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        O autor

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Miguel Francisco "Michel"

CLÁSSICA EDITORA
classica@classica-editora.com

Distribuição
dinternal@dinternal.pt

O presente livro tem 199 páginas onde o autor descreve minuciosamente não só as causas do 27 de Maio de 1977 mas também a sua vida como prisioneiro, os maus tratos porque passou temendo pela própria vida como outros que, com menos sorte, por lá ficaram. Recomendamos vivamente a leitura deste livro a todos aqueles que estejam interessados em conhecer pormenorizadamente não só o que se passou no 27 de Maio mas também a vida de prisioneiro do autor.Transcrevemos na íntegra os Fundamentos da Publicação e os factos políticos que provocaram o 27 de Maio. Do restante transcrevemos apenas pequenos extractos para que o leitor possa fazer uma ideia do seu conteúdo. Como o livro tem copyrigth e não será fácil de adquirir àqueles que estão na diáspora, solicitamos a complacência da editora e do autor o que desde já agradecemos.

O FUNDAMENTO DA PUBLICAÇÃO

Antes de me decidir pela publicação deste simples e triste relato, reflecti muito seriamente se devia ou não avançar com a ideia que sempre alimentei, ainda lá mesmo no Campo, caso sobrevivesse: a de um dia colocar no papel àquelas situações todas que, assisti e vivi na companhia de toda aquela malta que tal como eu, teve a sorte madrasta de ter ido parar naquele Inferno.

Primeiro, pensei nos riscos que havia de correr atendendo mesmo já à tenebrosidade da Secreta naquela época: Depois, pensei nas consequências que também podiam advir a posteriori, com a publicação. Pensei, fundamentalmente, na imagem do MPLA, meu partido, a cujos ideais aderi e continuo ainda, pois, terminei o relato no ano de 1985 e, a partir daquela data, estava apenas à espera duma oportunidade. Esta oportunidade só surgiu em 1991, com a assinatura dos Acordos de Paz de Bicesse, que permitiram a instauração do multipartidarismo e, concomitantemente, vieram conferir mais liberdades e algumas garantias jurídicas aos cidadãos, já que estas, naquela altura, eram praticamente inexistentes.

Mas, naquela altura, não dava. Prejudicaria o Partido, porque os adversários tirariam partido com a publicação do livro, pois todo o impacto do relato, em função das matérias nele contidas, afectariam a imagem do MPLA desfavoravelmente, e isto não me interessava, porque nunca lutei contra o MPLA, mas contra pessoas dentro dele. Por esta razão, não fazia sentido um livro destes que viesse complicar a vida ao partido que eu queria (e quero) que ganhasse as eleições para salvar o país da catástrofe, caso o déspota ganhasse. Felizmente, o MPLA ganhou as eleições, apesar de o País ter mergulhado numa guerra atroz logo a seguir às mesmas. Felizmente o pior não aconteceu. Estamos hoje em PAZ. Uma PAZ séria e duradoura.

Então, logo pensei: agora as condições estão criadas. Puro engano! Surgiram outros receios. Um desses receios, segundo alguns amigos que contactei para pedir-lhes uma opinião se podia ou não publicar o relato, é o de que se eu publicasse o livro, correria sérios riscos de vida. Até, já estaria marcado em função das entrevistas que concedi ao Folha 8 e ao Jornal Angolense, e ainda alguns artigos que escrevi e mandei publicar nalguns jornais privados. Este receio não me pareceu ser um argumento forte e, por isso, não demoveu o forte desejo de publicar o relato: aliás, o que vi e vivi no Campo, pois a morte já não é algo que me faça temer.

O outro receio, segundo ainda alguns amigos, é o do momento. Dizem estes que o momento não é propício porque o País ainda não está realmente democratizado porque, alguns dirigentes que dirigiram a sangrenta repressão que esteve na base do nosso desterro para aquele Inferno, ainda estão ligados ao poder directa ou indirectamente; e se publicar o relato, será considerado um livro vermelho.

Porém, mesmo com todos estes receios, decidi publicar o relato, com a consciência dos riscos possíveis, que doravante hei-de correr. Não publicar o livro em função de tais receios seria uma traição a todos aqueles que foram barbaramente massacrados, fundamentalmente os inocentes que, por sinal, são a maioria no leque dos assassinatos selectivos realizados pelos carrascos do 27 de Maio.

