O autor

                                                                                                
                                                                                    Prefácio - Edição de Livros e Revistas
                                                                                  
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                                                          José Victor de Brito Nogueira e Carvalho

A Derradeira Tentativa

Neste excelente livro o autor relata minuciosamente o que se passou com a descolonização de Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Obrigado.

PAG. 221-230. Fins de MAIO de 1975 em dia QUE NÃO posso precisar, um grupo constituído por sete elementos, ido de Luanda, chega ao Aeroporto de Kinshasa, num pequeno avião. Era constituído por dois funcionários superiores do Gabinete Especial de Informações do Comando Chefe das Forças Armadas obrigados a sair de Angola e nos quais me incluía, um sub-inspector que fora o elo de ligação ao movimento FNLA, um agente que fora responsável pelo Campo de Refugiados (Catangueses) do Camissombo, um chefe de brigada e um agente peritos em informação, e um técnico excepcional do campo das transmissões.

Com longa experiência no campo de informações relacionadas com assuntos militares e guerra de guerrilha, íamos assessorar serviços da FNLA, no campo informativo e militar. Éramos todos voluntários e havíamos sido contactados anteriormente por elementos responsáveis da FNLA, que entenderam podermos ser de grande utilidade. íamos não a mando, mas com conhecimento dos oficiais mais próximos com quem trabalhávamos. Especulou-se que por detrás da FNLA estaria a CIA, com quem viria a haver contactos posteriormente.

Pessoalmente vacilei ao dar este passo pois sentia uma certa relutância em me aliar a indivíduos que tinham cometido actos de terrorismo contra portugueses. Não ia como mercenário já que não ia auferir qualquer vencimento pela colaboração que ia prestar. Para meu apaziguamento interior, explicava a mim próprio que iria continuar a lutar para que o destino de milhões de pessoas, também elas portuguesas como eu, não fosse a escravidão e subjugação a um País que nada tinha a ver com Angola ou Portugal.

Iria lutar e os outros a FNLA, lutariam a meu lado. Sentia-me melhor com este raciocínio. Instalados, começámos a estruturar e montar bases para trabalhar no campo informativo, tendo deixado em Luanda elos de ligação. Nesta cidade, Kinshasa, começaria a ter contacto com um País independente há 15 anos, o que aumentou por analogia, as minhas preocupações sobre o que viria a acontecer às gentes de Angola. Preocupações essas que infelizmente vieram a ser confirmadas, pela desgraça que sobre elas se abateu, após 1975. As populações viviam aqui em extrema miséria, tudo fazendo para sobreviver, sendo prática comum o roubo e a prostituição generalizada que tomava conta de famílias inteiras.

Vivia-se o reinado de Mobutu, na ilusão da liberdade como sempre propagandeada, ilusão para a qual contribuíam quatro ou cinco grandes fábricas de cerveja de óptima qualidade e para todos os gostos, a preços muito baixos, e em grandes quantidades. O seu consumo permanente aliado à música "zairoise" (termo que se aplicava querendo significar zairense) característica e a que acabámos por nos habituar sentindo até depois a sua falta, muito ritmada, duma monotonia que acabava por anestesiar, estava presente a todas as horas e em todos os locais, incluindo cafés, ruas, táxis, etc., não deixando muito tempo para pensar.

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Angola. Abriz de 1975. O autor nos escritórios da FNL (foto livro)

Como teria sido diferente se Salazar tivesse mandado instalar na África Portuguesa e em todos os locais a televisão, emitindo diariamente jogos de futebol. Ainda hoje constatamos a influência que este espectáculo exerce em todos os Portugueses, prevalecendo a construção de estádios à construção de hospitais. O dia a dia em Kinshasa no campo televisivo era iniciado com extractos dum discurso (sempre o mesmo) feito por Mobutu na ONU.

Dizia Mobutu:

"Nous ne pouvons pas suporté le blanc contre le noir. Nous avons notre droit des africains pour revenir à la notre authenticité...."

