O ESTADO DE S. PAULO Domingo, 13 janeiro de 2008

Drama das minas assombra angolanos

Cinco anos após fim da guerra, 10% do território de Angola continua minado; país tem mais de 70 mil amputados

Mariana Della Barba

À primeira vista, os terrenos onde ocorreram as guerras de Angola e Congo são muito diferentes. Enquanto forças da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA) e do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) se enfrentavam nas áridas províncias desse país, boa parte do conflito congolês ocorria no meio de uma floresta tropical. Mas um corte no solo dos dois países revela uma trágica semelhança: a enorme quantidade de minas enterradas, que todos os dias causam novas vítimas.

Enquanto os rebeldes angolanos e a maioria dos congoleses aceitaram entregar as armas, as minas terrestres não reconhecem cessar-fogo e continuam vitimando civis décadas após serem instaladas.

Em Angola, cinco anos após o fim da guerra civil que matou mais de 500 mil pessoas, ainda há minas e artefatos bélicos que não foram detonados no solo das suas 18 províncias. Ocupando um dos piores lugares no ranking de uso de minas, o país tem 1.300 quilómetros quadrados (ou 10% do território) contaminados com um número estimado de 5 a 10 milhões delas.


Minas (foto Net)

Com mais de 70 mil amputados, é comum ver angolanos andando com a ajuda de muletas em todas as áreas de Luanda. “As cadeiras de rodas são raras por aqui porque, com as condições das calçadas, fica complicado”, disse o francês Michel Deffontaines, ortopedista responsável pelo projeto de reabilitação física do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Angola.

Os amputados fazem parte da vida angolana a tal ponto que contam as suas histórias com uma naturalidade chocante, como se falassem de uma ida à feira. “Perdi a perna em 1993, em Huambo (a 600 quilômetros de Luanda). Minha cidade tinha sido invadida e eu estava fugindo quando um carro passou do nosso lado e detonou uma mina”, conta Nuria Albertina da Conceição, de 28 anos.

“No começo foi complicado, uma dor terrível, mas agora me acostumei. Tenho uma vida normal. Quer dizer, quase. Às vezes não aguento o ritmo dele”, diz, apontando para Lourivaldo, seu filho de 3 anos que não pára um minuto no mesmo lugar.

Nuria está no centro ortopédico apoiado pelo CICV em Luanda para ajustar sua prótese, que tem uma vida útil média de três anos. Juntamente com ela, outros pacientes fazem fisioterapia. Em um canto, três veteranos de guerra fazem uma pausa. Pereira Manuel, de 54 anos - que insiste que Pereira é seu nome e Manuel, o sobrenome - conta como perdeu a perna.

“Estava servindo em Cabinda. Pisei em uma mina e acabou. Agora estou aqui, reaprendendo a andar”, diz o ex-militar do MPLA . “Não é como ter um pé de novo, mas a vida melhorou”, afirma seu colega Gabriel João José.

Em 2006, 1.226 pessoas receberam próteses nos centros ortopédicos apoiados pela Cruz Vermelha, que distribuiu mais de 4 mil pares de muletas. “Mesmo assim, ainda há um imenso déficit. Para que se tenha uma idéia, no Afeganistão foram produzidas mais de 10 mil próteses no ano passado”, diz Deffontaines, explicando que um dos motivos é a dificuldade que pessoas têm em ir até um centro ortopédico, já que o sistema de transporte é precário, especialmente fora da capital.

Muitas das estradas angolanas estão fechadas por causa das minas, o que é um entrave para o transporte e, conseqüentemente, para o desenvolvimento do país. Áreas inteiras com suspeita de minas têm de ser interditadas e não podem, por exemplo, ser cultivadas ou usadas como local de acesso, prejudicando a vida de mais de 2 milhões de angolanos todos os dias.

Na Província de Moxico - uma das regiões mais afetadas pela guerra por ter sido reduto de Jonas Savimbi, líder da UNITA -, uma importante estrada estava fechada desde o fim da guerra, dificultando a movimentação e impedindo o escoamento da produção agrícola do local.

“Quando terminamos de retirar as minas nos 245 quilómetros da via, o tempo de viagem entre Luena e Lumbala N’guimbo foi reduzido de dois dias para seis horas”, conta o britânico Mark Naftalin, coordenador do Mines Advisory Group (MAG) de Angola, uma das principais empresas que limpam terrenos contaminados por minas.

O processo, conhecido como desminagem, é lento. Dependendo do tipo de solo e da intensidade dos conflitos que ali ocorreram, um técnico - munido de detectores especiais - pode ficar o dia todo para libertar uma área de 10 metros quadrados. São usados até cães farejadores e ratos para agilizar o processo. Além de demorada, a desminagem é cara: enquanto uma mina é comprada por até US$ 1, encontrá-la e destruí-la pode custar US$ 1 mil.

Há ainda outra dificuldade: ninguém sabe exatamente onde estão as minas. Se essa tarefa já é difícil em Angola, que tem 1,2 milhão de quilômetros quadrados, no Congo, com o dobro do território, é desanimadora. “Nosso maior problema é a logística. Muitos lugares não têm nem estrada. Temos de transportar o equipamento de barco ou avião. Não há infra-estrutura nenhuma”, explica Harouna Ouedraogo, diretor da UNMACC, agência da ONU que coordena as ações antiminas no Congo.

Ele diz que foi somente nos últimos dois anos que os angolanos receberam dos países que se envolveram no conflito angolano - como Cuba e África do Sul - os mapas de localização de suas minas. “Aqui no Congo, nem isso temos, já que a luta não era travada entre Exércitos organizados, mas entre milícias sem estratégias nem registros”, diz Ouedraogo. Ele diz que os mapas que tem são pouco precisos e foram produzidos com base em informações de ONGs, que fizeram um levantamento dos locais onde houve vítimas e das áreas de atuação de milícias estrangeiras, onde a possibilidade de haver minas é maior.

“Os congoleses colocavam as minas e, depois da luta, recolhiam as que não tinham explodido para voltar a usá-las. O pior é que sabemos que as milícias de hoje têm minas. E muitas. Só não podemos confirmar que elas as estejam usando.”

CONSCIENTIZAÇÃO

O coordenador da agência da ONU explica que tão importante quando a desminagem é a conscientização para o risco que as minas representam. “Na Província de Katagana o trabalho de sensibilização reduziu o número de vítimas, embora ainda restem milhares de minas no solo.”

Simão Caquarta, responsável da Cruz Vermelha angolana pela gestão de desastres, explica que seu programa de conscientização é voltado para as crianças. “Elas estão sempre andando pelos campos, buscando algo para brincar. E muitas vezes dão de cara com minas terrestres. Quando não sabem o que são, acontece o que ocorreu na semana passada, quando três crianças morreram na explosão de uma mina”, conta.

Os três especialistas concordam que mais educação sobre esse perigo reduziria consideravelmente esse quadro. A cada hora, duas pessoas pisam em uma mina em Angola, Congo, Camboja, Afeganistão ou algum dos outros 70 países que estão contaminados. Isso significa que, todos os dias, mais de 40 pessoas são vítimas de explosões de minas - 15 mil vítimas por ano.

Se a partir de hoje ninguém mais enterrar minas, seriam necessários mil anos e US$ 30 milhões para limpar todos os campos minados do mundo. Para não agravar o problema, especialistas sugerem que países como EUA, China e Rússia assinem o Tratado de Ottawa (contra o uso de minas), que acabou de completar uma década, para que finalmente esses países parem de fabricar minas terrestres.

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