessos praticados pelas nossas tropas: 

"O Massacre de Cassange foi algo que se passou pontual e determinado... Os massacres que estou a falar que aconteceram entre 61 e 64 tem a ver com os camions que iam buscar todos os homens das libatas, como por exemplo do Kwanza Sul e que depois eles desapareciam... Estou a falar igualmente dos massacres feitos nos ataques feitos pela tropa portuguesa que "colocavam orelhas, dedos e narizes em vinagre"...Tudo isto é comprovado...Os desaparecidos eram enterrados em valas comuns... Entre 61 e 64 os portugueses fizeram aqui algo de "aterrador"...Tinha 7 anos quando vi matarem à minha frente com uma baioneta calada um homem de um desses camions só porque se recusou a subir para o camion depois de um interrogatório numa das salas de colheita da fazenda... Sou de origem portuguesa, acho que os portugueses fizeram muitas coisas boas mas, da mesma forma que o MPLA tem a sua historia negra de 1977, os portugueses têm-na no periodo de 61 a 64....Volto a repetir... lidei com comandos... O meu irmão foi tropa... E em Luanda entre os 16 e 20 anos vivi numa república onde a maioria eram tropas... Mesmo depois de 64 houve muitas coisas contestáveis... Mas o grosso do "mal" foi entre 61 e 64."

Norte de Angola, Golongongo.

Um meu vizinho e amigo foi para Angola em 1944 para a povoação de Golongongo no Norte de Angola. Ali se estabeleceu com mais um sócio numa casa comercial que comprava e vendia praticamente tudo mas, o seu maior negócio era a compra de café em cereja já seco ao preço de mercado que mandava descascar a uma firma local e depois o armazenava para o vender aos grandes exportadores de Luanda aproveitando a melhor cotação.

Todas as despesas de transporte até ao fornecedor eram por conta deles. O preço do quilo de café descascado seria naquela altura de 12 Angolares. Disse-me também que muitas vezes chegou a ter prejuízo com a venda de café. O meu amigo é um homem simples muito honesto e garantiu-me que me contava toda a veracidade dos factos.

Aos bacongos não lhes interessava trabalhar para os roceiros brancos porque tinham as suas lavras pequenas ou grandes mas que davam para o seu sustento. Havia alguns que tinham lavras maiores e quando vendiam o seu café ficavam com bastante dinheiro. Conta-se que alguns até compravam bons carros.

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Sobas (autoridades tribais) (foto Manuel Graça)

Por isso, a mão de obra, eram os chamados contratados, normalmente os bailundos originários do Sul de Angola por serem de uma região mais pobre. Naquele tempo quando um roceiro necessitava de mão de obra, solicitava-a aos chamados angariadores que contactavam os chefes de posto locais e os cipaios  junto dos sobas que se encarregam de conseguir esse pessoal nas sanzalas por vezes contra a sua vontade. Mais tarde essa situação mudou completamente e só era contratado quem queria. No contrato estava estabelecido que metade do seu salário devia ser depositado pelo patrão no posto administrativo local e o restante entregue mensalmente aos trabalhadores depois de descontarem as despesas extras que eram feitas na loja da fazenda. As roupas e alimentação eram por conta dos roceiros.

No final do contrato regressavam às sua terras de origem e o posto administrativo local enviava para a Circunscrição Administrativa de onde eram provenientes a importância recebida dos roceiros. Este dinheiro dava-lhes depois para comprar alguns bens e até um ou mais bois que nunca teriam possibilidade de comprar onde viviam. Alguns ofereciam-se frequentemente para novos contratos.

Normalmente a parte desse dinheiro entregue aos trabalhadores era gasto em vinho que era importado do Puto (Portugal). Esse vinho era envasado em barris de madeira e na origem era-lhe adicionado álcool para evitar que azedasse. Assim, a sua graduação podia rondar os 15º ou mais e se não fosse desdobrado com água o resultado era bebedeira certa. Em abono da verdade, diga-se que os indígenas tinham e continuam a ter (mesmo actualmente em 2005 aqui em Portugal bebem muita cerveja com os nefastos efeitos) uma certa propensão para o álcool, vinho do Puto (por vezes uma mixórdia) ou o quimbombo que é uma aguardente de frutos ou de milho fermentados com açúcar e depois destilado por eles que não era permitido por lei. Outra bebida era o marufo que é extraído do suco das palmeiras.


