27.MAIO.2007

O guerrilheiro que salvou Agostinho Neto 

Radical. Nito Alves tinha 32 anos quando foi fuzilado. Era um orador brilhante e um mobilizador


Nito Alves (foto Net)

Sem Nito Alves, nome pelo qual era conhecido Alves Bernardo Baptista, e sem o apoio dos guerrilheiros da região dos Dembos que ele levou consigo para o congresso de Lusaca, Agostinho Neto dificilmente teria conseguido manter-se na liderança do MPLA, acossado como estava em Agosto de 1974, pela contestação da Revolta Activa (irmãos Pinto de Andrade) e da Revolta de Leste (Daniel Chipenda).

Mas a intervenção de Nito Alves no congresso permitiu salvar Neto, que, pouco depois, assinou um acordo de cessar-fogo com Portugal, assumindo-se, a partir daí, como o único interlocutor do MPLA no processo de descolonlzação. 

Nascido a 23 de Julho de 1945, na aldeia do Piri, situada na província do Kuanza Norte, Nito Alves fez parte da guerrilha do MPLA na região dos Dembos, tendo sido encarregue, em Janeiro de 1974, de tentar reorganizar o partido na capital angolana, restabelecendo os contactos com antigos presos políticos do campo de São Nicolau. Como Zé Van-Dúnem, de quem se tornou inseparável, explicando a influência que ambos tiveram dentro do MPLA no período posterior ao 25 de Abril.


Agostinho Neto (foto Net)

Depois do 27 de Maio de 1997, Nito Alves e Zé Van-Dúnem viriam a ser acusados pelo MPLA de terem atrasado o regresso da direcção do partido a Luanda, invocando falsos pretextos de segurança. Seja como for, o facto é que Nito Alves dominava a estrutura do MPLA na cidade, como Agostinho Neto pôde constatar pela multidão que o recebeu e que Nito mobilizara nos musseques que circundavam Luanda, apoiando-se no radicalismo de militantes das universidades e dos liceus do país.

Populista e popular, Nito Alves despertou, de imediato, a desconfiança de Lúcio Lara e de guerrilheiros como Iko Carreira ou João Luís Neto (Xíetu), que lhe recusaram a patente de general, propondo-o apenas para coronel. Uma humilhação, tendo em conta que, nessa altura, Nito já integrava o restrito bureau político do MPLA e era ministro da Administração Interna.

O grande momento da ruptura chega em Outubro de 1976, meses depois de Nito Alves ter representado o MPLA no XXV Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Acusado de fraccionismo e de estar a criar um segundo partido dentro do MPLA, Nito foi suspenso das suas funções, no mesmo dia em que José Eduardo dos Santos foi encarregado de inquirir sobre as suas actividades. Sucessivamente adiado, o confronto no MPLA só veio a ocorrer a 21 de Maio de 1977, quando Nito Alves e Zé Van-Dúnem foram expulsos do partido. Sem poder defender-se, escreveu então as famosas 13 teses em sua defesa, que circularam de mão em mão. Seis dias depois deu-se o golpe.*