Domingo_8 de Janeiro de 2012

HISTÓRIAS:CENTENÁRIO DO ANC
O partido de Nelson Mandela

África do Sul. O Soweto passou de um símbolo da resistência ao “Apartheid” e do bastião do ANC a destino turístico. Mas um século após a fundação do ANC, a 8 de Janeiro de 1912, o partido hoje no poder ainda não erradico os problemas herdados dos tempos de regime da minoria branca.

SOWETO AINDA ESPERA PROMESSAS DO ANC


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ABEL COELHO DE MORAIS

O desânimo e a desilusão dominam o Soweto, U um dos berços do movimento contra o apartheid e um dos bastiões do ANC, o partido que liderou o combate contra o regime da minoria branca. E as raízes deste desapontamento estão precisamente no ANC.

Após 17 anos no poder, desde 1994, o partido continua longe de cumprir muitas das promessas feitas para reduzir as desigualdades sociais e criar uma infra estrutura de serviços adequados para a generalidade da população. De acordo com números oficiais, 20% dos sul-africanos não têm eletricidade e 10% não possuem abastecimento de água canalizada.

"O ANC não é o que foi em tempos. A maioria é corrupta até à medula, e isso é inaceitável", afirma à AFP uma jovem de 23 anos, Zoliswa Jayiya. "Eles fizeram muito no passado, mas não podemos viver do passado. O ANC vive agora dos louros desse tempo", lamenta Jayiya.

Um passado que o partido assinala hoje na cidade de Bloemfontein, onde foi fundado a8 de janeiro de 1912, numa cerimónia, ela própria alvo de críticas. Em causa, o custo e algumas das iniciativas associadas. Um dirigente do ANC residente no Soweto, David Meyers, pensa que "na data do centenário deviam ter concedido bolsas de estudo aos jovens ou outros incentivos para melhorar as condições de vida neste século".

Para a cerimónia de Bloemfontein está prevista a presença de 40 chefes do Estado e do Governo, delegações de centenas de partidos "virão à África do Sul saudar não só o partido, mas todos os sul-africanos que liquidaram a opressão colonial e o apartheid",afirmou o Presidente Jacob Zuma no inicio do ano. Na sexta-feira, rejubilava: "Somos a organização mais antiga do continente [africano].Muitos partidos nasceram, impuseram-se e declinaram, morreram ou desagregaram-se. Mas não o ANC!"

Quem não estará presente será Nelson Mandela, de 93 anos, devido “à sua idade”, disse um dirigente do partido.

Além da cerimónia em si, o nascimento do movimento antissegregacionista é recordado por concertos, jantares de gala, um torneio de golfe, que começou sexta-feira, e "atividades multiculturais", como "atos de purificação", o sacrifício de animais e espetáculos de danças tradicionais.

O momento que deve marcar a cerimónia será o acendimento por Zuma de um "archote do centenário", que irá percorrer a África do Sul. Um país onde permanecem evidentes sinais do apartheid. Como sucede no Soweto.


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Mas a herança do apartheid no Soweto não é apenas as barracas de chapa ondulada dos anos 60, as lixeiras a céu aberto, as estradas poeirentas. Alguma construção social tem substituído as barracas e alguns dos bairros têm características residenciais de classe média. Contudo, é pela sua história que o Soweto continua a atrair as atenções. Há pacotes turísticos para passar um dia no município, mas a maioria dos visitantes fica-se por uma vista geral a partir de um elevador panorâmico, enquanto outros preferem as emoções do bungee jumping. A uma altitude de cem metros, os partidários das emoções fortes lançam-se das torres de arrefecimento de uma central térmica dos anos 40, já desativada.

As instalações da central são o espelho do que foi o apartheid. no meio do enorme bairro de lata do Soweto, protegida por altos muros e arame farpado, a central abrigava pavilhões climatizados para os funcionários, um campo de futebol e uma piscina. Em 2011, o apartheid pertence ao passado, mas permanecem as desigualdades que este cenário evoca.

ComAFP