Orlando Press Room

Eduardo dos Santos recusa diálogo

O presidente do Governo de Luanda, José Eduardo dos Santos, afirmou que não está disponível para negociar com Jonas Savimbi, que considerou ser um "perdedor crónico", frisando que "só um milagre" pode impedir a derrota da UNITA.

É bom que todos, sobretudo os angolanos, registem o radicalismo do homem que, neste momento, comanda os complicados destino do MPLA e de um Governo que continua soviético no essencial e democrático só (e apenas de vez em quando) no acessório.

E, a propósito de «só um milagre» poder impedir a derrota da UNITA, D. Zacarias Camuenho e toda a Igreja que se cuidem. Ainda vão ser acusados de fazerem esse milagre!

"Vamos levar a guerra até ao fim ou vamos parar e discutir a paz? Vamos discutir a paz como fizemos em 1990 e permitir que Savimbi procure outra desgraça nacional? É evidente que não", afirmou o Eduardo dos Santos no discurso que proferiu no acto central comemorativo dos 26 anos da independência de Angola.

"Temos consciência de que Savimbi é um perdedor crónico, que leva sempre o seu partido e o país ao insucesso e à infelicidade, por causa do seu egoísmo desmedido", salientou. Como é que um perdedor crónico derrotou os cubanos e encostou o MPLA à parede durante 26 anos?

Provavelmente, fazendo fé na tese de Eduardo dos Santos, graças aos milagres...

"Quando estava no Andulo com todo o seu potencial militar e podia vir a Luanda discutir não veio. Não vejo que passo é que vai dar agora nessa direcção, quando está altamente fragilizado, muito fraco, quer militar quer politicamente", salientou, acrescentando que "o Governo vai continuar a trabalhar para a paz, reafirma a validade do Protocolo de Lusaca e está pronto a discutir as vias, formas e garantias para colocar sob sua responsabilidade e autoridade todos os cidadãos da ala militar da UNITA liderada por Savimbi".

Como é que se trabalha para a paz sem dialogar com o adversário? Como é que se afirma a validade do Protocolo de Lusaca querendo aniquilar militarmente o outro protagonista desse protocolo?

No seu discurso, proferido perante uma multidão estimada em cerca de 100 mil pessoas que se concentraram no largo fronteiro à Rádio Nacional de Angola, em Luanda, José Eduardo dos Santos começou por analisar o processo de paz, recordando que o Governo de Luanda, em 1989, "interpretando a vontade e a ansiedade das populações, tomou todas as disposições necessárias e fez todo o tipo de concessões, por causa da pressão externa e interna, e negociou durante cerca de um ano a paz".

Nesse sentido, recordou que foram realizadas eleições gerais multipartidárias, após o que "começou uma guerra de assalto ao poder, caracterizada por um cortejo diário de mortos e mutilados, pela destruição generalizada do património, pela deslocação forçada das populações, pelo desgoverno e confusão no seio das instituições do Estado e dos partidos históricos".

Na sequência dessa situação, José Eduardo dos Santos salientou que, em Fevereiro de 1999, o governo adoptou medidas excepcionais para preservar a autoridade do Estado, numa altura em que dois terços dos municípios e 70% das comunas estava ocupadas pelas forças da UNITA... as tais comandadas por um crónico perdedor.

Não sei se Jonas Savimbi fez algum discurso para comemorar o 11 de Novembro. No entanto, depois de ler o que Eduardo dos Santos disse, também me apetece «discursar» sobre a minha terra.

1- Recordar que há nove anos se deu o Massacre de Luanda, perpetrado pelas forças militares e de defesa civil do MPLA, visando o aniquilamento da UNITA e cidadãos Ovimbundu e Bakongo. Massacre esse que foi o ponto de partida para outros que (nunca é demais recordá-lo) se saldaram no assassinato de 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

2- Recordar o massacre do Pica-Pau em que no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados pelo MPLA, no Comité de Paz da UNITA em Luanda.

3- Recordar o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados pelo MPLA, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção.

4- Recordar que mais de 40.000 angolanos foram torturados e assassinados pelo MPLA em todo o país, depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

5- Recordar que, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos foram fuzilados publicamente pelo MPLA, nas praças e estádios das cidades de Angola. A prática iniciou-se no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda.

6- Recordar que no dia 29 de Setembro de 1991, o MPLA assassinou em Malange, o secretário Provincial da UNITA naquela Província, Lourenço Pedro Makanga, a que se seguiram muitos outros na mesma cidade.

7- Recordar que nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1993, o MPLA desencadeou em Luanda a perseguição aos cidadãos angolanos Bakongo, tendo assassinato perto de 300 civis.

8- Recordar que em Junho de 1994, a aviação do MPLA bombardeou e destruiu a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores.

9- Recordar que entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, a aviação do MPLA bombardeou indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.

9 - Recordar que entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração ao abrigo do protocolo de Lusaka, o MPLA assassinou mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da UNITA em todo o país.

Mesmo assim, continuo a pensar e a defender que o diálogo é necessário e urgente. Se não for pelo diálogo... não há milagres que nos valham.

12.Nov.01

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