Emídio Fernando
Publicações Dom Kixote www.dquixote.pt

A FÉ INABALÁVEL NA MORTE

Sugerimos vivamente a todos aqueles que desejarem saber pormenorizadamente sobre a vida política do Dr. Jonas Savimbi não descrita noutros livros, adquirirem este excelente livro. Dado os temas politicamente polémicos sobre os três partidos provavelmente não será permitida a sua venda em Angola. Por isso, pedidos a condescendência da editora e do autor.

O ultimato de José Eduardo dos Santos há muito que é esperado por Jonas Savimbi. Acossado, em fuga permanente pelas matas do interior de Angola, a caminho do Leste, o líder da UNITA atinge o ponto zero da sua guerra: está pior do que quando começou, em 1966. Acresce que está totalmente isolado e enfrenta diversas traições na cúpula dos seus militares. Os dirigentes da UNITA dividem-se: a maior parte está farta da guerra e clama pelo regresso às cidades; os restantes ainda aguentam a fidelidade a Savimbi, mesmo sabendo que a derrota é inevitável. Daí que cada um que seja aprisionado, passe, de imediato, a colaborar com o inimigo. O líder da UNITA, com a sua natural desconfiança, apercebe-se que anda «a dormir» com o inimigo. E isso mesmo relata, ainda em novembro de 2001, a Jardo Muekalia, através de uma carta escrita no dia em que se celebra a independência de Angola:

“Saúde para toda a família. O inimigo, com o apoio directo dos tugas, na experiência de que se gabam publicamente nas suas relações de cooperação militar, aplicam a técnica dos anos 70 que nós conhecemos e que levou a FNLA e o MPLA a deixarem o país em 1972. É queimar tudo e matar tudo. Queimam celeiros, arrancam as mandioqueiras, minam lugares de trânsito ou de acarreto de água, apanham as populações [...]. Como quadriculam as áreas com as tropas ditas de quadrícula, usando massivamente os helicópteros, as áreas ficam de fome extrema e de manobras constantes muito apertadas. Com uma massa avaliada em 100 000 pessoas que foram para o Leste, pensando na guerrilha passada, a coisa ficou complicada. Como esse tipo de Guerra entrou com a saída do de Matos e inspirada pelos Norte-coreanos e o Lin Piao, aplicando mais ou nossos soldados rendidos, está a deixar traumatismo profundo. Uns são realmente capturados e. outros mais fracos se rendem [...]. Há dias em que temos de marchar 12 horas sem parar e manobrar com fogos laterais. O mês de Outubro foi muito difícil. Mas a fé mantém-se e o moral está onde esteve há 43 anos. Gosto do provérbio que diz que um homem sentado já não pode cair, só espera levantar-se.

A determinação de JES é capturar-me ou matar-me para destruir o Partido [...]. Temos de manter a diplomacia da paz e da reconciliação nacional através do diálogo inclusivo, como a nossa bandeira porque congrega a maior parte dos patriotas angolanos [...]. O Bandua [general Jacinto Bandua] assumiu nas emissoras publicamente que foi ele quem sabotou a nossa logística, pois senão o PT [inimigo] não estaria onde estava. Foi em Fevereiro de 1999. Com o nosso poderio convencional tencionávamos reparar o Protocolo de Lusaka e criarmos equilíbrio. Não podíamos derrubar o regime por causa da aviação. Mas a nossa estratégia tinha objectivos políticos precisos e eram exequíveis. Ao nível do Jacinto e no mesmo peso de responsabilidade e talvez mais, está o Bock. Por ter sido uma manobra muito delicada, as linhas de progressão da estratégia operacional, com nós decisivos e muitos de decepção, só eram conhecidas por mim, pelo actual vice/ CAMG [gen. Samy], e o Kalias que dominou a organização mais ninguém. O resto do corpo de comando tinha missões que, vistas por eles como principais, eram de decepção. O Bock aliado ao Jacinto... interferiu no nó principal em dois dias e, em menos de cinco horas, tinha dado ordens que ruíram toda a estratégia no dia 15 de Dezembro de 1998. O que fizemos a seguir, era tentar parar o vento com as mãos... Mais-Velho, Epístola.”


Além das traições nomeadas na carta, em dezembro, Savimbi sofre a deserção que provoca a maior mossa na sua estratégia de fuga. O oficial que comanda todas as comunicações, tenente-coronel Orlando, decide, simplesmente, entregar-se às FAA. Poucas semanas depois, o líder da UNITA promove um encontro formal com os seus generais e anuncia um gesto «magnânimo»: propor um período de tréguas para o Natal.

