14 de Fevereiro de 2006

Sócrates vai a Angola enquanto a Europa vira costas a Santos

Da demissão do cônsul português aos negócios da "nomenklatura" Angola

A demissão do cônsul português em Luanda, Luís Gaspar da Silva, é vista nalguns meios angolanos e também portugueses como uma forma «de o Governo de José Sócrates mostrar ao "amigo" Eduardo dos Santos que não permitirá quaisquer engulhos nas relações com Angola, numa altura em que Portugal está claramente a perder o título de parceiro privilegiado», diz a O DIABO uma fonte, que chama também a atenção para o «timing» do afastamento do diplomata.

João Naia

Tudo aconteceu nas vésperas da visita que o Primeiro-Ministro português tem programada para aquela antiga colónia africana.

De facto, no próximo mês de Março, José Sócrates aportará em Angola com uma delegação de quase centena e meia de pessoas, entre governantes e empresários, em busca de novas oportunidades de negócio.

A deslocação de Sócrates àquele país africano surge, também, numa altura em que José Eduardo dos Santos tenta «desesperadamente» furar o bloqueio que a maioria dos estadistas europeus lhe impôs, ainda que de forma discreta. Entre eles conta-se Tony Blair, Primeiro-Ministro britânico, que recusou receber o presidente angolano, a menos que Eduardo dos Santos se comprometa a assinar a Iniciativa Internacional para a Transparência das Indústrias Extractivas.

O que o Santos não fez. «Como poderia assinar tal documento se ele e a maioria dos seus colaboradores fomentam ou estão envolvidos em inúmeros negócios de corrupção naquela área?», questiona a nossa fonte, adiantando que o presidente de Angola, dadas as circunstâncias, «estará disposto a fazer uma abertura a Portugal, no domínio dos negócios, para compor a face, mas, também, desde que boa parte desses negócios tenham as suas filhas, Isabel dos Santos e Tchizé, como accionistas».

Suspeitas, suspeitas e mais suspeitas

Nos últimos anos, os investimentos portugueses em Angola, com sucesso, têm sido, com efeito, marcados por múltiplas suspeitas de «tráfico de influências».

No ano passado, o empresário Américo Amorim abriu o Banco de Investimento Comercial (BIC) tendo como principal accionista precisamente a filha do presidente angolano, Isabel dos Santos. Em menos de um ano, aquela entidade financeira já inaugurou mais de uma dezena de balcões em Luanda, havendo quem questione «tão grande e rápido sucesso» do negócio.

Tchizé dos Santos: o pai, Eduardo dos Santos, ofereceu-lhe um casamento digno de um conto de fadas que terá custado mais de 4 milhões de dólares. Em Luanda faz a republicação da revista «Caras», com páginas e páginas dedicadas ao «jet-set» do regime.

Outro mistério é que Isabel dos Santos detenha 25 por cento do capital social do BIC, sem que alguma vez fosse explicada a origem de tão elevada quantia.

De 34 anos de idade, sem currículo profissional significativo, a filha mais velha de Eduardo dos Santos tem igualmente chorudas participações financeiras noutros negócios, como sejam os casos da operadora de telefones móveis UNITEL, que envolve a Portugal Telecom, e na mina de Camutue, na Lunda. Aliás, Isabel dos Santos é sócia da «Ascorp», empresa que detém o monopólio da comercialização de diamantes em Argola, em associação com Ley Leviev. Ou seja, a sua participação económica nesta área é vasta.

Mas na família do presidente há mais elementos com «vocação empresarial». A outra filha de Eduardo dos Santos, Tchizé, a quem o pai ofereceu um sumptuoso casamento (custou mais de quatro milhões de dólares) com os convidados (Durão Barroso entre eles) a serem transportados desde os seus países de origem em aviões expressamente fretados para o efeito, também está metida em várias áreas de negócio, designadamente na comunicação social. Em Angola, Tchizé dos Santos faz a republicação da revista «Caras», acrescentada de mais 14-16 páginas dedicadas ao «jet-set» da «nomenklatura» governamental e do MPLA.

A matriarca da família Santos, Ana Paula, tem igualmente participação em actividades empresariais, nomeadamente na restauração, através da cadeia de pastelarias «Nilo».

Apoio ao regime de Eduardo dos Santos?

Bloqueados com a crise interna, vários empresários portugueses vêem no país e regime de Eduardo dos Santos uma verdadeira mina para os seus negócios. «Assim se explica a atitude de servilismo dessas entidades portuguesas para com o presidente angolano», comenta a nossa fonte, acrescentando que «ele está cada vez mais isolado na cena política internacional», o que o leva a estar de mãos mais abertas aos negócios e «negociatas».

Nos meios políticos de Luanda críticos da «nomenklatura» angolana receia-se, por isso, que Sócrates venha a seguir o mesmo caminho de Durão Barroso, que nunca escondeu «ter com Eduardo dos Santos uma relação servil e vulnerável a negociatas», critica a nossa fonte.

O actual Primeiro-Ministro português nunca mostrou «possuir uma grande simpatia» pelo regime de Luanda, mas o recente incidente que levou à demissão do cônsul e a pressão «lobística» de alguns dos mais importantes empresários da vida portuguesa que «estão feitos com o regime angolano», tudo isto a par de uma opinião pública que «não é de todo favorável, nesta altura, aos interesses portugueses», pode «obrigar» Sócrates «a um exercício de apoio explícito» a José Eduardo dos Santos.

Aliás, dizem-nos outras fontes na capital de Angola que Eduardo dos Santos tem por hábito forçar os seus visitantes a produzirem declarações demonstrativas de «apoio incondicional» ao seu regime.

E o receio dos meios políticos angolanos anti-Eduardo dos Santos ganhou maior força depois da visita a Luanda do deputado socialista João Cravinho, que comparou Savimbi a Hitler «por falta de mais argumentos que agradassem à pandilha» do presidente de Angola.

Na mesma linha de Cravinho esteve Freitas do Amaral, que num discurso proferido na Universidade Católica em Luanda disse que «em Angola há liberdade de expressão e democracia» para «justificar» os apupos e o descontentamento dos estudantes que acusaram Portugal de «falta de vergonha» ao apoiar «um regime tão corrupto e ditatorial» como é o que está instalado no Futungo de Belas.