Café brasileiro maduro.


Plantação de café no Brasil.

Cada trabalhador teria de limpar o capim (erva do mato) junto dos pés de café normalmente 120 pés por dia (o que era normal) mas, logo que tivessem terminado o trabalho fosse a que horas fosse do dia o seu labor diário terminava. Havia trabalhadores que o faziam durante uma manhã mas outros demoravam mais. O café era do tipo robusta e crescia à sombra de outros arbustos.

Sempre tive curiosidade em saber porque razão havia tanto ódio dos bacongos para com os colonos portugueses. Há quem diga que foi porque os brancos se apoderaram das suas terras para plantar as suas actuais roças e que isso teria sido transmitido verbalmente de geração em geração. Talvez fosse assim em tempos remotos da escravatura mas não foi durante o tempo em que o meu amigo e vizinho esteve lá. 

A verdade era bem diferente. A mando do assassino Holden Roberto e dos seus kuribecas, depois da independência do Congo, alguns milhares dos seus fanáticos seguidores infiltraram-se no Norte de Angola mentalizando os indígenas da região que matassem os brancos para ficarem com os seus haveres. Antes dos ataques aos fazendeiros apanhados de surpresa, drogavam-se com quimbombo (bebida alcoólica) e maconha (liamba) que os deixava completamente desvairados e, empunhando as suas catanas, atacavam gritando: massa, massa (água) porque estavam mentalizados pelo feiticeiro do kimbo de que as balas dos brancos eram água. Mas se a finalidade era matar os brancos para se apropriarem dos seus bens como diziam, porque razão estupidamente destruiram tudo? Talvez nunca o saibamos.

Contou-me que se alguém (branco, negro ou mestiço) quisesse demarcar um terreno para uma plantação de café teria que ir a Carmona (Uige) aos serviços Cadastrais requerer essa demarcação e, para a efectivar no terreno, o funcionário era acompanhado do chefe de posto administrativo, do soba local e dos interessados. Se nessa demarcação se houvesse algum terreno que tivesse café de alguém, só com o seu acordo, lhe era dado outro terreno com uma área três vezes maior da área que as terras dele tinham. E mais, o expropriado colheria o café dos sua antiga lavra até que os cafeeiros do novo terreno produzissem café.

Infelizmente havia casos de burla mas não da parte dos brancos. Havia indígenas que vendiam aos brancos a sua lavra sem testemunhas ou qualquer documento escrito pela autoridade local acreditando apenas na palavra. Tempos depois, o antigo proprietário ia fazer queixa ao Administrador da Circunscrição que o branco lhe tinha ocupado a sua lavra e, como não havia documentos, era palavra contra palavra e quem levava a melhor normalmente era o antigo dono da lavra. Era um roubo descarado para o qual não havia solução.


Terreiro com café a secar (Brasil).

Diz-se vulgarmente mas sem conhecimento de causa, que o café no Norte de Angola nascido nas matas era espontâneo. De certa forma sim mas quem o semeava eram os morcegos ou os macacos que comiam as cerejas maduras do café e as expeliam nos seus dejectos. Assim, nascia por tudo quanto era sítio o tal café chamado de espontâneo semeado pelo morcegos e pelos macacos. Em locais onde esses cafeeiros nasciam com mais abundância na mata os nativos aproveitavam e faziam as suas lavras sem plantar um único pé de café. Mas os cafeeiros nestas condições não davam café de qualidade, por isso, era necessário desbastar e tratar os pés de café de maneira que eles pudessem crescer livremente à sombra das outras árvores.

O meu vizinho garantiu-me que sempre houve bom entendimento entre eles e os nativos e que esse ódio só poderia ter sido fomentado pela doutrinação de pessoal do exterior sobre tudo do Congo tornado recentemente independente. Infelizmente ele estava certo porque o pude comprovar pelo que vi e li não só na Internet como nos livros. Felizmente para eles em Bolongongo nunca houve problemas.


Mercado de café no Uige (foto Memórias de Angola, João Loureiro).