Como honrar a memória de tantos militantes anónimos mortos das mais variadas maneiras durante a repressão sangrenta, e daqueles que lá ficaram no Focke inocentemente? Como contribuir para que as gerações mais novas saibam o que de facto se passou depois do triste mas célebre 27 de Maio?

A propósito dos que apregoam e defendem a teoria da "Culpa Colectiva", transcrevo algumas frases do companheiro Carlos Pacheco, historiador angolano que também viveu os horrores do 27 de Maio: "A dor, como recorda o escritor argentino Ernesto Sábato, é também um património dos povos (...), um valioso e sagrado património a que cabe ser fiel. Seguir, portanto, na esteira dos que entoam hinos ao esquecimento é negar essa dor e a história dos desaparecidos e sobreviventes, é contribuir para que o 27 de Maio se venha a deformar totalmente e o seu herói acabe por ser, exactamente como O Processo de Kansas, o olvido (...) cujo principal atributo é esquecer-se a si mesmo. (...) Só abrindo o livro da verdade e da justiça se apagarão as nódoas do horror e da vergonha que cobrem o Estado angolano."

Estamos numa era de Reconciliação Nacional. Estou plenamente de acordo. Mas a verdadeira reconciliação passa necessariamente pelo esclarecimento da verdade. Porque verdade é razão, e esta é justiça. É o propósito deste relato. Por isso, se na diversidade dos factos que estão neste relato (atenção, é só mesmo relato), encontrarem alguma coisa que possa ofender alguém, fundamentalmente àqueles que estiveram do outro lado da barricada participando moral ou materialmente, directa ou indirectamente, no processo que esteve na base desta tragédia, perdoem-me. Não o fiz com intenção. A catarse é necessária em qualquer sociedade.

A causa do meu desterro para aquele tenebroso Campo da Calunda, especialmente criado pelos que ganharam na disputa renhida para ter o Presidente Agostinho Neto ao seu lado, é o amor que sinto por esta terra, esta Angola que é meu berço e dos meus antepassados.


Foto livro

Inspirei-me na morte do meu pai e do meu tio, seu irmão mais novo, assassinados friamente em Março (?) de 1961, na Província do Kuanza-Sul, quando eu tinha apenas cinco anos. Foram mortos por amarem a sua terra e, por isso, quiseram contribuir para libertá-la da ocupação colonial.

Se Platão agradecia ao céu por ter nascido no tempo de Sócrates, Montesquieu congratulava-se por ter nascido no governo onde vivia e ter aprendido a obedecer àqueles que o fizeram amar, eu agradeço a natureza por me dar a sorte de ter nascido na fase avançada do Nacionalismo Angolano, tempo em que instintivamente abracei os ideais da liberdade, da dignidade e identidade dos angolanos, consagrados nos Estatutos e Programa do MPLA. Por esta razão, logo que a primeira oportunidade surgiu, materializei aquilo que já há muito me ia na alma: ajudar a libertar Angola do jugo colonial, para que os angolanos recuperassem a sua liberdade, dignidade e identidade perdidas durante séculos.

Nunca, por nada deste mundo, aceitarei silenciar a existência daquele Campo, onde assisti os piores horrores de que só interesses não confessados de falsos militantes podem justificar a barbárie praticada depois do dia 27 de Maio. Onde vi meus companheiros, na sua maioria inocentes, que nem sabiam quem era Nito Alves e muito menos José Van-Dúnem, serem trucidados por terem aderido ao MPLA, ajudando-o a conquistar o poder. É que, a pretexto do racismo debitado falsamente a Nito Alves, os verdadeiros racistas involucrados na figura do Presidente Neto, pelo simples facto de ter sido negro, ter uma mulher branca e filhos mestiços, auto-desmascararam-se. Porque logo depois do dia 27 de Maio, a opinião pública nacional percebeu que, afinal, os racistas não eram Nito Alves e os que abraçaram a sua causa, mas sim, os que se posicionaram em volta do Presidente Neto, comprometendo-o.

Nunca me passou pela cabeça admitir que numa Angola independente fosse possível praticarem-se tamanhas atrocidades, ao ponto de se criar um Campo tão feroz como aquele, o da Calunda, no Município do Alto Zambeze, Província do Moxico, somente para massacrar jovens na sua maioria inocentes.

