DN.jpg (3296 bytes) Terça feira, 10 de Março de 2008.

Visita. 0 Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, inicia hoje uma visita de dois dias ao nosso país, que tem como principal objectivo o desenvolvimento dos laços económicos entre os dois países, num quadro de boas relações políticas


(foto DN)

Relações económicas na agenda de Angola

Igreja alerta para o antigo problema dos vistos

ANA TOMÂS RIBEIRO

O desenvolvimento das relações económicas entre Angola e Portugal é um dos principais objectivos da primeira visita oficial do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, a Portugal, disseram ao DN fontes angolanas e portuguesas. Uma visita que se inicia hoje e se prolonga até amanhã, no decurso da qual será assinado um acordo entre a Caixa Geral de Depósitos e a petrolífera angolana Sonangol para a criação de um banco luso-angolano de investimento, tal como o DN avançou na sua edição de ontem.

Um projecto participado em partes iguais pelas duas empresas, que poderá dar um novo impulso aos investimentos nacionais naquele pais, bem como aos de empresários angolanos em Portugal, defendem fontes próximas do Governo de Luanda.

"Há uma estratégia politica e económica de Angola de investir em Portugal e de continuar a fazer aquisições de participações financeiras em empresas portuguesas, tal como os portugueses investem neste pais. Mas essa estratégia passará agora a contar com a chancela politica do presidente Eduardo dos Santos", afirmou ao DN Alves da Rocha, professor na Universidade Católica de Luanda e assessor económico do Ministério do Planeamento de Angola.

Assim, para aquele responsável, o principal motivo da visita de Eduardo dos Santos a Portugal é o desenvolvimento das relações económicas entre os dois países. Opinião partilhada também por Lopo do Nascimento, ex-secretârio-geral do MPLA, e membro de vários governos de Angola. "Esta visita é um sinal de que as relações entre os dois países são boas." Agora, "é num quadro de relações estáveis que se deve ver o que é preciso melhorar" reconhecendo que nos últimos anos já "houve um bom aprofundamento das relações económicas entre Portugal e Angola".

Apesar disto ainda subsistem velhos problemas, entre eles o da morosidade na emissão dos vistos de residência para cidadãos portugueses que queiram ir trabalhar para Angola. Por isso, na véspera do inicio da visita do Presidente angolano, a Igreja chama a atenção para o problema. "Gostaria que a emissão de vistos de residência para que missionários e leigos possam ir trabalhar para Angola seja ultrapassada", disse ontem à Lusa D. António Couto. O prelado, que é também bispo auxiliar de Braga, explicou que "há leigos que pedem licença sem vencimento de um ano no seu local de trabalho para irem para Angola, passa-se o ano e eles não entram em Angola porque não têm visto de residência". Aproveitando a vinda de Eduardo dos Santos a Lisboa, a Amnistia Internacional, por seu lado, lembra que em Angola continuam a existir "atropelos aos direitos humanos".

Criticas que certamente já são esperadas pela comitiva angolana. Hoje, José Eduardo dos Santos vai ao Parlamento, depois de ser recebido por Cavaco Silva em Belém, mas na recepção concedida por Jaime Gama não contará com a presença de deputados do BE, que alegam motivos ideológicos para falhar o encontro.

No segundo dia da visita, Eduardo dos Santos encontra-se com José Sócrates. De fora da agenda ficou a comunidade angolana em Portugal.

Portugal em Angola

Em 2008, o investimento directo de Portugal em Angola não ultrapassou os 757,7 milhões de euros, de acordo com dados do Banco de Portugal. Os projectos portugueses distribuem-se por diversos sectores.

Energia A Galp tem participações em quatro blocos petrolíferos em Angola e de um deles já retira 17 mil barris de petróleo por dia. Além disso, este na distribuição de combustíveis e tem projectos para expandira sua presença naquele mercado.

Construção A Mota-Engil esta presente não só neste sector mas em vários, entre eles os de ambiente e transportes. Mas não é a única.

Banca BES, BPI e Millennium bcp são apenas alguns dos grupos financeiros nacionais com grandes interesses em Angola.

Angola em Portugal

0 investimento directo de Angola em Portugal atingiu, em 2008, os 59,1 milhões de euros, o que representa um crescimento significativo face a 2007, em que aquele valor não ultrapassou os 13,2 milhões, segundo dados do Banco de Portugal.