Esta fotografia mostra um mercado público de café no Uige. Como dissemos anteriormente, os nativos tinham as suas lavras de café que, em alguns casos, chegavam a produzir entre 6 a 10 toneladas de mapumba (cereja de café seca) ou mais. Essa mapumba era vendida no mercado público ao preço estabelecido pelo Administrador de Circunscrição (autoridade do Estado) por vezes até acima do preço normal de mercado.

Algumas vezes a mapumba não estava devidamente seca para deliberadamente aumentar de peso. Os grossistas, como era o caso do meu amigo, devido a estas circunstâncias e, em alguns casos, preferiam comprar o café aos pequenos roceiros brancos visto ser de melhor qualidade e devidamente seco.

A medida padrão usada pelos nativos para a mapumba era o ipungo que era uma caixa de madeira com a capacidade de cerca de 2 quilos. Os nativos eram muito rigorosos e desconfiados nos pesos mas, o café antes de ir para o mercado público era pesado na Administração do Concelho local.  Além disso, o café comprado nesse mercado pelos brancos era pago na íntegra na devida altura e os nativos acompanhavam a sua entrega no armazém. Feita a entregua, ainda pediam mata bicho (gorjeta) porque era um hábito local.

Como se pode ver, havia livre concorrência de mercado e não a tal dita exploração dos negros que causou a revolta dos bacongos em 1961.

Uma bebida muito usada pelos nativos da região era o marufo que era o suco estraído das palmeiras e recolhido em garrafões por meio de um orifício feito no tronco da palmeira. Esse suco era doce mas quando fermentado ficava alcoólico e depois de destilado dava o tal quimbombo (aguardente).

Os nativos por vezes trocavam nas lojas dos brancos garrafões dessa bebiba por igual quantidade de vinho importado do Puto (Portugal).    

Deu-se a independência de Angola em 1975 e o meu amigo e tantos outros foram obrigados a abandonar tudo quanto tinham adquirido com o esforço de muitos anos de trabalho. Este meu amigo e o seu sócio tinha mais de 1.500 bois e os armazéns abarrotados de toneladas de café descascado pronto para ser comercializado. Além disso, disse-me que tinha mais de 5.000.000$00 depositados no Banco de Angola que nunca poderam reaver e, por isso, lá ficaram para os futuros senhores de Angola que ascenderam ao poder com a ajuda dos traidores portugueses o usufruirem à custa do suor e de muito trabalho dos portugueses. Isso em bom português chama-se ROUBO e não expropriação.

Havia na mesma localidade outros comerciantes ainda mais ricos e com muitas mais cabeças de gado bovino, grossistas e exportadores de milhares de tonelas de café que, com mais expediente, subornavam os funcionánios angolanos do MPLA que na altura autorizavam as saídas de capitais para o estrangeiro e por isso, conseguiram fazer sair de Angola milhões de escudos angolanos convertidos depois em escudos portugueses. Conheço-os pessoalmente e, como é óbvio, sempre estiveram bem de vida!

Recorda-se também de em 1975 ver na reagião cubanos juntamente com soldados do MPLA. Esses cubanos com a ajuda dos soldados rapinaram tudo o que puderam transportar para Luanda inclusivamente as máquinas e o café que embarcavam para Cuba. Angola estava a saque com permissão do MPLA!

Quem ficou com os milhares de bois, as milhares de toneladas de café armazenadas e com todos os seus bens? O governo, os cubanos ou os russos? O povo certamente que não foi. Por incrível que pareça vi recentemente (Agosto 2005) no ANGONOTÍCIAS, orgão de Notícias de Angola online na Internet, que presentemente há pouco gado bovino em Angola. Ironia do destino!

Tiveram de fretar um avião particular para virem para Luanda apenas com a roupa que tinham no corpo, alguns valores em ouro e dinheiro que tinham em casa. Veio para Portugal tal como outros milhares de portugueses com as mãos a abanar recebendo apenas 5.000$00 do IARN quando chegou tendo sido obrigado a vender os bens que cá ainda lhe restavam para montar um pequeno negócio que lhe permitisse subsistir. Hoje está aposentado com uma pequena pensão e infelizmente com uma doença crónica.

Triste sina para quem trabalhou tantos anos e que estava bem de vida pelo seu árduo trabalho e, devido à exemplar descolonização feita pelos comunistas portugueses do 25 de Abril perdeu tudo.

