O REGRESSO DO GUERREIRO
Juan Benemelis

Não obstante terem êxito nas batalhas africanas, os cubanos mostraram grande incapacidade para fazer frente à insubordinação; tanto eles como os soviéticos consideravam que a melhor táctica era a sobre saturação de homens e equipamentos. A ocupação militar de Castro provou a sua eficácia táctica e ofensiva e também a sua debilidade defensiva ante a UNITA, à medida que esta se consolidava. Assim, Castro atolou-se no pântano africano; em Angola e Etiópia enfrentou uma enérgica e inesperada resistência perfilada em conflitos que não podiam desenredar-se mediante a activação do seu Africa Korps.

O exército do MPLA levantado pelos cubanos resultou ser, além de uma massa heterogenia de soviéticos, cubanos, alemães orientais e mercenários portugueses que embora dispusesse de superioridade em volume de fogo e armamento moderno, era incapaz de desenvolver a mobilidade necessária para anular a oposição de Savimbi.

O comando cubano encarou a terrível realidade de uma guerra travada na vastidão e irregularidade topográfica, no meio de chuvas tropicais e de selvas com escassas vias de comunicações. Tudo isso fez com que as suas colunas mecanizadas pudessem ser bloqueadas facilmente por emboscadas e minas.

À medida que foram robustecendo a frente sul de Angola, a partir de 1988 os cubanos levaram a cabo uma remodelação orgânica das Forças Armadas Populares da Libertação de Angola (FAPLA). Estabeleceram-se quatro frentes militares: norte, sul, este e oeste. Os aparelhos de protecção e inteligência cubanos, conjuntamente com os seus parceiros soviéticos e germano orientais, instruíram e formaram os quadros do serviço secreto angolano: o MINSE e a DISA. O oficial da KGB Vadim Ivanovich Cherny actuava como conselheiro da DISA em casos de segurança. Os assessores cubanos encarregava-se dos interrogatórios.

Em fins de 1976, já quase esquecido e subestimado por Luanda, Savimbi emerge com 70 homens para formar a estrutura da UNITA. Em Outubro e Novembro de 1977, Savimbi encontra-se com vários presidentes africanos, com vista a angariar fundos para revitalizar a sua capacidade militar. A partir de 1978, os cubanos e as FAPLA começaram uma série anual de expedições bélicas contra a UNITA. Castro volta a reforçar o seu Africa Korps, que chegará a contar com 28.000 homens apoiados por tropas especiais da Alemanha Oriental.

Em Março de 1978, os generais Ochoa e Tomassevich, à frente de um contingente de 5.000 soldados, auxiliados com batalhões das FAPLA e ajudados por helicópteros e unidades aérea de MIG’s, desencadeiam as hostilidades sobre a UNITA no Bié, Huambo e Cuando Cubango. Não obstante, o avanço se desvanece no território controlado por Savimbi.

Neto adverte que tanto o controle soviético, a cisão dentro do MPLA, como a oposição da UNITA só poderão eliminar-se

mediante a conciliação com Savimbi. Para esse fim Neto propõe um encontro com o líder rebelde em Dakar, capital do Senegal para o mês de Setembro de 1978. Mas a inteligência cubana detectará esse intento e passará a informação aos soviéticos. A iniciativa de Neto fica truncada com a sua inesperada morte em Moscovo.

Em finais do ano, o vice primeiro ministro da defesa soviética Serguei Sokholov chega a Angola e o GRU toma o cargo da inteligência militar do país. Mesmo assim, cerca de 12 generais soviéticos, comandados por G. Petrovsky e Victor Kirsanov, assumem o comando do campo de acção angolano. Nos primeiros meses de 1980, a UNITA de Savimbi montará um contra ataque perante os batalhões das FAPLA, que em face da difícil situação alimentar, procurava recuperar as zonas agrícolas de Huambo, Bié, Benguela e Moxico.