A 17 de fevereiro de 2002, precipita-se o fim anunciado de Jonas Savimbi, quando as FAA capturam oficiais também ligados às comunicações da chamada «coluna presidencial». A partir daí, as Forças Armadas de Angola colecionam informações preciosas sobre o paradeiro exato de Savimbi, com a ajuda valiosa dos satélites disponibilizados pelos Estados Unidos. Capturar o líder da UNITA passa a ser, para Luanda, uma questão de dias. Savimbi está encurralado entre os rios Lutuai, Lungue-Bungo e Muangai, precisamente na zona onde tinha sido fundada a UNITA. É ali que, em círculos constantes, mudando de margens, vai fintando a perseguição das FAA, até ser detetado a 22 de fevereiro de 2002. Um dos homens que comanda as operações, Simão Carlitos Wala, foi enviado meses mais tarde para uma academia militar em Moscovo. Na Rússia, conta ao historiador Serguei Kolomnin, os últimos momentos de Jonas Savimbi:

“Eu estava convencido do êxito da operação, a que chamámos «Kissonda». Savimbi, o seu estado-maior e os seus combatentes, depois de uma perseguição de muitos meses na savana, foram alcançados pelos «caçadores» na província do Mochico, na região dos afluentes do rio Lunga-Bungu: Luvua, Luonza e Lumai, perto da fronteira com a Zâmbia. Restavam 50 a 70 quilómetros para lá chegar. Ele movimentava-se para o Oriente, avançava para onde era esperado por um destacamento armado da UNITA, comandado pelo general Bicho. Inicialmente, Savimbi forçou o rio Luvua. Depois, sentindo a perseguição, ele, para tentar confundir pistas, dividiu o seu destacamento em várias partes. Uma, comandada pelo general Kamorteiro, chefe do estado-maior das FALA, avançou para o ocidente ao longo da margem esquerda do rio Luon2a; outra, comandada pelo general Mole. Ele confundia constantemente as pistas, ora dirigia-se para Sul, ora virava para Norte. Parecia-lhe faltar pouco para escapar ao cerco. Mas os combatentes da 20a cortaram todas as vias para a fronteira da vizinha Zâmbia. E Savimbi entrou em pânico. Quando, de manhã, por volta das sete horas, os nossos combatentes descobriram o rasto do grupo, ele sentiu isso e fugiu. Às 15 horas, entrou em confronto com os nossos destacamentos, foi atacado e morreu no tiroteio.”


Savimbi morto

A notícia da morte de Savimbi é largamente difundida pelos órgãos de comunicação nacionais e espalha-se por meio das agências noticiosas internacionais. Ao contrário do que aconteceu em momentos anteriores, em que a morte de Savimbi tinha sido anunciada, há pormenores difundidos a partir do local onde foi morto. Por ironia da História, José Eduardo dos Santos prepara-se para visitar os Estados Unidos. É essa movimentação que levanta dúvidas aos dirigentes da UNITA que ainda resistem na mata e que ficam registadas no caderno de memórias de Alcides Sakala:

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2002
Continuámos cépticos, pois o Presidente já fora dado como morto em muitas ocasiões. Mas se assim fosse, o presidente de Angola partiria para os Estados Unidos da América com as mãos manchadas de sangue.
No plano interno, a notícia, tal como foi dada, procurava arrasar o moral dos soldados da UNITA. Mas a BBC deu mais pormenores e as nossas dúvidas começaram a desvanecer-se, a medir pelos comentários de várias personalidades aos órgãos de comunicação social, à volta do trágico acontecimento. Tudo indicava que a notícia tinha alguma dose de verdade.

Reunimo-nos por volta das vinte e duas horas à volta de uma grande fogueira, num pequeno jango que improvisámos no centro da base para reflectirmos sobre o que ouvíamos. Depois de algumas horas de cogitação, decidimos aguardar pelas próximas vinte e quatro horas por mais pormenores.

Os pormenores não tardam a aparecer, via BBC, ouvidos na mata através de pequenos transístores. As rádios, em onda média, são os únicos meios que os últimos resistentes têm para saber como gira o mundo. É, aliás, um desses aparelhos que salva Abílio Kamalata Numa, um general que já fora acusado de traição, preso por Savimbi e depois reabilitado. Nas últimas horas do líder da UNITA, Numa encontra-se ao lado dele e revela esses momentos em entrevista ao jornal angolano Novo Jornal:

Separámo-nos nas várias manobras que fomos fazendo na mata. Havia momentos que tínhamos de fazer uma linha muito extensa para não se deixar um rasto. E foi nessa altura em que uma parte do grupo se desviou, e esse grupo era do dr. Savimbi. Era mais ou menos oito pessoas, e eu pertencia a um outro que já tinha se perdido da coluna três dias antes. Fazia parte do grupo de pessoas que controlava a retaguarda da coluna do presidente e eu fui atacado numa destas vezes, e perdi-me da coluna. Mais tarde apanhei a coluna do dr. Savimbi no dia 21, e então eu vinha num grupo de cinco, quando me juntei a ele estava sempre animado a dizer que devíamos então ver se encontrávamos o resto do grupo, porque a maior parte estava com o general Dembo e o General Samy.

Começamos a maratona no dia 21, e no dia 22, por volta das 14 horas estacionamos numa área, onde juntamos uma patrulha para ir ver se havia rasto de alguns dos nossos. Mas antes de chegarmos no ponto aonde estávamos, vi realmente pegadas de duas ou quatro pessoas, mas por haver muito musgo naquela altura não se podia distinguir bem de quem eram as botas, se eram botas das FAA ou da nossa gente. Então chamei o dr. Savimbi e mostrei-lhe as pegadas, e disse que não sabia o que se passava, e que de qualquer forma era melhor entrarmos mais para o interior das matas, e depois mandarmos gente para o patrulhamento.