Nunca acreditei, nem mesmo ousei admitir nas profundezas do meu inconsciente, que um líder da envergadura do Presidente Neto, que viveu os horrores da PIDE fascista e colonialista, que denunciou várias vezes a tortura e a humilhação de que eram vítimas vários nacionalistas nos campos de concentração que as autoridades coloniais haviam criado, deixasse que os adversários de Nito Alves o ludibriassem ao ponto de permitir a criação de um Campo de concentração tão cruel como aquele para onde fomos enviados.

Se Montesquieu distinguia a virtude política da cristã e da moral, por ela significar o amor à Pátria e à igualdade, foi por interiorizar esta virtude que aderi à causa do MPLA, consagrada nos seus estatutos e que Nito Alves defendia profundamente, sintetizada nas célebres palavras pronunciadas por si e, depois, intencionalmente, mal interpretadas:

Por esta causa sofri e por ela mantenho-me firme dentro do MPLA.

O autor

OS MESES, SEMANAS E DIAS QUE ANTECEDERAM O «GOLPE DE ESTADO» DE 27 DE MAIO DE 1977

Antes, Luanda já andava muito agitada. Nos quartéis, onde a Juventude quase toda se encontrava enquadrada, animada de fervor revolucionário por amor à Pátria, em sua defesa e da Revolução contra o «Imperialismo Internacional» > só se falava dos problemas políticos, cujos reflexos no seio dos militares eram notórios nas conversas que estes mantinham.

Embora já se notasse uma certa divisão entre os dirigentes políticos e militares, esta divisão era apenas vivida e percebida ao nível da cúpula dirigente e da classe intelectual. Esta divisão manifestava-se mais no plano político e ideológico, reflexo da conjuntura da época, contradições que já vinham da guerrilha, segundo esclareciam alguns responsáveis militares com quem abordava estas questões.

Entretanto, estas contradições vieram agravar-se com a distribuição das patentes aos primeiros-oficiais superiores das FAPLA, Exército Nacional do jovem Estado, em Agosto de 1976. A guerra, naquela altura, baixara significativamente de intensidade, vencidas que foram: a FNLA, a Norte, aliada ao exército zairense e aos mercenários, muitos dos quais capturados e posteriormente julgados no célebre Processo de Julgamento de Mercenários, com direito a advogados de defesa e mais alguma coisa; a Sul, a UNITA, apoiada pelo exército racista sul-africano, tendo sido expulsa em 27 de Março de 1976.

Todo este êxito do MPLA, foi graças ao empenho voluntário da juventude daquela época que, abraçando os ideais do Marxismo-Leninismo naquela altura, vistos como os mais justos. Foram estes ideais que fizeram com que a maior parte da juventude, principalmente a que se encontrava nos principais centros urbanos, aderisse voluntariamente ao MPLA que, com a ajuda mais tarde, dos Internacionalistas cubanos, venceu a FNLA e a UNITA, aliados ao «imperialismo» e permitiu a proclamação da Independência Nacional em 1975, pelo Dr. Agostinho Neto.

O primeiro sinal que evidenciou a existência de contradições políticas no seio do MPLA verificou-se na formação do primeiro Governo da República Popular de Angola, em 15 de Novembro de 1975, com a nomeação do Comandante Iko Carreira para o cargo de Ministro da Defesa.

Nas FAPLA, mais concretamente na unidade militar onde me encontrava integrado, esta nomeação foi acolhida com alguma surpresa e até mesmo insatisfação por parte de alguns responsáveis, já que, os rumores que se ouviam mesmo antes da formação do Governo, apontavam preferencialmente para a nomeação do Comandante Monstro Imortal. Estes responsáveis fundamentavam esta preferência em função dos feitos levados a cabo por Monstro Imortal durante a guerrilha. Destes feitos, destaca-se o de ter chefiado uma coluna que transportara material de guerra para a 1a Região Político-Militar, a pé, numa marcha que durou meses, marcada por enormes peripécias durante o percurso, devido aos entraves que a FNLA colocava no caminho por onde passavam. Mas, mesmo assim, esta coluna sob o seu comando chegou à 1a Região, graças à sua coragem, ao seu heroísmo e pelo espírito de sacrifício e humildade, diziam. Mesmo no seio da hierarquia militar, de um modo geral Monstro Imortal gozava de grande prestígio.

