Autor: José Milhazes
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Os combatentes que nunca existiram

Àqueles que desejarem saber detalhadamente o que se passou acerca da presença de militares da antiga URSS em Angola, sugerimos a leitura atenta deste excelente livro. Como o livro tem copyright mas pelo seu conteúdo polémico certamente não poderá ser vendido em Angola por isso, solicitamos a benevolência do autor e da editora pela transcrição que fizemos de partes do texto para dar conhecimento aos angolanos dos factos reais. Desde já os nossos agradecimentos. As partes do texto em "bold" são da nossa autoria para chamar a atenção das partes mais polémicas.

Moscovo considerava ser necessário tomar medidas complementares para impedir o enfraquecimento da capacidade de defesa de Angola à medida que as tropas cubanas abandonavam o país e ia ao encontro de pedidos de rearmamento, enviados por José Eduardo dos Santos. Foi decidido, por isso, realizar um encontro trilateral (URSS, Angola e Cuba), em Fevereiro e Março de 1989, mas, ainda antes dele, as autoridades soviéticas apressaram-se a acalmar possíveis receios do dirigente angolano.

A 31 de Janeiro de 1989, o embaixador soviético em Luanda recebeu as seguintes instruções: «Visite, juntamente com o Principal Conselheiro Militar, o Presidente de Angola, J.E. dos Santos, ou outra pessoa que seja encarregada de o receber e, baseando-se nas instruções, comunique o seguinte. Os pedidos sobre a compensação através de envios da União Soviética para Cuba de armamentos que poderão ser deixados pelas forças armadas cubanas quando da sua saída de Angola, bem como sobre o fornecimento complementar de armamentos, munições e tecnologia militar a Angola, estão a ser atentamente estudados...»

Dados oficiais citados pela União de Veteranos de Angola mostram que, nesse mesmo período, morreram em território angolano 54 cidadãos soviéticos, nomeadamente 45 oficiais, 5 alferes, dois soldados, dois funcionários civis, tendo dez ficado feridos. Mas os membros dessa organização não acreditam que o número de baixas tenha ficado por aí: «Esses dados não encaixam com a intensidade das acções militares e com o grau de envolvimento nelas dos nossos conselheiros e especialistas militares. Por isso, há razões para considerar que as perdas soviéticas em Angola foram bem maiores. Quanto? Isso é ainda preciso esclarecer, visto que os documentos dos arquivos correspondentes continuam a ser secretos.»

A jornalista Tatiana Chevliakova revela números avançados pelo coronel na reserva Victor Negru, que prestou serviço militar nos fuzileiros navais em Angola: «Considera-se que, no período até 1991, morreram em África, em combate ou devido a ferimentos e doenças, 2454 cidadãos soviéticos, nomeadamente 250 oficiais, 565 cabos, 1300 praças, os restantes eram civis, e cerca de sete mil foram feridos. Porém, estes dados estão longe de corresponder à intensidade das acções militares e ao nível de envolvimento das tropas soviéticas nelas. Por isso, existem fundamentos para considerar que as suas baixas foram bem mais elevadas.»

A falta de preparação para combater em África e o desconhecimento das realidades locais foram duas causas das baixas entre os conselheiros e especialistas soviéticos. Vassili Lavreniuk, oficial soviético que prestou serviço militar em Angola entre 1983 e 1986, escreveu: «O que mais me espantava era o facto de os nossos homens não estarem prontos para a guerra, conhecerem mal a situação nesse país africano. Pior ainda, nas mais altas esferas, em Moscovo, não compreendiam o que se passava em Angola. Tínhamos pela frente um adversário sério... Recordo o seguinte caso. Em 1984, numa das províncias centrais, os combatentes da UNITA derrubaram um Antonov-21. Morreram 11 pessoas: os membros da tripulação e os passageiros. De Moscovo foi enviada uma comissão da aviação militar de transporte, dirigida por um general-tenente, para investigar as causas da perda do avião.

Eu, na época capitão, tal como muitos meus camaradas, compreendia essas «causas»: a guerra. A região da queda do avião era controlada por bandos da UNITA. E, não obstante, a comissão, dirigida pelo «hóspede moscovita», decidiu voar toda para a região e compreender o que se passou no local da tragédia. Foram em dois helicópteros sem qualquer apoio militar e sem o respeito pelas normas de segurança. Como resultado, o helicóptero Mi-8, onde ia um meu camarada de Lugansk, o técnico de bordo e primeiro tenente Degtuiar, foi abatido pelos homens da UNITA quando se aproximava do local. Os três membros da tripulação morreram.

Depois disso, foi necessário montar uma operação militar especial, enviar para a selva um batalhão cubano e, sacrificando mais de uma dezena de aliados nossos, finalmente, chegar ao local onde caiu o helicóptero. Os restos mortais dos tripulantes foram, mais tarde, enviados em caixões de zinco num avião da Aeroflot para a URSS.» Enquanto se encontravam em Angola, os militares soviéticos recebiam salários com que os restantes cidadãos da URSS dificilmente poderiam sonhar. Num país em que, em 1980, o salário médio mensal era de 180 rublos (trezentos dólares ao câmbio oficial e sessenta dólares no mercado negro), os conselheiros militares ganhavam mensalmente cerca três mil rublos em cheques.