Começava por ouvir-se uma canção africana "zairoise" e lá muito ao longe, a vir das nuvens, Mobutu que em crescendo, acabava por ocupar todo o écran, dando-se o inverso, no fecho da emissão.

A cidade era inundada com vestimentas ganidas, negras elegantes e vistosas envoltas nos seus coloridos panos, não muito negras no geral mas sim de cor achocolatada em resultado dizia-se, que da lavagem continua e permanente com um sabão que se vendia em todos os lados, aos milhares.

Contudo o controlo de tudo e de todos era completo através de milhares de controladores com os seus inseparáveis "walkie talkies" de técnica avançada, semelhantes aos actuais telemóveis, e que estavam sempre presentes em todos os locais, incluindo restaurantes e hotéis de luxo. O tratamento por "citoyen" ou "citoyene" era generalizado e extensivo a todas as classes sociais, dando a falsa sensação de igualdade. Contudo o tratamento de patrão não fora ainda esquecido, e era curioso o que se verificava nalguns casos, em que o negro, que após a independência ficara com o negócio do branco, o mantinha à frente do mesmo por incapacidade de gestão rentável.

Interessava-lhe apenas ter um Mercedes, havia-os às dezenas, e uma verba para gastos diários. Se estoirava o Mercedes exigia logo outro em substituição, não se preocupando contudo se o antigo patrão tinha muitos lucros, desde que satisfizesse as condições acordadas, e outras que sempre surgiam. Não pretendo transmitir a generalização deste procedimento, que contudo era uma realidade em alguns casos que conheci. Verificava-se então haver dois patrões em lados opostos. O zairense que continuava a tratar como era seu hábito o antigo senhor por patrão, e este que igualmente tratava o antigo empregado por patrão. Os congoleses tinham à data uma vantagem que não se verificava em Angola.

A ausência de guerras internas já que qualquer tentativa, era imediatamente abortada com consequências graves para os destabilizadores. Constava que alguns generais que tinham ido fazer um curso aos EUA, vieram com ideias de abertura e democratização, do que resultou progressivamente o seu desaparecimento através dumas quantas doenças ou acidentes. A linda cidade que era Kinshasa, tipo colonial puro, tinha-se transformado. Os esgotos nalgumas ruas transbordavam, sendo vulgar ter que atravessá-las nalguns locais por cima de pneus que aí eram colocados para o efeito. Muitas das magníficas vivendas estavam rodeadas por ervas e capim que nos jardins se tinha desenvolvido, vendo-se também cartões pregados a substituir vidros das janelas, e que nunca foram substituídos. O desenvolvimento do comércio era quase nulo na generalidade, encontrando-se lojas cheias de prateleiras com apenas algumas latas de conservas, noutros com meia dúzia de artigos.

Era curioso verificar por exemplo que existiam suponhamos, 6 camisas que no total custariam 180 zaires, passados alguns dias havia só 4 camisas cujo total custaria os mesmos 180 zaires e assim sucessivamente, mantendo-se o preço para que não houvesse quebras, uma vez que não havia renovação do stock, até que esgotado este, os produtos que passavam a vender eram completamente diferentes. Era também vulgar vermos uma loja que tinha vendido instrumentos musicais e que no exterior mantinha ainda o reclame luminoso o que era muito raro, a vender agora panos e outros utensílios.

Praticamente nada produziam de bens alimentares, sendo todos estes produtos importados e transportados em grandes aviões que tinham escrito no exterior, "Compagnie General de Alimentation", o que os tornava inacessíveis à maioria da população.

Os assaltos nas ruas eram normais e frequentes, mas sem violência. Tirava-se uma carteira, corria-se atrás do gatuno, e logo uma série de zairenses aparecia a interpor-se, dançando e agitando os braços.

