Domingo, 31 de Agosto de 2008

Economia. Sobra mão-de-obra não qualificada

MPLA promete um milhão de empregos


O Presidente de Angola e lider do MPLA, Eduardo dos Santos.
(foto DN)

Oposição e sindicatos consideram promessa "contraditória"

RICARDO BORDALO e NISA MENDES, em Luanda

Uma das principais apostas eleitorais do MPLA, no poder em Angola, é a criação de mais de um milhão de empregos, um compromisso que, para a oposição e uma central sindical, implica reduzir a importação de mão-de-obra chinesa.

A meta de 1,3 milhões de empregos do MPLA para à próxima legislatura, que começa após as eleições de 5 de Setembro e termina em 2012, foi feita pelo presidente do MPLA e Presidente da República, José Eduardo dos Santos, durante a III Conferência Nacional do partido, que decorreu em Junho. Na ocasião, Eduardo dos Santos prometeu também baixar a taxa de desemprego para um valor inferior a 15%.

No seu manifesto eleitoral, documento que sintetiza o Programa do Governo, o MPLA propõe aumentar os cursos tecnológicos, com conteúdos "virados para a aprendizagem de matérias que facilitem a rápida integração dos jovens no mercado de emprego". O partido que ocupa o poder em Angola há 33 anos prevê ainda investir na criação de mais centros deformação profissional e "fomentar", a partir destas instituições, o "auto-emprego" com a criação de uma "rede de incentivo e apoio às micro e pequenas empresas".

A proposta passa ainda pela promoção do "acesso dos angolanos a um emprego produtivo, qualificado e socialmente útil", assegurando "a valorização sustentada dos recursos humanos nacionais".

O número de 1,3 mil novos postos de trabalho, somado à promessa da construção de um milhão de casas, constitui um dos principais objectivos traçados pelo MPLA para a próxima legislatura, mas merece amplas críticas da oposição e sindicatos.

São "mesmo e só" promessas eleitorais, considera o maior partido da oposição, a UNITA. Por seu lado, a FNLA entende que se trata de "uma promessa precipitada" e, segundo o líder do partido, Ngola Kabango, o presidente do MPLA "terá de assumir as consequências se falhar no cumprimento do prometido".

De acordo com o secretário executivo da Central Geral de Sindicatos Independentes e Livres de Angola (CGSILA), Francisco Jacinto, para se cumprirem essas promessas têm de ser adoptadas "medidas sérias para que o acesso ao investimento seja mais fácil e também regulado o acesso ao emprego". O dirigente sindical refere que "a maioria dos empregos exige que se tenha uma experiência de cinco anos", mas, "para um jovem que acabou de terminar a licenciatura, isto não é razoável".

Francisco Jacinto sublinha a cooperação de Angola com a China, segundo a qual uma das condições das linhas descrédito para financiar os projectos de reconstrução nacional "é a contratação de pessoal chinês".

O Governo "deve evitar isto, caso contrário, criar mais de um milhão de novos empregos não passa de promessa eleitoral", advertiu o sindicalista, que estima que o desemprego em Angola esteja próximo dos 40%.

Camalata Numa, secretário-geral da UNTTA, aproveita para lembrar que a promessa do MPLA "é contraditória com a sua prática", porque está a importar mão-de-obra desqualificada da China que existe "em abundância no país", indica aquele responsável partidário.

O último relatório económico da Universidade Católica de Angola indica uma taxa de desemprego de 25% da população activa para 2007. Na mais recente edição do semanário Novo Jornal, o coordenador do estudo, Alves da Rocha, referiu que "a redução do desemprego pode ter um impacto negativo sobre a produtividade, se não for acompanhada de qualificação da força de trabalho da reciclagem dos trabalhadores".* Jornalistas da agenda Lusa.

Chineses são primeira comunidade

Segundo números do Serviço de Migração e Estrangeiros de Angola, os chineses a residir legalmente neste país ultrapassaram já os 15 mil. A segunda comunidade estrangeira é a portuguesa, com mais de seis mil pessoas. No entanto, estes números não contemplam o facto de muitos cidadãos portugueses viajarem com vistos turísticos para evitar a burocracia angolana.

A China tornou-se, em 2006, o principal parceiro comercial de Angola, com trocas comerciais superiores a 8,2 mil milhões de euros. Por outro lado, muitas empresas chinesas a actuarem em Angola só contratam trabalhadores provenientes do Império do Meio.