Dalila Cabrita Mateus - Álvaro Mateus

ASA EDIÇÔES
E-mail: ediçoes@asa.pt

Neste excelente livro os autores, relatam minuciosamente o golpe de estado do 27 de Maio de 1977 em Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre o referido golpe de Nito Alves e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir à maioria dos que vivem em Angola e sobre tudo na diáspora, solicitamos a complacência da Editora e dos Autores. Por motivos de edição tivemos de eliminar no texto os números de chamada de atenção para as fontes pelo pedimos desculpa. Muito obrigado.

A natureza do 27 de Maio


Nito Alves (foto Net)

Pg.102/115. Entre os chamados nitistas seria consensual a necessidade duma alteração na direcção política e nas orientações seguidas. Mas não havia acordo quanto ao modo de a efectivar.Uns terão considerado inevitável um golpe de Estado. Ao passo que outros, partindo do princípio de que a teoria revolucionária condenava o golpe de Estado, por ser uma acção desligada das massas, terão julgado preferível desencadear um amplo movimento de protesto, capaz de travar a repressão. Resolvem, pois, avançar para uma grande manifestação, conjugada com algumas acções militares, sobretudo de carácter anti-repressivo.

Qualquer incipiente aprendiz de revolucionário sabe como o marxismo trata a insurreição. Vladimir I. Lenine escrevera: [...] Para tratar a insurreição de um modo marxista, isto é, como uma arte, devemos [...] organizar o estado-maior dos destacamentos insurreccionais, distribuir as forças, lançar os regimentos de confiança para os pontos importantes [...], prender o estado-maior general e o governo, [...] tomar imediatamente os telégrafos e os telefones [...]

Ora os nitistas não tinham um plano militar propriamente dito. Não pensaram, pois, na tomada dos telégrafos e telefones. Confiavam na força das massas e no enorme apoio de que dispunham na cidade de Luanda, quer entre os militares quer na população africana. E confiavam, também, que os cubanos não travariam as movimentações populares. Por isso, não tomaram as precauções aconselháveis.

Plano louco e mal concebido de uma insurreição desarmada de massas, lhe chamou o historiador David Birmingham. A nosso ver, com razão. Os objectivos seriam os duma insurreição, destinada a provocar alterações no poder e nas orientações seguidas. Ao passo que os meios se limitavam a ser os de uma simples manifestação, conjugada com algumas acções militares, sobretudo viradas para ocupação da rádio e a libertação de presos.

Trinta anos decorridos, a reconstituição dos acontecimentos do 27 de Maio é um processo complexo e difícil. E tanto mais complexo e difícil quanto é certo haver muito boa gente que não está nada interessada em que se faça tal reconstituição. Apenas um exemplo recente.

Luís dos Passos, líder do chamado Partido Renovador Democrático, volta e meia fala do 27 de Maio, com versões que, não raro, entre si se contradizem. Julião Mateus Paulo (Dino Aíatros), secretário-geral do MPLA, em entrevista que nos concedeu, afirma tê-lo chamado à atenção quando levantava questões do «fraccionismo». E ter-lhe-á dito: - Olhe, não fale muito, porque eu também sou testemunha. E se eu abrir a boca, não sei como é que há-de ser, vou ter de o desmistificar, porque eu tenho testemunhas. E fez questão de acrescentar que Luís dos Passos se calara..

Pelos vistos alguém o autorizou, agora, a conceder uma entrevista ao jornal Angolense. Vale a pena atentar nalgumas das mensagens que pretende fazer passar e se destinam quer a exaltar a sua pessoa, quer a apoiar certas versões dos acontecimentos.

Primeira: Afirma que a manifestação do 27 de Maio era de populares armados, que teriam atacado o Palácio e tomado a Rádio. É um facto que a Rádio terá sido tomada por militares. Mas os manifestantes que se dirigem, primeiro para o Palácio, depois para a Rádio, como o comprovam inúmeros testemunhos e inclusive imagens televisivas, estavam desarmados.

