Domingo_26 de Agosto de 2012

Unita na rua por eleições “transparentes”

Angola. Manifestação em Luanda juntou milhares de pessoas descontentes com problemas nas eleições de dia 31

LUÍS NAVES

OBSERVADORES
'Jornal de Angola' critica Estados Unidos

O jornal de Angola (governamental) atacou em editorial o embaixador americano, após este ter divulgado um comunicado onde se pede que os observadores eleitorais sejam credenciados de imediato, nomeadamente os da sociedade civil angolana. Este incidente sugere que Washington não verá com bons olhos eleições demasiado fraudulentas. A questão dos observadores promete ser polémica, pois foram credenciados poucos diplomatas ocidentais e, sobretudo, poucos angolanos para a tarefa, apesar de haver muitas candidaturas de organizações Independentes

A UNITA, maior partido da oposição em Angola, realizou ontem manifestações em todo o país, em defesa de "eleições livres". No protesto de Luanda, que juntou largos milhares de pessoas, convergiram vários protestos, incluindo dos antigos combatentes sem direito à previdência do Ministério da Defesa. A manifestação inicial dos ex-militares não tinha autorização.

As tensões do descontentamento surgem a uma semana das eleições gerais angolanas, marcadas para dia 31. Da lista partidária que vencer as eleições sairá o Presidente da República, certamente José Eduardo dos Santos, que lidera o regime angolano desde 1979 e é o primeiro nome das listas do MPLA, o partido no poder.

A UNTTA entregou entretanto à Comissão Nacional Eleitoral (CNE) um memorando "sobre desvios à lei", mas o documento foi recusado. A oposição acusa o partido no poder de controlar a composição das mesas de voto, mas também alega que há irregularidades com os cadernos eleitorais e faltam cartões para os delegados partidários. A oposição contesta o processamento previsto para as atas-síntese nas assembleias de voto, que lança dúvidas sobre a contagem.

Ontem, na manifestação de Luanda, o líder da UNTTA, Isaías Samakuva, defendeu o adiamento das eleições, se isso evitar as irregularidades. Na sua intervenção, Samakuva criticou a União Europeia por não enviar observadores para Angola.

Em 2008, a UNITA teve apenas 10% dos votos, mas agora os seus dirigentes dizem ter mais confiança, devido à elevada mobilização das suas recentes manifestações. No entanto, em privado, a oposição sabe que o seu resultado será o que o MPLA permitir.

O presidente José Eduardo dos Santos está em campanha no interior, onde reconheceu a necessidade de apoiar os antigos combatentes. O MPLA tem baseado a campanha no desenvolvimento criado pelas novas infra estruturas. O Jornal de Angola (governamental) descrevia o comício de anteontem do MPLA no Lubango usando termos como "apoteose" e "glória".

A questão da transparência preocupa os restantes partidos, nomeadamente o Partido da Renovação Social (PRS), de Eduardo Kuangana, formação federalista com 6 deputados eleitos, mas também um novo partido, a Convergência Ampla da Salvação de Angola CASA), a dissidência da UNTIA liderada por Abel Chivukuvuku, que pode tirar votos à formação de Samakuva.