Energia Entre os investimentos mais relevantes conta-se a participação de cerca de 43% que a Sonangol tem na Amorim Energia, empresa que detém 33,34% da Galp.

Banca É neste sector que a presença de capitais angolanos é mais forte. A Sonangol detém cerca de 10% do Millennium bcp e a Santoro Financial Holding, de Isabel dos Santos. A filha do Presidente angolano tem uma participação de 9,6% no BPI. Além disso, a mesma holding detém 25% do banco BIC de Angola, que já conta com uma filial em Lisboa.

8 perguntas a...

Jorge Coelho
Presidente  do Conselho Executivo da Mota Engil

"Em Angola somos angolanos"

0 fim da guerra civil fez aumentar muito os negócios da Mota-Engil em Angola?

Ai uns 200%. À volta de 300 milhões de dólares por ano.

É fácil negociar em Angola?

Nos temos uma máxima na empresa: em cada pais assumir a cultura do pais onde estamos. Em Angola somos angolanos.

Mas é mais fácil ou mais difícil do que noutros países?

Nem mais fácil nem mais difícil. Operamos num pais soberano com um Governo legitimo, com as suas leis e as suas regras, que temos de cumprir. Temo-nos dado bem com essa politica.

Alguma vez Angola exigiu ter capital na sua empresa como contrapartida dos investimentos?

A politica económica de Angola - e nós compreendemos isso – passa por haver uma participação de interesses angolanos na vida económica do pais. Compreendemos e estamos a adaptarmo-nos.

É-lhe indiferente a natureza do regime em que opera?

O fundamental é que existam leis e que se respeitem as leis. não temos razão de queixa.

E a corrupção, sente?

Existe, como em muitos países. Em Portugal também há. Angola esta bem melhor que esteve no passado.

Como qualifica o regime?

Tem um Governo legitimo saído de eleições livres.

Cá chamamos-lhe democracias. É assim que qualificaria?

Exactamente. Com as características próprias dos países africanos não é um regime perfeito mas há um esforço grande de uma nova geração para melhorar o pais.- J.P.H.

AGENDA DA VISITA

HOJE

11.30 - Presidente da Republica depõe uma coroa de flores no tumulo de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos.

12.25 - Encontro do Presidente português com o seu homólogo angolano no Palácio de Belém. Segue-se almoço.

16.10 - Presidente de Angola recebido na Assembleia da Republica por Jaime Gama e delegações dos partidos.

16.45-Visita à sede da CPLP.

20.50 - Cavaco Silva oferece banquete no Palácio da Ajuda.

AMANHÃ

09.00 - Encontro do Presidente angolano como primeiro-ministro, José Sócrates, na residência oficial de são Bento. Seguem-se declarações à comunicação social.

11.00 - Partida do Presidente angolano de regresso a Luanda.

Potência regional em ascensão

África. Angolanos procuram ganhar influência face a sul-africanos

Ao longo dos anos, muitos foram os especialistas que sublinharam o potencial que Angola tinha para ser a potência de grande influência na África Austral. Tinha petróleo, diamantes, ouro, terra arável, saídas para o mar. Faltava apenas acabar com a guerra civil.

Esta acabou em 2002, com a morte do líder da União Nacional para a Independência Total de Angola, UNITA, Jonas Savimbi. E a vitória do Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, do actual Chefe do Estado angolano, José Eduardo dos Santos. A viver em paz, o pais começou, assim, a explorar o potencial. já ultrapassou a Nigéria como maior produtor de petróleo, tornou-se importante parceiro comercial da China, mas não deixou por isso de piscar o olho à Europa. A provar isso esta a recente visita de Eduardo dos Santos à Alemanha.

Tentando resistir à influência da Afinca do Sul, a potência actual, Luanda, ganha peso na região: participou nas negociações de partilha de poder no Zimbabué e recusou entrar unilateralmente numa nova guerra regional na Republica Democrática do Congo. Além disso é notória a sua influência nos países da CPLP: o eixo Angola-Brasil é de ter em atenção.

Mas a paz actual é vista como algo inquietante: ainda não houve eleições presidenciais, ONG falou em violações de direitos humanos, alguns cabindas estão descontentes com o acordo obtido.- P.V.