23. SETEBRO.2006

Eduardo dos Santos Um "deus" contestado

 

Está há 27 anos no poder.

Anunciou a partida, mas poucos acreditam

l* SABRINA HASSANALI

27 anos que os angolanos não conhecem outro presidente. É um dos políticos há mais tempo no poder em todo o Mundo. Venerado como um deus pelos que lhe são mais próximos e retratado como um temível diabo pelos seus críticos, Eduardo dos Santos é, sem dúvida, um presidente polémico, manchado com acusações de corrupção, mas também com créditos inegáveis na pacificação do país.

Quando, em Agosto de 2001, o presidente angolano anunciou publicamente que não tencionava candidatar-se às presidenciais, houve quem tivesse acreditado no fim de uma era. Mais crítico e menos ingénuo, o semanário Angolense  terá adivinhado as intenções de Eduardo dos Santos ao fazer a seguinte manchete após o anúncio: "Vou mas fico." Os sucessivos adiamentos do recenseamento eleitoral parecem dar razão à leitura feita pelo semanário.

Aliás, em Abril passado, durante a visita a Angola do primeiro-ministro, José Sócrates, o presidente angolano acabou por admitir, que ainda não tinha tomado uma decisão final sobre a recandidatura...

Eduardo dos Santos era ainda estudante no Liceu Salvador Correia, em Luanda, quando iniciou a sua actividade política. Com apenas 20 anos já era vice-presidente da Juventude do MPLA, uma organização que ajudou a fundar, e primeiro representante do MPLA em Brazaville.

Foi ainda em 1962 que aderiu ao Exército Popular de Libertação de Angola, o braço armado do MPLA.

Interrompeu a sua actividade no movimento de guerrilha para terminar os seus estudos na ex-URSS, onde viria a licenciar-se em Engenharia de Petróleos. Durante este período não abandonou a actividade política, tornando-se dirigente da secção dos estudantes angolanos na ex-URSS. Aqui tirou também um curso militar de telecomunicações que lhe permitiria exercer funções na Frente Norte.

27 DE MAIO

Foi pela mão de Agostinho Neto que ascendeu ao Comité Central e ao Bureau Político na Conferência Inter-Regional do partido. Foi também graças a ele que teve oportunidade de demonstrar os seus talentos diplomáticos no período conturbado que antecedeu e sucedeu a independência.

Hábil e ambicioso, Eduardo dos Santos foi subindo na hierarquia do MPLA, tornando-se homem de confiança de Agostinho Neto. Após a tentativa de golpe de Maio de 1977, reprimida sanguinariamente - 80 mil pessoas terão sido presas, torturadas e mortas pelo MPLA -, Agostinho Neto escolheu-o para ser relator e apurar quem eram os opositores no perpetrado no seio do movimento. Há quem acuse Eduardo dos Santos de ter abafado os resultados e de esse silêncio permitido o genocídio.

Foi sob a sombra deste massacre perpetrado pelo MPLA que subiu ao poder, a 21 de Setembro de 19 79 - fez quinta-feira 27 anos - , após a morte de Agostinho Neto. Nunca foi legitimado pelo Voto. As únicas eleições realizadas no país, em 1992 - em que confrontou com o seu eterno adversário Jonas Savimbi -, deram-lhe vitória mas não o pouparam de uma segunda volta, que nunca viria a realizar-se porque o líder da UNITA contestou os resultados e o país regressou à guerra.

A Eduardo dos Santos há que dar o crédito dos esforços de pacificação, que só conseguiu levar a bom porto com a morte de Savimbi. Mas num país rico em recursos naturais não conseguiu melhorar a vida dos angolanos e é acusado de acumular uma vasta fortuna. Não teve a coragem de democratizar as instituições. Como afirmou Rafael Marques, o conhecido jornalista angolano e um dos tenazes críticos do regime de Angola, Eduardo dos Santos é o maior obstáculo à democracia, como Jonas Savimbi foi o maior obstáculo à paz. *|

O 'ANGOLAGATE'

Eduardo dos Santos tem sido acusado de ter acumulado uma vasta fortuna e diz-se que tem casas em vários países. O 'Angolagate' - um caso relativo à venda de armas russas a Luanda por intermédio dos empresários francês Pièrre Falcone e do russo Arcadi Gaidamak - foi investigado em França e terá sido o que mais mossas fez no seu prestígio. O seu nome surgiu envolvido neste escândalo e dizia-se que no processo constava que teria recebido, directa ou indirectamente, elevadas comissões. Significativo é o facto de ter nomeado Falcone ministro plenipotenciário de Angola na UNESCO para lhe garantir imunidade.

O FAUSTO DO CASAMENTO DE TCHIZÉ


Tchizé e Hugo (foto Correio da Manhã)

Diz-se em Luanda que ao contrário da primeira-dama o presidente de Angola não é muito dado a eventos sociais. Mas quando foi do casamento da sua filha Tchizé -que os mais próximos dizem ser a preferida - com o engenheiro agrónomo português Hugo Pego, não olhou a gastos e deu luz verde para três dias de festas dignas de uma princesa. Participaram nelas distintos convidados, entre os quais o então primeiro-ministro Durão Barroso e a 'socialite' Cinha Jardim. Na altura, algumas fontes asseguraram que Tchizé fretara um avião especialmente para ir buscar os convidados portugueses, que teriam as despesas todas pagas. Em Luanda falava-se então que a faustosa boda teria ficado em mais de um milhão de dólares. Nesta cifra não se inclui o valor da fabulosa tiara de diamantes que a noiva ostentou. A propósito de festas diga-se que Eduardo dos Santos não gosta de assinalar a sua ascensão ao poder, mas deixa que o seu aniversário natalício seja comemorado por todo o país.»|