Domingo 19 de Abril de 2009


Paulo Flores (foto DN)

Nova música angolana quer esquecer guerra

Paulo Flores. O músico esteve em Portugal para divulgar o seu novo trabalho 'Ex-Combatentes'. Um disco que alude "ao largar das armas" e apresenta uma visão "mais poética" de Angola.

DAVID BORGES

Paulo Flores, a grande voz da música angolana, veio a Portugal com os sons da nova Angola. Fez dois concertos de apresentação da sua mais recente obra, Ex-Combatentes, um título que alude à rua onde mora, em Luanda, mas "também ao largar das armas". Por três caminhos musicais -" Viagens","Sembas"e"Lhas"-, entusiasmou angolanos, seduziu portugueses e disse ao DN que nos discos e nos espectáculos tenta mostrar que "a guerra acabou e que os angolanos, voltando a viajar, descobrem a diversidade do país e as suas diferentes culturas".

E assim, depois de muito ter cantado as dores dos angolanos, Paulo Flores entra "noutro tempo, mais poético e musical", ainda que seja "o quotidiano de Angola ainda amargo". "O que interessa é acompanhar o caminho do país, porque Angola começa a produzir mais do que petróleo e até informação e cultura"."Esse é o processo em que eu quero estar", afirma, porque "as pessoas têm uma vontade enorme de ouvir, perceber e aprender e o que se fizer agora vai marcar a diferença no futuro".

Ao andar pelo país, Paulo Flores impressiona-se com "a diversidade cultural de Angola", de que aponta, como exemplo fascinante, "a cultura musical tchokwé, na Lunda"e entende que "há um país muito diverso que tem grande vontade de comunicar ".E para além dos sons, procura, também, os sinais da reanimação e aponta o caso especial do Huambo,"que recuperou tanto que não haverá melhor em Angola dentro de quatro ou cinco anos".

Quanto a Luanda, afirma que "é uma cidade intensa, densa de gente e de emoções, mas onde ainda se vive muito dentro das grades, grades nos muros, nas portas, nos acessos aos elevadores"...

Paulo Flores, apesar dos seus apenas 37 anos, já tem 13 discos editados. Era D J aos 13 anos e fez o primeiro disco aos 16. Cresceu "em cima da música" porque o pai era "discoteiro.um DJ da época"e"como havia muitos discos em casa, ouvia-os cantando por cima". Até em Angola, "quando o país estava de luto pela morte de Agostinho Neto". Tinha então acabado de chegar a Luanda e lá passou 45 dos 50 dias de luto m ouvindo a música, em casa, baixinho"...

Depois, foi andando entre Angola e Portugal, sentindo a estranheza de "cantar aqui sobre a falta de água lá, e tendo água cá". As mulheres que o rodeavam, mãe, tia, avós, eram a fonte da sua informação e uma frente feminina decisiva na projecção da mulher como ser dotado de enorme força, uma imagem que se acentuou em Angola, "ao ver uma mulher com uma bacia na cabeça, o filho pela mão, uma enxada ao ombro e o marido atrás, bêbado..."E diz, convicto, que "a mulher foi quem, em Angola, segurou o país, nos anos de guerra". E no entanto, a mulher angolana é normalmente retratada em alguma música da terra angolana de uma forma bem menos grandiosa: "É, desde que meta feitiço, traição feminina e se fale mal da mulher, a musica tem logo sucesso..."

Chegou o dia em que Paulo Flores sentiu ter "a ilusão de fazer mais falta em Angola" e partiu, de vez. Fixou residência na ex-Avenida dos Combatentes" e continuou a somar êxitos. Encheu o Estádio dos Coqueiros num concerto. E tornou-se na principal figura da música angolana. Para onde segue agora? Ele não sabe e diz, a rir, que "o próximo disco pode ser só de kizombas"... Poucas kizombas (e poucos sembas...) cantou, agora, em Portugal. Não se importaram os espectadores, presos, desde o inicio, à nova onda criativa de Paulo Flores,"mais poética e com menor dor".•

"Ainda há medos e traumas"

Paulo Flores em palco, canta; a conversar, conta... histórias do quotidiano de Angola. "Há dias", lembra, "uma carrinha estava a arder e muitos batia palmas... Porquê?" Sinal dos medos e traumas que ainda habitam a cabeça dos angolanos, numa sociedade em que a morte é, ainda, um assunto banal? "Estou num óbito, é a frase que mais se ouve em Luanda, mas ao lado da morte está sempre a dor partilhada e isso emociona". O músico considera que se estão a esvaziar "os guetos raciais", porque "há brancos, negros e mulatos fazendo, juntos, muitas coisas" e o que persiste é a incompreensão entre os angolanos que "aguentaram lá" e os que "basaram durante a guerra". Falta tolerância aos dois lados e o problema só se resolve se os que ficaram aceitarem os que voltam e se estes partilharem, com humildade, o que aprenderam fora de Angola..."

Paulo Flores

- Viveu entre Portugal e Angola antes de se fixar em Luanda
- Tem 37 anos
- Tem 13 álbuns editados
- 'Ex-Combatentes' é o seu mais recente álbum de originais cantes de gravar discos trabalhou como DJ

É uma importante referência da actual música angolana, com vida passada entre Portugal e Angola, antes de se fixar em Luanda, com a ilusão de fazer diferença na construção cultural do país renascido com o fim da guerra. Lançou o primeiro disco aos 17 anos e foi somando sucessos, que os angolanos conhecem e cantam. E que os portugueses vão descobrindo. Aos quase 37 anos, Paulo Flores tem já treze discos editados, dos quais dois são DVD.