Os incautos que à noite isoladamente mandavam parar um táxi, logo a seguir numa rua menos iluminada (era normal), viam este parar e entrar mais um ou dois zairenses, que sem violência o aliviavam duns zaires. Os táxis, por norma eram bastante velhos e por vezes sem um ou outro vidro, sem tapetes, e alguns até com arames nas portas. Uma coisa tinham sempre em comum. Música "zairoise" que era acompanhada com trejeitos do condutor que normalmente usava uma boina, camisa por fora das calças, e sandálias. O preço era discutido e quase sempre havia logo a seguir uma paragem numa bomba de gasolina para meter 3 ou 4 zaires de gasolina, visto que os depósitos andavam sempre vazios.

Os donos das poucas ourivesarias, ao anoitecer, tiravam e guardavam todos os objectos que tinham nas montras, recolocando-os no dia seguinte. À noite alguns passeios eram interrompidos por cordas e fitas postas à volta das portas e junto a estas, dormia um negro em cima duns cartões, com a finalidade de as guardar. Era o progresso e a democratização em curso, imposta por Mobutu após a independência 15 anos antes. Afastado de África desde 1975, mas pelo que ouço e leio, creio que situações idênticas são ainda vulgares em grande parte dos Países africanos a quem foi proporcionada a independência, Países rotulados de livres e democráticos, mas subjugados pela miséria e insegurança permanente.

A grande potência que do exterior ali exercia influência era os EUA. Não o fazendo directamente, as suas directivas eram postas em execução através duns quantos zairenses altamente colocados e com benesses excepcionais, que serviam de veículo para imposições ao povo, como se de iniciativas próprias e do interesse de todos se tratasse. Conheço pessoalmente o presidente da FNLA Holden Roberto, bem como pessoal do seu Estado-maior. Ao longo do tempo e dos contactos que viria a ter com este homem, começo a dele fazer um retraio não condizente com o gravado na memória. Parece-me humano, que pugna realmente pelos direitos e igualdade dos angolanos, que quer uma Nação para todos, na qual inclui os brancos o que me espanta.

Ao contrário do que pensava, não denota qualquer característica racista no trato com estes. Chego a interrogar-me se este é o mesmo homem que chefiava os selvagens que em 1961 cometeram tantos actos terroristas. Voamos para o Ambriz (Angola), onde ele instala o seu Quartel-general. Pede-me para organizar e estruturar toda a defesa da vila, acessos que incluem orla marítima e pista de aterragem, e instalações nela existentes, missão de que me ocupo e chamo à minha responsabilidade. Não foi fácil dada a exiguidade de meios e de homens, já que estes são solicitados para confrontos armados.

Accionados estes de acordo com as disponibilidades, o plano é ultimado com mapas de cobertura em anexo. As posições são ocupadas com homens e armamento de defesa.

É igualmente elaborado um plano com escala de ocupação. Dou conhecimento ao Presidente que faz questão de me acompanhar numa inspecção, querendo saber ao pormenor o porquê e para quê de tudo o que havia sido feito. Alguns dias depois solicita a minha presença e pergunta-me se conheço bem o Negage visto do ar, e caso afirmativo se eu não me importava de servir de guia para uma incursão aérea. Respondi afirmativamente e aceitei o convite. Nesse mesmo dia voei com Holden para Kinshasa no seu avião, tendo aqui chegado já noite fechada. Seria o próprio Presidente a tratar da minha instalação no Hotel Okápi, já que informavam estar completo. Era a par do Intercontinental o melhor hotel de Kinshasa, o que mais perto ficava da sua residência.

Manhã cedo mandou-me buscar afim de ir tomar o pequeno-almoço a sua casa e, quando isso sucedia, eis que aparece na mesma o Presidente Jonas Savimbi que conheci pela primeira vez. Cortesmente Holden pediu licença, correu um grande reposteiro criando uma divisória em que fiquei sozinho, efectuando-se do outro lado uma reunião entre os dois Presidentes, a que não assisti, não sabendo igualmente nada do que aí foi tratado. Quando Holden voltou Savimbi já tinha saído. Dirigimo-nos ao Aeroporto de Kinshasa, e só aí tive conhecimento do que ia passar-se. Dois grandes quadrimotores tipo B-26 estavam a ser carregados com material bélico, que incluía, muitas caixas de munições, armas pesadas, caixotes muito grandes, etc. A carga estava a ser acondicionada no centro do bojo dos aparelhos, e a ser amarrada com fortes correias. Não levavam qualquer banco ou assento para pessoal.

