Opinião: Longe de quase tudo e perto de quase nada - Jorge Eurico

12 de Novembro de 2005 - 12:00 AM  

 

Luanda - Os angolanos, apesar da hiper temia que se vive em todo o País, particularmente na Cidadela Desportiva, em Luanda, onde decorre o acto central das festividades que assinalam os 30 anos que marcam o ganho de uma bandeira, de um hino e de uma moeda, teriam razões de sobra para se maravilharem caso - é bom, pois, que se diga sem rebuço nem pruridos!

- não se tivesse dado mais tónica, desde o dia 11 de Novembro de 1975 até à presente data, aos desígnios do partido no poder, o MPLA, e aos pretensos direitos políticos dos seus militantes em detrimento dos interesses do Estado e da satisfação das necessidades básicas (água, luz, habitação, alimentação, educação e saúde) de um dos seus elementos mais importantes, o povo.

Figuras axiais do nacionalismo angolano como Agostinho Neto (MPLA), Daniel Chipenda (MPLA) e Jonas Savimbi (UNITA), transcorridos que foram 30 anos de independência, caso estivessem vivos, ficariam tremendamente revoltados por se ter desviado dos objectivos da independência e ter-se hoje o País lilás que se tem.

Prova disso são as lamúrias de Álvaro Holden Roberto (FNLA) e de outros tantos nacionalistas anónimos, que se bateram de forma isolada e à sua maneira para que se alcançasse a independência, que vão murmurado amiúde que não é, nem foi, para isso que lutámos (sic!).

A luta dos artífices e participes da luta para a independência de Angola (e já agora do Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe) teve como escopo resgatar a dignidade dos angolanos e dar-lhes um modo de vida digno de um ser humano.

Por isso, os propósitos que nortearam a luta levada a cabo por Agostinho Neto (Angola), Amílcar Cabral (Guiné e Cabo Verde), Samora Machel (Moçambique), Pinto da Costa (São Tome e Príncipe) estão longe da África lusófona independente, unida, desenvolvida, próspera sem exploração do homem pelo homem com que um dia sonharam.

Passados 30 anos de independência os angolanos (e uma boa parte da África lusófona) continuam a não ter água, luz, habitação, alimentação, educação e saúde. E esses elementos são sinónimos de desenvolvimento e futuro, então Angola só tem presente (péssimo) não tem futuro.

Conheça mais ou menos a Angola com 30 anos:

Água – deixou de jorrar nas torneiras da maior parte das cidades do País meses depois de se ter alcançado a independência nacional. Os angolanos são obrigados a conservarem água para o seu consumo em reservas como tanques (por isso é que um alto dirigente do partido da situação ao comprar uma casa em Cascais disse que estava tudo bem. Mas havia um pequeno senão: não havia gerador nem moto-bomba) e muitas vezes não tratada. Um bidon de água, que por cá tem odor e cor, nas zonas periféricas custa qualquer coisa como cinco dólares e as vezes é preciso que percorrer longas distâncias: do Golfo II à baixa de Luanda! Daí a razão de um grande número de pessoas, que quem está no poder não lhes permite ser gente e viver com dignidade, ser afectado pela diarreia aguda, cólera, malária, infecções de tipo vários.

Antes de 22 de Fevereiro de 2002, quando faltasse água comunicava-se de forma célere que os que estavam do outro lado da barricada tinham rebentando com a conduta de água. O machado da guerra foi enterrado há mais de dois anos e a principais cidades continuam a não ter água potável.

De que nos vale ter uma independência sem água?

Luz – Há quem, por falta de energia eléctrica, está impedido de ler um livro ou a ver o telejornal. Quando isso acontece só a dois recursos: o rádio a pilhas ou dormir cedo e aumentar o número de filhos. E de manhã apresenta-se no serviço com a roupa amarrotada por falta de corrente eléctrica para engomar (quando tem ferro, pois claro!) a calça e a camisa e poder apresentar-se no serviço com o mínimo de dignidade. Nas zonas periféricas, por exemplo, os habitantes dispensam os técnicos da Empresa de Distribuição de Energia de Luanda (EDEL) e sobem nos Postos de Transformação, vulgo PT, para desviar um fio para as suas casas. O Governo não consegue pôr cobro à situação. Mais: nas zonas periféricas quase ninguém paga energia eléctrica!

De que nos vale ter uma independência sem luz?

Habitação – É dos mais bicudos problemas existentes. Quem casa está terminantemente proibido pelas circunstâncias reais em pensar em apartamento. Só há duas soluções: ela fica em casa dos pais e ele na dos seus progenitores até um dia. Quando muito ele vai para casa dos sogros como forma de tê-lo à mão e não mandar um compromisso às urtigas partindo para uma outra relação. Um apartamento de três quartos uma sala, uma cozinha, uma casa de banho e uma pequena varanda é capaz de custar aproximadamente USD 100 mil. Para os bancos concederem (dês) crédito para habitação (para além dos juros que são assustadores) pedem todo e qualquer tipo de documento, faltando apenas pedir como garantia a uma Certidão de Óbito. Por isso, dificilmente alguém se atreve a pedir um empréstimo aos bancos locais e não só!

De que nos vale ter uma independência sem casa?

Alimentação – Há muito que (alguns, mas quase todos) os angolanos deixaram de se alimentar passando apenas a comer. Raramente encontra-se uma peça de fruta à mesa de uma família, cujos responsáveis (pai e mãe) são funcionários públicos. A principal dieta é arroz com arroz. As vitualhas não são sofríveis. E há quem mesmo não tenha nada para comer e por isso impedido de tomar vitaminas. Leite? É um luxo! Crianças há que não sabem o que é isso porque do chá ou do café não passam. Pessoas há, sobretudo no interior do País, que morrem de inanição e qualquer semelhança com o que se passou em Biafra é pura realidade.

De que nos vale ter uma independência de barriga vazia?

Educação – Vai de mal a pior! Há cada vez mais crianças fora do sistema normal de ensino. É assustador o número de jovens que querem mas não conseguem ingressar para as universidades (umas até de qualidade duvidosa) que vão aparecendo por cá quais cogumelos em tempos de chuva. Parece ser anedótico, mas é a verdade. Jovens recém-licenciados em Direito que quando falam dão imensos pontapés à gramática da Língua Portuguesa e escrevem qualquer coisa parecida com português, que muitas vezes carece de uma "tradução" rigorosa para que possa ser entendido. Há advogados que escrevem cabeça com dois s e peixe com ch ao invés do x.

De que nos vale ter uma independência sem escolas?

Saúde – Está doente e precisa de uma consulta urgente. Morre-se às portas de uma clínica pelo facto de os médicos, ao arrepio da ética e deontologias médicas, recusarem-se a assistir uma pessoa por falta de USD 50. As bichas nos hospitais públicos são intermináveis e posto lá, quando acamado, corre-se o risco de se sair de lá com outras doenças. Numa só palavra: em Angola é proibido adoecer.

De que nos vale ter uma independência quando os hospitais estão impreparados para receber e assistir os cidadãos sem olhar para a condição social e económica de cada um?

Enquanto filhos desta catástrofe que dá pelo nome de Angola independente, perguntamos: independência reduz-se a existência de uma bandeira e de um hino?

*jorgeeurico@noticiaslusofonas.com

Fonte: NL