Domigo, 24 de Agosto de 2008

Angola. Para os ex-combatentes da UNITA, mesmo seis nos após o fim da guerra civil, a paz ainda não chegou. Apesar da vaga de construção que varre o país, estes homens disseram à Lusa viveram com dificuldades porque apesar de terem recebido campos de cultivo, sentem-se pouco apoiados.

Construir o espírito é mais difícil que construir estradas


(Foto DN)

Ex-combatentes da UNITA dizem que ainda não há paz

HENRIQUE BOTEQUILHA. Bailundo

Seis anos passados sobre o fim da guerra civil angolana, ex-militares da UNITA consideram que, apesar de as armas já se terem calado, a paz ainda não foi alcançada porque falta "re-construir o homem". "É preciso trabalhar no sentido dos espíritos porque construir o homem é mais difícil do que construir as estradas", afirma Armindo Cassoma, 54 anos.

Armindo Cassoma reside no Bailundo, província do Huambo, e passou quase metade da sua vida na guerra mais longa do continente africano. Tal como outros ex-combatentes da UNITA que aceitaram um encontro no Bailundo com a Agência Lusa, ele vê o esforço da reconstrução avançar em forma de asfalto e betão à localidade que ainda há três anos era pouco mais do que uma cidade morta. No entanto, os velhos militares não se sentem ainda totalmente identificados com o pós-guerra que, para eles, não é o mesmo do que a paz.

O que é a paz? "É a cessação das hostilidades", começa por responder, rápido, Cassoma. Mas, segundo o veterano, é muito mais:" É a construção do homem e nós estamos a deixar a construção do homem para trás." O ponto do ex-militar está na oposição entre a construção (física) vertiginosa do país, quando passado tanto tempo de conflitos, "é a mente do homem que está destruída".

"A paz que queremos não é a dos conflitos mas a da tranquilidade do homem", diz Malaquias Estêvão, 48 anos, mais de 30 na guerra. "A paz já está, mas o homem precisa que seja abraçado, a paz de construir as casas não chega", afirma. "A paz das estradas não é a nossa." O grupo de veteranos que recebe a Lusa no Bailundo queixa-se de viver com dificuldades. Acabou a guerra, tiraram-lhes as armas e deram-lhes o campo como alternativa.

Ex-combatentes dizem que voto é a sua nova arma

O Estado incentivou e subsidiou a reintegração dos combatentes na vida civil, organizações angolanas e internacionais apoiaram este processo. No entanto, os ex-combatentes continuam a sentir-se sós. Apesar de o mundo parecer não se ter esquecido destes veteranos, eles pedem que a comunidade internacional reforce os seus financiamentos para que eles alcancem a sua paz.

"As casas não têm nada, as crianças dormem fora, essa não é a nossa paz", afirma Malaquias Estêvão. "A nossa crise é mais alimentar. A paz é alimentos em casa, ver filhos estudar à vontade, a paz é a alegria em casa", diz ainda.

Os ex-soldados receberam juntas de bois, mas dizem que vários animais morreram. Foram beneficiados com sementes e adubos, mas lembram que sem fertilizantes trabalham muito e colhem pouco, apon-

tando casos de famílias que não conseguem ter duas refeições num dia.

Velhos e cansados, queixam-se também do apoio médico, que embora exista, não é acompanhado por comparticipações nos medicamentos: "Será que não há capacidade do Estado fazer receitas para o povo?" questiona Horácio Cales, 65 anos, que fez o pleno da guerra, contra a potência colonial, e da guerra civil.

Por fim, estes ex-combatentes da UNITA dizem ainda que oficiais superiores já foram abrangidos pela caixa social mas eles não: "Isso está a criar desrespeito total no seio dos militares, acusa Cassoma.

As hostilidades acabaram, a paz ainda não chegou. Mas todos os velhos soldados da UNITA dizem-se indisponíveis para voltar aos combates e, palavra de Cassoma, "a reconciliação é um facto". A sua arma agora, diz, é o voto.

"A importância do voto é permitir ao povo eleger quem venha a velar pelos seus problemas sociais", descreve Malaquias Estêvão.

Todos os países que reinam com democracia crescem melhor", assinala Ruben Ezequias, 50 anos, 17 na guerra. "Que o nosso país faça a mesma coisa." •