Segunda: Coloca a polícia a defender o Palácio e a disparar sobre os manifestantes, como se não existisse uma Guarda Presidencial.
Terceira: Aponta José Van Dunem como o dirigente da insurreição, quando existem múltiplos testemunhos a provar que, tanto ele como Nito Alves, estavam presos no dia anterior.
Quarta: Cauciona os fuzilamentos sumários de Nito Alves, Monstro Imortal e Bakalov, que moralmente sabiam que seriam fuzilados, razão por que pouco temos de reclamar destes.
Quinta: Diz que Petroff foi para o hospital por sua ordem e transportado pelo seu motorista. Isto quando o secretário-geral do MPLA, assim como dois quadros destacados da DISA, afirmam ter aquele militar sido libertado por Melo Xavier.
Sexta: Fala da reunião do Bureau Político que expulsara Nito Alves e José Van Dunem, confundindo este órgão com o Comité Central, que nada deliberara.

E finalmente, como não podia deixar de ser, exalta a cada passo o seu papel nos acontecimentos, referindo ter lutado na clandestinidade durante 12 anos e 7 meses, quando, de facto, ninguém viu um simples panfleto que atestasse tal luta. Aliás, Vítor Geitoeira, quadro da DISA, é peremptório ao declarar: - Esteve no Zaire. Assim, misturando verdades com mentiras, Luís dos Passos procura servir todos aqueles que, de facto, não têm interesse no apuramento da verdade.

Intervenção de Agostinho Neto


Agostinho Neto (foto Net)

Cerca das 14 horas, Agostinho Neto, presidente da República, faz a sua primeira intervenção. Nesta, como nas outras intervenções, estará sempre sentado numa cadeira de baloiço. Em tom grave, informa o país de que destacados membros da direcção política e das forças armadas tinham tentado manifestar pela força das armas o seu descontentamento pelas sanções disciplinares que lhes tinham sido aplicadas pelo Comité Central do MPLA. Moderado e conciliatório, apela ao diálogo e à razão, embora conclua:

Eles foram expulsos e, na minha opinião, foram muito bem expulsos do Comité Central. E terão de fazer um grande trabalho de reabilitação para poderem regressar às fileiras do Movimento como dirigentes.

Na sua segunda mensagem televisiva, pelas 18 horas, o presidente da República informa terem sido detidos pelos nitistas alguns altos dirigentes civis e militares. E como que adivinhando as mortes, declara: Não sabemos se estão mortos, se estão vivos. São camaradas que deram toda uma vida para a liberdade do povo de Angola e que não sabemos bem onde estão, porque foram raptados, foram levados para lugares que nós não conhecemos bem. Os corpos serão encontrados, se estiverem mortos. Eles serão encontrados se estiverem vivos.

No dia seguinte, o presidente da República Popular de Angola profere a sua terceira mensagem televisiva. Anuncia que os responsáveis políticos e militares desaparecidos tinham sido mortos.

Hoje, cumpre-me o doloroso dever de comunicar ao país e ao povo angolano que os camaradas Dangereux, comandante Paulo da Silva Mugongo, membro do Comité Central do MPLA, membro do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução; o comandante Eugénio Veríssimo da Costa (Nzaji), membro do Comité Central do MPLA, do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução; o major Saidy Mingas, membro do Comité Central, ministro das Finanças da República Popular de Angola e membro do Conselho da Revolução; o comandante Enrico Manuel Correia Gonçalves, membro do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução; Hélder Ferreira Neto, membro da DISA, foram assassinados ontem. Os fraccionistas não hesitaram em matar os nossos camaradas, em matar os nossos compatriotas. Diz pensar que o povo compreenderá a razão que leva a agir com cena dureza em relação a indivíduos que agiram de má fé. E promete expedita acção contra os que actuaram de maneira tão evidentemente fascista.

Agostinho Neto fora poeta e médico, era presidente da República de Angola. O poeta cantara: Amanhã / entoaremos hinos à liberdade / Nós vamos em busca de luz / os teus filhos Mãe / (todas as mães negras / cujos filhos partiram) / Vão em busca de vida.

O médico jurara pela sua própria honra, solene e livremente, consagrar a vida ao serviço da Humanidade e manter o mais elevado respeito pela vida humana. Finalmente, o presidente da República jurara respeitar e fazer respeitar a Lei Constitucional aprovada por aclamação pelo Comité Central do MPLA. Jurara, pois, respeitar e proteger a pessoa e a dignidade humanas, a vida, a liberdade, a integridade pessoal, o bom nome e a reputação de cada cidadão (artigo 17.°). Tal como jurara que nenhum cidadão seria preso e submetido a julgamento senão nos termos da lei, sendo garantido a todos os arguidos o direito à defesa (artigo 23.°).

