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Destruídos aos milhares sem dó nem piedade os bandoleiros de Holden Roberto e seus sequazes, como dissemos, restavam alguns grupelhos espalhados pelas matas e que eram perseguidos tenazmente pelas nossos tropas até serem exterminados. Mesmo assim, como os nativos diziam: "Deus é grande mas a mata é maior", no Norte de Angola sempre se transitava nas estradas com precaução normalmente com colunas militares quando se tratava de abastecimento de víveres, mercadorias e transporte de grandes quantidades de café.

Infelizmente as pesadas baixas infligidas aos assassinos não trouxeram à vida os milhares de inocentes pretos, brancos e mestiços, selvaticamente assassinados nem as vidas perdidas dos nossos soldados frequentemente emboscados à traição e não em frente aberta de combate.

Havia sempre os aventureiros destemidos que sem se importarem com os turras faziam esse persurso sem problemas mas sempre armados com espingardas para sua defesa se necessário fosse. As fazendas foram reconstruídas, novas estradas abertas onde antigamente eram apenas picadas, pontes reconstruídas não em madeira mas de betão, enfim, poderia dizer-se que o Norte se estava transformando pouco a pouco com a afluência de novos fazendeiros atraídos pelo ouro negro (café).

Noutras partes de Angola não havia nada de especial e a vida processava-se com normalidade mas, aprendendo com a lição do Norte, havia mais cautela nas deslocações. Não me recorda de ter havido problemas. No entanto, no estrangeiro os chamados grupos independentistas tentavam agrupar-se digerindo as pesadas baixas sofridas no Norte de Angola e sabiam que não lhes seria fácil enfrentar-nos novamente nas condições existentes na altura. MPLA, UNITA? Não se ouvia falar mas eles estávam lá, camuflados e em silêncio alguns amigos africanos com quem convivíamos diariamente esperando para um dia poder dar o bote. Nunca o conseguiriam senão fossem alguns dos ultra esquerdistas do MFA do 25 de Abril nossos compatriotas que nos atraiçoaram, como adiante veremos.

Entretanto o obsoleto sistema de telecomunicações por onda curta estava a ser substituído por um sistema de VHF (feixes hertezianos) que interligasse as principais cidades de Angola com um número de canais na altura suficientes e que mais tarde incluiria também Telex. O velho sistema de telegrafia foi substituído por máquinas Telex. Alguns anos depois de ser instalado, o sistema VHF foi ampliado mas, como este sitema era pelo interior não oferecia segurança, já estava projectada a instalação pelo litoral um sistema de micro-ondas complementar que comportaria mais de um milhar de canais. Infelizmente já não assisti à sua instalação se é que chegou a ser instalado.

Foi precisamente nessa altura, como relatei anteriormente, que fui colocado nos serviços técnicos do sistema VHF cuja instalação estava sendo implementada entre Luanda e a Cela (Waku Kungo) e depois seguiria até Huambo e Huila. O equipamento era actualizado para aquele tempo e a sua instalação foi adjudicada à Marconi Inglesa que fez deslocar para Angola os técnicos especializados necessários juntamente com o respectivo equipamento funcionando ainda a válvulas.

Estive uns meses nos serviços técnicos estudando os manuais em Inglês, painel a painel para conhecer perfeitamente o equipamento que mais tarde eu iria ajudar a instalar pois já sabia de antemão que seria colocado na Cela (Santa Comba) quando o equipamento estivesse instalado até lá.

Um dia estava estudando (recapitulando) uma vez mais os manuais quando entrou o técnico chefe da Marconi mister Hanckoc e vendo-me com os manuais do equipamento na mão perguntou ao meu chefe o que eu estava fazendo. Ele disse-lhe que eu seria o técnico que iria para a Cela quando o equipamento estivesse montado. Então o mister aproximando-se de mim, abriu o manual numa página e perguntou-me num Português inglesado que lhe explicasse como funcionava aquela parte do equipamento. Descrevi-lhe o funcionamento da mesma maneira visto que eu não falava Inglês correctamente. Ok, disse, abriu outra página: e aqui? Descrevi-lhe novamente o que tinha aprendido sobre a parte que ele pretendia. Não satisfeito, foi abrindo o manual aleatóriamente perguntando-me o funcionamento de cada painel. Finalmente disse:

- "Já tem muito livro", prepara tudo para amanhã seguir comigo para a Quibala.

