5.ABRIL.2006

JOSÉ SÓCRATES EM ANGOLA

O dia do sucesso diplomático que já estava preparado

® Armando Rafael
© Rui Coutinho
Em Luanda


José Sócrates à chegada a Luanda, ontem no final do dia,
com o seu homólogo angolano, Fernando Dias dos Santos (foto DN)

O primeiro ministro português, José Sócrates, que ontem chegou a Luanda ao fim da tarde, será hoje recebido pelo Presidente José Eduardo dos Santos. Um sinal da importância que as autoridades angolanas querem dar a esta visita, e à qual Portugal irá responder, anunciando pacotes de ajuda a quem pretende exportar ou investir em Angola.

Razões mais do que suficientes para se estar atento ao encontro entre Sócrates e o Presidente angolano, relativamente ao qual parece existir uma grande expectativa da parte portuguesa. E, aparentemente, com razão. Normalmente, Eduardo dos Santos, que acumula a presidência da República com a chefia do Governo, só aparece no final das visitas, remetendo tudo para o primeiro-ministro, Fernando Dias dos Santos ("Nandó"), cargo que em Angola corresponde a uma espécie de "primus inter pares".

Só que desta vez, e ao contrário do que sucedeu com António Guterres e Durão Barroso, a visita de Sócrates abre logo com um encontro matinal com o Presidente angolano, sendo que a primeira parte das conversações prevê mesmo uma reunião a sós durante 45 minutos.

Um facto só por si pouco habitual, e que poderá constituir uma boa oportunidade para que Sócrates e Eduardo dos Santos se conheçam e estreitem as suas relações pessoais. Numa altura em que tanto um como outro sabem que estão mais ou menos condenados a entender-se. Isto. se quiserem projectar o relacionamento entre Portugal e Angola nos próximos anos.

E, a avaliar pela forma como a visita foi preparada, tudo indica que essa é também a vontade do primeiro-ministro português e do Presidente angolano. Ao ponto de ambos se terem empenhado para que os dois Estados pudessem aproveitar esta oportunidade para criar um clima de confiança, que lhes permitisse ultrapassar todas as expectativas. Talvez, assim, se compreenda melhor o ambiente que os colaborado rés mais próximos de Sócrates se empenharam em criar durante o trajecto de Lisboa a Luanda, contando, para isso, com a ajuda do próprio primeiro-ministro, que não escondia o optimismo nem a aposta .no encontro com Eduardo dos Santos.

José Sócrates encontra-se hoje a sós com José Eduardo dos Santos e deve participar numa conferência de imprensa conjunta

O dia do primeiro-ministro português em Luanda é hoje dedicado sobretudo a encontros políticos.
A parte de leão da visita, económica, está guardada para amanhã

José Sócrates faz "jogging" ao longo da marginal de Luanda

Quem chegasse ontem à sala VIP da Portela, quando Sócrates se preparava para embarcar para Luanda, dificilmente poderia deixar de reparar na presença dos Da Weasel ou da actriz Sílvia Rizzo, no meio de tantos empresários, gestores e banqueiros. Pacman e seus pares iam actuar num concerto com o angolano Paulo Flores, junto à baia da capital angolana. E Sílvia Rizzo está em Angola na sua qualidade de produtora de espectáculos, e não como actriz. O que explica também a presença da fadista Mafalda Arnauth entre a comitiva, à semelhança do que já sucedeu noutras ocasiões.

Mas o ar surpreendido de quem não esperava ver ontem os Da Weasel, Sílvia Rizzo ou Mafalda Arnauth na comitiva de Sócrates, não será nada, comparado com o dos angolanos que hoje de manhã, bem cedo, se cruzarem com o primeiro-ministro a fazer jogging na marginal de Luanda. Membro ilustre do "Clube do Stress", pela qual costuma correr a meia-maratona de Lisboa, José Sócrates não prescinde do seu jogging, seja em que circunstâncias for. Sobretudo, se tiver alguém como quem correr, como é o caso. Entre as sete dezenas de empresários e gestores que o acompanham, há um, pelo menos um, que também não falha a meia-maratona, sendo, também ele, militante do "Clube do Stress": Tomás Leiria Pinto, antigo chefe de gabinete de Jorge Sampaio na Câmara Municipal de Lisboa, e que aqui se encontra em representação da CP/EMEF.

"Os sucessos diplomáticos preparam-se antes", explicou Sócrates, deixando pairar no ar a ideia de que poderá haver hoje mais qualquer coisa que a assinatura dos acordos institucionais ou a confirmação das novas linhas de crédito que Portugal se preparar para conceder a quem queira exportar para Angola ou investir neste país, onde o risco ainda é bastante elevado.

Para incentivar as exportações, Lisboa vai avançar com uma nova linha de 300 milhões, guardando 10O milhões para cobrir os riscos de quem pretende aproveitar o "boom" da economia angolana. Números e valores que não deixarão de pesar nas opções dos empresários. Dos que acompanham a visita, mas, sobretudo, daqueles que não tiveram oportunidade de ser incluídos na comitiva. Mesmo que o lado angolano coloque um enfoque muito especial nos 17 milhões previstos para o pacote de ajuda ao desenvolvimento, nome que designa os projectos de apoio à formação de quadros, e que terão uma incidência muito especial na área da saúde e da educação.

Seja como for, o facto é que grande parte do sucesso ou insucesso da visita a Angola depende do resultado deste encontro com Eduardo dos Santos, estando até previsto que o presidente angolano participe hoje numa conferência de imprensa conjunta. O que é absolutamente inédito, segundo os padrões locais.

E o primeiro-ministro sabe disso. Como também sabe que em Angola tudo começa e acaba em Eduardo dos Santos. Daí que Sócrates se mostrasse ontem tão empenhado em estabelecer um novo quadro de relacionamento (político e económico) com o Presidente angolano.

Se tudo correr bem, o primeiro-ministro português bem poderá virar-se para o Presidente angolano e reivindicar que ambos já fizeram o que lhes era exigido. A partir daí, será com as empresas e os empresários.|