É facto que o poeta teria deixado de o ser. Como já se disse, [...] escrito, tinha apenas um poema pequenino, que compôs durante uma reunião com camaradas, antes da independência.

O médico também deixara de exercer. Quando ao presidente da República, subitamente esquecido do que jurara, afirma dispensar o poder judicial, o que, no século XX, ainda nenhum chefe de Estado se atrevera a dizer. Mas Agostinho Neto declarou: Não haverá contemplações [...] Certamente não vamos perder tempo com julgamentos. Seremos o mais breve possível.

Acabava de atear o rastilho para a mais brutal das repressões.

O TERROR

Uma vaga de terror vai abater-se sobre Angola. E começa logo na noite de 27 de Maio de 1977.

Os dias seguintes

Onde estavam os principais dirigentes políticos e militares do país? Neto encontrava-se no Futungo de Belas, Iko estava em parte incerta, Lara, segundo consta, no Lubango, a preparar-se para entrar na Namíbia. N'dalu no Vietname. Apesar das ausências, a máquina repressiva começou logo a funcionar. Na noite de 27 de Maio, há rusgas enormes no Sambizanga, no Rangel e noutros muceques da cidade de Luanda. Em todo o país começam a ser executadas centenas de pessoas, ligadas ao grupo de Nito Alves ou simplesmente suspeitas. Desencadeiam-se ajustes de contas pessoais, frequentemente com denúncias fantasiosas, logo aceites pelas forças da ordem.

São particularmente atingidas pela repressão as organizações de massas do MPLA (as mulheres, a juventude e os sindicatos), as Forças Armadas (especialmente as tropas de elite da 9.a Brigada), a DISA (polícia política), a Polícia Militar e a Polícia de segurança Pública, a administração pública, os ministérios. E, também, os estudantes e intelectuais: na Huíla, o principal dirigente político manda prender todos os que tinham concluído a 5." classe do ensino oficial, considerando-os inimigos de classe.

O Bureau Político do MPLA afirma que todos os órgãos do Poder Popular, incluindo as Comissões de Bairro, estavam infiltrados pelos «fraccionistas». O poder rapidamente se torna intolerante e policial. Ao entrarem no Ministério da Defesa, os detidos deparam com uma enorme queima de livros de Marx, Engels e Lenine, apreendidos nas casas invadidas. E os presos dados como operacionais eram colocados numa cave, onde nem sequer tinham onde fazer as suas necessidades. Foram barbaramente espancados.

O oficioso Jornal de Angola, a rádio e a televisão instilam o ódio e o revanchismo. O Jornal de Angola publica editoriais intitulados: Não pode haver tolerância com os fraccionistas, Encontrá-los e prendê-los, Vingar os heróis, Fuzilar os fraccionistas. Anuncia, ainda, que os presos tinham começado a «confessar» o propósito de derrubar o regime, a sua ligação ao estrangeiro e o seu racismo.

A Rádio Nacional difunde insistentemente spots com as palavras de ordem: Mataram os nossos camaradas, não há contemplações, Agarrem-nos e amarrem-nos já. A televisão, por seu lado, mostra durante dias a ambulância e os corpos dos dirigentes mortos. E no dia 30 de Maio, exibe Pedro Fortunato, o presidente da Câmara de Luanda, com a cara inchada, dizendo que era um criminoso, pois tentara matar o presidente Agostinho Neto. A visão dos vencedores transparece na longa metragem intitulada Anatomia, Fisiopatologia e Autópsia de Um Golpe, onde, apesar dos cuidados postos na montagem, se evidenciam as condições desumanas em que se encontram os detidos.

No Jornal de Angola o presidente Agostinho Neto insiste Quero garantir que os criminosos não serão perdoados.

No dia 30 de Maio, o Governo põe em circulação novos táxis Mercedes Benz, de cor amarela. E surgem alimentos no mercado. Tais medidas davam a entender que os fraccionistas impediam a chegada dos alimentos e a introdução de novos meios de transporte. No dia 31 de Maio, aumenta o número de militares nas ruas. Vêem-se soldados jovens e alguns mestiços e brancos. Estes têm fardas novas e são já de idade. As buscas são coordenadas por mestiços.