Acabado o carregamento, eu e o Presidente subimos para um dos aviões e ingressamos na cabine do piloto, onde ficaríamos de pé. Além de nós, apenas o piloto que era Holandês, e dois elementos graduados da FNLA, que ficaram junto à carga. No outro aparelho seguiria uma equipe de pilotagem e alguns responsáveis da FNLA. Levantamos voo deveriam ser 11HOO da manhã. O tempo estava desanuviado o que permitia boa visibilidade. Voaríamos não muito alto, acerca de 3000 pés. Vinte minutos depois já em céu angolano, avistamos uma grande Fazenda, e pouco depois outra tendo o piloto perguntado se era o Negage. Informei que não. Outras foram sendo avistadas com as suas pistas de aterragem, repetindo-se a pergunta. É o Negage?

O piloto mascava chiclete e começara a transpirar dado o nervosismo. O outro avião seguia-nos. Informei que quando o Negage fosse avistado eu informaria. Só pedi que seguissem o rumo certo, porque se o não fizesse poderíamos ir dar a Luanda, correndo o risco de sermos abatidos pelos cubanos. Era certamente esta à dúvida que afligia o piloto. Depois de cerca de 45 minutos de voo avistei à nossa direita um aglomerado grande de casas que referenciei como sendo a cidade de Carmona, e à esquerda lá mais ao longe um outro menor que me pareceu o Negage. Pedi que seguisse nessa direcção e lá estava o Negage com a sua bela pista de aterragem, junto à qual estavam estacionados alguns aviões bem como dois helicópteros das Forças Armadas Portuguesas. Fizemo-nos à pista, aterramos, estacionando bastante afastado dos outros aparelhos, quase no fim desta. Para aqui se dirigiram de imediato vários jeeps cheios de negros com camuflado e armados (forças da FNLA), e um jeep com 4 elementos brancos igualmente de camuflado e armados, que identifiquei serem das nossas Forças Armadas.

Bastante pessoal a pé começou também a deslocar-se na nossa direcção, sendo contudo impedidos de aproximar-se acerca de uma centena de metros. É que o pessoal da FNLA tinha saltado das viaturas, formando um cordão impedindo o seu avanço. Tínhamos entretanto saído dos aviões e estabelecido contacto com elementos da FNLA bem como com um tenente do Exército Português e dois sargentos, que se retiraram de seguida após contacto e a solicitação de Holden Roberto. A um furriel que tinha conseguido ultrapassar o cordão e se preparava para tirar umas fotografias, foi-lhe sacada bruscamente a máquina e empurrado para trás, não havendo qualquer reacção das NT, o que me deixou contristado. Entretanto tinham chegado quatro grandes camionetas com caixa aberta, e para elas foi descarregado o material. Sairiam após concluído o trabalho, escoltadas pelas forças da FNLA.


Os flechas (foto livro)

Durante esta operação, o Presidente esteve em reunião com altos graduados, que chefiavam as operações naquela região, visto que o Negage estava sob a influência da FNLA. Embora aqui permanecessem efectivos das tropas Portuguesas, fiquei com a impressão que quem dava ordens eram as forças de Holden. Este material destinava-se a contrabalançar um pouco todo o material de guerra que a URSS continuava a descarregar em Ponta Negra. Mais tarde viria ainda a ser solicitado para uma operação que felizmente não chegaria a desencadear-se, já que certamente nos seria fatal. É que os meios que a ela se destinavam e que seriam postos à nossa disposição eram muito exíguos. Além disso seríamos apenas quatro brancos a enquadrar chefias de forças militares de Mobutu e da FNLA, o que implicaria terem que acatar sugestões nossas, o que jamais seria bem aceite num país que nos era estranho, o Congo Kinshasa.

