Especial Sábado 21 de Março de 2008

Visita. Bento XVI retribui primeira visita de um embaixador da África Negra a Roma, a do angolano António Manuel ne Vunda, em 1608. O Presidente angolano referiu a velha ligação histórica: Angola e Igreja Católica, duas velhas conhecidas. Em Luanda, onde foi recebido por José Eduardo dos Santos, pediu o fim da corrupção.

BENTO XVI RECEBE UMA BASÍLICA COMO PRESENTE DOS ANGOLANOS


FERREIRA FERNANDES
           (Foto DN)

Em Luanda

O padre Aurélio Bemba acabou de se ordenar há um mês. A irmã Maria de Fátima está na igreja que foi sempre a sua, onde se baptizou em 1935, e à qual se dedica desde que, adolescente, se encantou com uma missa dos capuchinhos. Ele tem jeans e uma T-shirt azul eléctrica marcada no peito com pins metálicos dourados que dizem "V.ROM". Alguma sigla em latim? Ele ri: não, comprou-a na rua, gostou. A irmãzinha olha-o como uma velha tia. No recreio onde estão, há um cartaz fotocopiado: "Estão suspensas as actividades desportivas no pátio e no Boulevard Bento XVI, para poder manter limpos os ambientes para a visita do Papa à nossa paróquia."

É quase um pecado suspender as actividades desportivas naquele pátio. Ali, aprendeu a jogar futebol Jacinto João, o maior driblador da história do futebol português, que passou pelo Benfica nos anos 60 e tem estátua no estádio do Vitória de Setúbal. Ali era o campo pelado do São Paulo, anexo à velha igreja e ao lar dos frades capuchinhos, os das sandálias e batina de castanho grosseiro. A nova igreja (não tanto assim: é de 1959, erguida ao lado, é a que hoje vai receber o Papa Bento XVI que ontem chegou a Luanda.

Bento XVI vem retribuir uma visita. Na verdade, vem retribuir mais uma vez. Já João Paulo II estivera em Angola, em 1992, vivia o país um intervalo de paz de uma guerra civil que durou quase trinta anos. Dessa vez, João Paulo II chegou pelo cacimbo, antes do Setembro das primeiras eleições, desceu as escadas do avião e beijou o solo. "Agora, se o Papa quiser ajoelhar e beijar o chão lhe agarro, traz azar", é uma anedota que corre em Luanda. Há 17 anos, depois daquela visita papal, seguiram-se eleições turbulentas e Angola recaiu na guerra que durou mais uma década até à morte de Savimbi. Hoje, é pouco provável que o MPLA, partido do Governo, e a UNITA, de amansada oposição no Parlamento, voltem as armas. Mas a piada corre porque o luandense prefere provocar o destino a perder a oportunidade de uma anedota.

Em todo o caso, Bento XVI retribui uma visita. Em 1608, o Papa Paulo V recebeu António Manuel ne Vunda, marquês do Congo, do reino que é hoje província do Norte de Angola - a primeira embaixada da África Negra recebida em Roma. António ne Vunda ia a mando do rei Afonso I bisneto desse Afonso I que os portugueses encontram em 1491 na capital do reino, em Mbanza Congo, evangelizaram e se tomou o maior missionário entre o seu povo. Igreja Católica e Angola, duas velhas conhecidas, apresentadas uma a outra há mais de meio milénio.

Dai a honra da repetição de visita papal em curto prazo, além dos 8,6 milhões de católicos fazerem mais de metade da população (55,6%, segundo dados do Vaticano), facto raro em África. Para o Vaticano, Angola pode ser a melhor ponte para o único continente (tirando a Oceânia) em que o catolicismo cresce mais (3, l %) do que o crescimento da população (2.1%,dadosde2007).

Angola ser ponte é o que está habituada. Há 17 anos, recebeu este elogio de João Paulo II precisamente em Mbanza Congo: "Angola tem quinhentos anos de encontro de culturas. Isso faz do vosso povo um povo distinto." O angolano, e o luandense em especial, tem um jeito seu de ficar dengoso quando lhe passam a mão pelo pêlo. O Papa elogiou, o Papa seguinte recebeu prenda.

Destapar a maqueta

Ontem, Bento XVI foi ao palácio presidencial ao fim da tarde. nessa Cidade Alta onde se guardam os últimos sobrados do séc. XVIII, que fazem também de Luanda uma cidade distinta em África. No salão de honra, o Presidente destapou uma maqueta, enquanto os assessores distribuíam um folheto prateado, em português e italiano.com os desenhos da nova basílica da Nossa Senhora da Muxima, oferta do Estado angolano à principal religião do seu povo.