Os soviéticos aumentam notavelmente a sua missão depois de uma estadia de Eduardo dos Santos em Moscovo em 1980. Castro ordena o embarque de mais recrutas. Por sua vez, Berlim Oriental eleva o número das suas tropas de segurança, e envia o seu calejado regimento pára-quedista Félix Dzherzhinsky. Também em fins de 1980, compareceram milícias elites norte coreanas na comarca setentrional, especialmente em Bela Vista, Zala e Nambuangongo e na zona sul, à volta do centro de treino da SWAP na Quibala.

Em Setembro de 1980 Savimbi conseguiu tomar espectacularmente o povoação de Mavinga enchendo de consternação os seus inimigos e atraindo os olhares do continente para a sua luta. Ao entrar o ano novo, a sua agressividade se intensificava de tal maneira que em 1981 se considera o ano em que a UNITA arrebata a iniciativa impondo o curso das futuras campanhas militares.

Em 1981, os cubanos põem ombro à ofensiva lançada contra Savimbi nas províncias centrais de Angola. Em Maio, uma batalha campal ocorrida nas margens do rio Lomba, a UNITA deteve a primeira de uma prolongada sucessão de arremetidas anuais preparadas pelos cubanos. Outra coluna motorizada cubana MPLA fica detida ao norte de Rito, possibilitando que a UNITA lançasse um violento contra ataque até ao território do Moxico nos últimos meses do ano. O fiasco desta manobra trouxe violentas confrontações entre o generalato cubano e os subalternos angolanos.

O presidente Eduardo dos Santos não mantinha uma posição inflexível respeitante à procura de uma normalização da luta de todo o Cone Sul. Dos Santos procurava a todo o transe evitar um conflito frontal em grande escala, pois temia perder a batalha militar com Pretória. Além disso, sujeito a enérgicos constrangimentos de parte de um grande número de presidentes africanos que insistiam um diálogo com a África do Sul.

A sua carta de negociação era a retirada da tropas cubanas mas isso significava enfrentar-se com Castro, que não mostrava propensão de abandonar o país. Em 1982, Dos Santos foi a Cabo Verde para iniciar uma ronda de conversações com os seus colegas africanos. Ali se discutiu com o presidente senegalês Abdou Diouf um possível entendimento com Savimbi. O jogo angolano esteve apoiado pelo Estados Unidos, que receberá oficialmente Savimbi e propiciará uma audiência no México em Dezembro desse ano entre seu secretário de estado Alexander Haig e o chanceler cubano Carlos Rafael Rodríguez.

Havana achava-se desconcertada e irritada pelos vai e vens diplomáticos do MPLA. Na sua conversação com Haig, os cubanos analisaram a sua presença em todo o sul africano e seu outorgamento de santuários e recursos desde Angola para as acções da SWAPO contra a Namíbia. O dilema se reduzia a quatro pontos fundamentais: a saída das tropas cubanas, a independência da Namíbia, o cessar da ajuda sul africana à UNITA e o reconhecimento da mesma em Angola. Mas Castro seguia na sua teimosia, sem mostrar algum resquício para o desmantelamento das suas tropas.

Este frenesim de conciliábulos causou crise dentro do MPLA entre os marxistas ortodoxos que queriam uma liquidação militar de Savimbi e aqueles que reconheciam a necessidade de alcançar um acordo com o chefe da UNITA. Os soviéticos

chamaram urgentemente Lúcio Lara, o seu homem de Luanda. Simultaneamente, o "premier" soviético N.A.Tikhonov declarava publicamente que os acordos com Savimbi ou África do Sul eram arriscados. Entretanto, o chanceler cubano Isidoro Malmierca fazia uma visita ao mandatário Dos Santos, levando uma mensagem de Castro em que este renunciava qualquer pacto que contemplasse uma saída simultânea das tropas cubanas com as sul africanas. O presidente Dos Santos teve que retrair-se de uma forma humilhante.

