O XILOFONE - MARIMBA

O instrumento musical nativo, porventura mais completo, ou musicalmente mais rico, existente na Província, é o xilofone, conhecido por várias designações banias, conforme os dialectos, mas muito divulgado sob a designação quimbunda de marimba.

Mais ou menos difundido no Norte da Província, tem como centro mais intenso do seu cultivo as regiões do Duque de Bragança, Marimba e Lombe, nas proximidades de Malanje. Seguem-se depois os Bangalas e os Libolos, e há que registar a existência deste idiofone entre os Quiocos do Norte da Lunda, onde é muitas vezes tocado com notável virtuosidade.

A construção do instrumento é feita por mestres especialistas, os quais, por regra, são ou foram antigos tocadores de marimba. Estes xilofones são designados xilofones curvos, por comparação com o xilofone direito, que foi usado em Angola, e ainda hoje aparece nalguns pontos, nomeadamente no Nordeste da Lunda, em poder de Balubas e de alguns Benaluluas.

O xilofone direito é também designado primitivo, o que deixa admitir, para os de forma curva, um passo mais adiantado, construtivo e musical. Os teclados destes instrumentos são feitos de escolhidas madeiras, densas e sonoras. Na Lunda empregam a madeira da árvore lunhinga. Os grandes construtores de xilofones, no entanto, são da área de Malanje ou região dos Jingas.

As teclas são perfuradas com dois pequenos orifícios nos topos superiores e inferiores, pelos quais passam cordões de pele torcida que suspendem as teclas, amarrando depois a uma armação curva de varas. Por baixo das teclas, corre uma fiada de cabaças oblongas de dimensão crescente, dos tons mais agudos para os mais graves, como caixas de ressonância. Teclas e cabaças de ressonância são ordenadas em disposição graduada.

Por regra, no bojo de cada uma das cabaças é feita uma abertura circular do diâmetro duma moeda média, que é depois coberta com um produto vegetal, ou com um tecido, muito denso, duma teia de aranha que, serve de palheta modificadora do som, vibrando por indução.

As faces superiores das teclas, na maior parte dos casos, apresentam-se ornadas com entalhes artísticos, dispostos em corpos geométricos. Algumas vezes entalham umas marcas para assinalar determinadas teclas ou jogos de sons.


Tocadores de xilofone, Sangine-Chiumbe (foto livro)

Os construtores de xilofones da Lunda, em 1946, eram quiocos das regiões de Cambulo e de Maludi, respectivamente o soba Cambaluena e o mestre Samussanhe. Construíam para venda e eram também instrumenta-listas. As técnicas destes mestres para obtenção das «escalas» deve reservar um interessante problema de estudo aos musicólogos. Pequenos xilofones de duas a quatro teclas ou lamelas, para efeito de práticas divinatórias, são construídos pelo mesmo processo dos grandes xilofones.

Um idiofone simples e muito espalhado, e que oferece uma construção extremamente simples, é a cabaça estriduladora comparável ao maracá. Toma-se uma cabaça relativamente pequena, de pedúnculo acentuado, que ofereça boa empunhadura, e abre-se-lhe no calo do caule um orifício suficiente para a desmiolar. Seguidamente, deixa-se em regime de secagem. Logo que se encontre em condições, introduz-se-lhe pelo mesmo orifício um punhado de sementes duras. É frequente para o efeito empregarem milho, e tapam seguidamente a abertura com uma pasta de cera ou de borracha preparada. Nos instrumentos mais rudimentares, fecham com um carolo de milho.

Participa em conjuntos musicais e na marcação de ritmos de cerimónias, servindo para acompanhamentos e compasso. Apresentam algumas vezes ornatos, ou incisos ou pirogravados.

Um instrumento simples, de som brando, quase eólico, é formado por uma pequena cabaça, não maior que uma laranja média em que introduzem um punhado de areia e depois fecham.

É jogado de mão para mão do tocador, segundo determinados ritmos consoante o efeito a tirar.


Xilofone - Marimba (foto livro)

Fazem o instrumento tomando uma pequena cabaça esférica a que cortam o pedúnculo. Depois tomam um pouco de areia ou de sementes miúdas que lhe colocam dentro, e fecham a cabaça, aplicando-lhe uma tampinha redonda, bem ajustada, com um produto aderente na junta. É norma a peça ser ornada com incisões e, entre os Quiocos, é designada caengassa. Peça de feição primária e que se encontra por toda a Província é o reco-reco, algumas vezes também designado cega-rega, e sobre o qual recaem diversas designações dos naturais.

Os mais típicos destes instrumentos são feitos dum troço dum raque da palmeira bordão ou palmeira da ráfia, escavado interiormente, para efeito de ressonância. Numa das paredes externas talham uma série de golpes que depois friccionam com uma vara, desferindo um ruído rascante, excitante e monótono.

Em Luanda, e outros pontos do litoral, alguns destes reco-reco apresentam duas cremalheiras com passo diferente, uma de cada lado da abertura, podendo assim produzir sons mais brandos ou mais fortes, consoante o tipo de música a acompanhar.

Na obra de Tito Omboni, Viaggi nell'África Occidentale (1846), vê-se, numa estampa, um africano tangendo de pé um reco-reco, com uma ponta pousada no chão e outra passando-lhe acima da cabeça.

Os Quiocos usam uns reco-reco de bordão relativamente pequenos, que mantêm privativos dos ritos dos caçadores. Por vezes, friccionam com um chifre de pequeno antílope.

É de admitir que formas de reco-reco existentes no Brasil tenham origem angolana. No entanto, encontramos uma opinião, segundo a qual, o «reco-reco» não é de origem africana; é o ru-ru dos índios, a que os portugueses chamavam rekereke (Heitor Vilalobos).

Em Cabinda faz-se um reco-reco talhado numa vara de madeira densa, que friccionam com a unha ou com uma vara, e é muito usado pelas mulheres.

Curiosíssimo instrumento é o baguvo, instrumento das mulheres Bosquímanas (IKung'). Constroem-no com dois eridocarpos grossos do fruto macolo (Strychno spinosa; fam.: Lunganiáceas), ligados entre si com uma pasta de cera preparada. Para o efeito, os frutos são esvasiados da polpa e secos, depois do que, são-lhes feitas nos poios umas aberturas circulares. Juntos, abertura com abertura, aplicam-lhe a cera que os prende. Tangem, batendo com uma das bocas do baguvo, contra a parede interna da coxa, e tiram efeitos harmónicos tapando e destapando com a outra mão a boca oposta do instrumento.

Na família dos idiofónicos, encontram-se em Cabinda umas artísticas campainhas de madeira dura e sonora, talhadas com fantasia e arte. Longos cabos entalhados, algumas vezes em colunas torcidas, terminam por campânulas em número variável, geralmente três. Prendem-Ihes nos fundos compridos badalos de madeira. O remate superior é algumas vezes formado por cabeças humanas esculpidas.

In: Instrumentos Musicais de Angola, José Redinha.