O QUISSANGE

Instrumento musical muito cultivado pelas populações, e porventura o mais popular, é um lamelofone muito conhecido em Angola sob a designação quimbunda de kisanji, frequentemente escrito quissanje.

A construção do quissanje varia pouco em modelo, mas bastante em apresentação artística, e em estrutura musical, por comportar ou não caixa de ressonância e pelas «escalas» ou manuais de palhetas que o compõem. Tem-se admitido em Angola, como mais frequentes, a existência de cinco formas de teclado. No entanto, o maior número de teclas deste grupo, apresenta doze lamelas, enquanto que existem alguns quissanjes que apresentam vinte e duas, como certo exemplar que recolhemos entre os Bangalas. É por isso de aguardar que um estudo exaustivo deste instrumento, traga as suas surpresas.

Os principais modelos de quissanje são designados por nome próprio, e também as lamelas que o constituem têm nomes que as distinguem entre si.

A forma de construção mais frequente é uma tábua duma espessura de poucos centímetros e forma rectangular, tendo montada na metade superior um cavalete de ferro constituído por um aro rectangular, a cutelo, onde se apoiam as lamelas. Um travessão ou eixo de ferro, no sentido transversal, apoia-se sobre as teclas, e é apertado por ganchos ou voltas de arame que vão do fundo da tábua, amarrando assim o conjunto. É frequente as lamelas serem de ferro, ora direitas ora espatuladas e ligeiramente levantadas do lado onde as dedilham. Alguns construtores apreciam muito as lamelas feitas de varetas dos chapéus de chuva.


Tocadores de Quissange Kiokos (foto livro)

Encontra-se um modelo de quissanje inteiramente construído com madeira de palmeira bordão (Raphia textilis Welw.), também designada palmeira de ráfia, e de designação nativa variada, de acordo com os dialectos. Utiliza como matéria-prima para a tábua do quissanje, o miolo do raque, construindo-a por pedaços, ligados entre si com pregos de madeira. Sobre ela montam o teclado, feito de lâminas de casca do raque, apoiado em dois cavaletes da mesma madeira, fixado por uma tira transversal, correndo por cima, e amarrando ao fundo por umas voltas de fibras vegetais. Tanto no quissanje de ferro, como no de bordão, aplicam, no topo superior ou inferior, tranquetas de arame enfiadas por anéis ou canudilhos metálicos, produtores de vibrações, para efeitos tímbricos.

Alguns quissanjes, ou «pianos de mão», como também alguns lhe chamam, por adaptação duma forma francesa, apresentam as modalidades da tábua simples, ou de serem formadas por uma caixa de ressonância, relativamente baixa, e construída com madeiras macias e sonoras.

Encontram-se na Lunda quissanjes do tipo designado lungando, que apresentam um orifício circular com o diâmetro de uma pequena moeda, que é depois tapado com um pedaço de tecido duma teia de aranha, muito denso, com que a aranha candahuli envolve os ovos. Este tecido serve de palheta, vibrando por simpatia, para procurados efeitos musicais. Em alguns casos, e para o mesmo fim, aplicam nas aberturas uma película de látex de borracha virgem. Para alguns quissanjes constroem, no entanto, caixas de ressonância soltas, feitas de uma cabaça truncada, cujo bojo serve como ressoador. Há-as de diversíssimos tamanhos. Algumas apresentam na orla da boca uma bordadura de fibras entrançadas, de grande esmero técnico, e incisões nos bojos, feitos a bico de faca, reproduzindo corpos geométricos e figurações diversas, que depois preenchem com uma massa negra, que lhe dá um ar de gravura.


Quissange kioko (foto livro)

Alguns quissanjes mostram na parte inferior das extremidades espatuladas das lamelas umas emendas de cera de abelha, preparada, para efeitos de afinação. Finalmente, é muito frequente, no nordeste e no leste da Província, encontrarem-se quissanjes primorosamente ornados com entalhes na face superior ou mesmo nas duas. Em casos mais raros, encontramos frisos esculpidos com figuras, no bordo superior do quissanje. É também vulgar o instrumento apresentar-se decorado com tachas de latão, embutidos metálicos, e até, mais raramente, com missangas embutidas.

Os Quiocos contam-se entre os bons tocadores de quissanjes, e nomeiam algumas variedades, como mulemba, mutxapata, nribungo, lumbungo, caluniando, cacolondondo e nquel (ou de bordão). Também tem nomes para as lamelas dos diversos teclados, pois possuem nomes para as notas da escala natural. Alguns destes instrumentos apresentam as lamelas metálicas coordenadas em dois ou três manuais.

Um curioso instrumento, que parece restringir-se actualmente a uma área pouco extensa do Sudoeste da Província, é o omacola ou ecola (omakola ou ekola).Este idiofone é construído com duas cabaças truncadas um pouco abaixo dos pedúnculos, uma delas maior, e unidas pelas bocas, por uma cosedura de fibras vegetais. Uma vara de madeira serve de eixo às duas cabaças, atravessando-lhes os fundos, e nos seus topos prende uma outra, mais delgada que passa em arco sobre o conjunto das cabaças. Na parte superior desta vara encurvada, talham um denticulado, em modo de reco-reco. No lado de cima do bojo da cabaça maior, cortam uma abertura circular, que indica, para as duas cabaças, uma função de câmara de ressonância.


Tocando Quissange  (foto Net)

O aspecto geral do instrumento é o de um 8 deitado.

Os executantes, accionando as duas mãos, friccionam o sector de entalhes ou reco-reco com uma vara, e batem no bojo das cabaças com um pequeno feixe de fibras delgadas e duras.

Os maiores destes instrumentos não excedem 70 centímetros de comprimento, por 44 de diâmetro máximo.

Carlos Estermann, notável etnólogo daquela região, admite que o omacola seja proveniente do Norte, de onde teria sido trazido pelas migrações Jagas, no final do século XVIII. Regista a existência do instrumento entre Cuanhamas e Cuamatos (Grupo dos Ambos), e também entre os Nhanecas, cujos adivinhadores dançam ao som do omacola. Este idiofone participa em cerimónias diversas, e é tido como instrumento algo mágico.

Ocorre a propósito referir que uma peça muito semelhante aparece numa gravura da obra de Cavazzi, que a conheceu, em 1687, no Norte da Província, onde seria usada com carácter ritual, porventura semelhante ao que hoje tem no Sudoeste.

Instrumento muito mais simples, mas de certo modo aproximado, é o duma cabaça de fricção usada em alguns grupos dos Unbundos.

Fabricam-no com uma pequena ou média cabaça a que cortam no bojo uma abertura, colocando, em ponte, sobre ela, no sentido do comprimento, uma vara de madeira serrilhada, onde depois sarrafam com uma vara. O pedúnculo da cabaça serve de pega ao executante.

In:  Instrumentos Musicais de Angola Instituto de Antropologia, Universidade de Coimbra, José Redinha.

Ver versos de Tomaz Vieira da Cruz: http://www.astormentas.com/din/poema.asp?key=13317&titulo=Quissange+%2D+Saudade+Negra