Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Combatentes. Reclamada trasladação de 3026 corpos cujo custo é de oito milhões

Restos mortais de ex-militares são usados para magia negra


Corpos de três para-quedistas chegaram da Guiné em Julho (Foto DN)

Movimento cívico denuncia que ossadas são vendidas como troféus

PAULO JULIÃO, Viana do Castelo

Entre seis a oito milhões de euros é quanto custará a trasladação dos restos mortais de 3026 ex-combatentes que permanecem em cemitérios de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau desde a Guerra Colonial, alguns dos quais são alvo de práticas de magia negra e outro tipo de abusos, denunciou ontem o Movimento Cívico de Antigos Combatentes.

"Em cima de um cemitério na Guiné foram construídas casas e num outro, em Angola, realizam-se sessões de magia negra. Há campas que estão a ser vandalizadas, retirando ossadas de militares portugueses para venderem como troféus na feira. É algo inacreditável", afirmou ontem ao DN José Nascimento Rodrigues, daquele movimento que defende o repatriamento dos restos mortais destes combatentes.

Desde Junho que aquele movimento está a recolher assinaturas para exigir uma tomada de posição junto do Governo português. "Já vamos em mais de nove mil assinaturas. Precisámos de ter um grande volume de assinaturas para que os nossos governantes sintam que os portugueses estão muito empenhados nesta acção", explicou o responsável associativo.

• A recolha de assinaturas, em forma de petição para entregar na Assembleia da República, está a acontecer em todo o País e junta-se a sessões de esclarecimento promovidas em várias cidades, como a que vai acontecer este sábado, em Viana do Castelo, que incluem a projecção de imagens "chocantes" sobre o actual estado de conservação destes cemitérios.

O objectivo passa por "pelo menos" até 10 de Junho de 2012 concretizar à trasladação dos restos mortais desde antigos militares que morreram em combate na guerra colonial, operação de larga escala que poderá custar entre seis a oito milhões de euros.

"É uma importante verba, mas os antigos militares mobilizaram-se e reuniram alguns apoios de empresas que, no limite, podem até permitir cobrir as necessidades. Mas necessitamos que o Governo Português encete negociações com os respectivos países para garantir o regresso dos que morreram em África pela Pátria, e ainda lá se encontram, desprezados e abandonados", acrescentou ainda reuniram alguns apoios de empresas que, no limite, podem até permitir cobrir as necessidades.

Mas necessitamos que o Governo Português encete negociações com os respectivos países para garantir o regresso dos que morreram em África pela Pátria, e ainda lá se encontram, desprezados e abandonados", acrescentou ainda o porta-voz do Movimento Cívico de Antigos Combatentes.

Segundo José Nascimento Rodrigues estima-se que os restos mortais destes 3O26 portugueses estejam repartidos por perto de quatro centenas de cemitérios, a generalidade deles completamente votada ao abandono.*

OSSADAS COMO TROFEUS EM LUANDA

Nas ex-colónias existem centenas de cemitérios com restos mortais de soldados portugueses

Os ex-combatentes da Guerra Colonial afirmam que só entre Moçambique, Angola e Guiné-Bissau existem entre 300 a 400 cemitérios com os restos mortais de militares portugueses. Entre os casos mais flagrantes de profanação das sepulturas destes antigos militares conta-se o cemitério de Bambadinca, Guiné-Bissau. "Há casas que foram construídas em cima deste cemitério", garantiu ao DN José Nascimento Rodrigues, do movimento que reclama a trasladação destes corpos. Acrescenta que nos vários cemitérios de militares portugueses em Luanda, Angola, "fazem-se sessões de magia negra" e as campas "são sistematicamente vandalizadas". "Temos testemunhos fidedignos de que há quem retire parte das ossadas dos militares portugueses para vender no mercado de Roque Santeiro, em Luanda, como troféus", afirmou ainda o ex-militar, combatente na Guiné-Bissau em 1969. "É apenas um retrato do que se está a passar e não honra memória dos nossos camaradas", sustentou.