Fui apanhado de surpresa mas era mesmo assim, tinha de estar preparado para o que mais tarde ou mais cedo viria acontecer mas nunca me passou pela cabeça que eu iria a ajudar a montar e depois testar o equipamento de que mais tarde faria a manutenção. Disse à minha esposa o que tinha acontecido e, no dia seguinte, parti com o mister para a Quibala que era o repetidor depois do Calulo (1440m de altitude) o primeiro a seguir à estação terminal de Salazar (Dalatando) (1097m de altitude) já em funcionamento.

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Repetidor VHF da Quibala - 1845 metros de altitude  (foto autor).

Chegados à Quibala ficámos instalados no hotel. Infelizmente naquela altura a estrada Luanda-Quibala ainda não estava asfaltada, era de terra batida embora tivesse alguma assistência dada pelos postos administrativos locais.

O repetidor da Quibala ficava situado num morro (monte) a 1845m de altitude e, para se poder subir até lá, tinha sido aberta uma picada manualmente por trabalhadores contratados sem a ajuda de qualquer máquina. Para quem estava habituado a andar na cidade ou nas estradas asfaltadas da periferia de Luanda, não era nada fácil subir ao morro mesmo com um jeep Land Rover praticamente novo.

Foi esta a minha primeira experiência que seria repetida ao longo de mais de quatro anos em condições por vezes muito difíceis mesmo para um condutor experiente como eu era com perigo de ter um despiste por escorregamento no piso de terra molhado e com capim por vezes da altura da viatura guiando-me apenas pelos trilhos.

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"Picada" de acesso ao repetidor da Quibala.

Chegados à estação e, no cimo do morro, dada a sua altitude, não havendo núvens, vislumbravam-se grandes extensões planas e montanhosas todas cobertas de mato. Havia junto da estação uma rocha de granito onde tinha sido instalado um marco geodésico. Esse pequeno penhasco estava todo riscado (vidrado) pelas inúmeras faíscas que lhe caíram em cima ao longo dos anos fundindo o granito.

Quando o mister abriu a porta de ferro da estação verifiquei que já lá estava instalado todo o equipamento faltando apenas o ajuste final. Chamou-me para ver como ele fazia a sintonia (ajuste) do equipamento servindo-se para isso dos aparelhos de ensaio adequados.

Chegando ao final do ajuste a potencia do emissor era apenas de entre 10 -15Watts mas como tinha antenas Yagi de alto ganho e a transmissão era praticamente à vista do horizonte era mais que suficiente, então disse-me:

-"Well, now you sew as the work was done, try it". (Bem, agora você viu como o trabalho foi feito experimente). Como já conhecia teoricamente o funcionamento depois de ver na prática não me foi difícil fazê-lo. Quando cheguei ao fim ele disse:

-"Looks like you are already an expert therefore go ahead alone so, now I’m standby because I trust you". (Parece que você é já especializado por isso continue só que eu agora fico a descansar porque confio em si).

E foi exactamente o que ele fez, ficava estendido ao Sol no capim junto da estação enquanto eu sintonizava o restante equipamento. Quando acabei chamei-o para verificar, potência, desvio na modulação, etc. Tudo ok. Dali para a frente fui eu que fiz praticamente a sintonia final de todos os equipamentos até na Cela cuja estação terminal estava situada no cimo do morro junto a Santa Comba a 1694m de altura. Até ali já havia telecomunicações fiáveis que permitiriam pelo menos 24 canais de telefonia. Já não assisti à instalação dos equipamentos seguintes até ao Huambo porque regressei a Luanda.