Diziam que ele era um brilhante comandante de tropas e dominava com perfeição a arte militar, dirigindo com sucesso várias acções de guerrilha contra o exército colonial português. Era um comandante destemido. Mas, se todas as divergências de natureza política que existiam no seio da direcção do MPLA passavam despercebidas aos militantes de base em particular e ao povo em geral, a partir de 1976 estas divergências começaram a evidenciar-se e, mais ou menos em simultâneo e paulatinamente, o nome de Nito Alves começou a evidenciar-se na arena política nacional em função das ideias que este defendia e apresentava, quer em reuniões de direcção como em comícios, que realizava não só em Luanda mas também noutros pontos do País.

Foi em Agosto de 1976 que outra vez as divergências políticas voltaram a evidenciar-se com reflexos nos militares de base, com a distribuição das primeiras patentes aos oficiais superiores das FAPLA. Nas unidades da 9a Brigada, foi notória a onda de descontentamento que a distribuição das patentes provocou. Por exemplo, no Comando da 9a Brigada, ao comandante Kianda deram a patente de Major enquanto ao Comandante Camacho, que era o Comandante da Companhia de Reconhecimento e Blindados e, por isso, da mesma hierarquia que o Comandante Kianda, deram apenas a patente de capitão. Esta promoção levantou uma onda de protestos na unidade onde me encontrava, antigo quartel dos Dragões, que funcionava como Comando principal da Companhia de Reconhecimento e Blindados, pertencente à 9a Brigada de Infantaria Motorizada.

Em face deste facto, que também ocorreu em outras unidades militares de especialidade (FAPA-DAA e MARINHA), a opinião da maior parte dos militares era a de que a distribuição das patentes tinha sido feita com alguma injustiça, o que fez com que, dias depois, se ouvissem os mais variados comentários, até mesmo ao nível de militares de base sem qualquer formação, uns até marginais (mas que aderiram a causa do MPLA), com comentários assim:

Há problemas mais sérios sem ser os das patentes, problemas políticos, cuja análise é mais profunda e carece de uma séria reflexão. Estas questões fogem ao nosso alcance. Aguardemos pelo evoluir da situação — interveio, para encerrar o diálogo, um colega mais lúcido.

Era assim, o dia-a-dia nos quartéis, nas organizações de massas, fundamentalmente na JMPLA Que havia problemas, isto sem sombras de dúvidas havia. Agora, o cerne da questão, a essência do que se estava a viver e o desfecho de tudo isto era ainda um enigma.

Porém, à medida que o tempo passava, as divergências iam se evidenciando publicamente. Já não eram só os lúcidos que se apercebiam da situação, até mesmo os menos esclarecidos. Falava-se, nesta altura, da existência de duas alas no seio do MPLA: a ala «netista» liderada pelo Presidente Neto, é a ala «nitista», liderada pelo Comandante Nito Alves. Tomei conhecimento deste facto em Outubro de 1976 quando do afastamento de Nito Alves como membro do Bureau Político, na reunião do respectivo órgão, e também como Ministro da Administração Interna.

Em Fevereiro de 1977, se não me engano, Fidel Castro visita pela primeira ve2 Angola e, no Comício, no Palácio, diz: "Defender Neto é defender a Revolução." Nenhum dos membros da direcção da chamada ala nitista entendeu (penso) o que o presidente Fidel Castro quis dizer com aquela pequena frase o que só se compreendeu depois de fracassada a insurreição, pois, foi a intervenção cubana que determinou o fracasso da mesma, porque quem tivesse Neto do seu lado, com razão ou sem ela, ganharia a causa. Parece que na visão do Comandante Fidel, a razão da contenda política no seio do MPLA, estava personificada na pessoa do Presidente Neto, ou seja, Neto era a Revolução e a Revolução era Neto. Qualquer dirigente que apresentasse uma outra estratégia política que não fosse aplaudida por Neto, estava indiscutivelmente contra Neto logo, contra a Revolução. E foi o que aconteceu: os que tiveram Neto ao seu lado tiveram de imediato o apoio militar cubano no momento decisivo.

Nesta altura, a DISA, a polícia secreta do Estado, havia já iniciado a detenção dos elementos que estavam directamente ligados a Nito Alves, como é o caso do meu tio Vicente Fortuna, do Comissariado Nacional das FAPLA, um dos colaboradores directos do Comandante Bacaloff, o Comissário Político Nacional das FAPLA.