Castro aumentará o seu pessoal militar para 35.000 soldados e lançará em Julho de 1982 um poderoso assalto contra as hostes de Savimbi sobre tudo ao sul de Cuito Canavale. Mais adiante, a luta se transformou numa guerra de movimentos regulares onde os cubanos voltaram ao campo de batalha. Nesse ano de 1982, as FAPLA e os cubanos enfrentam uma série de derrotas às mãos da UNITA. O MPLA teve de evacuar Kangumbe depois de cinco meses de cerco e perde seguidamente Gago Coutinho, Sessa, Kassamba e Lutembo.

Em meados do ano tem lugar uma vitoriosa contra ofensiva da UNITA em Calulo, a 200 quilómetros de Luanda. Em Agosto a UNITA tinha estendido as suas áreas de incursões nas férteis planícies centrais, o famoso celeiro angolano, depois de enfrentar um número significativo de encontros violentos com batalhões cubanos e o MPLA. Em Setembro 5.000 soldados cubanos e 12.000 das FAPLA equipados de uma impressionante maquinaria blindada e aérea põem em perigo as linhas avançadas de Savimbi. Só em Novembro é que a UNITA restabelece o equilíbrio mediante uma contra revolução precipitada montada sobre a marcha contra Lumbala e Cuanza Sul.

Os países da "linha da frente", aliados dos soviéticos e dos cubanos, fazem saber ao MPLA que os "antillanos" deverão retirar-se, ante o temor de se provocar uma reacção massiva de Pretória a todos os territórios fronteiriços. Em 8 de Dezembro, uma grande comissão do MPLA vai a um conciliábulo com os sul africanos na ilha do Sal ao qual estiveram alheios o Kremlin e Havana.

A reacção de Savimbi por um lado e dos cubanos e soviéticos por outro, foi de desdém total a estas transacções, recusa a que se somaram os elementos pró soviéticos do MPLA. Tinha-se instalado a crise. Lúcio Lara e Pedro Tonha, os angolanos que mais se inclinavam à URSS e a Cuba, foram imediatamente a Havana para se queixarem da situação. Ao mesmo tempo, o ministro da defesa cubano Raul de Castro, saiu rapidamente para Moscovo para ter uma conferência com o marechal Ustinov e desta forma torpedear os acordos da Ilha do Sal e impor a solução militar como a única factível.

Desde Habana e o Kremlin tinha saído a orientação de acabar com Savimbi de uma vez por todas. Preparava-se uma confrontação militar de envergadura. Assim, entrará um vasto arsenal de tanques, artilharia, foguetes e helicópteros e o comando operacional se elevará para 37.000 cubanos.

No verão, os batalhões cubanos e das FAPLA aventuraram uma contra ofensiva que consegue desalojar a UNITA das proximidades de Luanda, mas não podem recuperar o controle das províncias centrais ou da fronteira com o Zaire. Em Julho a UNITA ataca com êxito em várias zonas, envolvendo a fins desse mês as posições do MPLA e dos cubanos em Sautar. Já em Agosto terá lugar a confrontação de Cangambe, que marcou um ponto ascendente para a UNITA.

Pese o apoio aéreo que os cubanos obtiveram desde Luena, a cidade perdeu-se na maior batalha que se levou a cabo deste 1976. Em Cangambe, as forças da UNITA conseguiram aniquilar a 16ª Brigada Motorizada das FAPLA, provocando importantes baixas entre os próprios cubanos. O comando "antillano" pôde retirar dificilmente apenas uma centena dos seus soldados, enquanto outra centena morreria no cerco.

Esta ofensiva e a tomada de Cangambe mudaram definitivamente todo o curso da guerra. A derrota de Cangambe encheu de pânico o governo de Dos Santos, que desta vez envia Lara e Pedro Tonha à URSS para ver como se detinha a pressão da UNITA. Os soviéticos responderam como era tradicional neles, com mais armamentos.