Em Março do ano passado, o arquitecto luso-angolano Júlio Quaresma recebeu um emissário de José Eduardo dos Santos. Quaresma tem atelier em Lisboa, na Rua Braancamp, mas nasceu em Saurimo, no Leste de Angola, bisneto de madeirenses que fundaram Sá da Bandeira, hoje Lubango. Convidaram-no a fazer uma basílica no maior lugar de culto angolano, na Muxima, na margem esquerda do rio Quanza, a 130 km de Luanda.

Tinha de ser coisa em grande - a Muxima recebe nas festas da Nossa Senhora Conceição, em Agosto, 150 mil peregrinos – tinha de ter prazo de construção breve, quatro anos, e tinha de haver já alguma coisa para mostrar na visita do Papa, a começos de 2009. Quanto ao resto, que não se preocupasse, dinheiro havia a construção da basílica e a requalificação de toda a zona, com a velha igreja de 1645, o forte português e os belos morros na curva do rio, poderiam ficar por cem milhões de dólares.

Ontem, quando o Papa Bento XVI viu a maqueta, o Sol punha-se por trás da Cidade Alta, para o lado da Samba, dourando as ilhas, a de Luanda, a do Mussulo, línguas que apontam a Norte, empurradas pela corrente e trazidas da barra do Quanza. A meados do séc. XVII os portugueses, que tiveram de fugir da sua cidade, ocupada pelos holandeses .fizeram o percurso inverso. Subiram o rio e nas terras da Kissama fizeram um forte e uma igreja, ambos de paredes grossas, para durar. Quando puderam regressar a Luanda, libertada pelos brasileiros comandados por Salvador Correia de Sá, deixaram semente de alguma coisa.

A igreja dedicada à Nossa Senhora da Conceição passou a ser frequentada pelas mulheres que chamaram à santa "Muxima", que em quimbundo quer dizer"coração".Reza-se de braços abertos, de joelhos, e com suficiente retomo para Mamã Muxima se tornar a mais querida santa da Kissama, primeiro, e, depois, de Angola inteira (e já há peregrinos dos dois Congos Brazzavile e Kinshasa). As oferendas trazidas à santa, depois da reza, são levadas em procissão para o sopé do forte. Foi deste lastro, desta inexplicável teia que João Paulo II falou, e o levou a classificar os angolanos - filhos de encontro mais do que secular de "distintos".

Um bairro popular

O bairro de São Paulo que hoje Bento X VI visita é espelho do país feito por aluviões sucessivos. Bairro popular, quem quiser saber o que ele significou para os portugueses de 1940, 50, 60 e 70 tecle as palavras "igreja de São Paulo + Luanda" na Internet e comova-se com as centenas de comentários nos sites. São geralmente de filhos da terra que regam uma saudade de anteontem. "És filho do velho Setas?", "lembras-te» dos montinhos de macãs-da-índia?..."

Lá para trás dos muros em meia-lua do Cemitério Velho, o bairro fez fronteira com os muceques. Essa a linha determinante: entre a cidade e o muceque. Certamente que no tempo colonial a diferença aparente era a da cor mas se havia dois mundos era o dos urbanos e os do mato. Os últimos tinham uma geração para virarem luandenses; exactamente o mesmo que precisavam os colonos portugueses para se tornarem filhos da terra. O bairro de São Paulo era o laboratório dessas transformações.

A irmãzinha Maria de Fátima, de 73 anos, pertence à raça dos eleitos que é luandense há séculos. Ela é Vieira Lopes e Vieira Dias - que como os Van Dunem e os Galiano são castas locais -, ela é de famílias que começaram onde começou Luanda, na ilha do Cabo (onde fica a mais antiga igreja luandense, de 1575), a sua freguesia era a do Carmo (com igreja seiscentista) e veio inaugurar o baptistério da igreja de São Paulo, onde também o Presidente José Eduardo dos Santos se baptizou em 1948. 0 padre Aurélio Bemba, de 35 anos, é filho de camponeses da província do Kwanza Sul e está a transformar-se em luandense.