Seríamos certamente muito incómodos para as tropas e comandos radicais de Mobutu, que estavam a ser empurrados para uma guerra que não era deles. O Tenente-coronel Santos e Castro que também já se encontrava no Ambriz, tinha-me dado instruções para juntamente com um capitão dos Comandos ir assessorar uma dessas duas forças armadas, que deveria ir abrir uma frente em Angola, com entrada por Lumumbashi com direcção a Caianda (Norte do saliente de Cazombo - Luso). A outra força seria assessorada por dois colegas, e incluiria o meu velho amigo Silvino Gomes de Almeida já atrás referido. Esta entraria por Dilolo com destino à Chicapa. Tínhamos algumas informações sobre efectivos do MPLA que se encontravam naquelas regiões, e sabíamos pormenorizadamente do reforço com que contavam, os catangueses, que tinham estado sob a nossa direcção e que agora combatiam ao lado do MPLA, que lhes teria prometido apoio para o retorno ao Congo. Cerca de 3500 (trinta e duas companhias) no Camissombo, 1500 no Cazombo e cerca de 400 (duas companhias) na Chimbila.

Elaborámos um estudo pormenorizado das necessidades mínimas em homens e material de guerra para a invasão. Teríamos que atravessar dezasseis rios, a maior parte com jangadas, para chegarmos aos locais de destino. Chegados a Kinshasa fomos imediatamente recebidos pelo General Chefe do Estado-Maior de Mobutu. íamos com prioridade Al, devendo avançar na semana seguinte. A exposição pormenorizada que lhe fizemos deixou-o estupefacto, já que todas as informações que lhe haviam sido transmitidas antes, não condiziam em nada com o que lhe expúnhamos. Estava convencido que era uma operação relativamente simples, que não carecia de muitos meios. Deu instruções para aguardarmos até novas directivas, que jamais chegaram.

Regressamos ao Ambriz local de partida para todas as grandes operações que no Norte de Angola estavam a desencadear-se contra o MPLA, agora fortemente assessorado por instrutores e oficiais da URSS e de Cuba. Forças militares cubanas armadas e municiadas pela União Soviética, actuavam já dentro do território Angolano. No Ambriz se instalariam igualmente as bases da FNLA, compostas por efectivos e chefias deste movimento. Viriam a ser apoiados por um Batalhão de Pára-Comandos de Mobutu (pouco actuantes devido à desmotivação), e por Comandos Portugueses num total de cerca de 70 homens, chefiados pelo Tenente-coronel Santos e Castro e Major Alves Cardoso um velho amigo parceiro doutras guerras, e um dos homens mais condecorados do Exército Português (Torre e Espada, Valor Militar e três Cruzes de Guerra de 1a Classe, uma das quais colectiva, atribuída à sua Companhia na Guiné).

Será ele que irá chefiar operacionalmente no terreno os comandos e que irá desencadear as principais confrontações que virão a ter lugar contra o MPLA e os cubanos. Os Comandos, com os quais colaboro, são de origem angolana e de Moçambique, tendo sido recrutados e seleccionados por Alves Cardoso, que previamente me contactara para providenciar a sua instalação no Ambriz. Estes homens constituirão sempre a ponta de lança nos violentos combates com as forças adversárias bem melhor apetrechadas, sobretudo no que diz respeito a armamento bélico. Destaco as baterias de mísseis 122 mm e os carros de assalto blindados, enquanto do nosso lado apenas tínhamos as velhas Panhars. Os EUA através da CIA davam-nos apoio, nada comparável ao que a URSS fornecia ao adversário, baseando-se mais em apoios logísticos.


Angola 1975. O autor à esquerda com militares da FNLA
após a reconquista do Caxito  e a caminho de Luanda (foto livro)

Mesmo assim a progressão e o sucesso foi uma realidade até às portas de Luanda com realce para a reconquista do Caxito. O Caxito situado a 53 km de Luanda constituía uma importante posição estratégica pois incluía um nó rodoviário que controlava os principais acessos para o Norte de Angola. Posição inicialmente ocupada pela FNLA, viria a cair nas mãos do MPLA em 15 de Maio já nesta altura apoiado por três blindados oriundos de Ponta Negra e dizia-se que por carros de assalto ligeiros dos Dragões das nossas Forças Armadas, o que viria a originar um inquérito que não confirmou esta intervenção. Estávamos agora em 24 de Julho e os combates para a reconquista do Caxito eram violentíssimos com imensas baixas de ambos os lados. O adversário tinha vantagem de fogo visto os seus mísseis 122 mm alcançarem 12 km, enquanto os nossos morteiros 120 apenas 8 km. Como sempre na frente estavam os Comandos do Alves Cardoso.

