Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Sucessão. Com a morte do primeiro presidente angolano, Agostinho Neto (ao centro), em finais de 1979, José Eduardo dos Santos (à direita) ascende tanto à liderança do MPLA como à chefia do Estado. Engenheiro de petróleos formado na União Soviética, Eduardo dos Santos toma-se assim, aos 37 anos, no homem forte de Angola. Antigo membro da guerrilha, foi também ministro das Relações Exteriores.


(Foto DN)

Angola. No poder desde 1979, o Presidente angolano vai ser candidato à sua própria sucessão. Será a segunda vez que vai a votos.

Terceiro fôlego de Eduardo dos Santos

Sucedeu a Agostinho Neto, derrotou Jonas Savimbi e quer continuar Presidente após 2009

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Foi o secretário-geral do MPLA, Julião Mateus Paulo, mais conhecido como "Dino Matrosse", quem anunciou na quarta-feira que José Eduardo dos Santos será "o candidato natural e único" do MPLA nas presidenciais previstas para o próximo ano. Chegado ao poder em 1979, nos tempos da República Popular, o engenheiro de petróleos foi depois a votos em 1992, numas eleições marcadas pelo clima de guerra civil, e procura agora nova confirmação num cargo que ocupa há três décadas.


(Foto DN)

Campanha-I. Graças aos Acordos de Bicesse, patrocinados por Portugal, Angola vive um momento de paz relativa em 1992 e realizam-se eleições legislativas e presidenciais. MPLA e Eduardo dos Santos vencem, mas UNITA regressa à guerrilha e segunda volta eleitoral nunca se realizará.

Líderes mais antigos em África são já poucos, se bem que no continente esteja o recordista mundial, Ornar Bongo, do Gabão, no poder desde 1967. A recandidatura de Eduardo dos Santos - que em 1992 não viu confirmado o seu triunfo numa segunda volta porque a UNTTA de Jonas Savimbi regressou à guerrilha depois de assassinados vários dos seus dirigentes em Luanda - contraria os rumores sobre o seu estado de saúde, mas mostra igualmente não haver ainda um sucessor para este homem que em 2009 fará 67 anos. E persistem dúvidas sobre se a eleição será por voto popular ou na Assembleia, onde o MPLA conta 191 dos 220 deputados.


(Foto DN)

Campanha -II. Após 16 anos de espera, angolanos voltam a ser chamados às urnas em Setembro de 2008. Durante a campanha para as legislativas, Eduardo dos Santos, e a mulher Ana Paula dos Santos, participam em vários comícios, apelando ao voto no seu MPLA. O crescimento económico dos pós-guerra (a morte de Savimbi em 2002 pôs fim ao conflito) favorece o partido no poder.

"Dino Matrosse" negou que o Presidente defenda a segunda opção, esclarecendo que a iniciativa de mudança constitucional nesse sentido foi apresentada por um pequeno partido. As legislativas de Setembro mostraram a enorme influência do MPLA, que obteve 8l%, e a diluição da base de apoio da UNITA desde a morte de Savimbi. Mas um relatório dos observadores da União Europeia fala de falta de transparência e de problemas de organização durante as eleições. Também o sindicato angolano dos jornalistas criticou a parcialidade dos media estatais e apelou a maior transparência.

O triunfo do MPLA pode ser entendido como natural tendo em conta que os dinheiros do petróleo alimentam uma enorme militância. E o crescimento económico perto dos 20% anuais também ajudou ao resultado do partido do Governo apesar das constantes denúncias do corrupção e de 70% dos angolanos viverem com menos de dois euros por dia. •