Na estrada da Beira Alta com coluna militar  (foto autor).

Entretanto, enquanto as estações não ficaram prontas até ao Huambo, estive algum tempo em Luanda a fazer a manutenção do sistema que incluia a estação terminal em Luanda, e os repetidores de Quiele, Cassoneca e Beira Alta. Nas deslocações ao repetidor da Beira Alta como naquela altura era considerada uma zona que podia ter algum perigo, normalmente éramos acompanhados por duas viaturas militares com alguns soldados armados que estavam aquartelados no Zenza do Itombe. Saíamos cedo de Luanda para chegar por volta das 08.00h ao Zenza. Era uma seca esperar até que eles se organizassem para nos acompanhar. Por isso, acabámos por prescindir da coluna militar. Normalmente levávamos para nossa defesa pessoal pistolas de 7,5mm e uma pistola metralhadora. Felizmente apesar dos boatos que corriam de que na zona havia alguns turras nunca fomos atacados.

A estação terminal do Hubambo ficou concluida, por isso, recebi ordens para ir para a Cela (Santa Comba) onde iria fazer a manutenção dos repetidores de Calulo, Quibala, terminal de Santa Comba e um outro repetidor para Sul a seguir ao terminal, cujo nome já não me lembro.

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Estação terminal de rádio VHF da Cela.

Preparei as bicuatas (as minhas coisas) e, passados alguns dias, estava a caminho de Santa Comba juntamente com um mecânico que faria a manutenção dos geradores diesel que forneciam energia à estação. A minha esposa como professora do ensino básico estava colocada em Luanda. Na altura não havia vagas na escola em Santa Comba por isso fui eu só. Distribuíram-me um jeep Land Rover e lá fomos nós a caminho de Santa Comba levando connosco as ferramentas necessárias à manutenção dos geradores e os aparelhos de ensaio já meus conhecidos para a manutenção do equipamento de rádio, não esquecendo o meu emissor e receptor de radioamador. Entretanto fiz um pequeno emissor (igual ao do Chefe de Posto de Camgola) e instalei-o na minha residência em Luanda.

A estação de rádio ficava no cimo do morro e os geradores diesel estavam instalados numa estação na base onde permanecíamos durante o dia sendo a energia transportada por uma cabo subterrâneo para a estação de rádio e os canais de fonia da estação para a base também por meio de um cabo especial e daí para a estação dos CTT local por meio de uma cabo aéreo normal.

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O Jeep Land Rover estacionado à porta da Pousada com uma tempestade.

Como na altura não tinha telefone na minha residência em Luanda o emissor serviria para contactar a minha esposa quando fosse necessário. Fiquei hospedado na Estalagem do Monte em Santa Comba. Com a permissão do dono, instalei o meu emissor e receptor no meu quarto. Normalmente quase todas as manhãs, quando havia boa propagação falava com a minha esposa.

O chefe da Estação dos CTT de Santa Comba já tinha providenciado no sentido de nos conseguir pessoal auxiliar, um para mim e outro para o mecânico. O nome do ajudante do mecânico era Paulino e o meu chamava-se N’Gunza. Eles e a família construíram duas cubatas perto da estação onde viviam. Mais tarde foi construído junto da estação o Matadouro Municipal por isso, eles não estavam isolados pois o empregados do matadouro fizeram o mesmo.

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Cubata (foto Agola Reconstrução Nacional)

Recordo com saudade o N’Gunza, meu companheiro e fiel ajudante em todos os bons e maus momentos porque passámos. Para quem conhece algo da história do Sul de Angola saberá que perto da Quibala em tempos passados havia um grande kimbo cujo Soba era o conhecido N’Gunza. Pois bem, o meu ajudante era precisamente um dos netos desse grande e respeitado Soba. Disse-me que se um dia ele fosse ao kimbo do seu falecido avô as gentes tinham que se ajoelhar para lhe dirigirem a palavra !