O inimigo acaba por ser escorraçado. Caxito é tomado e avança-se até à Fazenda Tentativa 5 km à frente. O avanço para Luanda é dificultado por o adversário ter dinamitado a ponte existente antes de Porto Quipiri, pelo que o progresso só poderia ser efectuado através da Fazenda Martins de Almeida, originando assim um grande contratempo. Outros combates iam tendo igualmente lugar com destaque para a posse da Barra do Dande, também um ponto estratégico importante. Daqui abria-se caminho para as Fazendas Lifune e Libongos, permitindo o acesso Ambriz / Luanda, por este lado. Tropas da FNLA haviam-se infiltrado, chegando a ocupar posições a 18 km de Luanda. Após a tomada de Caxito pela FNLA, as pequenas bolsas de resistência deste movimento que ainda combatiam em Luanda enchem-se de esperança.

A situação dentro desta cidade era insustentável pois o MPLA reforçara os seus contingentes com material e forças estrangeiras, obrigando a UNITA e FNLA a terem que retirar para as suas regiões de influência.

UNITA para o Huambo instalando o seu Quartel-General em Nova Lisboa, e FNLA para o Norte com um Quartel-General avançado em Carmona. A ideia de Moscovo era que quando chegasse a data para ser proclamada a independência de Angola, 11 de Novembro, só o MPLA se encontrasse em Luanda, o que contribuiria para o reconhecimento imediato de todos os Países para entrega a este movimento. Contudo a imprevisível queda de Caxito instalou o pânico em Luanda. As populações começam mesmo a debandar pois fala-se na entrada iminente das tropas da FNLA nesta cidade.

Esta intenção podia ter-se tornado realidade se tivesse havido um apoio real, concreto dos EUA. Tal não aconteceu e a vitória que esteve ao nosso alcance, bastava mais um pequeno passo, não foi alcançada.

Entretanto, enquanto nós mantínhamos os nossos efectivos e armamento, chegando a fazer fogo com um morteiro 120 com uma perna do tripé em madeira, 108 novos conselheiros russos chegam a Luanda, mais 18 pilotos de carros de combate, mais 54 instrutores cubanos especiais para estruturar a resistência e. milícias populares, mais agentes do KGB para os serviços de informação e contra informação militar, etc. Aviões Antonov movimentam esta gente fazendo voos constantes entre Luanda, Brazaville e Ponta Negra. A este porto continuam a chegar camiões com mísseis 122 mm, canhões, morteiros, canhões sem recuo, carros de reconhecimento. Ia ter início a contra-ofensiva em força do MPLA. À FNLA e a nós, só restava a retirada. A guerra e os sonhos duma terra prometida estavam perdidos. Nada mais havia a fazer. (Ler: A batalha de Luanda? Uma históriua mal contada.

Dias depois com as lágrimas nos olhos, dirigi-me ao avião que de Kinshasa me traria de volta a Portugal. Sabia que jamais iria voltar. Lembrei-me de todos os amigos e camaradas de armas que tinham tombado. Lembrei-me daqueles que ficavam, e que em mim tinham confiado, acreditando na esperança que lhes tinha incutido. Era uma sensação de desconforto, como que de traição e conivência com a covardia, já que a coragem não tinha de ficar, e com eles encarar a morte que se antevia e avizinhava.

Como era possível apregoar-se a liberdade, a defesa dos oprimidos, e cantar-se a ignomínia, a falsidade e a traição?

O avião levanta voo. Tinha-se gorado a última tentativa.