OFENSIVAS DA PRIMAVERA

Em 1984, os acordos de Lusaka entre Angola e a África do Sul e os de Nkomati entre Moçambique e África do Sul, ambos levados a cabo nas costas dos aliados de Dos Santos provocaram a reacção de Castro. A pressão sobre os angolanos aumentou ao extremo. Pela ruelas de Luanda havia o rumor de uma possível deposição violenta do Dos Santos às mãos dos "duros" do partido e do exército. Dos Santos viu-se obrigado a viajar a Cuba e assinar forçosamente uma declaração conjunta com Castro, onde praticamente fazia marcha atrás em muitos dos pontos negociados em Lusaka.

Savimbi organizou um ataque contra a faixa dianteira de Kafunfo, surpreendendo o MPLA atrás das suas linhas. Em Julho, os rebeldes de Savimbi fazem voar um nó dos oleodutos da Gul Oil Company norte americana e afundam um barco no porto de Luanda em plena luz do dia, demonstrando assim a sua intenção em golpear o coração económico do MPLA, a produção petrolífera litoral e a da plataforma. Em Outubro, os seus comandos destroem as instalações hidroeléctricas perto de Luanda.

A ofensiva de meados de 1984 esteve sob a planificação dos cubanos e foi integrada por 15.000 homens, entre eles uma infantaria motorizada cubana de 5.000 soldados e 200 tanques. A manobra dirigiu-se para Cazombo, zona limítrofe com o Zaire, onde esperava cortar as linhas de abastecimento da UNITA e também envolvê-la pelo flanco oriental e por Gago Coutinho. Savimbi conseguiu repelir este ataque, mas com grandes perdas humanas, tendo inclusivamente que retirar-se desse "bolsão".

O MPLA via esfumar-se ante os seus olhos as bases de sustentação no interior e transformava-se cada vez mais num regime dependente de um corpo expedicionário estrangeiro, da importação de equipamentos e alimentos e a exploração petrolífera encurralada ao longo da zona costeira.

Desde 1983, o general Ochoa substituía como principal assessor militar perante o governo sandinista, com a faculdade de criar uma tropa apta para enfrentar e derrotar a Contra. Em 1985 a situação em Angola entra em graves complicações e a URSS determina lançar a ofensiva de maior envergadura até à altura em Angola. Castro decide por fim à missão do general Ochoa na Nicarágua depois de ter confrontado o exército mais forte América Central em só dois anos, capaz de esmagar qualquer coligação militar nos países vizinhos.

Desde esse momento, o general Ochoa estará ao lado do ministro das forças armadas Raul de Castro, nas negociações de coordenação militar que se efectuarão anualmente em Moscovo na preparação das campanhas da temporada de seca (cacimbo) contra a UNITA. Em Março, teve lugar uma reunião entre o general Ochoa e o estado maior do exército soviético na que também participaram Gromiko, Ponomarev, Risquet membro do bureau político cubano e outros representantes do governo angolano.

Concluiu-se que a única opção factível era levar a UNITA de Savimbi para uma guerra convencional onde se pudesse utilizar o massivo poder aéreo e blindado acumulado em Angola. Para tal efeito autoriza-se que Angola de se fortaleça mediante a compra de material bélico ocidental. Assim, chegarão helicópteros franceses, aviões dos suíços e dos espanhóis. A partir destes acordos, o general Ochoa ajudará no projecto das novas tácticas de guerra que depois se caracterizarão por movimentos enganosos, por uma maior velocidade de manobras no transporte de soldados e uma alta concentração do poder de fogo. Soviéticos e cubanos trataram de conseguir objectivos vitoriosos com um mínimo de perdas humanas e logísticas, procurando romper a frente da UNITA e lançar-se para a sua retaguarda com a maior profundidade possível.