Entretanto, a situação foi evoluindo: comícios, colóquios e eventos culturais mobilizando diversos sectores da sociedade através da intervenção dos mais destacados artistas, entre os quais David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, acompanhados pelo agrupamento musical FAPLA-POVO, eram levados a cabo nas unidades militares, nos bairros e centros culturais, tudo a favor das ideias defendidas por Nito Alves. Já não há dúvidas. Algo vai acontecer. Nito Alves ganha cada vez mais popularidade. Aumenta ainda mais esta popularidade quando num comício no Largo 1° de Maio diz que o racismo só acabará em Angola quando brancos e mestiços varrerem as ruas, frase interpretada pela outra parte como marcadamente racista.

Aproveito para abrir aqui um parêntesis para ilustrar algo ao caro leitor sobre esta questão do racismo e da posição do Presidente Neto sobre as contradições profundas que existiam na altura no seio do MPLA, enquanto movimento de massas: segundo o que pude ouvir e perceber, a existência de duas alas com a designação de «netista» e «nitista»; era um falso problema. Porque o próprio Nito Alves nunca atacou publicamente o Presidente Neto. A contenda de Nito Alves era contra certos dirigentes do movimento que, na sua maioria, era mestiça, embora, nem todos adversários de Nito Alves fossem mestiços ou brancos.

Isto não corresponde à verdade. Para quem acompanhou de perto os problemas antes dos acontecimentos de 27 de Maio com isenção, facilmente apercebeu-se de que o principal adversário de Nito Alves tinha um rosto e este não era Agostinho Neto. Era Lúcio Lara. Era contra a estratégia política de Lúcio Lara e outros dirigentes afectos a ele que Nito Alves e os dirigentes e militantes que aderiram à sua causa e se bateram com toda a sua coragem e energia. Tanto Nito Alves como Lúcio Lara andavam numa disputa renhida para ter Neto ao seu lado. Porque sabiam que quem tivesse Neto ao seu lado a sua causa vingaria. E vingou a causa de Lúcio Lara. Não porque fosse a mais justa (penso), mas porque Neto posicionou-se ao seu lado. Nisto nunca tive e não tenho qualquer dúvida: Neto era, naquela altura, o Líder ideal e incontestável para qualquer tendência política no seio do MPLA. Agora, o porquê do posicionamento de Neto ao lado de Lúcio Lara, com as consequências que vieram a posteriori e que deram lugar à tragédia que se seguiu ao 27 de Maio, só o curso da História saberá julgar, se já não está a julgar. E com isso fecho parêntesis.

Na senda da profunda agitação política que se vivia em Luanda (e também nalgumas cidades do País, se não mesmo em todas), a julgar pelo que se ouvia em relação à situação de Nito Alves no seio do movimento, enquanto alto dirigente, circulava, nesta altura, um livro, ou texto se quisermos, da autoria do próprio Nito Alves, mais ou menos de forma clandestina, com o título as 13 Teses Em Minha Defesa, brochura que passou a ser classificada como altamente subversiva e, por isso, proibida e procurada pela DISA. Antes, já havia publicado um outro livro com o título: A Dialéctica e a Guerrilha.

Mas tudo ficou mais complicado, e de certa forma claro, com a expulsão do Comité Central de Nito Alves e José Van-Dúnem, num comício realizado no dia 21 de Maio de 1977, num sábado, à tarde, presidido pelo Presidente Neto. Complicado porque, com a agitação política que se estava a viver no momento, não se sabia qual seria o desfecho político da situação no País; claro, porque veio, finalmente, confirmar-se a existência de profundas contradições políticas no seio do MPLA, que algumas pessoas classificaram, erroneamente, como «Netismo» e «Nitismo», pelo simples facto Presidente Neto se ter posicionado ao lado de Lúcio Lara. Será que os ideais de Neto coincidiam em pleno com os de Lara e dos que seguiam a sua estratégia política naquela altura? Deixo esta questão à reflexão do caro leitor.

Nito Alves gozava, nesta altura, de grande popularidade, fundamentalmente no seio da juventude, quer no exército quer em outras organizações de base do Movimento, com destaque para a JMPLA e na camada intelectual maioritariamente negra. Se a grande adesão de que Nito Alves fora alvo se devem à justeza das suas ideias, também a História se encarregará de confirmar este facto. Foi, em linhas gerais, este o clima que se viveu nos meses, semanas e dias que antecederam o triste mas histórico 27 de Maio de 1977, cujo consequências foram catastróficas para o País e, fundamentalmente, para o próprio MPLA. Porque coloca-se agora uma questão que é a de se saber o seguinte:

  1. Quem, afinal, estava de facto interessado para que o dito golpe se efectivasse? Não podia ter-se evitado a tragédia já que era visível a agitação no seio das massas, fundamentalmente no exército, com manifestacões de carácter cultural e política nos centros públicos e nos quartéis, visivelmente a favor das ideias que Nito Alves defendia e que levaram à chamada «Intentona»?
  2. Não se podia ter tomado medidas de carácter preventivo para que se evitasse o banho de sangue que dizimou a maior parte dos quadros que, por sinal, eram verdadeiros militantes e patriotas com convicções políticas claras, bem vincadas e demonstradas, se as compararmos com as de alguns militantes que hoje têm governado o País de forma desastrosa, cujo identidade política se desconhece, a julgar pelos seus próprios actos?
  3. Ou então havia mesmo dentro do MPLA elementos que instigaram a rebelião de forma oportunista para depois tirarem partido da situação e trucida os militantes que sabiam que eram mais sérios e capazes, e que eles próprios reconheciam não poder competir com eles, e a única forma de os afastar era empurrá-los para uma situação como a do 27 de Maio?

Porque depois de falhada a "Intentona", rapidamente começou a assistir-se a uma onda de atrocidades jamais vistas, agravadas com a falha do Presidente Neto. Temos de reconhecer este facto com coragem, honestidade e coerência. Com todo mérito que reconheço na sua figura como político dedicado à causa do povo angolano, o Dr. Neto falhou de forma grave. Os grandes também erram. E penso mesmo que ele terá sofrido bastante, «sensível» como era, quando se apercebeu da falha que cometera, e que foi muito bem aproveitada pelos falsos militantes do MPLA e que apareceram depois de falhada a chamada «Intentona», como acérrimos defensores da causa que o MPLA defendia naquela altura (porque agora a matriz do MPLA, penso, é completamente diferente).

Esta falha consistiu em ter, publicamente, aparecido na imprensa falada, escrita e, fundamentalmente, na televisiva, no dia 28 de Maio, visivelmente muito abalado com as mortes trágicas dos comandantes: Dangerreux, Bula, Eurico, Nzagi, Saydi Mingas e mais outros responsáveis. E numa atitude que não lhe era característica, agindo a quente, disse:

"Não haverá perdão, nem tolerância contra todos aqueles que quiseram destruir o MPLA" e mais: "Não vamos perder tempo com julgamentos".

Esta frase do Presidente é que serviu de suporte legal, de «sentença condenatória com trânsito em julgado», para os oportunistas entrarem em cena e iniciarem a matança selectiva da maior parte dos melhores quadros que o MPLA já teve. Julgo que se os não massacrassem seria uma mais valia para o próprio MPLA, contrariamente ao que hoje se assiste. O reflexo desta pureza é o descrédito do próprio MPLA que, com todo o mérito, foi glorioso, por todos os sacrifícios que os seus militantes consentiram durante a luta armada, fundamentalmente os militantes da 1a Região, que, sem apoio da Direcção Central instalada no exterior do País, resistiu a todas as investidas do regime repressivo colonial sem nunca se ter rendido. A isso vem juntar-se a humildade que demonstraram quando entraram para as cidades e vilas depois do 25 de Abril. Porque, se não fosse essa a intenção, podia ter-se evitado tanto derramamento de sangue.

Hoje, é unânime, mesmo por parte daqueles que ontem ordenaram, dirigiram e aplaudiram a repressão como ela foi feita, reconhecerem que houve de facto excessos demasiados (só excessos?). É que, no fundo, quem mais perdeu foi o próprio MPLA, a braços com uma crise sem precedentes, para identificar no seu seio verdadeiros militantes e patriotas, que se revêem nos seus ideais, porque os que indica para executar o seu programa, alguns (se não mesmo a maioria), são falsos militantes sem quaisquer convicções, servem-se do Partido, mais para "se safarem," do que para cumprir as suas directrizes políticas.

Fica ainda por se saber o que o Presidente Neto quis dizer com a frase que proferiu logo a seguir à "sentença" por si ditada naquele mesmo dia:

"...E com isso não me venham dizer que estou a defender uma direita. Porque não há direita que resiste a uma esquerda unida, mas a direita avança quando a esquerda está dividida."

A questão que se coloca perante esta frase é a de se saber se o Presidente Neto reconhecia, no fundo, a justeza das posições de Nito Alves e de mais dirigentes e militantes que se posicionaram ao lado deste. Pense nisso, caro leitor.

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