Quando eram 14 horas e qualquer coisa, eu pedi autorização ao dr. Savimbi par ir carregar as minhas pilhas alcalinas, porque queria escutar relato à noite, eu sou um sportinguista doente, por isso não me passava nada, era a minha diversão. Eu saio, e vou para junto dos homens das comunicações para carregar as minhas pilhas. Mas, quando eu chego e me preparo para começar a colocar as pilhas sinto um barulho, e levanto-me e olho na direcção de onde vinha o barulho, quando começam os tiros. Então vejo o dr. Savimbi a levantar-se a correr e a cair.

Ainda conseguiu ver Jonas Savimbi?
Sim, porque eu não estava distante. Era mesmo perto. Inclusive também fizeram tiros contra mim. Eu levava um casaco grande, que ficou furado, com tiros, foi por isso que eles depois disseram que eu também tinha sido atingido, que estava gravemente ferido. E saí. Passados dois minutos, naquela azáfama das corridas, sentia-se tiros pausados, como se tivessem a matar um animal. E eu estava a perceber que eram tiros que estavam a ser feitos ao corpo do dr. Savimbi, daí aquelas imagens que correram o mundo.

Como num filme trágico, Jonas Savimbi morre onde começou a luta para alcançar a sua única e verdadeira ambição: a de ser Presidente de Angola. Por isso, rejeitou sempre qualquer outra condição que não fosse essa. Preferiu morrer nas matas, empunhando armas, do que ter uma participação ativa na política angolana. Alimentou, toda a vida, vários mitos: que lutava apenas pela liberdade, quando no seio do seu partido matou, prendeu e perseguiu; que combatia o comunismo, mas quando ele caiu e o regime angolano se transformou voltou a recusar uma participação política; que era um estadista de grande visão, quando, desde a fundação da UNITA, somou derrotas consecutivas. Viveu escolhendo o lado errado da História: aliou-se aos colonos para combater os seus compatriotas; virou-se contra os colonos, quando Portugal mudava de regime; colaborou ativamente com o regime do apartheid sul-africano contestado por todo o mundo; quando acabou a União Soviética e os regimes socialistas não soube preservar o apoio dos Estados Unidos; perdeu as eleições, mostrando que não se dava bem com o multipartidarismo que defendia; acabou isolado pelo resto do mundo, tendo como amigos apenas traficantes de armas; por fim, foi derrotado no seu terreno de eleição: na guerrilha.

Nas suas memórias, Alcides Sakala escreve, um dia após a morte do líder da UNITA, a derradeira homenagem que poderia ser assinada por todos os militantes e dirigentes que, apesar de todas as vicissitudes por que tenham passado, guardam uma infinita admiração por Jonas Savimbi:

Jonas Savimbi morreria um dia, como todos os comuns mortais de todos os tempos. Não tivesse sido a traição de alguns dos seus homens de confiança, que forjou e formou desde a fundação da UNITA em Muangai, em 1966, Jonas Savimbi nunca teria sido morto pelos soldados das FAA. Morreu nos campos da batalha e da honra como um general deve tombar nas frentes de batalha. Morreu empunhando a sua arma. Não traiu o seu povo. Lutou até ao fim.

O multipartidarismo foi a sua grande conquista e será certamente lembrado como o pai da democracia dos angolanos. Os companheiros que o traíram e as unidades das FAA que o mataram sabiam que Jonas Savimbi nunca se renderia, nem se ajoelharia, e se fosse capturado nunca deploraria que não o matassem. Não era homem dessa estirpe de cobardes. Seria negar-se a si próprio, o que nunca faria. Seria negar o seu projecto de sociedade. Com a sua morte perdemos uma batalha importante, mas não a guerra.

Os relatos elaborados por Alcides Sakala, dos últimos dias da UNITA guerreira, chefiada por Jonas Savimbi, seriam verdadeiramente cómicos, se não fossem tão trágicos. Enquanto os mais resistentes definham, outros caem, literalmente, mortos de fome e de sede. Percorrem centenas de quilómetros por dia, em fuga permanente. Comem mel — quando o encontram —, cogumelos e raízes. Raras vezes caçam - evitam fazê-lo para não serem detetados.

E mesmo assim, Jonas Savimbi, além de insistir na manutenção da guerra, obriga-os a percorrer largas dezenas de quilómetros, num esforço sobre-humano, apenas para o ouvirem em palestras de horas. Numa delas, Savimbi recuperou um dos seus temas favoritos: a biografia dos seus heróis mundiais, de Alexandre Magno a Mao Zedong. Não é um exercício de sadismo do líder da UNITA, é apenas a absoluta entrega à irrealidade em que vive. Um dia, ofereceu aos seus dirigentes a única sentença que não seria desmentida pela História:

Quando um dia as balas inimigas trespassarem o meu corpo, terei cumprido a minha missão.