O avanço de Outono de 1985 levou-se a cabo com 18 brigadas do MPLA e centenas de carros blindados soviéticos T-34. Grandes contingentes cubanos também tomaram parte. A direcção operacional recaiu nas mãos dos soviéticos, os quais pilotavam os caças MIGs e os helicópteros conjuntamente com os cubanos. Assim, com o apoio da aviação, conseguiram penetrar várias unidades nas profundidades do território da UNITA, procurando cortar as suas rotas de abastecimento provenientes do território sul africano da Namíbia.

Decide-se então lançar um novo assalto para capturar o nervo central de Savimbi no seu quartel general da Jamba. Para isto se transladará pessoal militar cubano com maior experiência destacado na Etiópia. Na zona de Cazombo acontecia um brutal encontro com os cubanos os quais até esse momento exerciam nos bastidores o controle da operações e da organização. O general Ochoa é necessário fisicamente em Angola perante a súbita contra ofensiva desencadeada por Savimbi nessa região. Quando chegou, discordará dos soviéticos em questões de estratégia, especialmente em lançar um ataque bipolar simultâneo com os meios disponíveis no território.

Não obstante as sua objecções, o general Ochoa monta uma lenta e difícil manobra de avanço na zona do Cazombo, na que o exército de Savimbi perde cerca de 7.000 efectivos. Cazombo será não só uma das derrotas mais custosas da UNITA bem como também o será para as tropas angolanas e cubanas. Ali aconteceu o maior ataque de tanques que tinha tido lugar na África negra. Só a participação do Batalhão Búfalo, elite bélica criada pelos sul africanos para vigiar as fronteiras entre a Namíbia e Angola e o apoio aéreo sul africano conseguiu parar a seco o aríete cubano.

Em 27 de Janeiro de 1986 o general Ochoa participará de uma nova reunião tripartida em Moscovo entre Cuba, Angola e URSS para estudar o reforço militar do regime angolano e começar os preparativos para outra campanha massiva. Em Maio efectua-se um encontro oficial em Moscovo entre o presidente Dos Santos de Angola e Mijail Gorbachov da URSS. É ali onde os soviéticos desaprovam as conversações de Luanda com Pretória e onde Gorbachov ratifica a decisão de assegurar o êxito da operação militar contra a UNITA no sul angolano. Não querendo perder mão do protagonismo do momento, Castro endurecerá as condições para o desmantelamento das suas tropas, expressando que a maior parte dos seus centuriões permanecerão em Angola até que o apartheid cessará de existir.

Para a ofensiva de 1986, a URSS enviou cerca de 400 tanques para Angola. Entretanto, as hostes da UNITA treinavam-se no uso dos letais mísseis antiaéreos Stinger e os anti tanques Tow fornecidos pelos Estados Unidos. Em 27 de Maio começa com lentidão o ataque cubano e do MPLA. Com vista a deter este movimento sobre a Jamba, capital do território libertado, a UNITA começará a operar violentamente atrás das linhas inimigas.

Em Julho e Agosto, Savimbi jogará a sua cartada ao decidir contra atacar na Cidade de Cuito Canavale e ao mesmo tempo varias das suas unidades moveis espalham-se sobre quase todo o território nordeste e paralisavam as decisões do Estado Maior angolano. Ao terminar a temporada, as brigadas de Cuba e do MPLA não tinham conseguido o seu propósito de destruir militarmente Savimbi.

O diário inglês London’s Observer publicou então uma entrevista com um alto funcionário cubano que confirmava que Castro e a sua directiva estavam negociando a aprovação soviética para uma declaração formal de guerra contra a África do Sul. Por seu lado, um ministro cubano em viagem à URSS também passou informação a jornalistas norte americanos sobre uma possível guerra contra a África do Sul. A URSS e Cuba esperavam desta vez que 1988 terminasse com a esmagadora derrota de Savimbi. Em Abril de 1987 os ministros da defesa angolano e soviético e o general Ochoa intervém em importantes reuniões em Moscovo. A ofensiva delineada nas ditas reuniões teria uma importância sem precedentes: a decisão de liquidar de uma vez por todas a capacidade combativa de Savimbi.