Em vários serviços fazem-se reuniões contra os fraccionistas. A reunião no Ministério das Pescas é presidida pelos responsáveis da célula do MPLA. O próprio ministro se senta na assistência. É apresentada uma resolução contra os canibais Nito Alves e José Van Dunem, resolução aprovada sem votação. A repressão estende-se a todo o país.

No dia 27 de Maio, entra no Uíje uma coluna militar, dirigida pelo comandante Diogo Paulo Francisco. Era o Dangereux da l.a Região Militar, onde fora, no tempo colonial, comandante da Zona B, de que o comissário político era Eduardo Ernesto Gomes da Silva (Bakalov), eleito para o Comité Central do MPLA, em 1974. No dia seguinte, ao fim da tarde, aterrou um avião com Julião Mateus Paulo (Dino Matross), acompanhado por Paulo Lara (filho de Lúcio Lara). Passadas duas horas, este foi chamar o médico Carlos Cavaleiro, a quem Dino Matross pediu que observasse Dangereux, a arder em febre. Foi medicado. E no dia seguinte levaram-no para Luanda, sob prisão.

Começam a ser organizados por todo o país comícios de apoio a Agostinho Neto. No Uíje, o comício realizou-se no campo de futebol. Bernardo Ventura (Ho Chi Minh), membro do Comité Central do MPLA, chega num carro da polícia e abre o comício. Vários oradores manifestam o seu apoio ao presidente. Ho Chi Minh encerra o comício, declarando estar ao lado de Agostinho Neto. A polícia leva-o, depois, ao aeroporto, donde segue para Luanda, sob prisão.

O enviado especial de O Jornal fala duma onda repressiva desencadeada por Agostinho Neto e pelos que lhe estavam mais próximos. Refere os soldados que, em cada esquina, revistam automóveis e identificam peões, as rajadas de metralhadora que se ouvem de vez em quando, o vaivém constante de transportes militares, as rusgas gigantescas nos muceques, a actuação em larga escala da polícia política (DISA) nos meios intelectuais e estudantis, as prisões que se enchiam, o recolher obrigatório, a proibição do envio de notícias para o estrangeiro. Destaca os spots radiofónicos com violentos ataques aos fraccionistas, alternando com frases dos discursos de Neto e palavras de ordem do MPLA: É preciso encontrá-los, amarrá-los e fuzilá-los, grita-se na rádio e na televisão.

A Luta, por seu lado, escreve: As prisões enchem-se de novo. Os luandenses trocam telefonemas ansiosos, procurando localizar conhecidos. A resposta mais frequente era Foi fazer uma viagem a Cuba, o que significava que fora preso ou fuzilado ou, na melhor das hipóteses, seguira para um campo de concentração. Sob o título genérico de Bater no Ferro Quente, o Jornal de Angola publica uma série de editoriais. A necessidade de reaquecer o ferro para o bater decorria, segundo o editorialista Costa Andrade (Ndunduma we Lepi), do recrudescimento da reacção interna, que recorria ao boato. Boato que incidia, em primeiro lugar, no estado de saúde de Agostinho Neto, então na União Soviética. Virá a ser-lhe detectado um cancro no pâncreas.

Em Agosto de 1977, a emissora católica Rádio Eclésia, encerrada na sequência do 27 de Maio, continua sem emitir. E uma Nota Pastoral declara arbitrária a detenção e prolongada prisão de sacerdotes por suspeitas gratuitas, jamais provadas. Os bispos enviam um pensamento de simpatia e de solidariedade para com os raptados e detidos nas prisões. Agostinho Neto vai a Cuba, em Agosto de 1977, em companhia dos membros do Comité Central, Henrique Santos (Onam-bwe), vice-chefe da DISA, e Hermínio Escórcio, chefe do protocolo da Presidência. No apogeu do terror, terão ido agradecer o contributo dos soldados cubanos para esmagar as acções encabeçadas por nitistas.

Motivos para se ser preso

Os motivos para se ser preso em Angola, nos dias a seguir ao 27 de Maio, podiam ser os mais diversos e estranhos. O possuir bens que eram motivo de cobiça, o ser conhecido, amigo ou familiar de um fraccionista, o ter manifestado desgosto com a forma como as coisas corriam, o ter tido a pouca sorte de estar na rua, o ser militar ou intelectual e estudante, grupos sociais que tinham manifestado apoio aos nitistas ou eram críticos.

