Segunda-feira, 23 de Março de 2008

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Um milhão de angolanos assistiu à "grande missa" celebrada por Bento XVI
(Foto DN)

Papa fala da guerra e recebe presentes sob sol abrasador

 

Visita a Angola. Na véspera do regresso ao Vaticano, Bento XVI condenou uma realidade "demasiado familiar em África". Na "grande missa" recebeu uma cabra, um arco e uma flecha e uma planta do deserto

HELENA TECEDEIRO

Uns passaram a noite na Esplanada de Cimangola, outros partiram de madrugada, a pé ou em camionetas de caixa aberta para assistir à "missa grande" celebrada pelo Papa no terreno de 20 hectares, a 14 quilómetros de Luanda. Com eles levaram presentes - desde um arco e uma flecha a uma cabra e uma planta do deserto. Tudo para receber Bento XVI, que chegaria sob um sol abrasador para alertar para as "consequências terríveis" da guerra.

Durante uma homilia celebrada em conjunto com os bispos da África Austral, foram muitas as referências do Papa ao conflito que durante 27 anos destruiu Angola. "Ódio","vingança"ou "voragem" foram as palavras escolhidas pelo Chefe da Igreja Católica para descrever esta guerra; uma "experiência demasiado familiar em África", como afirmou. Para Bento XVI:" As nuvens do mal obscurecem tragicamente África, incluindo esta amada nação angolana."E acrescentou: "Pensemos no flagelo da guerra, nos frutos terríveis do tribalismo e das rivalidades étnicas, na avidez que corrompe o coração do homem, reduz à escravidão os pobres e priva gerações futuras dos recursos de que terão necessidade para criar uma sociedade justa."


O Papa tentou resistir ao calor.
(Foto DN)

Perante um milhão de pessoas reunidas em Cimangola, o Papa voltou ainda a um assunto que já havia abordado nesta sua primeira visita a África desde que tomou posse em 2005: o aborto. Bento XVI apontou o dedo à "destruição das famílias e à eliminação de vida humanas inocentes por meio do aborto".

E criticando "o insidioso espírito de egoísmo que fecha os indivíduos em si mesmos" e "espezinha os grandes ideais de generosidade e abnegação". Bento XVI pediu aos fiéis angolanos que "pratiquem a verdade" porque sabem "por amarga experiência que o trabalho de reconstrução é penosamente lento e duro."

Elogio às mulheres

Terminada a homilia, durante a qual o Papa recordou ainda os dois mortos da véspera, esmagados ao tentarem entrar no estádio dos Coqueiros, a multidão debandou, espalhando o caos pelas ruas vizinhas à Esplanada da Cimangola. Carros e gentes encheram as estradas, num regresso frenético a casa.

À tarde, o Papa encontrou-se com mulheres na Igreja de Santo António, em Luanda. E defendeu que são estas quem mantêm a dignidade em situações extremas como a guerra. Bento XVI admitiu, no entanto, que "a História regista quase exclusivamente as conquistas dos homens, quando na realidade uma parte importantíssima se fica a dever a acções determinantes, perseverantes e benéficas realizadas pelas mulheres".

Aclamado por milhares de populares que não quiseram perder mais esta oportunidade de o ver de perto, o Papa foi pressionado a apelar para que a sociedade "reconheça a igualdade de géneros". "A mulher angolana sabe que Bento XVI está com os mais fracos, com os menos favorecidos.com os mais simples", afirmou a porta-voz das mulheres, citada pela Lusa.

Na véspera de regressar ao Vaticano, o Papa explicou ainda que esta sua primeira visita a África serviu "para proclamar uma mensagem de perdão, de esperança e de uma nova vida em Cristo."Para hoje, tem previsto um discurso de despedida antes de embarcar.»

 


     Manuel Vilas-Boas
             (Foto DN)

Mulheres de missão total

Foi uma agitação o dia de ontem dentro e fora de Luanda. A jornada obrigou à deslocação de mais de um milhão de crentes para a zona cinzenta da capital, a Cimangola, parada estrategicamente para que o pó dos cimentos não perturbasse a magna assembleia e o Papa alemão de saúde frágil. Finalmente sentiu-se na liturgia a alma africana: cantos com tambores e metais e as vozes ritmadas. O esplendor do rito do ofertório em que mulheres africanas dançaram de frutos da terra à cabeça. Bento XVI proferiu a sua melhor homilia em Angola. Ergueu como memória a guerra quando se celebrava o dia de oração e sacrifício pela reconciliação nacional.

A tentativa de fuga no regresso atolou-me nos muceques de Luanda de infinita pobreza onde as crianças brincavam na lama que não secou ainda. Comentava com um comum velho jornalista angolano que este percurso devia ser passagem obrigatória do séquito papal, aliviado com o ar condicionado...

De tarde, na Igreja de Santo António, regida pelos Capuchinhos, o Papa teve um encontro muito especial. Já não era a multidão da manhã mas mil mulheres angolanas do movimento PROMAICA - Promoção da Mulher Angolana na Igreja Católica. Foi uma iniciativa do bispo emérito de Benguela, D. Óscar Braga, engenheiro agrónomo e filho de imigrantes portugueses. Hoje, o movimento agrega 71 mil mulheres. Não tendo só tarefas de catequese e evangelização, as mulheres do PROMAICA apostam na formação para a liderança, a eliminação do analfabetismo, discriminação, alcoolismo e violência doméstica. Não tiveram paciência ainda para discutir o sacerdócio feminino, tema tabu no Vaticano. Um comunicado tardio do porta-voz do Papa sobre as mortes e os feridos no estádio dos Coqueiros revelou que há segredos que pecam por não serem revelados a tempo. A organização da visita temeu a desmobilização para a missa de Cimangola .•

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