A isto se seguiu um enorme envio de material bélico. Activaram-se um total de 70.000 soldados angolanos, 9.000 soldados da SWAPO e numerosos conselheiros soviéticos. Cuba eleva o seu corpo expedicionário para 40.000 soldados e juntaria à sua chefia dois hábeis generais de linha: Cintra Fias e Fleites Ramirez. A revolução militar começou em 23 de Junho sobre dois eixos estratégicos, ao norte e a oeste da zona controlada pela UNITA. O primeiro avanço, pela região de Gago Coutinho, era um movimento de diversão, enquanto o golpe principal se preparava através de Cuito Canavale e o rio Lomba.

O golpe principal a partir de Cuito Canavale efectua-se com 12 brigadas e vários regimentos cubanos que lhe servem de apoio. Trata-se de introduzir uma cunha na povoação de Mavinga para completar o sistema de defesa aérea angolana e ameaçar desde o ar as linhas de abastecimento logístico da UNITA proveniente da África do Sul.

A superioridade e o poder de fogo e na arma aérea parecia combinar uma força capaz de esmagar os efectivos operacionais da UNITA. Comanda a ofensiva o general Konstantín Shagnovitch, o oficial soviético de mais alta patente enviado fora da Europa ou do Afeganistão. À medida que o avanço cubano angolano ia progredindo, o general Shagnovitch considerou prematuramente que Savimbi estava estrategicamente derrotado. Tal avaliação levará o soviético a lançar várias brigadas na perseguição de Savimbi ao outro lado do rio Lomba.

A UNITA inicia então uma calculada manobra de retirada, deixando intencionalmente algumas brechas para que continuasse o lento avanço da forças inimigas. A ratoeira consegue o seu intento e o general Shagnovitch pagará o seu erro ao ver as suas vias de logística estranguladas pela destruição da ponte do rio Cuito. Finalmente a UNITA realizará uma concentração de forças sem precedentes e apoiada pela artilharia e a aviação sul africana, passa ao contra ataque, conseguindo encurralar várias brigadas inimigas nos baixios do rio Lomba.

Cerca de 4.000 soldados do MPLA e um número não estimado de cubanos foram aniquilados pelas forças de Savimbi, enquanto o resto se retirava desordenadamente para as suas bases de Cuito Canavale. Assim fracassou uma ofensiva planificada em dois anos, que contou com uma impressionante sucata militar calculada em mil milhões de dólares.

A situação tornou-se difícil para o governo de Angola. O presidente Dos Santos solicita a ajuda de Castro, já que uma potente coluna de 9.000 sul africanos e 35.000 soldados da UNITA conseguiram cercar completamente a estratégica cidade de Cuito Canavale onde se tinham refugiado o resto das brigadas derrotadas da falhada ofensiva. Entre 7 e 15 de Novembro, a situação agravou-se com a escalada sul africana. O perigo de que o maior e melhor agrupamento de tropas angolanas fosse completamente aniquilado em Cuito Canavale.

Castro decide jogar todas as suas cartas com Dos Santos e ordena em 15 de Novembro o envio das melhores forças do seu exército e todo o material bélico possível. Ao despedir-se dos eleitos da Divisão-50, o ministro da defesa Raul Castro expressou a decisão cubana de comprometer todos os seus recursos bélicos e humanos necessários para tal operação: "vós ides a ajudar à independência da Namíbia. Com 100 por cento de certeza vamos ter um grande encontro com os sul africanos".

Quase imediatamente, Castro decide reforçar com os seus melhores pilotos a aviação em Angola. A tomada de Cuito Canavale não só significava para Savimbi apoderar-se de uma localidade e de um aeroporto estratégico, se bem que, por sua vez, exporia o corpo expedicionário cubano a uma derrota. Por sua vez Castro substituía o general Armando Fleites Ramires, quem compartilhava o comando das forças cubana na fracassada ofensiva e envia urgentemente o general Ochoa para tomar cargo de "uma guerra perdida", como ele mesmo a qualificou antes de sair de Havana.