Num relatório com as conclusões do interrogatório feito a cerca de meia centena de portugueses expulsos de Angola, quase todos declaram ter sido bastante maltratados. Falam das más condições da prisão, da péssima alimentação e da inexistente assistência médica. Alguns terão sido detidos com base em denúncias anónimas. E dezena e meia atribuem a detenção ao facto de elementos da DISA pretenderem apoderar-se dos seus bens.

Os militares vindos da frente de combate e chegados a Luanda a seguir ao dia 27 eram presos e enviados, sem qualquer processo, para campos de concentração. Muitos dos que morreram, nem

sequer sabiam quem era Nito Alves. E eram muitos os que tinham menos de 18 anos. Entre os detidos contam-se, até, soldados que nem estavam em Angola no dia 27 de Maio, mas sim em Cuba ou na União Soviética, em tratamento.

Um professor português de Economia, um cooperante casado com uma holandesa, deu uma aula sobre a «Administração do Território». E lembrou-se de convidar o ministro da Administração Interna. Azar o dele, pois o ministro era Nito Alves. Acabou preso na Cadeia de S. Paulo, como implicado no golpe. Houve pessoas que foram presas e até mortas, porque eram amigos ou parentes afastados. Pior, quando eram parentes próximos.

Bernardo Panzo Ngongo, então com 92 anos, esteve preso durante nove meses. Era o pai de Nito Alves. Entrevistado quando tinha 115 anos, disse ao jornalista que o filho lhe dissera ter pretendido fazer uma manifestação e não um golpe. Prenderam muitas mulheres e amigos. Depois, insurgiam-se contra o facto de as mulheres dos ditos fraccionistas estarem grávidas ou terem filhos muito pequenos, o que dificultava a permanência na prisão.

O simples facto de se ter manifestado contra os fumos de corrupção que grassavam no país ou de estar desgostoso com a forma como as coisas corriam era suficiente para ser alvo da repressão. Parecia haver a intenção de afastar ou mesmo liquidar todos os que pensavam, todos os que podiam ser opositores. De modo que os soldados entravam nas casas perguntando onde estavam os intelectuais ou os estudantes. E acabaram por matar muitos.

As prisões podiam atingir as mais insuspeitas pessoas. Por exemplo, os membros da Comissão de Inquérito, autores de um relatório inconclusivo. A advogada Maria do Carmo Medina, vice-presidente da Comissão, foi afastada do Comité Regional de Luanda e terá sido colocada sob residência fixa. Contudo, fora interrogada e esteve para ser presa.. O presidente da referida comissão, José Eduardo dos Santos, membro do Bureau Político e vice-primeiro-ministro, também terá estado para ser atingido. Pelo menos, na Cadeia de S. Paulo, um dos responsáveis pelos interrogatórios, o antigo comandante da FNLA, Silva Margoso, agora no MPLA, dizia, alto e bom som, que agora só faltava prender Lopo do Nascimento e José Eduardo dos Santos. Ao que parece, foi salvo por Belarmino Van Du-nem, comissário provincial do Lubango, onde se refugiara.

Meses depois, dará o dito por não dito, declarando que felizmente, o abcesso do fraccionismo rebentou ainda nos primeiros dias de preparação do Congresso, tendo ficado no MPLA os melhores militantes.. Entretanto, os heróis de ontem passavam a vilões, objecto das mais variadas acusações. Dos membros do Comité Central do MPLA, Agostinho Neto dirá que chegavam às reuniões e, em vez de discutir os problemas que eram inscritos na ordem de trabalhos, pegavam num livro e punham-se a ler à socapa. E mais adiante afirma que tomavam nota de tudo (... ) para depois criticarem quem interviesse..

Presos por ter cão, presos por não o ter. Nito Alves, José Van Dunem e Eduardo Ernesto Gomes da Silva (Bakalov) tinham apoiado Agostinho Neto no Congresso de Lusaca. E mal podiam adivinhar que, poucos anos depois, seriam acusados pelo facto de a sua eleição para o Comité Central do MPLA ter sido fruto de uma actividade de grupo. Quanto aos presos de S. Nicolau, que não pactuavam com o colonialismo e encabeçavam lutas no campo de concentração, tinham passado a ser um núcleo elitista, que não conseguia ultrapassar os seus preconceitos pequeno burgueses. Nem mais.

