2009-03-24

Bento XVI falou no tabu da corrupção. E agora?

 

Papa terminou esta terça-feira visita de quatro dias a Angola. Igreja somou pontos

2009-03-24
ALFREDO LEITE, em Luanda


Bento XVI e José Eduardo dos Santos, durante a visita do Papa a Angola:
o Santo Padre aproveitou a oportunidade para falar, em directo, sobre a corrupção naquele país africano.
(Foto JN)
Ver vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=PmcDaporPfI

O Papa Bento XVI abandonou esta terça-feira Luanda após uma visita de quatro dias a Angola que deixou tudo e todos em êxtase.

 No final da segunda etapa da deslocação a África, a alma dos angolanos estará certamente mais fortalecida.

A Igreja angolana somou pontos no contexto africano, nomeadamente com a criação da nova diocese do Namibe. Menos clara foi a resposta das autoridades de Luanda à pretensão dos católicos de abrir a todo o território nacional as emissões da Rádio Ecclesia.

Mas, depois de o Sumo Pontífice ter embarcado no avião da Alitalia de regresso a Roma, muitas coisas permaneceram imutáveis, apesar dos apelos, das palavras de circunstância e, até, das promessas.

O novo 'eldorado' angolano continuará a atrair investidores de muitas latitudes e, só de Portugal, chegam diariamente hordas deles, nos superlotados aviões da TAP. As crianças continuarão a morrer de raiva, embora a estatística não tenha evoluído, quase que por milagre, nos dias de permanência do Papa. Os chineses cruzarão a toda a hora o hall escuro do Hotel Tivoli com o olhar esbugalhado em direcção ao casino. Muitos deles, viajantes ocasionais, terão pago 250 euros por uma noite, num hotel rasca da cidade.

Há, depois, os problemas mais estruturais da sociedade angolana. E esses também não vão mudar. Pelo menos para já. Daí a importância da declaração corajosa do Papa quando, logo no sábado, pediu o fim imediato da corrupção, apelo que reiterou ontem ao deixar o Aeroporto 4 de Fevereiro. Uma declaração que, tal como dois dias antes, estava a ser transmitida em directo pelas televisão e rádio estatais e que, desta forma, terá chegado sem intermediários aos agentes de poder mas, sobretudo, à população angolana.

É que a mensagem da corrupção em Angola (denunciada há vários anos por insuspeitas ONG que estudam o problema e até alguns jornalistas locais que têm pago com penas de prisão a ousadia) não passa o crivo do controlo estatal dos media, sejam eles privatizados ou públicos, mas quase sempre coniventes, quando não mesmo dependentes, das mais altas esferas do Estado.

"Se me permitissem um apelo final", disse Bento XVI antes de embarcar, "seria para pedir que a justa realização das aspirações fundamentais das populações mais necessitadas constitua a preocupação principal de quantos ocupam cargos políticos públicos, visto que a sua intenção, estou certo, é desempenhar a missão recebida não para si mesmo, mas em vista do bem comum".

Ao lado de Joseph Ratzinger, o presidente de Angola ouviu, como todos os angolanos, sem filtro e por duas vezes em três dias, a mensagem papal que, por isso, não poderia ficar sem resposta.

José Eduardo dos Santos comprometeu-se, perante o líder supremo dos católicos, a governar "no respeito pelos direitos humanos, na democracia e na justiça social". As "palavras de apreço, de alento, de esperança e de encorajamento" proferidas pelo santo padre em Luanda incentivam os angolanos, segundo Eduardo dos Santos, a "prosseguir na senda da consolidação da paz e da reconciliação nacional".

Desta forma, a condenação do Vaticano ao uso do preservativo, feita inicialmente nos Camarões (primeira etapa da visita papal), teve menos repercussão em Angola. O assunto não mereceu a mesma veemência do Papa, mesmo durante o encontro com 20 mil jovens católicos no Estádio dos Coqueiros. Uma gigantesca manifestação de fé que ficou manchada pela morte, por esmagamento, de duas jovens e causou dezenas de feridos. O ponto alto do encontro com os fiéis realizou-se anteontem nos arredores de Luanda onde, segundo nota oficial, um milhão de peregrinos escutou o Papa debaixo de um sol abrasador.

Alegria africana impressiona pontífice

De regresso a Roma, a bordo do avião, Bento XVI voltou a dirigir-se aos jornalistas que o acompanham, tal como fizera na viagem de ida para África, então desencadeando a polémica sobre o uso de preservativo. Desta feita, o pontífice católico quis dizer que ficara impressionado pela "cordialidade quase exuberante da alegria africana", lembrou ter ficado "comovido" no encontro com pessoas portadoras de deficiência, ainda nos Camarões, e disse ter rezado e continuar a rezar pelas duas jovens angolanas mortas no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, quando se preparavam para o ver. À chegada ao Vaticano, de helicóptero, não terá ouvido os cerca de 50 activistas contra a sida que se manifestavam na Praça de S. Pedro.