CUITO CANAVALE

Castro tinha jogado tudo por tudo, enviando para esse cenário as suas melhores armas, o seu melhor general e um total de 60.000 soldados, movendo todo este aparato com os seus próprios meios, como fizera no início da sua missão em Angola em 1975. Foram barcos cubanos os que transportaram tanto os soldados como os meios de guerra. Ochoa chegou a Angola com a flor e nata do exército cubano, acompanhado de uma constelação de generais curtidos noutras campanhas africanas. Cintras Frias, Tomassevich, Lara Roselló, Patrício de La Guardia, só para mencionar uns quantos. De imediato, determina o envio das Tropas Especiais, as spetznats cubanas, sob o comando do general Patrício de La Guardia e do coronel Álvaro Lopes Mier para reforçar Cuito Canavale. Assim, manteve precavidamente as suas reservas estratégicas longe deste teatro de operações, considerando em total desacordo com o critério de Castro que a cidade estava perdida do ponto de vista militar.

Existia um sério problema de logística e de abastecimento causado pelos 20 quilómetros de mata e de espesso capim entre Cuito Canavale a este e a vila de Menongue aquartelamento do grosso das tropas, logística e aviação cubanas. Não obstante, as medidas de defesa que o general Ochoa introduziu em Cuito Canavale, como pontos móveis de reservas e de campos minados, colocaram de imediato as Forças de Defesa Sul africanas (SDF) numa situação sumamente precária.

O protagonismo pessoal desejado por Castro criaria tensões entre ele e o general Ochoa desde o início da campanha. Castro queria dirigir todas as operações directa e pessoalmente de Havana a 6.000 milhas do cenário bélico. O general Ochoa determinou evitar o choque com Castro, se bem que fez caso omisso às instruções provenientes da Havana. Assim começaria a "guerra de telegramas cifrados" entre ambos.

Em Janeiro de 1988, a África do Sul vê-se pressionada a enviar 6.000 soldados de reforço para a frente de batalha. A tomada de Cuito Canavale apresentava-se difícil e só seria possível com um ataque frontal com alto preço de vidas humanas para que o governo de Pretória não havia preparado a sua gente. Castro e o general Ochoa começam a desentender-se quanto à coordenação geral das operações militares. Mas, o embate mais violento entre ambas as figuras surge pela deslocação de várias brigadas fora do cenário de Cuito Canavale ordenado pelo general Ochoa. Castro o ameaça da seguinte maneira: "tem-nos desagradado muito as inesperadas ideias que resultam inexplicáveis e chocam com as nossas concepções de luta no sul contra a África do Sul".

Debaixo de intensos protestos de Havana, o general Ochoa também retira as tropas cubanas radicadas na próxima base de Menongue. As razões eram claras: enquanto Castro procurava dar a batalha definitiva com todas as forças no Cuito Canavale, o general Ochoa não estava seguro de qual seria o cenário favorável às suas unidades para entabular o choque definitivo.

Além disso tinha surgido uma situação nova no encontro de Angola: uma deslocação extensiva da UNITA que obrigava a proteger outros pontos chaves do país. Em Janeiro de 1988, a situação vai aumentando de temperatura. O general Ochoa decidirá que o papel primordial na defesa do Cuito Canavale deverão enfrentá-lo tanto a aviação como uma frente flexível e móvel, pois contava-se com um poderoso grupo táctico de reserva. Ao ter em conta a superioridade aérea e desconhecer o terreno, Castro ordenará ao general Ochoa para que se concentre em Cuito Canavale, situe os tanques como meras peças de artilharia e concentrasse ali todas as reservas.