César Augusto (Kiluanji), um dos poucos comandantes da 1." Região Militar que terá escapado à repressão, na sua Trajectória da Vida de Um Guerrilheiro, apressou-se a render homenagem aos vencedores. Segundo ele, João Jacob Caetano (Monstro Imortal) traíra a revolução por ambição. E os contactos de Nito Alves em Luanda, em Fevereiro de 1974, onde buscava ajuda para a 1." Região, são apresentados como passando por cima das normas da clandestinidade e impelido pela vontade de alcançar objectivos pessoais.

Décadas volvidas, um livro que nos chegou às mãos mas parece não ter sido vendido, refere os que pretendiam eliminar todos os responsáveis político-militares da 1.ª Região. E denuncia os crimes cometidos. Recentemente, Maria Eugenia Neto, a viúva do falecido presidente, faz-se porta-voz duma velha acusação formulada contra João Jacob Caetano, ao declarar que o objectivo de Monstro Imortal era matar o presidente. Jacob Caetano, membro do Bureau Político e figura de topo na hierarquia militar, tinha acesso directo a Agostinho Neto. Para que precisaria do dia em que se convocava uma manifestação e em que estava prevista certa agitação militar, para cumprir aquele propósito? A acusação não tem pés para andar. O que leva, então, a repeti-la, 30 anos depois?

Rui Coelho, finalista de Direito e membro do gabinete do primeiro-ministro Lopo do Nascimento, encontrava-se em Argel no dia 27 de Maio de 1977, onde integrava uma delegação governamental. Pois, mesmo assim, foi acusado de pertencer ao estado-maior dos «golpistas». E tendo regressado a Angola no dia 3 de Junho, foi preso e fuzilado. Em seu nome foram emitidas duas certidões de óbito: a primeira a 2 de Junho de 1977 (quando ainda não estava morto), a segunda a 2 de Julho de 1977.

Os nitistas não tiveram as mínimas garantias de defesa, pois nem sequer foram julgados. E, no entanto, os mercenários que invadiram Angola tiveram essas garantias, asseguradas pela Lei n.° 7/76 de l de Maio, que estruturara o Tribunal Popular Revolucionário. Claro que, em Angola, também teria sido criado um Tribunal Militar Especial (ou vários), presidido por Luís Miguel Neto (Xietu) e supervisionado por Iko Carreira, Rodrigues João Lopes (Ludi Kissassunda) e Henrique Santos (Onambwé). Só que nunca efectuou qualquer julgamento, com advogados, testemunhas e público. Nem se deu ao trabalho de encenar julgamentos, como o fizeram certas ditaduras. E alguns dos fuzilados até eram membros da Direcção do MPLA e quadros superiores da hierarquia militar.

De resto, aplicavam-se penas sem que os presos sequer tivessem sido interrogados e mesmo sem ter sido levantado processo. Um dos poucos militares da 9.* brigada que sobreviveram ao 27 de Maio, preso em Junho de 1977, só em Julho de 1980, isto é, três anos depois, foi solto. Nunca foi julgado. Mas foi condenado a três anos de prisão maior, por ter participado ideologicamente.

Em 1979, será criado um Tribunal Revolucionário Popular, para rever os processos. Era habitual o presidente da República de Angola investir juízes. Que até apareciam togados, embora, em muitos casos, fossem iletrados355. A um preso que estava num campo de concentração dão um papel, em que se diz: Posto em liberdade no dia 17 de Agosto de 1979, por deliberação da Comissão de Revisão junto deste Tribunal, devendo apresentar-se no seu local de trabalho. Estivera dois anos detido, na Cadeia de S. Paulo e em vários campos de concentração. E como tantos colegas seus, ainda hoje não sabe porquê. Tomara conhecimento dos acontecimentos do 27 de Maio pela rádio, não tendo participado em nada.

A HERANÇA DO 27 DE MAIO DE 1977

Pag.183/185. A repressão do 27 de Maio atingiu milhares de famílias. E Angola perdeu muitos dos seus melhores quadros: combatentes experimentados em mil batalhas, mulheres combativas, jovens militantes, intelectuais e estudantes universitários. O próprio MPLA ficou sem uma larga fatia da sua base social e política, designadamente sem vastos sectores da juventude urbana. E mesmo nas fileiras dos «fiéis» se criou um espírito de inibição. De modo que as células se tornaram meras caixas de ressonância das decisões superiores.

