DN.jpg (3296 bytes) 8.ABRIL.2006

"Confiança" domina o discurso de José Sócrates em Angola


José Eduardo dos Santos e José Sócrates (foto DN)

© Armando Rafael
® Rui Coutinho
Em Luanda

O trânsito em Luanda é caótico. Mesmo para quem circule com batedores da polícia, como sucede com a comitiva que acompanha o primeiro-ministro, José Sócrates. E tentar ir a Viana, cidade a apenas 40 quilómetros da capital, é uma verdadeira aventura. Nunca se sabe quanto tempo é que este trajecto demorará a percorrer, variando consoante o tráfego de viaturas ligeiras, camiões ou carrinhas que se cruzam numa via sem faixas, constantemente cruzada por peões que circulam entre os mercados de rua, as pequenas oficinas ou os musseques das redondezas.

E pouco importa se alguém tem pressa ou não. Em circunstâncias normais, o percurso pode demorar duas ou três horas, tornando absolutamente incompreensível os projectos que apontam para a edificação de condomínios de luxo em Viana, destinados a quem trabalha em Luanda. É certo que, neste momento, já são visíveis algumas das obras que apontam para a reabilitação da estrada que liga as duas cidades - e que é suposto vir a duplicar - ou para a construção de uma linha férrea para passageiros e mercadorias.

Foi este percurso que os primeiros-ministros de Portugal e Angola ontem efectuaram, sempre com batedores, o que não invalidou que o primeiro-ministro tivesse de alterar uma parte da agenda, no último dia da visita oficial, adiando duas horas a conferência de imprensa prevista para o meio-dia. Tudo por causa de um problema protocolar provocado pelo seu atraso no regresso de Viana, dado que Sócrates tinha de chegar primeiro que o presidente da Assembleia da República a uma recepção à comunidade portuguesa residente em Luanda.

Curiosa coincidência esta que fez com que Sócrates e Jaime Gama se cruzassem por breves instantes na capital angolana, onde o primeiro-ministro estava de regresso a Portugal e o presidente da Assembleia da República chegava para participar numa reunião com os seus homólogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Prímeiro-ministro e Jaime Gama, presidente da AR, cruzaram-se por instantes em Luanda

Nada que tivesse afectado o entusiasmo evidenciado por Sócrates ao longo dos quatro dias em Angola, onde repetiu, à exaustão, a sua confiança na economia angolana, elogiando o comportamento das autoridades locais.

Como ontem voltou a fazer, na conferência de imprensa no centro cultural português. Mesmo que o tom da voz já deixasse perceber algum cansaço. Apesar disso, o primeiro-ministro aproveitou a oportunidade para recordar os acordos alcançados no domínios da educação e saúde, antes de voltar a renovar os apelos aos empresários portugueses para que apostem em Angola, criando empresas no território e contribuindo para a recuperação da sua economia.

Questionado sobre os riscos que esses investimentos ainda comportam, não hesitou: "Não há nenhum investimento que não comporte algum tipo de risco." E para que não subsistissem dúvidas sobre as suas palavras, deixou uma advertência, sublinhando que os empresários que não apostarem agora se arriscam a perder esta oportunidade.

Na ocasião, o primeiro-ministro recordou também a evolução de Angola desde os acordos de paz celebrados em 2002, reiterando os seus elogios ao processo de consolidação das instituições políticas do país. "Não há confiança na economia sem que exista igualmente confiança nas respectivas instituições políticas", frisou Sócrates, que pouco antes tinha deixado um agradecimento especial a Eduardo dos Santos e ao primeiro :ministro. Fernando Dias dos Santos ('Tíándó"), pela forma como foi recebido. "Esta viagem", sublinhou, "reforçou o clima de confiança que já existia entre as autoridades dos dois países, o que nos permitirá lançar uma parceria mais ambiciosa entre Portugal e Angola." |

Escola portuguesa ajuda a formar elites angolanas

É uma escola pública portuguesa, mas não é uma escola exclusivamente para portugueses." Com esta frase, proferida ontem de manhã por um dos responsáveis pela nova escola portuguesa de Luanda (Centro de Ensino e Língua Portuguesa), José Baptista disse tudo, ou quase tudo, resumindo o valor e o impacto que este estabelecimento de ensino poderá representar para Angola.

Sobretudo se levarmos em linha de conta que a nova escola, que terá capacidade para 2500 alunos do pré-escolar, básico e secundário, acabará inevitavelmente a ensinar muitos jovens portugueses que se encontrem em Angola, mas também muitos angolanos, como admitia um elemento do gabinete de Sócrates.

"A tendência é que esta escola acabe também por formar muitos jovens das elites angolanas." Sobretudo aqueles que, a partir de Setembro, deixarão de ir para Portugal, podendo fezer o básico e o secundário em Luanda, seguindo os padrões de ensino e os programas adoptados pelo Ministério da Educação.

Situada no centro de Luanda, na mesma rua do Liceu Francês, mas também os quartéis-generais do Exército e da Polícia de Intervenção, esta escola, que Sócrates e o seu homólogo angolano visitaram ontem, ocupa uma área total de 37 mil metros quadrados e custou cerca de 17 milhões de euros. Construída pela OPCA um pouco à imagem e semelhança dos compus universitários norte-americanos, a escola portuguesa de Luanda possui ainda diversos pavilhões desportivos e um auditório para 180 pessoas, tendo demorado quase três anos a edificar.

Como não há bela sem senão, cada um dos futuros alunos da escola, que irá, em termos práticos, substituir uma cooperativa de ensino já existente na capital angolana, terá de pagar cerca de 250 euros para a poder frequentar, sendo ainda obrigado a cumprir os períodos escolares vigentes em Portugal e que nem sempre são muito compatíveis com as condições climatéricas africanas. Nomeadamente no que diz respeito às férias.

Tudo por causa dos períodos oficiais de exames, que, nos termos das regras que vigoram em Portugal, têm de ser efectuados nos dias fixados, independentemente dos locais onde os estabelecimentos de ensino se situem. 

A mensalidade da nova escola portuguesa de Luanda será de 250 euros, tornando-a uma instituição a que poucos podem ter acesso

É isso que explica também as razões por que esta escola irá abrir em Setembro. À semelhança do que ocorre em Portugal. Mas, nessa altura, talvez o embondeiro que José Sócrates e Fernando Dias dos Santos ontem plantaram, no meio da relva que circunda um dos quatro edifícios da escola (dois ainda por acabar), já dê alguma sombra aos portugueses e angolanos que a frequentem. | AR