As tropas sul africanas que iniciaram o avanço sobre o Cuito Canavale eram compostas por 9.000 soldados, tanques pesados, blindados, artilharia de longo alcance e reactiva assim como caças reactores. Em 3 de Janeiro, os sul africanos destruíram a ponte sobre o rio Cuito com um avião telecomandado. Em 14 deu-se um feroz assalto dos batalhões sul africanos e da UNITA, coberto pela barragem da sua artilharia de longo alcance.

A operação cobria uma frente muito extensa a este do rio Cuito que o general Ochoa defendia com três brigadas angolanas separadas entre si por brechas de cinco quilómetros de extensão. O alarme de Castro reflecte-se então na quantidade de telegramas que envia ao seu general, onde ordena retirar as três brigadas para diminuir a linha da frente e fechar as brechas entre as mesmas usando as reservas: "deve-se reduzir o perímetro da defesa a este do rio, deslocando a 59ª e a 25ª brigadas para posições bem fortificadas mais próximas ao rio. Estas duas brigadas devem cobrir a direcção este de modo que a 8ª Brigada recupere a sua missão de transportar abastecimento".

Mas os generais Ochoa e Cintras Frias, tinham preparada uma ratoeira para todos: as brechas entre as brigadas por onde passaria o inimigo, eram campos letais minados onde os blindados sul africanos partiriam os dentes uma e outra vez. Envia-se então um contingente de tanques dirigidos pelo coronel Hernio Hernández para cobrir as brechas que deixavam as brigadas de infantaria.

Assim se deteria este ataque do inimigo, devido aos campos minados, os ataques constantes da aviação de Menongue e a artilharia. Por outro lado, o general Ochoa, em coordenação com os seus lugar tenentes, os generais Cintra Frias, Llorente e Lara Roselló, queria manter as linhas afastadas com vista a que o cerco não prejudicasse a habilidade de movimentar com rapidez as brigadas que mantinha de reserva dentro do perímetro.

Assim aconteceu quando o ataque sul africano desaloja das suas posições a 21ª Brigada e o general Ochoa move o seu grupo táctico de Menongue com um batalhão de tanques e artilharia. O general Ochoa realizará outro avanço arriscado na defesa de Cuito Canavale ao deixar de certo modo isolado do lado este do rio um número de brigadas angolanas que de dependiam de uma ponte constantemente atacada pela artilharia inimiga.

Pese a que Castro lhe recomendava reajustar de imediato esta posição, o general Ochoa estimava que se abandonava a margem do rio se perderia o controle do centro logístico do campo de batalha. Os generais cubanos no campo de batalha, contrários ao critério de Castro, estavam convencidos de que a concentração de forças sul africanas e da UNITA ainda não era suficiente para abrir os flancos dianteiros das sua linhas defensivas. Mas Castro seguiria insistindo na descabelada ideia de compactar as tropas. A 17 de Janeiro, volta a interferir: "actualmente as posições da 59ª e 25ª brigadas são muito arriscadas estando expostas a qualquer ruptura pela direcção onde estava a 21ª brigada. Tais riscos não se deviam continuar a correr".

Enquanto Castro e o seu Estado Maior em Havana não entendiam o quadro geral da contenda que se desenrolava em Angola, era evidente que em Angola, os generais cubanos chegados a Ochoa conseguiram travar os sul africanos à volta de Cuito obrigando-os a uma guerra de posições. Os papeis tinham-se invertido: a iniciativa e o movimento já não pertenciam à UNITA e África do Sul mas às tropas do general Ochoa.

Tradução livre.

Nota: Quando traduzi o texto fiquei com a impressão que Fidel Castro foi sempre o "senhor da guerra" em Angola e nem o Dos Santos o conseguiu fazer parar mesmo quando fez acordos secretos na Ilha do Sal com os adversários que Fidel e o núcleo duro do MPLA não concordaram. Fidel continuou com as hostilidades em Angola alegando que a finalidade era acabar com o "apartheid" na África do Sul o que era uma utopia e um pretexto para continuar a guerra.

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