Isto significa que o debate político praticamente desapareceu. Este debate, particularmente animado e rico de 1974 a 1976, estiolou e desapareceu nas organizações de massas e nos bairros. E desapareceu, igualmente, na vida interna do MPLA, onde qualquer crítica se arriscava a receber o carimbo de fraccionismo ou mesmo de traição à pátria. Impôs-se no país um clima de medo e de violência. Falar dos acontecimentos do 27 de Maio passou a ser tabu. Na própria Universidade, se alguém se propunha fazer um trabalho sobre o tema era desaconselhado. Não havia documentos, diziam. E eram fraccionistas. Ponto final!

Em Novembro de 1977, um telegrama da Embaixada de Portugal em Luanda assinalava a tendência para uma maior centralização do poder, para o autoritarismo, com a correlativa menor possibilidade de expressar pontos de vista diferentes e posições políticas que reflectissem a diversidade das camadas sociais existentes. Vingou, pois, a máxima centralização do poder, a velha incapacidade de dialogar e de construir consensos.

A situação económica, que já se vinha degradando, piorou. Aumentou a inoperância da burocracia na gestão do sistema produtivo. E desenvolveu-se a corrupção. Uns punhados, com o tráfico e com a guerra, tornaram-se cada vez mais ricos. Em contrapartida, as grandes massas foram ficando cada vez mais pobres. A capital de Angola, apenas beliscada pela guerra, é um retrato da inoperância da burocracia dirigente e um espelho fiel dos enormes contrastes sociais. Luanda apresenta-se aos olhos do visitante, conhecedor da cidade a partir dos postais do tempo colonial, como uma «cidade desfeita». Nos prédios, os elevadores há muito deixaram de funcionar. E os dejectos, correndo ao longo das paredes dos prédios, abrem estranhos e tortuosos caminhos.

Como que somos transportados para um burgo medieval europeu. As ruas perderam o asfalto. E, em muitos lados, os esgotos correm a céu aberto. Jovens e idosos vasculham nos caixotes do lixo à procura de restos de comida. Impressiona a miséria desmesurada, num contraste gritante com os carros de luxo dos últimos modelos, a passarem pelo meio de deficientes de guerra, de homens e de mulheres famintos, de dezenas de jovens em idade escolar carregando nas mãos produtos que tentam vender à força a quem passa.

Ilhotas de guardados condomínios de luxo são cercadas por um mar de muceques. O lixo está por todo o lado, e a cidade parece não poder viver sem ele. No Roque Santeiro, filas dos mais variados produtos erguem-se num mar de lixo. Viana, em tempos um pólo industrial, está abandonada e decrépita. E nos arredores da cidade, Kifandongo, monumento da resistência, alberga pessoas a viverem nos buracos da falésia, numa miséria confrangedora.

Muitos dos «libertadores» sonhavam com a casa, o carro, os privilégios e as posições dos colonos. Conquistaram-nas e tornaram-se piores do que estes. Desculpar-se-ão com a guerra. Só que a guerra, que tantos matou e estropiou, alimentou um punhado de pessoas, que se tornaram insultuosamente ricas. Os vencedores do 27 de Maio parece terem conseguido o milagre de fazer desaparecer os que sonhavam com um futuro melhor, mais igualitário e fraterno para os Angolanos. E conquistado o poder e os seus benefícios, como que realizaram os seus sonhos libertadores.

Como confessou o próprio Iko Carreira, vingou a procura, desenfreada e desordenada do lucro fácil, uma enorme e galopante corrupção, um capitalismo selvagem. Num país com enormes riquezas naturais e com condições agrícolas que permitiriam alimentar toda a África, mais de metade da força de trabalho está desempregada e mais de dois terços da população vive abaixo da linha de pobreza. Ganham plena actualidade as acusações feitas há meio século por Frantz Fanon, o psiquiatra afro-americano que esteve ao lado dos combatentes argelinos, o teórico da revolução no Terceiro Mundo. Pegando nas suas palavras, bem podemos dizer que povo angolano estagna lamentavelmente numa miséria insuportável, perdendo a consciência da traição inqualificável dos seus dirigentes [...]A nova casta torna-se insultuosa e revoltante, dado que a imensa maioria [...] da população continua a morrer de fome.

screen resolution stats