Identificação e ódios Tribais.

Nos anos 50 talvez até 60 não posso precisar exactamente, já lá vão tantos anos, porque esta informação foi-me dada por um amigo que foi Administrador de Circunscrição em Angola, portanto fidedigna.

Todos os anos pela Administração do Concelho era feito um recenseamento das populações nativas com a ajuda dos cipaios onde se incluía pessoas e bens. Os homens que tivessem uma idade válida para trabalhar estavam sujeitos ao pagamento de um imposto anual ao Governo que na altura se chamava imposto indígena, mais tarde chamado taxa pessoal e depois imposto geral mínimo. As mulheres, os inválidos ou velhos estavam isentos desse imposto. Normalmente esse dinheiro era entregue ao soba local que o entregava no posto administrativo e este por sua vez na Administração do Concelho o qual finalmente era depois depositado na Repartição de Fazenda (Finanças).

Os mais velhos já tinham uma caderneta de identificação e aos recenseados recentemente com alguma instrução passavam também uma caderneta que o identificava como assimilado e, já muito mais tarde, passou a ser emitido um bilhete de Identidade a qualquer cidadão que o pedisse e foi abolido esse tal imposto.

Isto era uma situação injusta e discriminatória que não se compreende porque quando fui para Angola em 1952 estive lá algum tempo desempregado e nunca me foi exigido nenhum imposto pelas autoridades administrativas. Desconheço qual era a razão deste procedimento por parte do Governo de Angola. Só comecei a descontar no vencimento quando me empreguei.

Havia, no entanto, impostos directos pagos ao Estado por meio de sêlos de assistência e de povoamento, no correio ou nos requerimentos feitos em papel selado. Não me recorda exactamente o porquê deste procedimento mas certamente seria uma forma de arrecadar fundos para o Estado (Angola).

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Em Angola por mais que os actuais governantes apregoem o contrário, sempre houve desde tempos remotos ódios tribais e um deles era entre os kiokos e os ganguelas. Os kiokos sempre foram um povo guerreiro e diziam que se não fossem os brancos comeriam vivos os ganguelas. Os bacongos não gostavam dos bailundos porque eles eram considerados de uma condição inferior economicamente e também por trabalharem para os brancos, daí a chacina que se verificou no Norte de Angola. A língua comum que os unia era o Português mas cada tribo ainda tem actualmente o seu dialecto próprio e há ainda milhares de indígenas em Angola que não entendem Português.

Os mucubais são um povo aguerrido (Mandume Ndemufayo) que deram muitos problemas aos portugueses e continuam a dar actualmente como nos casos de roubo de gado bovino aos seus vizinhos.

Huíla: Muacahonas exigem indemnização do gado roubado Lubango, 28/07 - A comunidade da tribo Muacahonas, estacionada na localidade da Taca, município dos Gambos, província da Huíla, exigiu, esta semana, a indemnização de mais de cem cabeças de gado bovino aos familiares das vitimas do conflito que ocorreu entre estes e os Mucubais, no princípio deste ano. A exigência foi manifestada durante um encontro realizado entre o governo da província da Huíla e os elementos da referida tribo, no qual pediram que a família das cinco vítimas devem receber por direito este número, por forma a honrarem as suas memórias. De acordo com o soba da tribo Muacahonas, João Muendjaje, a forma de atribuir e cumprir as leis costumeiras deve ser feita com a entrega de qualquer meio, quer material quer animal. Afirmou que uma das causas que originou conflito entre a sua tribo e os Mucubais é roubo de gado, uma prática frequente na região da Taca e do Virei (Namibe). Entretanto, o vice-governador da Huíla, para esfera económica e produtiva, Adriano da Silva, anunciou que o governo da província, em parceria com o executivo do Namibe, está a trabalhar para resolver o conflito. Pediu a comunidade da tribo Muacahonas a pautar pelo espírito de calma e de reconciliação nacional, por forma a viverem em união e harmonia. O conflito que causou a morte de cinco membros da tribo Muacahonas teve como base o roubo de 459 cabeças de gado bovino, por parte das duas tribos. A localidade da Taca dista 337 quilómetros.

http://www.angolapress-angop.ao/noticia.asp?ID=361073