Em São Paulo, a torre do lar dos capuchinhos tem quatro relógios parados encimados pelas cinco quinas portuguesas. A igreja já não é dos missionários capuchinhos, é dos salesianos e o poder português já se foi. Angola parece deixar tudo passar mas é cadinho. E quem bem percebe isso é a Igreja Católica.*

Papa apela ao fim da corrupção

Recebido por dezenas de milhares de pessoas à chegada a Luanda, o Papa fez um discurso político forte perante as autoridades

O Papa Bento XVI considerou ontem essencial para uma "democracia civil moderna" o "respeito e a promoção dos Direitos Humanos", um "Governo transparente", uma "magistratura independente", uma comunicação social" livre" e "acabar de uma vez por todas com a corrupção". Tudo sem se referir a um país em particular.

Num encontro com as autoridades políticas e civis angolanas e com o corpo diplomático no Palácio Presidencial em Luanda, depois de ter sido recebido por dezenas de milhares de pessoas, o Papa afirmou que "Angola sabe que chegou para África o tempo da esperança".Bento XVI disse aos governantes angolanos que estes são "testemunhas de uma Angola que se levanta" depois de 27 anos de guerra civil que "devastou o país".

"A paz começou a lançar raízes. Trazendo consigo os frutos da estabilidade e da liberdade", disse Bento XVI, considerando "palpáveis" os esforços do Governo de Luanda para "estabelecer as infra-estruturas" e recriar instituições "fundamentais ao progresso e bem-estar da sociedade" que fizeram "voltar a esperança" entre os angolanos.

Bento XVI disse ainda: "Meus amigos, armados de um coração íntegro, magnânimo e compassivo, podereis transformar este continente, libertando o vosso povo do flagelo da avidez, da violência e da desordem, guiando-o pela senda daqueles princípios que são indispensáveis em qualquer democracia civil moderna."*

LUSA


   MANUEL VILAS-BOAS
              (foto DN)

Uma Angola que se levanta

A cidade não mostrou genericamente sinais exteriores da visita do Papa. Apenas no aeroporto se cruzavam as bandeiras guerreiras de Angola com as de amarelo e branco do Vaticano. Apesar disso, o Estado não regateou financiamentos para a visita. A Igreja tomou então as rédeas da operação, tendo daí resultado de início uma "solene" confusão, a ponto de as acreditações para jornalistas terem sido entregues ontem de madrugada horas antes da chegada do Papa. Durante a visita de João Paulo II há 17 anos, que tive o privilégio de seguir, apesar das fragilidades do tempo, o desempenho da organização foi bem melhor.

No Aeroporto 4 de Fevereiro estavam sobretudo mulheres e jovens e tapetes muito cardinalícios. O Presidente da República de Angola tomou pela primeira vez a palavra para saudar o Papa pela capacidade que a Igreja Católica de Angola teve para sustentar no povo a esperança e dizer-lhe que é obra deste Governo, em paz há sete anos, que a reconstrução aconteça.

O Papa respondeu-lhe com um discurso a contestar a lei do mais forte ainda em vigor no continente africano e, metendo o dedo em casa, recordou-lhe que há uma multidão de angolanos que vive abaixo da linha de pobreza absoluta. Esta denúncia é mais urgente do que a qualquer campanha contra a sida.

O Presidente José Eduardo dos Santos voltou a compor-se de charme no Continente africano na sua própria casa no alto da cidade. No discurso ao corpo diplomático, José Eduardo dos Santos fez inúmeras confusões de novo sobre o papel positivo da igreja católica em Angola. Ao ponto de oferecer ao Papa a hipótese de assinar uma concordata a que chamou Acordo Internacional com o Vaticano.

Pede no retomo a promoção do clero angolano em Roma ao mais alto nível, que é, como quem diz, pelo menos mais um cardeal para Angola depois de Alexandre Nascimento, que, por idade, já não pôde eleger Bento XVI.

Na mesma ocasião, Bento XVI fez porventura o discurso mais suculento deste primeiro dia em Luanda ao pedir aos políticos que libertem o continente africano da avidez, da violência e da desordem e que, de uma vez por todas, sejam contra a corrupção.

Aos bispos reunidos na nunciatura, o Papa Ratzinger voltou com o seu tema de eleição: o relativismo. a que chamou difuso, da sociedade moderna, a cultura com forte expressão em Angola e a família, claro, fundada sobre o matrimónio. Não lhe ficou mal a palavra de respeito pelos velhos missionários a entregar a missão à gente da terra. •

Serviço especial DN/TSF